Mês das Perguntas - Maio de 2016

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Como introduzimos o diálogo de alguém que está a ler um diário enquanto uma ação decorre? – Beatriz

O caso que refere é um exemplo perfeito para a utilização de um voice over, ou seja, uma voz sobre a cena. Já escrevi um artigo muito completo sobre este tema mas não custa nada recordar o essencial.

O voice over, também designado por voz off ou simplesmente off, é o recurso que se usa sempre que queremos que se ouça a voz de um personagem que não está presente fisicamente na cena que estamos a ver, ou, mesmo que esteja presente, não está a pronunciar as palavras que estamos a ouvir.

Aplica-se, por exemplo, em situações em que estamos a ouvir a voz de um narrador sobre as imagens; ou uma voz que descreve os pensamentos ou memórias de um personagem; uma voz que vem de um telefone ou gravador; a voz que sai de um altifalante; ou, como no caso em análise, uma voz que lê um trecho de um diário.

Em termos práticos, este recurso aplica-se acrescentando as letras (V.O.) a seguir ao nome do personagem que está a falar. Vejamos um exemplo prático, retirado do guião de Confessions of a Dangerous Mind, de Charlie Kaufman.

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INT. QUARTO DE HOTEL – NOITE

Barris, agora de roupão de banho e chapéu, está sentado à secretária e datilografa freneticamente.

BARRIS (V.O.)
O meu nome é Charles Prescott Barris. Já escrevi canções pop, já fui produtor de televisão. Sou responsável por poluir as ondas hertzianas com entretenimento pueril e anestesiante. Além disso, já matei trinta e três seres humanos. Estou condenado ao inferno.

DISSOLVE TO:

EXT. RUA DE FILADELFIA – DIA

Em cores sépia. Chuck, com três anos, vestido de forma algo efeminada e com um penteado de pajem louro, está a ser fotografado montado num cavalinho. A mãe espera ansiosamente enquanto o rapaz vacila sobre o animal.

BARRIS (V.O.)
Nascido em Filadélfia, Pensilvânia, em 1931, a minha infância é-me acessível apenas como uma série de memórias elípticas e enigmáticas.

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(Nota: a tradução é minha.)

Neste exemplo o personagem está a datilografar um texto numa máquina de escrever. Pelo recurso ao (V.O.) entendemos que as palavras que estamos a ouvir (e que ele não está a ler diretamente) correspondem ao texto que está a ser escrito. Quando passamos para a cena seguinte (um flashback da sua infância) e continuamos a ouvir a sua voz sobre a cena presumimos que ainda se trata do mesmo texto.

Diferença entre (V.O.) e (O.S.)

Não devemos confundir o (V.O.)voice over – com o (O.S.)off screen, off câmera, fora de cena – apesar de serem parecidos.

O off screen usa-se apenas para indicar a fala de um personagem que, estando na cena, não pode momentaneamente ser visto. Pode estar escondido, oculto, noutra divisão, dentro de uma caixa, invisível, debaixo da cama, etc. Vejamos um exemplo retirado do mesmo guião.

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INT. QUARTO DE HOTEL – MANHÃ

Barris está a datilografar. Batem à porta. Ele olha em redor, assustado.

BARRIS
(em falsete)
Quem é?

EMPREGADA (O.S.)
Limpeza do quarto, senhor Barris.

Barris olha em redor. O quarto está um desastre. Embalagens de comida, papéis amarrotados, garrafas vazias, roupas dispersas, soldados de plástico dispostos para a batalha. Levanta-se, coloca o roupão e o chapéus, agarra o revólver e espreita pelo óculo da porta por um longo momento, antes de abrir. A empregada é gordinha e afável.

BARRIS
Bom dia, senhora Reynolds.

EMPREGADA
(olhando à volta)
Outra noite difícil, huh?

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Neste caso a primeira fala da empregada de limpeza é off screen(O.S.) – porque a senhora Reynolds está no corredor, a falar atrás da porta. Não a vemos, mas faz parte ativa da cena. Quando o protagonista abre a porta e passamos a vê-la, o seu diálogo deixa de ser off screen.

Como descrever um homem invisível? – Rui

Presumo que se esteja a referir a uma estória de tipo fantástico em que um personagem tem o poder da invisibilidade. Vejamos como essa situação é tratada no guião de “Harry Potter – The Half-Blood Prince”.

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INT. COMPARTIMENTO – ENTARDECER/NOITE

Conformes Blaise e Pansy se preparam para sair, Malfoy agarra a pequena mala, pensativo.

MALFOY
Vocês vão andando. Quero certificar-me de uma coisa.

Malfoy fecha a porta do compartimento. Baixa as cortinas. Uma pausa.

MALFOY
A tua mãezinha nunca te disse que é feio bisbilhotar, Potter? Petrificus Totalus!

Malfoy roda e aponta a varinha mágica para o compartimento das bagagens.

Alguma coisa bate no chão com um SOM ABAFADO. O Manto da Invisibilidade desliza e vemos Harry, paralizado no chão. Malfoy sorri.

MALFOY
Ah, é verdade, ela já tinha morrido antes de saberes limpar a baba do teu queixo.

Malfoy pisa com força o rosto de Harry. SNAP!

Sangue espirra do nariz de Harry. Malfoy arranca o Manto de Invisibilidade, e sacode-o sobre Harry.

MALFOY
Boa viagem para Londres.

EXT. ESTAÇÃO – NOITE (MOMENTOS DEPOIS)

Malfoy desce do comboio, aperta cuidadosamente o seu manto e desaparece na noite.

CUT TO:

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(Nota: A tradução é minha.)

Como se percebe no excerto acima, o guionista, Steve Kloves, limita-se a relatar o que podemos ver no ecrã: Alguma coisa bate no chão com um SOM ABAFADO. O Manto da Invisibilidade desliza e vemos Harry, paralizado no chão.

Não há vestígio de descrições especiais, tipo “Alguém invisível anda pelo compartimento mas como é invisível não o podemos ver”. Nada: apenas descreve exatamente o que o espectador está a ver e ouvir em cada momento, de uma forma que o leitor do guião entenda. Isso normalmente é o suficiente.

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