Código de computador em filmes

Com certeza já viram filmes em que o hacker de serviço consulta linhas e linhas de código de programação  no ecrã de um computador.

E, se forem como eu, talvez se tenham interrogado se esses códigos teriam algum sentido.

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Pois agora há um Tumblr que dá a resposta a essa questão premente. E a conclusão a que se chega é que, na maior parte dos casos, os códigos usados realmente têm um significado – só não é o que o filme indica.

Perca meia hora e divirta-se a ver os significados reais do código de computador em filmes aqui.

Via John August

Richard Curtis

“A diferença entre ter uma boa ideia para um filme e o filme terminado é a mesma diferença que há entre ver uma miúda gira numa festa e estar ao lado dela quando dá à luz o teu terceiro filho. É uma longa viagem e (…) há muitas miúdas giras em festas, mas nem todas estarão ao teu lado por altura do terceiro filho.” – Richard Curtis

Final Draft lança nova versão

Já falei aqui várias vezes do Final Draft. É o software profissional de escrita de guião que escolho para finalizar praticamente todos os meus trabalhos.

Apesar das alternativas cada vez mais populares, continua a ser o software padrão para a maior parte dos guionistas profissionais. É por isso que cada nova versão do Final Draft merece a nossa atenção.

final draft 9 imagem

A versão 9, apresentada há poucos dias, traz algumas novidades interessantes. As principais diferenças encontram-se na parte dos apoios à concepção e estruturação das estórias, e à navegação no script. Além da possibilidade de saltar de cena em cena, agora é fácil saltar de personagem em personagem, ou de anotação em anotação.

O Final Draft é um software caro, com um valor de 199$. O valor de upgrade é um pouco mais razoável – 79$. Mas se pensarmos que mesmo com o valor de upgrade é possível comprar qualquer uma das alternativas que recomendei num artigo anterior então a decisão fica mais complicada. Principalmente agora que guionistas como John August já escrevem apenas em softwares muito mais simples e baratos.

Pessoalmente não vou fazer já o upgrade, porque infelizmente o Final Draft tem uma tradição de lançar novas versões cheias de bugs. Vou esperar que saiam uma ou duas declinações com as correcções desses erros iniciais e depois considerarei as vantagens de atualizar para esta versão.

Baixe legalmente 77 guiões de cinema

O site Go Into The Story, que já mencionei aqui muitas vezes, publicou recentemente um artigo muito útil.

Tiveram a paciência e a generosidade de compilar uma lista de 77 links onde se podem baixar outros tantos guiões, de forma grátis e legal.

Esta lista inclui todos os guiões já divulgados este ano com aspirações aos Óscares, que tenho vindo a divulgar em artigos anteriores mas também um grande número de guiões que em anos anteriores form disponibilizados nas mesmas condições.

Encontra assim filmes como Amour, Before Midnight, Looper ou Gravity. Ou seja, de todos os estilos e para todos os gostos. Infelizmente são todos em inglês, mas para quem domine minimamente a língua é um verdadeiro maná.

77 Guiões Legais =>

Novo Manual de Guionismo em língua portuguesa

João de Mancelos é professor de Guionismo na Universidade da Beira Interior, e de Escrita Criativa na Universidade de Aveiro. É autor de vários livros de poesia, conto e ensaio e, agora, de um Manual de Guionismo.

Em Portugal há uma enorme carência de livros didácticos sobre escrita, em geral, e sobre o guionismo em particular. Um lançamento como este deve, pois, ser sempre saudado.

Ainda não tive oportunidade para o ler, mas pelos elementos a que tive acesso, e que partilho a seguir, parece-me uma obra bem conseguida e que, com certeza, encontrará muitos leitores entre os que se interessam por esta arte/técnica de escrever guiões.

Passo a divulgar os elementos informativos que recebi sobre o Manual de Guionismo de João de Mancelos, incluindo um excerto de um dos capítulos.

capa manual de guionismo

Sinopse

Manual de Guionismo é um livro indispensável para quem desejar escrever um argumento para curta ou longa-metragem, televisão ou cinema. Inclui técnicas que levam o escrito desde a ideia à leitura final, passando pela construção das personagens e da intriga. Inclui numerosos exemplos, recorrendo a clássicos do cinema e a filmes recentes, a películas norte-americanas ou europeias. Propõe ainda exercícios divertidos, que podem ser feitos individualmente ou em grupo, dentro ou fora da sala de aula.

Índice

  1. A arte de bem mentir
  2. Um guião é um manual de instruções
  3. Talento, técnica e trabalho
  4. Pensar visualmente
  5. Mostrar vs. contar
  6. Como tirar um génio da lâmpada
  7. As ideias também têm género
  8. E se…?
  9. Do papel à celuloide
  10. Brincar aos deuses
  11. Converse com o seu amigo imaginário
  12. Fale como deve ser
  13. Para amar um grande herói
  14. A mão, o braço e o ombro
  15. O mau da fita
  16. Que sarilhada!
  17. Como fazer a vida negra ao protagonista
  18. Da caverna para as estrelas
  19. O paradigma de Syd Field
  20. Um caso do outro mundo
  21. Solte o animal simbólico que há em si
  22. Seja senhor do tempo
  23. O seu palco é o mundo
  24. Atar as pontas
  25. Ttulo e tag line
  26. O segredo da sinopse
  27. Como ser um bom reescritor
  28. Em boa forma
  29. Cenas extra
  30. O making of deste manual

Excerto do livro Manual de Guionismo (Lisboa: Edições Colibri, 2013).

3 – Talento, técnica e trabalho

O que é necessário para escrever um bom argumento? No início de cada ano letivo, na primeira aula, costumo escrever no quadro estas palavras: talento, técnica, trabalho. São os três “tês”, como lhe chamo. Alguns alunos olham para estes termos interrogativamente, enquanto outros percebem, de imediato, que falo das qualidades essenciais a um bom escritor ou guionista.

O talento (seja ele para a poesia ou romance, para o guião ou texto teatral) nasce com cada um de nós e encontra-se gravado no código genético. É muito mais do que o jeito ou inclinação para as letras: trata-se dessa vontade irreprimível de escrever, que apenas se sacia ao pôr mãos à obra.

O talento, claro está, não se pode transmitir em curso algum, nem se aprende com a mera leitura de manuais. Se o leitor destas linhas não o possuir, sugiro-lhe que devolva de imediato este livro e recupere o dinheiro desperdiçado. Se, pelo contrário, sentir que foi feito para a escrita, que as ninfas e os faunos o escolheram, então, prossiga a leitura.

Outra qualidade fundamental reside no conhecimento da técnica. Imagine-a como um meio de transporte (uma bicicleta, por exemplo) que lhe permite viajar desde o ponto de partida de um projeto (ou seja, a ideia) até à obra de arte. Não basta desejar escrever um guião; é necessário saber como redigi-lo.

Ao longo deste manual, aprenderá técnicas para gerar personagens memoráveis; estruturar enredos cativantes; criar situações de suspense, que deixam o espetador com o coração nas mãos; manipular o tempo de uma história, de forma a torná-la irresistível.

No entanto, para escrever um guião de qualidade, não basta possuir o talento e a técnica. Ao longo dos anos, conheci numerosos aspirantes a escritores e a guionistas com vocação e até conhecimento dos métodos essenciais ao ofício das letras. Muitos começaram por se devotar, com entusiasmo, a um projeto. Depois, como corredores que perdem o fôlego nos primeiros quilómetros de uma maratona, desistiram. Nunca mais vi os seus nomes nas capas dos livros, nem nos créditos finais dos filmes.

Careciam de uma terceira qualidade, sem a qual nunca ninguém concretizará o seu projeto: o trabalho. Ou seja, o esforço, a disciplina, a capacidade de pôr mãos à obra — mesmo depois de um dia exaustivo no emprego, quando tanta gente prefere abrir uma lata de cerveja e sentar-se em frente à televisão ou ler uma revista.

A propósito do labor, recordo-me sempre da série Fame/Fama (1982-1987), que seguia, episódio após episódio, na minha adolescência. No genérico, a professora Lydia Grant, que não tinha papas na língua, advertia os alunos: “Têm grandes sonhos? Querem fama? Bem, a fama tem um preço. E é aqui mesmo que começam a pagá-lo: em suor”. Duas décadas depois, este conselho continua a ressoar na minha mente.

Um caso exemplar de esforço e persistência é o de Creighton Rothenberger, autor do argumento de Olympus Has Fallen/Assalto à Casa Branca (2013), um filme de ação. Numa entrevista à revista Script, Rothenberger explica o segredo do seu sucesso. Decidido a ser guionista, todos os dias se levantava às quatro horas da manhã, encontrando assim algum tempo para escrever, antes de ir para o emprego. Em 2002, obteve uma bolsa, Academy Nicholl Fellowship e, em breve, começou a laborar no guião com a esposa, Katrin Benedikt. De início, o casal tentou vender o argumento, sem êxito e, por isso, foi labutando noutros projetos. Até que, por fim, transcorridos nove anos, a Millennium Films comprou Olympus Has Fallen/Assalto à Casa Branca (2013), um sucesso de bilheteira.

Neste ponto, você pode perguntar: se possuir talento, vontade de aprender a arte da escrita e estiver disposto a sacrificar muito tempo livre, conseguirei singrar como guionista?

Infelizmente, não possuo uma bola de cristal, pelo que é impossível dar-lhe uma resposta afirmativa. Contudo, posso garantir-lhe que um escritor devidamente preparado está em melhores condições de enfrentar as exigências de uma produtora do que um que confia, ingenuamente, só no talento.

O mercado é competitivo e a procura de guionistas é escassa, sobretudo no nosso país, onde apenas existem alguns canais de televisão, e rareiam os apoios à sétima arte. Como explica Charles Deemer, no manual Screenwright: The Craft of Screenwriting (1998), mesmo nos EUA, uma nação vocacionada para o cinema, são submetidos a apreciação mais de cem mil argumentos por ano, mas apenas algumas centenas recebem luz verde (pág. 16). Outras estatísticas referem que só um em cada cem ou mesmo um em cada cento e trinta guiões é aceite.

Como no filme Matrix/Mesmo título em português (1999), dos manos Wachowski, você pode escolher o comprimido azul e rejeitar o desafio do guionismo. No entanto, se optar pelo comprimido vermelho, a sua missão será criar e partilhar sonhos com os espetadores do mundo inteiro. As histórias que inventar ficarão fixadas em celuloide e em memória digital, para poderem ser apreciados agora e para sempre.

Mancelos, João de. Manual de Guionismo. Lisboa: Edições Colibri, 2013.

O Manual de Guionismo de João de Mancelos pode ser adquirido aqui

Os três tipos de anti-heróis

O cinema, especialmente o mais recente, está recheado dos chamados anti-heróis. Muitos deles até se tornaram alguns dos personagens cinematográficos mais memoráveis e fascinantes. Basta pensar, por exemplo, em Travis Bickle, de Taxi Driver, ou Michael Corleone, de O Padrinho.

Já escrevi aqui no blogue um artigo extenso com dicas para escrever um bom anti-herói, por isso não me vou alongar mais sobre esse aspecto.

Mas retomo o tema porque encontrei numa resposta do Quora uma definição muito engraçada dos vários tipos de anti-heróis. Segundo o autor, Paul Yoder, há três tipos de anti-heróis:

  • O Frodo é um protagonista que, como o hobbit Frodo de O Senhor dos Anéis, não possui aparentemente os traços heróicos tradicionais mas é atirado para uma situação em que o seu heroísmo acaba por se revelar. O seu fascínio vem da sua capacidade de estimular a nossa identificação. Se eles, vulgares como são, conseguem fazer actos heróicos, porque é que nós não o conseguiremos?
  • O Wolverine é o protagonista que procede de formas censuráveis para atingir fins (mais ou menos) louváveis. Não hesitam em quebrar as regras sociais para alcançar os seus objectivos – os fins justificam os meios é sempre o seu moto. É o facto de fazerem sem medo aquilo que nós, espectadores, nunca teríamos coragem para fazer que os torna tão fascinantes.
  • O Humbert Humbert é o protagonista intrinsecamente mau, sem traços redentores, como o narrador pedófilo de Lolita, Daniel Plainview de There will be blood ou o psicopata Patrick Bateman, de American Psicho. Escrever um protagonista realmente negativo, mantendo até ao fim o interesse dos espectadores, é um dos maiores desafios que podemos enfrentar como guionistas. E também um dos mais divertidos.

Eu acrescentaria a estes três pelo menos mais um tipo de anti-herói:

  • o Phill, batizado em honra do protagonista de Groundhog Day. São protagonistas como Bernie LaPlante, de Accidental Hero, ou Carl Friedriksen, o velhote de Up – pessoas antipáticas, amargas, ou vencidas da vida – colocadas em circunstâncias invulgares que vão testar a sua capacidade de transformação.

O que lhe parece – há mais algum arquétipo de anti-herói que deva ser incluído nesta lista? Deixe a sua opinião nos comentários.

Storybuilder – o quadro de cortiça virtual da Amazon

A Amazon tem uma área de negócio, o Amazon Studios, que se dedica ao desenvolvimento e produção de guiões. Nunca lhe dei muita atenção porque, tal como outros guionistas, achei que tinha alguns aspectos muito questionáveis.

Aparentemente os Amazon Studios têm vindo a melhorar alguns desses aspectos, mas depois de três anos de funcionamento ainda têm muito pouco para mostrar, o que reforça a minha convicção de que é uma iniciativa condenada a falhar.

Isso não impede que possamos aproveitar algumas coisas interessantes que proponham. É o caso do Amazon Storybuilder, uma espécie de quadro de cortiça virtual a que acedemos através do browser, a partir de qualquer computador. Para isso tem de estar registado na Amazon e fazer o seu login, mas essa é a única limitação.

amazon storybuilder imagem

Se já usou ou pensou usar um quadro de cortiça para planear uma estória, experimente então este novo recurso. Nele poderá afixar “cartões”, imagens, notas, e, dessa forma, estruturar as cenas e sequências do seu guião. Pode ser, por exemplo, uma maneira muito prática de aplicar as técnicas que Blake Snider preconiza nos seus livros de guionismo da série Save the Cat.

Não me vou alongar sobre o funcionamento do Storybuilder, pois é bastante intuitivo e simples. Não tem muitas opções, o que é normalmente uma vantagem, e reage com muita rapidez e fluidez.

Não tem opções de exportação mas a qualquer momento pode imprimir o seu projecto, em forma de escaleta, para uma impressora ou um pdf.

Pode ser um parceiro interessante para o software online WriterDuet, de que falei aqui há pouco tempo. Talvez esse duo dinâmico seja o que estava a precisar para começar aquele guião que vai escrever em 2014.

A cena está chata? Apague e recomece.

Li recentemente numa resposta do Quora um dos melhores conselhos possíveis para um guionista: Escreva sempre como se o seu leitor estivesse a ficar aborrecido e prestes a parar de ler.

Vou até um passo mais à frente. Imprima a imagem seguinte e coloque-a numa moldura de fotografia, na sua secretária, ao lado do seu computador.

A cena está chata

O autor do conselho, o matemático e estatístico Michael Hochster, propõe também três corolários lógicos para o seu axioma:

  1. Diga o mais importante no início.
  2. Se possível, seja breve.
  3. Se vai escrever algo complexo ou difícil, assegure-se de que é relevante para o leitor.

Cada um por si é um excelente conselho, com aplicação prática imediata na escrita de um guião. De uma maneira ou de outra já abordei todos eles em outros artigos aqui no blogue.

Diga o mais importante no início.

Corresponde a uma das mais conhecidas “regras” do guionismo: “Entre tarde e saia cedo”.

Numa boa cena não se perde tempo com introduções, apresentações e conversa mole. Devemos começa-la o mais perto possível do seu cerne dramático, e sair logo de seguida, cortando o máximo da palha que vem antes e depois. Se não o fizermos nós, no guião, vai com certeza fazê-lo o realizador nas filmagens, ou o montador durante a edição.

A única excepção para esta regra é se a demora contribuir de alguma forma para o dramatismo da cena. Um exemplo disto é a cena inicial de Inglorious Basterds.

Um guionista vulgar teria resolvido a situação com uma cena de acção como já vimos muitas vezes: os nazis chefiados pelo famigerado coronel nazi Hans Landa chegam em alta velocidade, interrogam o lavrador e metralham os fugitivos judeus.

Quentin Tarantino, mais sabido, optou por outra abordagem: colocou Landa a falar despreocupadamente com o cada vez mais nervoso lavrador, apesar de saber perfeitamente que ele está a albergar foragidos.

Essa “perda de tempo” serve para duas coisas: em primeiro lugar, para caracterizar o coronel como uma espécie de gato cruel que gosta de brincar com os ratos antes de os matar. Essa informação será importante mais tarde, numa das cenas cruciais do filme.

Em segundo lugar, a demora em chegar ao clímax da cena contribui para o aumento gradual do nível de tensão dramática da cena, especialmente após o momento em que nós, espectadores, descobrimos que os fugitivos estão escondidos debaixo do soalho da cozinha onde a cena se passa.

Se possível, seja breve.

Quando escrevemos um guião estamos sempre a contar as páginas. As 120 que eram normais há uns anos atrás têm-se convertido gradualmente em 110, 100 ou mesmo 90.

Em Portugal, e penso que no Brasil, a média estará entre as 90 e as 100, raras vezes passando disso.

A responsabilidade dessa tendência, em grande parte, são as limitações orçamentais. Mais páginas de guião correspondem a mais minutos de filme, que implicam mais dias de filmagens e, por conseguinte, um orçamento mais elevado.

É por essa razão que um dos pedidos mais frequentes que me fazem quando rescrevo um guião é para reduzir o número de cenas, e encurtar as maiores.

Mas não é só por causa do orçamento. O espectador médio contemporâneo, alimentado a uma dieta de séries de televisão e vídeos de YouTube, tem menos paciência para filmes longos.

Além disso, esse espectador tem também um entendimento muito mais apurado da linguagem audiovisual. Não precisa ver e ouvir tudo para entender o que se está a passar. Assimila imediatamente as elipses e os saltos temporais. Se não corremos à sua frente, somos rapidamente apanhados e ele aborrece-se.

Guiões mais curtos, mais enxutos, vendem-se mais facilmente. Pense nisso quando estiver a rescrever o seu guião.

Seja relevante.

Num bom guião cada cena nasce das anteriores e dá origem às que lhe sucedem, de uma forma irrepreensível. É simultaneamente causa e consequência, como aquelas peças de dominó que tombam em sequência desenhando coreografias complicadíssimas.

Para que isso seja possível uma cena só deve ficar no guião se contribuir para a narrativa de uma de três maneiras:

  • Fazer avançar a estória;
  • Revelar o carácter dos personagens;
  • Ser muito dramática/divertida.

O ideal é fazer as três coisas ao mesmo tempo – fazer avançar a estória revelando carácter de uma forma espectacular.

Se fizer duas, também é bom. Mas raramente uma cena sobrevive apenas por ser dramática/divertida, se não cumprir também uma das duas primeiras funções.

Nada contribui mais para a sensação de aborrecimento na leitura de um guião do que cenas que parecem estar lá apenas por capricho dos autores: “É pá, era tão cool meter aqui aquela cena de que me lembrei ontem. Não tem nada a ver com nada, mas é tão gira…”

É por isso que muitos escritores, com William Faulkner à cabeça, apelam para que “matemos as nossas queridas”.

Ou seja, devemos eliminar sem piedade as cenas por que nos apaixonamos, porque muitas vezes estão no caminho de outras melhores e mais relevantes.

Conclusão

Escrever um guião chato é o maior pecado que podemos cometer como guionistas. O leitor está disposto a aceitar muitos erros e fraquezas desde que a leitura o esteja a cativar. O ideal é que no fim de cada página ele sinta uma vontade irresistível de ler a seguinte.

Por isso, espere sempre o pior do seu leitor – ele tem mais que fazer na vida. Compete-lhe a si, como guionista, garantir que essas outras opções são mais chatas do que ler o seu guião.

Apoie a produção de um filme indie de Luís Campos

O leitor e amigo do site Luís Campos está a realizar uma campanha de crowdfunding para viabilizar o seu projecto de produzir uma longa-metragem com o orçamento de uma curta.

Quem estiver interessado pode consultar e apoiar nos links mais abaixo. Fica aqui a descrição do projecto de acordo com o comunicado de imprensa distribuído.

«Está em curso a campanha de crowdfunding para o projecto de longa-metragem cinematográfica “Squatter Man”, o primeiro filme a ser produzido pela Squatter Factory – sonho de vida de Luis Campos (argumentista do sucesso indie “Um Funeral À Chuva” e agora principal produtor e realizador de “Squatter Man”).

“Squatter Man” será produzido sem qualquer financiamento público ou apoio financeiro pré-adquirido. Toda a equipa envolvida (técnicos e actores) participarão como voluntários e algum apoio logístico será fornecido através de instituições locais e empresas parceiras.

O filme será rodado em Arouca e na totalmente abandonada Aldeia de Drave, ambas situadas no Norte de Portugal, e o propósito desta campanha de crowdfunding é o de obtenção de ajuda para cobrir as despesas de alimentação, estadias e transportes da equipa durante o período de rodagem do filme.

A rodagem ocorrerá em Setembro de 2014 e o filme será lançado em 2015.

“Squatter Man” será uma longa-metragem tornada possível pela paixão e compromisso de todos os intervenientes, com um mero custo/orçamento de curta-metragem.

A vossa ajuda fará este sonho tornar-se uma realidade.»

Link da campanha: http://www.bitly.com/IGFMXt

Link da página oficial do facebook: https://www.facebook.com/squattermanfilm

Website: http://www.squattermanfilm.com

 

Guiões brasileiros gratuitos disponíveis na net

O leitor Hugo escreveu-me a propósito de um artigo recente em que peço aos produtores de língua portuguesa para colocarem guiões na net.

Concordando com a importância dessa iniciativa, o Hugo aproveita para dar uma informação muito útil: “Aqui no Brasil, temos uma excelente iniciativa, a Coleção Aplauso: são quase 200 livros sobre a história do cinema, do teatro e da televisão brasileira, com vários roteiros completos (alguns até mesmo comentados pelos autores e/ou produtores). Os livros podem ser baixados gratuitamente pelo site: http://aplauso.imprensaoficial.com.br/lista-livros.php“.

A colecção é realmente muito interessante e rica. Além de inúmeras biografias de pessoas do cinema inclui textos de análise crítica, e ainda vários guiões (_roteiros_, no Brasil) de cinema e televisão, incluindo o primeiro guião escrito no Brasil, em 1933: “O Caçador de Diamantes”, de Vittorio Capellaro.

Fica aqui o agradecimento ao Hugo por esta sugestão, que vai seguramente fazer as delícias de muitos leitores.

Colecção Aplauso

Porque é que os produtores de língua portuguesa não colocam os seus guiões na net?

Nas últimas semanas os estúdios americanos têm vindo a colocar na net, para baixar, os guiões que consideram dignos de consideração para os Óscares. Pode encontrá-los, por exemplo, aqui, aqui e aqui.

É um ritual que se repete todos os anos e que permite aos estudantes de guião ler e estudar dezenas de bons guiões. Infelizmente, são todos em língua inglesa.

Porque é que os produtores dos países de língua portuguesa não fazem o mesmo aos guiões dos seus filmes?

Não existe mercado editorial para os guiões, salvo as mais raras das excepções, por isso não perderiam nada com isso. Pelo contrário: a divulgação dos guiões poderia servir de incentivo para ver os filmes ou comprar os DVD’s.

Com essa medida os produtores conseguiriam, também, promover os seus filmes para as cerimónias de prémios existentes nos seus países. Podem não ter o impacto dos Óscares, mas não deixam de ser importantes meios de divulgação.

Na pior das hipóteses, contribuiríam para formar uma nova geração de melhores argumentistas, o que a médio prazo só poderia beneficiar o cinema e, consequentemente, os próprios produtores.

Fica a ideia. E eu até ofereço este site para os arquivar, divulgar e distribuir, junto daqueles que  já disponibilizo.

Continuam os brindes: mais guiões para baixar

Os estúdios americanos continuam a divulgar os guiões dos filmes que consideram dignos de ser candidatos aos Óscares. É uma chuva de guiões dignos de leitura.

Ebook gratuito sobre as 22 regras de escrita da Pixar

Há algum tempo atrás uma artista da Pixar, Emma Coats, escreveu uma série de tuítes com algumas regras que ela deduziu a partir dos métodos de criação usados na companhia. Essa contribuição teve grande impacto e foi reproduzida, comentada e analisada em muitos sites e artigos. Eu próprio escrevi um artigo sobre ela.

Outras referências incluem, por exemplo, esta apresentação da Slideshare que resume e ilustra as 22 regras.

Hoje apresento mais uma contribuição para o seu estudo e compreensão, pela mão de um outro ex-artista da Pixar, Stephan Bugaj. É um ebook, gratuito, que pode ser baixado aqui. Pega nos 22 tuítes originais e desenvolve-os, explicando no seu contexto.
É fundamental entender o que o autor começa por explicar, citando Emma Coats: ” São uma mistura de coisas aprendidas de realizadores & colegas na Pixar, ouvindo escritores & realizadores falar acerca do seu trabalho, e através de tentativa e erro ao fazer os meus próprios filmes“.

Logo a seguir Stefan explica o mais importante: “Algumas pessoas olharam para esta lista como a fórmula da Pixar, um conjunto de regras imutáveis que nós seguimos e que são a “maneira certa” de escrever uma estória. Mas não foi essa a sua intenção. Ela foram partilhadas como forma de pôr as pessoas a pensar acerca de cada um destes tópicos, como uma forma de começar a conversa, não se ser a última palavra“.

Baixe o ebook gratuito aqui e estude-o tendo em atenção as palavras anteriores.

Mesa redonda de guionistas

Alguns dos guionistas cujos guiões estão agora a candidatar-se aos Óscares foram reunidos pelo jornal The Hollywood Reporter para debater problemas relacionados com a escrita. Se tem uma hora para gastar e interesse em temas como, por exemplo, a diferença entre escrever um filme baseado na realidade e escrever um documentário, esta é uma boa sugestão.

Novos guiões dos Óscares disponíveis na net.

Na continuação do artigo anterior sobre este mesmo tema, aqui fica mais uma lista de guiões que os estúdios americanos estão a disponibilizar na net com vista aos próximos Óscares. Há aqui muita coisa boa para ler (mas apenas em inglês, infelizmente…).

Entre estes guiões está o de um dos filmes mais bem escritos que vi nos últimos tempos: Gravity. Vai ser o primeiro a estudar.

Boas leituras!

Conselhos de escrita em 6 segundos com Brian Koppelman

Se tem conta no Twitter pode seguir o guionista Brian Koppelman e ouvir os seus conselhos de escrita em microvídeos Vine de seis segundos de duração. Já são quase 100, variam entre o útil e o divertido, e merecem uns minutos de atenção.

Este, por exemplo, diz-nos que “A secção que tenho de escrever hoje é complicada, e eu não quero lidar com ela. Quero jogar hoquei. Mas nesse caso amanhã será ainda mais assustadora.” Bom aviso.

Nota: tem de ativar o som no canto superior esquerdo da imagem para os conseguir ouvir. Desative-o de seguida porque ficam a repetir-se em ciclo fechado.

WriterDuet – novo software de escrita online

WriterDuet é um novo software de escrita acessível online através do seu browser. Está a ser proposto como a forma mais prática de escrever um guião a meias com outro autor, via web, mas na realidade é muito mais do que isso.

Numa primeira análise WriterDuet aparenta ser um excelente programa de escrita de guiões para qualquer pessoa que tenha acesso permanente à net.

O seu interface é simples e intuitivo, usando a mesma técnica de formatação que a maioria dos softwares congéneres  usam – a combinação das teclas de “tab” e “parágrafo” para mudar entre os diferentes elementos do texto, como Cabeçalhos, Personagens, Diálogos, etc.

janela WriterDuet

Mas WriterDuet não se fica por aí. Tem opções sofisticadas como os diálogos paralelos, notas, um outline por cartões (coluna da esquerda) que permite rearranjar interactivamente as cenas do guião, por arrasto, página de título editável, opção de numeração das cenas, etc.

Podemos ter vários guiões em curso simultaneamente e escrevê-los cooperativamente com autores diferentes. O programa inclui um sistema de chat que permite trocar impressões ao mesmo tempo que se edita um guião. Ainda não tive oportunidade de experimentar esta opção mas a sua implementação parece-me ser extremamente prática e fiável.

WriterDuet permite importar guiões escritos noutros programas, o que pode ser muito útil na fase de revisão de um guião já escrito e que esteja em pré-produção. Consigo imaginar diversos cenários em que uma aplicação como esta me teria poupado muito tempo e trocas de emails.

Melhor ainda, WriterDuet tem excelentes opções de exportação nos formatos mais convenientes e utilizados: PDF, FinalDraft, CeltX e até Fountain. Isso garante-nos que, aconteça o que acontecer a esta aplicação web, poderemos sempre ficar com cópias dos nossos guiões.

Se tivermos em atenção que tudo isto nos é oferecido gratuitamente, mediante uma simples e instantânea inscrição no site, não há como não gostar de WriterDuet. Se partilhar desta opinião, por favor considere a possibilidade de ajudar o autor participando no seu Kickstarter.

Uma nota obrigatória: este artigo é baseado numa análise preliminar do programa. Não tive ainda oportunidade de o testar num trabalho real e, quando o fizer, provavelmente começarei com um projecto pessoal, de pequena escala como uma curta metragem, e fazendo muitos backups pelo caminho. Por favor proceda também com todas as cautelas e não me culpe se alguma coisa correr mal.