Os meus tuítes desta semana

  • Os melhores filmes de 2011, segundo Quentin Tarantino: "Os três mosqueteiros"?! Estás a brincar, Quentin? http://t.co/0z5Ai35e #
  • O site Kickstarter financiou um décimo dos filmes exibidos em Sundance. Um novo fôlego para os indies? http://t.co/gEjbkt5G #
  • Artigos desta semana no blogue de João Nunes: escrita, cinema e outras coisas da vida – http://t.co/QCXQv9Kh #
  • Não lave o seu carro antes de ver isto http://t.co/HwKkB44S #
  • "Peixinhos dourados" não parece um tema muito interessante. Mas, curiosamente, às vezes até é: http://t.co/5bQvoFVK #
  • As equações emocionais de Chip Conley: Ansiedade = Incerteza x Impotência. Brilhante! http://t.co/C2qaeJli #
  • Seth Godin sobre o cérebro reptiliano que comanda os nossos medos. Conhecê-lo é o 1º passo para domá-lo. http://t.co/KJ75fH8P #
  • Será um avião? Um pássaro? O Super-Homem? Não, é uma ação publicitária para o filme "Chronicle" http://t.co/jVAQ6cs9 #
  • Ainda não decidi se estas fotos são fascinantes ou assustadoras… http://t.co/kq8fRn88 #
  • Se os memes mais famosos da internet fossem filmes, como seriam os seus cartazes? http://t.co/PUKB5D5P #
  • Não resisto a cartazes de cinema fictícios criados por ilustradores/ designers. Quero um destes. http://t.co/v0aBlqvc #
  • Esqueça os filmes, veja os genéricos: http://t.co/mT52Vbjl #
  • A explicação de porque as Páginas Amarelas precisam de um novo modelo de negócio. http://t.co/tMjFa1o4 #
  • Inspiração para fashionistas: centenas de fotos da Vogue disponíveis no flickr http://t.co/n6uT6CEK #
  • Intervenção urbana: micromomentos. Genial! http://t.co/6pDaKqCO #

Workshops de escrita e direção de atores com Ken Dancyger e João Canijo

Depois de uma pausa durante o período de festas, o Campus/Estaleiro (http://estaleiro.curtas.pt/) volta a apresentar, a partir de Fevereiro, um conjunto de formações para estudantes de cinema e audiovisual.

Estão já anunciados dois nomes: João Canijo e Ken Dancyger. Através deste programa, o Estaleiro pretende produzir seis filmes com estudantes e garantir uma série de workshops e masterclasses com formadores internacionais.

De 17 a 19 de Fevereiro, João Canijo orientará um workshop de direção de atores, dirigido para realizadores e estudantes de audiovisual. Depois de uma masterclass muito concorrida (realizada em Novembro), o realizador português mostrará, através de exercícios práticos, a forma como aplica o seu método de ensaio e improviso (e cujos resultados são visíveis no filme "Sangue do Meu Sangue").

Aceitam-se inscrições duplas e individuais (o workshop será desenvolvido em grupos de dois), até 6 de Fevereiro, para o email campus@curtas.pt com envio de CV em anexo.

Preço: 25 Euros por pessoa.

Em Março (16-18), será a vez do reputado professor americano Ken Dancyger. Depois de um súbito cancelamento da sua presença em Portugal (em Novembro), o Campus volta a apresentar uma masterclass (16 de Março, 10h-12h, aberta ao público em geral, na Universidade Católica, Porto) e um workshop de escrita de argumento (com inscrição prévia e a realizar em Vila do Conde).

Inscrições abertas através do email campus@curtas.pt, com envio também do CV, até ao dia 17 de Fevereiro.

Preço: 35 Euros.

Estas propostas marcam o arranque de mais uma série de workshops, com formadores internacionais, e cujos contactos estamos a ultimar. Serão anunciados novos nomes nas próximas semanas.

+info Workshop João Canijo
+info Workshop e Masterclass Ken Dancyger

Perguntas & Respostas: como distinguir ações diferentes num mesmo local

Várias ações acontecem em uma casa. Devo considerar a casa como unidade de ação, unidade dramática ou os cômodos como unidades distintas de ação (no caso de as personagens atuarem em espaços diferentes da casa)? – Lúcia

Lúcia, como em tantas outras situações na escrita de guião, a resposta depende muito do contexto específico da situação que estamos a descrever, bem como do estilo do autor.

Conforme já escrevi em outros artigos, um guião é orga­ni­zado por cenas, que se suce­dem sequen­ci­al­mente.

Considera-??se que há uma nova cena de cada vez que há uma mudança subs­tan­cial do local ou do tempo onde a acção decorre. Quando isso acon­tece, e começa uma nova cena, esta é indi­cada por um CABEÇALHO PRINCIPAL.

Assim, por princípio, se a casa tiver divisões bem distintas devemos escrever cenas distintas. Até porque, por opções de produção ou realização, poderão vir a ser filmadas em momentos e até locais distintos – por exemplo, a sala num decor e a cozinha noutro.

A única excepção são cenas que percorrem vários locais da casa mas em que seja importante que haja uma continuidade evidente de ação. Nesse caso podemos, por questão de clareza, usar cabeçalhos secundários, como neste exemplo:

INT. CASA – DIA

Maria e António abrem a porta e irrompem pela casa, beijando-se apaixonadamente.

NA SALA

Tropeçam pela sala, rodando um em redor do outro, e deixando peças de roupa espalhadas pelo chão.

NO QUARTO

António apalpa a maçaneta da porta e abre-a de costas. Maria empurra-o para a cama e fecha a porta, antes de lhe saltar para cima.

INT. CASA –  COZINHA – AO MESMO TEMPO

D. Alberta e Eva entreolham-se, espantadas, ouvindo os gemidos que vêm do quarto. Não conseguem evitar cair na risota.

Para esclarecer melhor estas dúvidas, pode ler outros artigos que escrevi sobre este tema:

Boas escritas.

Os meus tuítes desta semana

  • Colocação de produto em filmes – o melhor e o pior (mas sobretudo o pior…) http://t.co/6bMDBt5G #
  • Mais uma de Seth Godin: em vez de esperar ser escolhido, seja você a escolher http://t.co/h5KbRCwG #
  • Uma das minhas canções favoritas de sempre, em versão internacional Redemption Song http://t.co/2Vq1vggm #
  • Os muitos rostos de Leonardo DiCaprio (e de Alan Rickman e John Cuzack…) http://t.co/Y6pWgQZl #
  • Quantos escravos trabalham para si? Desculpe… escravos?! Sim, escravos. Descubra neste questionário http://t.co/QVvBn1nQ. #
  • Um destaque atrasadíssimo mas vale recordar o lançamento da Marca Rio 2016 http://t.co/he828k0w #
  • Parabéns, Macintosh http://t.co/vFnvsquV #
  • Um modelo à escala do sistema solar em livros: em 12 volumes e 6.000 páginas só 9 páginas têm conteúdo. Louco http://t.co/zbttSCex #
  • "Se puseres água num copo, ela torna-se o copo. (…) Sê água, meu amigo (Be water, my friend)" – Bruce Lee http://t.co/NQImV0dv #
  • Artigos desta semana no blogue de João Nunes: escrita, cinema e outras coisas da vida – http://t.co/8NXr9jQw #
  • Nove curtas do Sundance Film Festival 12 podem já ser vistas online. Bom apetite! http://t.co/j4BLBt2u #

Os meus tuítes desta semana

Os meus tuítes desta semana

Problemas para receber o meu eBook gratuito?

Como já deve ter percebido, publiquei recentemente um eBook sobre reescrita, que ofereço a quem assinar a minha lista de emails.

Alguns leitores têm-se queixado de problemas no processo de download do ebook. Nesses casos tenho enviado diretamente o livro, acrescentando o seu endereço manualmente à minha lista.

Há, contudo, casos em que não consigo enviar o livro porque o email está errado, ou com algum problema técnico. Nesses casos é natural que o meu software de gestão de listas de email também não o consiga fazer. Foi o que se passou hoje com a leitora Lúcia, por exemplo.

Por isso deixo estas recomendações a quem queira assinar a lista e receber o eBook:

  • Siga as instruções passo a passo. O processo não é comprido nem complicado.
  • Preencha corretamente os dados, especialmente o endereço de email, sem o qual o processo não pode avançar.
  • Se não receber o email de confirmação num prazo razoável, procure-o na sua pasta de spam. Normalmente não vão lá parar, porque o programa de listas é sério, mas pode acontecer.
  • Se mesmo assim não conseguir finalizar o processo, contate-me diretamente através do blogue (com o email correto) que terei todo o gosto em enviar o livro.

Nunca vou abusar do privilégio que me estão a conceder inscrevendo-se na lista.

Envio poucos emails: um por semana, e outros só quando tenho boas razões para isso. E, obviamente, nunca cederei esses endereços a terceiros.

Além disso, o sistema de gestão automatiza a possibilidade de a qualquer momento se desinscreverem, embora eu espere nunca vos dar motivos para isso.

Boas (re)escritas.

Os meus tuítes desta semana

P & R: devo rever a escrita da véspera?

Durante o processo de escrita da 1ª versão do guião, quantas vezes será necessário parar para rever o que foi escrito no dia anterior? Eu não revejo mas algo me diz que vou chegar ao fim do 1º draft e não vou gostar do resultado final. — Rafael

Rafael, é mesmo muito provável que chegue ao fim do 1º draft e não goste do que escreveu. É natural e, diria mesmo, quase inevitável.

Quando imaginamos o nosso guião, imaginamo-lo perfeito e sem falhas. Mas raramente chegamos à primeira a esse patamar de perfeição. É para isso que serve a reescrita; para aproximar passo a passo o guião final daquele que idealizamos antes de começar a escrever.

Quanto à revisão durante a escrita, há várias correntes de pensamento.

Há quem ache que devemos tentar escrever tudo sem parar para olhar para trás. Alguns insistem mesmo que devemos escrever muito, depressa e sem rever, para obter aquilo que denominam de "vomit draft" – a "versão vomitada". Vomitada, imagino eu, porque saiu de uma golfada, mas também porque normalmente é um horror.

Outros autores preferem ir revendo à medida que escrevem. Lembro-me de um escritor (mas não de quem é) que afirmava todos os dias rever o manuscrito desde a primeira linha, o que fazia com que em cada dia acrescentasse cada vez menos material novo.

Mesmo que não se seja tão exagerado, grande parte dos autores gostam de "aquecer" para a escrita do dia revendo e alterando um pouco do que escreveram nos dias anteriores.

Penso que a maior parte dos autores, como eu, andam no meio termo. Tentamos seguir em frente num bom ritmo, para manter o entusiasmo, mas não nos impedimos de corrigir ou alterar algumas coisas pelo caminho.

Por vezes são ideias novas para melhorar uma cena anterior; outras vezes apercebemo-nos de algum erro cometido; muitas vezes é apenas uma maneira de adiar um pouco o regresso à escrita original, sempre mais difícil.

O perigo de voltar demasiadas vezes atrás é perder o ímpeto e a energia que tanta falta vão fazer para chegar ao fim. Mas cada autor é que sabe qual o método mais adequado ao seu estilo de escrita.

Uma pergunta final: presumo que tenha baixado e lido o meu eBook gratuito dedicado exclusivamente à reescrita. Se não o fez recomendo que o faça.

Os meus tuítes desta semana

Não queremos objetivos; queremos METAS

Antes de sermos argumentistas somos pessoas. E, como pessoas, temos os nossos defeitos, as nossas fraquezas, as nossas falhas.

É normal, nesta altura do ano, querer corrigi-las. Chamamos a isso as "decisões de ano novo", que normalmente esquecemos antes de janeiro terminar.

O problema destes objetivos que determinamos com tanta boa vontade e abandonamos com tanta ligeireza é normalmente não serem bem definidos. É por isso que hoje proponho uma metodologia para esse efeito, que pode ser usada por autores e por qualquer pessoa.

Em vez de objetivos, devemos ter METAS – objetivos caraterizados por cinco critérios: serem Mensuráveis; Específicos; Temporizáveis; Alcançáveis; e Significativos.

Vejamos o que significa cada um destes critérios:

Mensuráveis – devemos dar valores concretos  aos nossos objetivos. É a única forma de podermos avaliar o nosso progresso em direção a eles. Em vez de "quero perder peso", devemos especificar "vou atingir os 60 kg"; em vez de "quero escrever mais",  vamos dizer "vou escrever três guiões".

Específicos – os nossos objetivos não devem ser vagos e ambíguos, mas sim claros e específicos. Isso fica mais fácil se, além de dizermos exatamente o que queremos alcançar, definirmos também porque é que o queremos conseguir. Por exemplo, "Este ano vou correr 20 km por semana para melhorar a minha condição física geral, diminuir peso e poder participar na meia maratona em setembro".

Temporizáveis – devemos colar os nossos objetivos a datas fixas, determinando limites para os alcançar. Se os deixarmos sem prazo, estaremos uma vez mais a ser vagos e diminuiremos a possibilidade de os concretizar. Um prazo acrescenta urgência e motivação. Por exemplo, é um bom objetivo dizer que "este ano vou escrever um guião até abril, o segundo até agosto e o terceiro até ao fim do ano".

Alcançáveis – não adianta definir objetivos claramente irrealistas ou que não dependem de nós. "Este ano vou ganhar a lotaria" ou "vou correr os 100 m nos jogos olímpicos de Londres" são maus objetivos (a não ser que sejamos psíquicos ou atletas de alta competição).

Significativos – por último, mas não menos importante, os nossos objetivos devem nascer simultaneamente da nossa razão e do nosso coração. Não adianta decidir que "este ano vou deixar de fumar" se não estiver verdadeiramente motivado para o fazer. Incluir numa lista objetivos que não são suficientemente significativos para nós, e que, como tal vão ser rapidamente abandonados, pode ter um desanimador efeito de dóminó que contagie os restantes. É melhor deixá-los fora da lista até eles serem realmente importantes.

Por fim, três conselhos para manter e alcançar as METAS de fim de ano:

Em primeiro lugar, não exagere. É impossível mudar tudo ao mesmo tempo. Mais vale definir menos METAS, e alcançá-las, do que querer fazer tudo, e falhar em toda a linha.

Em segundo lugar, escreva as suas METAS. O registo obriga a pensar e a apurar a sua formulação, concretiza-as e começa a materializá-las. O documento também poderá ser relido regularmente, como forma de avaliação do nosso progresso.

Em terceiro lugar, se tiver coragem, torne públicas as suas METAS. Não precisa publicá-las no Facebook (embora também o possa fazer). Mas se as partilhar com pessoas de confiança e lhes pedir para o ajudarem a alcancá-las, vai ver que isso será muito mais fácil.

Escreva já as suas METAS para o próximo ano. E. se quiser, partilhe-as nos comentários deste artigo.

UM PRÓSPERO E BEM SUCEDIDO DOIS MIL E DOZE.

Artur Ribeiro: é assim que eu escrevo

Retrato de Artur Ribeiro

Artur Ribeiro é um dos nomes proeminentes da nova geração de argumentistas e realizadores portugueses. Conheço-o bastante bem porque tive a sorte de ter sido seu colega na direção da APAD – Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos, durante os últimos anos.

Em 2011 o Artur esteve envolvido numa atividade frenética, escrevendo oito telefilmes e dirigindo vários deles. Desafiei-o por isso para uma pequena entrevista, convencido de que não iria ter tempo para responder. Felizmente para mim e para os leitores deste blogue ele conseguiu esse tempo e respondeu-me a partir de um café de Nova Iorque, a sua segunda cidade. Aproveite para descobrir um pouco mais sobre a escrita de telefilmes em Portugal.

Artur Ribeiro escrevendo

Artur Ribeiro escrevendo na Lanterna di Vitorrio, MacDougal St., Greenwhich Village, NY

João Nunes: Como é o teu pro­cesso de escrita nor­mal? És de tra­ta­men­tos, esca­le­tas, etc. ou pas­sas de ime­di­ato ao guião? Desen­vol­ves bio­gra­fias de per­so­na­gens, etc?

Artur Ribeiro: Faço sempre uma sinopse curta onde estabeleço as premissas dramáticas e um esboço do desenvolvimento do enredo assim como a ideia para o final. Mas passo rapidamente ao guião pois não gosto de ter tudo bem definido de forma esquemática e procuro sempre algum prazer na descoberta da história durante a própria escrita. Naturalmente, muitas vezes chego ao final do guião com algumas alterações às premissas iniciais, mas que foram descobertas de forma orgância e com sentido para a história. Ness altura refaço a sinopse inicial. Quanto à descrição das personagens, escrevo muito pouco, só uns traços iniciais. De resto, ou elas se revelam no guião, ou então acho inútil escrever longas biografias sobre elas.

Como já escreveste longas de cinema, e agora todos estes telefilmes, quais são as principais diferenças que sentes entre escrever para um e outro meio?

Artur Ribeiro: Nos telefilmes tenho de ter em conta as limitações de produção — tanto orçamentais como em dias de rodagem — e por tal, procuro histórias que não sofram dramaturgicamente com o número escasso de décors e de personagens. Para cinema, à partida não há tanto esse constrangimento, embora eu tente sempre que as limitações de produção inerentes aos telefilmes não prejudiquem a dramaturgia e consiga contar mais com menos. Naturalmente, nos guiões para telefilmes acaba por haver uma importância maior dos diálogos e sequências mais longas nos mesmos décors, mas se isso fizer parte da história, à partida, não é uma fraqueza mas sim uma força. De resto, não encontro muitas diferenças em escrever para os dois meios. O importante é o que temos para contar e dizer, e isso é independente das restrições de produção ou mais ou menos dinheiro, e como dizia Fitzgerald, "não se escreve para dizer algo, mas porque se tem algo para dizer" — o meio não é importante se tivermos algo para dizer e se o soubermos transmitir.

Como é o processo completo de desenvolvimento de um guião de telefilme?

Artur Ribeiro: No meu caso, costuma ser muito rápido da ideia à sua concretização. Alguns destes telefilmes que escrevi não tiveram muito mais de um mês entre a primeira sinopse e a sua filmagem! Pessoalmente, agrada-me essa rapidez de concretização. Sobretudo, quando eu próprio realizo, não deixa de me fascinar olhar para trás e pensar que a ideia que tive num café ou na praia ou numa conversa com alguém, um mês antes, ganhou tão rapidamente forma e som — as personagens do papel para os corpos dos actores, das palavras escritas para as vozes representadas, das descrições da acção para as imagens. Houve ocasiões que ainda estava a escrever o guião e a pré-produção já estava em andamento, o que por um lado por vezes me permitiu já saber quem eram os actores para quem estava a escrever e isso influenciar a escrita das personagens e dos diálogos, assim como paralelamente ir adpatando a escrita para os locais de filmagens, etc.

Quanto tempo cos­tu­mas levar a escre­ver um guião de telefilme, e a que ritmo?

Artur Ribeiro: Tem sido uma média de duas semanas, para cada guião. Normalmente, tento escrever um mínimo de 10 páginas por dia.

Por quan­tas ver­sões pas­sas, em média, até esta­res mini­ma­mente satisfeito?

Artur Ribeiro: De preferência, uma versão :) Embora faça sempre uma pequena rescrita, claro. Mas nunca passei da segunda versão nos 8 telefilmes que escrevi este ano. Quanto ao trabalho para cinema, já tem sido diferente. No meu primeiro filme (Duplo Exílio) perdi a conta quantas versões escrevi, mas acredito que tenha passado das 10. Mais recentemente, co-escrevi um guião que teve 3 versões.

Como lidas com as notas e comen­tá­rios de ter­cei­ros, pro­du­tor, rea­li­za­dor, leitores?

Artur Ribeiro: Tenho por princípio que se não conseguir argumentar contra as notas é porque devem estar certas, mas normalmente argumento bastante… Contudo, como costumo partir para a escrita com as ideias bem definidas com a produção ou em certos casos com a estação que emite o telefilme, até agora têm sido muito poucas as alterações que me têm pedido, tanto da parte da Plural, como da TVI e RTP. 

Qual é a tua abor­da­gem às rees­cri­tas, que pro­cesso usas?

Artur Ribeiro: A única coisa que tento fazer é passar uns dias sem olhar para o guião e depois fazer uma nova leitura, de cabeça fresca e ver onde posso melhorar.

Onde é que cos­tu­mas escre­ver? E quais são os teus horários/?ritmos nor­mais de escrita?

Artur Ribeiro: Não tenho método. Por vezes escrevo logo de manhã e em casa, outras vezes tenho de andar de café em café, sempre a mudar de sítio (às vezes mesmo de terra, como é o caso extremo de agora em que me encontro em NY para escrever um novo guião). O melhor que tenho é o deadline — desde que tenha um deadline consigo escrever a bom ritmo independentemente de onde e a que horas, mas se não tiver deadline sou um caso perdido, arranjo tudo e mais alguma coisa para não escrever…

Que ape­tre­chos usas para escre­ver: papel e caneta? Com­pu­ta­dor? Soft­ware? Quais e porquê?

Artur Ribeiro: Tudo o que tiver à mão, na fase de desenvolvimento das ideias (de papéis soltos ou blocos de apontamentos "analógicos" com canetas ou lápis, ao Notes no iPhone), depois, a escrita gosto de ir mudando de interface, do desktop ao portátil e agora bastante o iPad onde aplico um teclado bluetooth e um suporte e acaba por fisicamente ficar próximo do portátil (ver segunda foto). Costumo usar o Final Draft, embora para os telefilmes depois passe para o formato a duas colunas que é usado na Plural.

Quais seriam as con­di­ções ide­ais para pode­res escre­ver o grande guião da tua vida?

Artur Ribeiro: Acho que isso não existe. Já escrevi guiões que gostei bastante em piores condições e outros melhores ou piores em condições mais favoráveis (mentais e de conforto material). Todas as condições que são precisas para se escrever um bom guião é ter algo a dizer e encontrar a forma melhor de o contar. Quando essas condições estão reunidas, pode-se escrever tão bem numa sarjeta como num SPA de massagens rodeado por top models sensuais e intelectualmente estimulantes…

Obrigado, Artur. Boas escritas aí pela Big Apple.

Se quiser ler mais artigos desta série, pode encontrá-los aqui:

Filipe Melo

José Pinto Carneiro

Tiago Santos

Pode ainda ler alguns depoimentos sobre escritas variadas:

Nuno Duarte sobre a escrita d' O Turno da Noite

Filipe Homem Fonsega & Mário Botequilha sobre a escrita d' O Regicídio

Patrícia Müller sobre a escrita dos Morangos com Açúcar

Jorge Vaz Nande sobre escrever uma ópera

E de novo Tiago Santos sobre a escrita de Call Girl

P & R: é possível escrever um argumento a partir de um personagem de cinema já existente?

Imagem do personagem Sarah Connor

É possível escrever um argumento a partir de um personagem de cinema já existente? A minha dúvida maior é sobre os direitos autorais deste personagem. Vou citar somente um exemplo: o filme Exterminador do Futuro. É possível criar uma estória a partir de algum personagem do filme? — Patrícia

Patrícia, possível é, mas não vai conseguir vendê-la a ninguém se não tiver adquirido os direitos anteriormente.

Um caso em que isto acontece é aquilo a que se chama fan fiction.

São estórias escritas pelos fãs de filmes, livros, séries de tv, personagens, tomando como base esses materiais originais. A fan fiction é normalmente publicada na net em blogues, foruns, etc, sem fins comerciais. Os donos dos direitos normalmente não se incomodam, porque a fan fiction não os prejudica financeiramente e até é uma forma de divulgação e publicidade dos seus conteúdos originais.

Um bom exemplo é o Star Treck, que já inspirou centenas de obras de fan fiction.

Outro caso, também frequente, é o hábito, existente principalmente nos Estados Unidos, de escrever argumentos especulativos baseados em séries de televisão conhecidas.

Os autores escrevem estes argumentos como "cartão de visita" para mostrar a sua habilidade, imaginação e técnica de escrita. Nesse caso um argumentista poderia, perfeitamente, escrever um argumento para a série Terminator: The Sarah Connor Chronicles e usar todos os personagens da série: Sarah, o Exterminador, etc.

O que acontece é que tanto num caso como no outro estes argumentos nunca serão vendidos ou comercializados. Esse não é o seu objetivo. No primeiro caso são escritos por gozo e como homenagem aos conteúdos originais; no segundo, são uma demonstração da qualidade dos autores.

Para escrever um argumento de cinema ou televisão utilizando personagens pré-existentes terá de negociar esses direitos com o seu detentor atual. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o próprio Terminator. O quarto filme da franquia no cinema foi escrito, desenvolvido e produzido por novos produtores, que adquiriram os direitos da franquia aos produtores originais.

Imagem do personagem Terminator

Nenhum produtor comprará um argumento seu baseado em personagens existentes se não lhe conseguir provar que tem os direitos sobre esses personagens.

Um caso curioso e, de certa forma, excecional, sobre o qual já escrevi aqui no blogue, é o de um filme chileno chamado Tony Manero, que usa como título o nome do personagem de John Travolta em Saturday Night Fever.

A diferença é que não usa o personagem, mas apenas o nome. O título refere-se à obsessão que o protagonista do filme, um personagem original e autónomo, tem pelo Tony Manero do filme original.

Mesmo assim acredito que só passou por ser um pequeno filme chileno de pouca divulgação internacional. Se tivesse sido desenvolvido nos Estados Unidos é quase certo que o estúdio que lançou o filme original não teria autorizado.

Em última instância, deixo aqui o aviso que faço sempre nestas questões: em caso de dúvida consulte um advogado, porque a lei de direitos de autor é complicada e varia de país para país.

Atualização: um leitor comentou a utilização do personagem literário Dorian Gray no filme Liga dos Cavalheiros Extraordinários (que por sua vez era a adaptação de uma novela gráfica do mesmo nome).

É verdade, mas isso deve-se ao fato desse personagem ter caído no domínio público, ou seja, os seus direitos já não pertencerem a ninguém em particular.

Foi isso que permitiu, por exemplo, adaptar O Crime do Padre Amaro ao cinema. Já no caso da minha própria adaptação d' A Selva os direitos tiveram de ser negociados com os descendentes do autor do romance, Ferreira de Castro.

Assim, podemos acrescentar um terceiro caso de utilização de personagens pré-existentes – quando as obras em que eles foram criados tiverem entrado no domínio público.

Os meus tuítes desta semana

Uma das coisas mais importantes acerca de escrever o primeiro argumento é o fato de realmente termos terminado um argumento. Ter feito isso é uma etapa muito importante – mesmo que ele seja uma porcaria. Dá-nos uma certa confiança para seguir em frente e fazê-lo outra vez. – Charlie Kaufman

Uma das coisas mais importantes acerca de escrever o primeiro argumento é o fato de realmente termos terminado um argumento. Ter feito isso é uma etapa muito importante – mesmo que ele seja uma porcaria. Dá-nos uma certa confiança para seguir em frente e fazê-lo outra vez. – Charlie Kaufman

As oito profissões do escritor moderno

escritor teclando

Há duas semanas publiquei no meu Twitter um link para um artigo do blogue My Name is Not Bob. O tuíte foi bem recebido, por isso achei interessante desenvolvê-lo aqui no site.

Por ano são publicados nos Estados Unidos quase 300.000 novos livros. No Reino Unido o valor ronda os 200.000. Em Portugal fica pouco abaixo dos 8.000.

Estes números, que parecem espantosos, criam um curioso paradoxo. Nunca foi tão fácil publicar um livro como nos nossos dias, mas também nunca foi tão difícil fazer com que esse livro seja descoberto pelo público a que se destina.

Além disso, as próprias editoras dedicam cada vez menos tempo e meios à divulgação e promoção desse manancial de novos livros. Preferem compreensivelmente concentrar os seus recursos, sempre escassos, em autores já conhecidos (escritores com sucessos anteriores, ou figuras públicas), que oferecem logo à partida uma maior garantia de impacto e penetração.

É por estas razões que, salvo raríssimas exceções, o paradigma tradicional do escritor enfiado na toca, dedicado apenas à sua arte, deixou de ser válido. O escritor moderno tem de desempenhar por sua conta muitas das tarefas que tradicionalmente competiam às editoras.

É exatamente essa multiplicação de papéis que o artigo de Robert Lee Brewer aborda, listando as oito profissões que os escritores contemporâneos são obrigados a desempenhar.

E que profissões são essas, segundo o autor? A lista que se segue acompanha a ordem do artigo, mas com os meus próprios comentários e adendas.

  1. Escritor – é um bom sinal que a responsabilidade por escrever ainda surja em primeiro lugar. Se não tivermos o material de base, dificilmente qualquer uma das outras fará sentido.
  2. Revisor – os revisores atuais soçobram debaixo da chuva de manuscritos que lhes chegam, e dedicam muito menos tempo a cada um. O que esperam, no mínimo, é que as obras lhes cheguem sem erros ortográficos e gramaticais. Esse é um dos pontos em que eu insisto no meu ebook (grátis) sobre reescrita.
  3. Redator – hoje um escritor não escreve apenas os seus livros ou argumentos. Escreve também artigos no seu blogue e para a imprensa tradicional; publica tuítes e atualizações no Facebook; escreve comunicados de imprensa e perfis autobiográficos; escreve sinopses, propostas de livros, apresentações de projetos. Todas essas formas de escrita têm exigências, truques e estilos particulares que obrigam o escritor a testar permanentemente a sua versatilidade.
  4. Arquivista – a nossa vida não está a ficar mais simples, infelizmente. Cada vez há mais documentos que é preciso guardar, atualizar, rever periodicamente: faturas, recibos de despesas, correspondência, relatórios, propostas, notas, etc. Neste ponto eu deixo muito a desejar, e foi bom ser recordado disso.
  5. Negociador – supostamente é para isso que os agentes servem. Mas na prática as coisas não funcionam bem assim, pelo menos para o comum dos mortais. Por isso é bom afinar as competências nessa área e, sobretudo, não ter vergonha de lutar pelos próprios interesses.
  6. Contabilista – acho que este ponto está intimamente relacionado com o número quatro. Pessoalmente teria combinado os dois e deixado a lista com sete alíneas, número cheio de simbolismo e ressonância bíblica. Mas o autor quis dar-lhe um destaque especial, e quem sou eu para discordar.
  7. Marketeiro – o escritor moderno tem de se autopromover e cuidar da sua audiência – a sua plataforma, como eu referi num artigo recente. Isto implica mais uma meia dúzia de competências novas e, como o autor bem refere, a necessidade de ultrapassarmos a timidez e introversão que caraterizam tantos de nós.
  8. Orador – a necessidade de promoção e divulgação do nosso trabalho obriga-nos a enfrentar audiências diversas cada vez com mais frequência. Seja em entrevistas, debates e conferências, seja em apresentações ao vivo ou em pitches privados, os escritores atuais têm de ser capazes de defender e promover a sua obra em público. A timidez não é uma opção.

O artigo é muito interessante e merece uma leitura atenta para além destes meus destaques e comentários. Pode lê-lo (em inglês) aqui.

Os meus tuítes desta semana

Descubra o seu signo no Zodíaco Geek

Qual é o seu signo geek?

James Wright e Josh Eckert estudaram o assunto e chegaram ao Zodíaco Geek que, à semelhança do Horóscopo chinês, define o signo da pessoa pelo ano de nascimento.

Veja aqui qual é o seu.

Já agora, repare que uma das características do Espião é o  "desenrascanço". As habilidades portuguesas já são lendárias.


Os meus tuítes desta semana