Mais um trailer de Conexão

Já tinha publicado antes este trailer mais extenso de Conexão, mas para quem ainda não viu aqui o repesco. É  o trailer preparado para apresentação do filme na Berlinale, e dá um pouco melhor a ideia do que Conexão pretende ser.

O diálogo que aparece no trailer despertou alguma curiosidade por parte de leitores. Está publicado integralmente num artigo mais antigo do blogue, que podem ler aqui.

A página com todos os artigos que já publiquei sobre Conexão pode ser consultada aqui.

Oscares 2011: contagem regressiva

Nos últimos dias temos vindo a apreciar os principais filmes candidatos aos Oscares nas categorias de argumento, como Indomável ou O Discurso do Rei.

Mas com o resultado já definido pela academia e faltando poucos dias para a premiação, há outros filmes nem tão aclamados que marcaram presença nas indicações e, quem sabe, podem conseguir alguma estatueta.

Roteiro original:

O Vencedor (O Lutador) –  com roteiro de Scott Sliver, Paul Tamasy e Eric Johnson, e dirigido por David O. Russel, o longa conta a história real dos irmãos boxeadores Dicky Eklund e Micky Ward que se juntam para treinar para uma luta. O filme traz uma história de redenção e a discussão sobre relações familiares. Além de concorrer como melhor roteiro original, disputa ainda melhor filme, diretor, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e edição. 

Another Year – Escrito e dirigido por Mike Leigh, o filme era favorito em Cannes, mas acabou sendo desbancado por um filme tailandês. O longa conta a história de um casal de meia-idade, Tom e Gerri, que formam uma família feliz, mas enfrentam os problemas das pessoas que os rodeiam.

Minhas mães e meus pais (Os miúdos estão bem) – Lisa Cholodenko dirige o filme e também divide os créditos do roteiro com Stuart Blumberg. O longa conta a história de um casal de lésbicas que têm dois filhos por inseminação artificial. O conflito se forma quando os filhos decidem descobrir quem é o pai dos dois. 

Roteiro Adaptado:

127 Horas –  Baseado em história real, 127 Horas reconstitui o episódio do alpinista Aron Ralston, que tem o braço preso por uma pedra durante uma escalada nos cânions de Utah. O longa foi dirigido por Danny Boyle que também assina o roteiro adaptado com Simon Beaufoy. A dupla também trabalhou junto no filme Quem quer ser um Milionário.

Inverno na Alma (Os Despojos do Inverno) –  Com status de independente, o filme conta a história de uma jovem adolescente que, por causa do risco de perder a casa onde mora, sai em busca de seu pai desaparecido, um traficante de droga procurado pela polícia. O longa, baseado na obra de Daniel Woodrell, é dirigido por Debra Granik e adaptado por ela e Anne Rosellini.  O filme também concorre nas categorias de melhor filme, atriz e ator coadjuvante.

Laboratório de Novas Histórias para aperfeiçoar o seu roteiro

O Sesc/Senac de São Paulo está com inscrições abertas para o Laboratório de Novas Histórias. Serão selecionados 10 roteiros para receberem consultoria individual durante o Laboratório. A organização ainda não fechou os nomes dos roteiristas convidados, mas promete cinco nacionais e cinco internacionais.

Dos dias 10 a 13 de maio de 2011, os roteiristas selecionados ficarão hospedados em Campos do Jordão (SP) tendo encontros com os consultores. Segundo a organização, dos 118 filmes que já participaram do Laboratório, 34 foram já lançados no mercado e outros sete serão lançados em breve. Com destaque para Cinema, Aspirinas e Urubus e Cidade de Deus.

As inscrições já estão se encerrando, vão até o dia 04 de março e são aceites apenas roteiros finalizados.

Mais informações no site do evento.

Toy Story 3 – para quem gosta ou não de animação

Até quem não gosta muito de animação se rendeu aos encantos de Toy Story 3. Basta dizer que o filme foi eleito por ninguém menos do que Quentin Tarantino, como melhor filme do ano de 2010. O longa é dirigido por Lee Unkrich, com roteiro adaptado por Michael Arndt, vencedor do Oscar de melhor roteiro com Pequena Miss Sunshine. Nessa edição, Toy Story 3 concorre como melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor animação, categoria na qual é favorito.

A história conta a trajetória do cau­bói Woody e do herói espacial Buzz Lightyear, quando o dono Andy está com 17 anos e às vésperas de entrar para universidade. O encanto do filme deve-se muito ao roteiro em que os brinquedos vivem sensações tão humanas que dão arrepios em quem está assistindo. 

O roteirista Michael Arndt, adaptou a história de John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich. Em uma entrevista ele conta que passou três anos escrevendo e reescrevendo Toy Story 3, e não mudaria uma única coisa no resultado final.

O trabalho de reescrita fica visível na sequência que eles chamaram de “crescidos” (quando Woody convoca uma reunião). “Eu fiz 60 versões diferentes daquela cena antes de arrumarmos a definitiva. Foi uma das cenas que eu mais reescrevi”, confessa.

Vamos ver se os votantes do Oscar também se renderam a animação. 

True Grit – o faroeste dos irmãos Coen

Na lista dos favoritos ao Oscar 2010 está o faroeste (western) dos irmãos Coen,  Bravura Indômita (Indomável), com 10 indicações, incluindo de melhor filme e melhor roteiro adaptado. O filme é baseado romance de Charles Portis, que teve a primeira adaptação para o cinema em 1969, dirigida por Henry Hathaway, com John Wayne como protagonista, dando a ele o Oscar de melhor ator. Agora, Ethan e Joel Coen voltam ao livro para fazer sua versão do faroeste.

No filme, a garota Mattie Ross (Hailee Steinfeld), aos 14 anos, empenhada na vingança do assassinato do pai, contrata o oficial beberrão Rooster Cogburn (Jeff Bridges). A trama cruza com LaBoeuf (Matt Damon), um Texas Ranger que também busca o mesmo criminoso por causa de uma recompensa. Está formado o trio central do roteiro.

A história sobre lealdade é envolvente e, se pensarmos em indicados a categoria de melhor roteiro adaptado, faz um contra-ponto com a superficialidade dos relacionamentos mostrados em A Rede Social.

Os irmãos Coen já levaram o Oscar de melhor roteiro adaptado com o filme Onde os Fracos Não tem Vez (Esta terra não é para velhos), em 2007. Agora é esperar para ver se levam mais esse.

Revista Drama analisa as curtas metragens

O próximo número da revista Drama, publicação online da APAD – Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos dedicada ao cinema, televisão e teatro, é lançado no próximo sábado. A revista estará também disponível para consulta nessa data.

A APAD e o Daniel Ribas, editor e coordenador da revista, estão a convidar todos os interessados para assistir à sessão de lançamento, que incluirá a projeção de várias curtas-metragens e um debate com alguns autores. Os detalhes estão mais abaixo.

Por curiosidade, escrevi um pequeno artigo neste número sobre a minha experiência como argumentista/realizador de uma curta-metragem. Se quiserem ler, poderão consultar a revista a partir de sábado, através do site da APAD: http://argumentistas.org

Press Release

Convidamo-lo a assistir ao lançamento do número 3 da revista DRAMA – revista de cinema e teatro. O evento terá lugar na Casa da Animação, no Porto, no dia 26 de Fevereiro às 17 horas, numa iniciativa conjunta da APAD (Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos) e do Cineclube do Porto. 

Esta sessão de lançamento terá a projecção de três curtas-metragens: 

"A Felicidade" de Jorge Silva Melo
"Paisagem Urbana com Rapariga e Avião" de João Figueiras
"Senhor X" de Gonçalo Galvão Teles.

Depois da projecção, seguir-se-á um debate que contará com a participação de Miguel Dias (Director do Curtas de Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema), Rodrigo Areias (Realizador e Programador de Guimarães 2012) e Gonçalo Galvão Teles (Realizador e Argumentista).

O tema do número 3 da DRAMA é a Curta-Metragem, e conta com entrevistas a Richard Raskin, Paul Wells, Miguel Dias, Tiago Rodrigues e Marcos Jorge; textos de João Nunes, Carlos Conceição e Paulo Cunha (entre muitos outros); e um destaque ao argumentista italiano Tonino Guerra. A DRAMA é uma revista online de cinema e teatro publicada pela APAD – Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos. (Em anexo segue a capa do Número 3).

Venha conhecer a DRAMA no dia 26 de Fevereiro ou visite, a partir dessa data, o site http://drama.argumentistas.org/

(A sessão de lançamento da DRAMA tem o apoio da Casa da Animação e da Agência da Curta Metragem.)

Fantasporto 2011

A 31ª Edição do Fantasporto – Festival Internacional de Cinema do Porto abre hoje as portas no Teatro Municipal Rivoli, exibindo em antestreia nacional 127 Horas, o filme realizado por Danny Boyle, nomeado para 6 Oscares da Academia este ano.

Até dia 6 de Março, os apreciadores do fantástico poderão assistir a mais de 300 curtas e longas metragens com o imaginário a que o Fantas já nos habituou, todas antestreias em Portugal, algumas mesmo europeias e mundiais.

Como vem sendo habitual, um painel de jurados avaliará a vertente competitiva do Festival, este ano com dois novos prémios: Grande Prémio do Cinema Português e Prémio Jovem Realizador.

O Fantas espera receber mais de 500 convidados, cerca de 200 dos quais estrangeiros e 150 realizadores portugueses.

Dia 5 de Março, sábado de Carnaval, realiza-se a tradicional festa de encerramento, o Baile dos Vampiros, no Teatro Sá da Bandeira.

Portugueses preferem ver filmes na televisão

A televisão continua a ser a plataforma preferida pelos portugueses para ver filmes em 2010. Quem o diz é o estudo da Obercom, que conduziu entrevistas sobre os hábitos de consumo de cinema em Portugal continental a 1258 indivíduos.

Segundo este estudo e os dados do ICA, as salas de cinema em Portugal registaram uma afluência de 16,6 milhões de espectadores, o que representa um crescimento de 5,4% face a 2009, constituindo o valor mais elevado desde 2005.

Ainda assim, é nos canais de televisão que mais portugueses vêm filmes. Em segundo lugar vem o DVD e só depois as salas de cinema, que são essencialmente preferidas pelos escalões mais jovens da população. Dos inquiridos entre os 15 e os 25 anos, 71,3% afirmaram ter assistido a filmes no cinema.

É também na televisão que mais portugueses assistem a filmes de produção nacional.

Apenas 3,2% dos inquiridos se deslocaram às salas de cinema para assistir a filmes portugueses. Nos filmes de origem nacional, o DVD surge em terceiro lugar.

No entanto, o factor acidental continua a ter um peso elevado sobre o visionamento da produção nacional, tendo 35,9% declarado ter visto filmes portugueses porque "estavam a passar na televisão". Este valor reforça a importância da programação televisiva para a produção cinematográfica nacional e reforça a necessidade de televisões e produtoras se unirem para revitalizar o cinema português.

Só mais um dado curioso, 21,2% dos inquiridos declararam sentir vontade de visitar um local por influência de filmes, o que é, sem dúvida, um dado que pode abrir as portas para uma amizade, ou mesmo cumplicidade, entre produção nacional e organizações ligadas ao turismo.

Para quem gosta de números e gráficos, como eu, pode consultar o estudo integral aqui.

A exposição é uma tarefa muito exigente. É algo que tentamos incutir nas relações entre personagens.

"A exposição é uma tarefa muito exigente. É algo que tentamos incutir nas relações entre personagens. Não queremos que numa cena as personagens passem informação passivamente, porque também não queremos o público a receber passivamente informação. Queremos que o público esteja envolvido na acção." — Christopher Nolan, acerca da escrita da exposição e dos seus mecanismos em A Origem

“Conexão” em Março na RTP1

Conexão, a mini-série que eu escrevi há já algum tempo para a RTP, deve estrear durante o mês de Março.

É uma produção da Stopline Filmes com realização de Leonel Vieira, e passa-se no submundo do tráfico de droga do norte do País e da Galiza, uma das principais portas de entrada de estupefacientes na Europa.

Explorando as conexões entre os traficantes do Minho e da Galiza, e a forma como a presença desse tráfico interfere na vida dos pescadores locais, Conexão tem como protagonistas Ivo Canelas e António Cordeiro, à frente de um excelente leque de atores portugueses e espanhóis.

A RTP já está a divulgar o trailer promocional, que podem ver aqui. Digam lá se não promete?

Dia dos Namorados: ode às Comédias Românticas

Parece não haver meio termo: há quem as adore, há quem as odeie.

Mas em Dia de Namorados, a comédia românica é incontornável. Não é só um filme romântico, não é só uma comédia: é um género próprio. Mesmo a sua escrita tem regras, o que leva a que muitos críticos as acusem de previsíveis. A verdade é que a comédia romântica não tem a premissa dramática da maior parte dos outros filmes. Numa comédia romântica a questão (quase) nunca é "Vão ficar juntos?" mas sim "Como é que vão ficar juntos?" De certa maneira, é a versão adulta dos contos de fadas. Sabemos que acabam bem, mas como lá chegar?

Quem vai ver um filme destes já sabe com o que conta. Começamos por conhecer os protagonistas no seu mundo próprio. Depois conhecem-se um ao outro numa situação normalmente cómica e que gera instantaneamente amor… ou ódio profundo. Pouco tempo depois temos conhecimento do obstáculo principal do casal, mas que vai sendo sempre adiado por pequenos outros obstáculos, cada um deles difícl mas ultrapassável, até que o obstáculo principal não pode continuar a ser ignorado e cai como um saco de tijolos entre eles, causando a separação do casal. Já no terceiro acto, um ou ambos os protagonistas compreendem que o obstáculo não é assim tão importante, ultrapassando-o em nome do amor, geralmente com um gesto grandioso, impulsivo, disparatado ou original. Et voilá, felizes para sempre.

Quando a comédia romântica se desvia destes pressupostos, é bom que tenha um motivo muito forte ou é mais que certo que a plateia se vai sentir enganada.

No entanto, não é por ter uma estrutura tão previsível que devemos deixar de apreciar estas histórias. Em primeiro lugar, porque a comédia tem geralmente origem em situações embaraçosas, pelas quais quase toda a gente já passou. É muito comum os autores terem ou conhecerem alguém que tenha passado por isso. E depois, porque tendo uma estrutura tão rígida, muitas optam por ter um tema mais profundo, enriquecendo assim história e personagens. As melhores comédias românticas, aliás, tal como os melhores filmes, são as que exploram temas universais e complexos, temas que vão para além da experiência romântica e que na verdade são temas da própria existência humana. Todas as grandes comédias românticas vingaram graças a esta universalidade.

Finalmente, um elogio a um género que tem vindo a crescer discretamente em Portugal. A comédia foi a grande força do cinema português durante muito tempo, na sua época dourada. O drama e o policial tornaram-se os géneros mais comuns em décadas recentes, mas nos últimos anos assistiu-se ao emergir deste género, incluindo o recente "A Bela e o Paparazzo", escrito por Tiago Santos, e que se tornou um sucesso comercial em português. Será um género que começa finalmente a ter expressão e apreciação em terras lusitanas?

No fundo, o amor acontece… e nós gostamos de o ver acontecer. Adorem ou odeiem, o sucesso das comédias românticas é inquestionável… ainda que alguns digam que é só porque os bilhetes se vendem aos pares…

Pergunta: quais são as suas comédias românticas favoritas? Deixe a resposta nos comentários deste artigo.

Autor de “Sedução” dá master class sobre telenovelas

No dia 24 de Fevereiro, pelas 18h30, vai decorrer no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores uma "master class" com o tema "Telenovela: da escrita ao ecrã". Os participantes vão poder ouvir o autor e diversos intervenientes da telenovela Sedução  falar sobre o processo de criação de uma novela portuguesa.

Estarão presentes o argumentista Rui Vilhena, autor de várias telenovelas de grande sucesso, o coordenador de projetos e responsável artístico, Hugo Sousa, e os actores Fernanda Serrano, Dalila Carmo, Rui de Carvalho e Pedro Granger. A coordenação da sessão estará a cargo da argumentista e atriz Isabel Medina.

A entrada é livre e a sessão decorrerá como uma conversa informal, com participação do público presente, no Auditório Maestro Frederico de Freitas na Sociedade Portuguesa de Autores, Av. Duque de Loulé – 31 – Lisboa. 

Compositor Nuno Malo nomeado para os IFMCA

O compositor algarvio Nuno Malo, atualmente radicado em Los Angeles, foi nomeado para os prémios da International Film Music Critics Association, segundo notícia divulgada no sábado.

As nomeações incidem na categoria de Revelação do Ano (breakout composer of the year) e Melhor Banda Sonora Original para um Drama (best original score for a drama film), ambas pelo seu trabalho de composição da banda sonora do filme português Amália.

Ao Nuno Malo, os meus sinceros parabéns. Podem saber mais sobre ele no seu site pessoal.

Vencedores dos BAFTA 2011

Ainda em época de prémios, foram já anunciados os vencedores dos BAFTA.

Entregues domingo, 13 de Fevereiro, pela British Academy of Film and Television Arts, os primos britânicos dos Oscares distinguiram O Discurso do Rei em 7 das 14 categorias para que estava nomeado, incluindo Melhor Filme e Melhor Argumento Original de David Seidler.

Aaron Sorkin, ainda em alta e confirmando o favoritismo, leva para casa mais um prémio de Melhor Argumento Adaptado com a sua Rede Social.

Houve ainda prémios de carreira "Academy Fellowship" para Sir Christopher Lee e "Outstanding British Contribution to Cinema" para a saga Harry Potter, que apresentou ao mundo equipas inteiras de britânicos na produção de uma saga de blockbusters mundiais, papel habitualmente reservado à indústria de Hollywood.

A batalha entre O Discurso do Rei e A Rede Social adensa-se a apenas duas semanas dos Oscares. Quem vencerá a estatueta dourada para Melhor Filme do Ano? O "Discurso" preferido dos britânicos ou a "Rede" eleita pelos Globos de Ouro?

Ou teremos todos uma surpresa?

Já experimentou este blogue no seu telemóvel?

Graças a um plugin do WordPress chamado WP-Touch este blogue tem uma versão mobile muito funcional, otimizada para os telemóveis mais recentes. É possível aceder à maior parte das páginas e a todos os artigos.

A leitura dos artigos também é muito confortável, com um tipo de letra grande e uma boa escolha de fontes.

Quando estiver disposto a gastar mais uns euros (e perder mais umas horas) vou comprar a versão Pro, que dá um controlo ainda maior sobre o design do site. Essa versão possibilita ainda criar design específico para o iPad, o que também pode ser interessante. Mas, para já, estou satisfeito com o resultado.

Já o experimentei num iPhone, e gostava de saber como é que funciona noutras plataformas. Se usar um telefone Android, Blackberry, Symbian ou Windows Mobile e tiver a paciência de visitar-me no seu telemóvel para deixar um comentário a este artigo, agradeço.

Brasil também está no Oscar 2011

Mesmo não conseguindo entrar na lista dos indicados a melhor filme estrangeiro, o Brasil faz uma ponta no Oscar 2011 com a co-direção do documentário Lixo Extraordinário. O filme mostra o projeto do artista plástico brasileiro, que mora há anos nos Estados Unidos, Vik Muniz, realizado com catadores de material reciclável do aterro do Gramacho, no Rio de Janeiro.

A arte de Vik Muniz, criada a partir de lixo reciclado

A direção é compartilhada pela inglesa Lucy Walker e os brasileiros João Jardim e Karen Hartley. João Jardim contou ao jornal Gazeta do Povo como se construiu a colaboração. Segundo ele, Lucy veio ao Brasil e filmou por dez dias e teve de ir embora para outro trabalho, foi quando Jardim assumiu as filmagens por cerca de 60% do filme, depois Karem Harley tocou o trabalho até o fim. Com todo material filmado, as gravações voltaram para Lucy que montou a obra.

O documentário, apesar de trazer a forte realidade das pessoas que trabalham no lixão, também mostra a ideia positiva de transformação da através da arte. Vik fotografa os catadores e depois produz uma gigante instalação de arte com dejetos recolhidos pelos próprios catadores. A obra é novamente fotografada, agora com os traços todos preenchidos por materiais recicláveis. O efeito visual é incrível. Então, essas novas fotos são enviadas a leilões estrangeiros. Todo o dinheiro conseguido com as vendas é revertido para a Associação do Aterro Sanitário de Jardim Gramacho. O documentário mostra toda essa trajetória.

Vale lembrar que documentários sobre brasileiros estão em alta no exterior. Na última edição do festival de Sundance, “Senna” , documentário sobre a trajetória do piloto de Fórmula1 mais popular do país, ganhou o prêmio de melhor documentário internacional segundo o júri popular.

Festival de Cinema de Berlim 2011

Indomável (True Grit) dos irmãos Coen foi o filme escolhido para abrir dia 10 de Fevereiro a 61ª edição de Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Até dia 20 de Fevereiro, a capital alemã vai ser também a capital do cinema, recebendo mais de 19 000 profissionais da indústria cinematográfica representando 128 países.

Referência entre os Festivais de Cinema, Berlinale exibe todos os anos cerca de 400 filmes e tem sido local priveligiado para primeiras exibições. Só este ano, mais de metade das 53 longas metragens em exibição fora da competição são estreias mundiais.

O Festival conta com a presença da língua portuguesa graças a 3 longas metragens do Brasil, entre elas Tropa de Elite 2, que abre o ciclo de exibições Panorama. O autor e realizador José Padilha regressa a Berlim com a sequela do filme que lhe valeu o Urso de Ouro em 2008, Tropa de Elite.

Aos Urso de Ouro e Urso de Prata concorrem este ano 16 filmes. O júri, presidido por Isabella Rossellini, anunciará os vencedores dia 19 de Fevereiro.

Curso #20: escrever o 1º ato

Introdução

Entramos agora na reta final deste curso de guião – o seu terceiro ato, por assim dizer. Neste artigo e nos próximos dois vamos analisar, passo a passo, quais os principais desafios com que um guionista se depara na escrita de cada um dos três atos que compõem um guião de estrutura dita "clássica": Exposição, Complicação e Resolução.

Mas para que tudo fique claro, vamos começar por recapitular os elementos essenciais desse tipo de estrutura.

A estrutura em três atos

A percepção de que a maior parte das narrativas se estruturam em três atos – princípio, meio e fim – já vem desde o tempo da Poética de Aristóteles. Foi ele o primeiro pensador a tentar sistematizar esta abordagem natural e instintiva da forma de contar uma estória.

Mais recentemente Syd Field, num livro chamado Screenplay, desenvolveu a conceção de Aristóteles apresentando o paradigma dos três atos, na sua formulação mais atual.

Assim, cada estória começa com um primeiro ato, de Exposição (set-up) em que os ingredientes da estória nos são apresentados. Segue com um segundo ato, de Complicação (confrontation), em que esses elementos são desenvolvidos, combinados e ampliados. E termina num terceiro ato, de Resolução (resolution) em que as questões levantadas são esclarecidas e encerradas.

Em suma, alguém quer alguma coisa (primeiro ato); enfrenta dificuldades crescentes para a obter (segundo ato); e acaba por consegui-la, ou por falhar na tentativa (terceiro ato).

Ainda segundo o paradigma de Syd Field há cinco momentos chave que marcam o desenvolvimento de cada estória:

  • o Gatilho (catalyst ou inciting incident), evento perturbador sem o qual a estória não se poria em marcha:
  • a 1ª Viragem (1º plot point ou turning point), que marca a transição do 1º para o 2º atos;
  • o Ponto Médio (midlle point), um evento ou momento de maior importância, situado mais ou menos a meio da estória;
  • a 2ª Viragem (2º plot point ou turning point), que marca a transição para o 3º ato;
  • e, por fim, o Clímax, evento ou momento marca o fim da estória – uma espécie de reflexo simétrico do Gatilho.

Mais do que uma fórmula, o paradigma é uma grelha de análise que pode ser aplicada, com grande sucesso, a um impressionante número de filmes, escritos antes ou depois de Syd Field o ter formulado. Embora a sua abordagem seja excessivamente dogmática em muitos aspetos, os termos e conceitos que esse autor definiu são hoje a base da lingua franca com que todos os guionistas, realizadores, atores e produtores falam quando analisam um guião.

Paradigma de três atos

Os objetivos do 1ºato

Sabendo que o primeiro ato é o da Exposição, ou seja, o da apresentação dos elementos constituintes da nossa estória, resta ver que elementos são esses. Todos os guiões que seguem uma estrutura clássica, e a maior parte dos que não a seguem, abordam estes elementos de uma ou de outra forma.

A tarefa principal do guionista ao escrever o primeiro ato do seu guião será, pois, encontrar os elementos certos para cativar o interesse do seu público; e apresentá-los de formas interessantes e originais.

Apresentar o mundo da estória

Cada estória começa sempre num determinado universo: um local, como o mundo suburbano de Juno ou o mundo bucólico da Middle Earth do Senhor dos Anéis; um tempo determinado, como a Lisboa oitocentista dos Mistérios de Lisboa, a pobreza contemporânea das favelas de Cidade de Deus, ou o futuro distópico de Blade Runner; um grupo profissional ou social específico, como o dos corretores da Bolsa de Wall Street, os mafiosos de O Padrinho ou os amish de A Testemunha (que contrastam com o mundo do polícia John Book); ou ainda um estilo de vida, como o glamour aventureiro de todos os filmes da série James Bond, ou a miséria crónica dos pequenos traficantes de Trainspotting.

Na maior parte dos casos o mundo original da nossa estória resultará duma combinação de vários destes elementos: no caso de Alien, por exemplo, o mundo original resulta da combinação de um local, a nave Nostromo; um tempo, o futuro distante; uma profissão, mineiro; e um estilo de vida, a dureza e monotonia da mineração espacial.

Encontrar uma combinação de elementos que nunca tenha sido explorada pode ser a chave para começar a escrever uma estória interessante e original.

A apresentação destes elementos constituintes não tem de ser feita de uma só vez, nem logo no início. Mas é conveniente que ao longo do primeiro ato se vão somando pistas e informações que nos permitam construir uma radiografia do mundo original da estória, para melhor percebermos as implicações dos eventos que inevitavelmente o vão perturbar.

Por exemplo, Michael Clayton começa com uma sequência em que vemos o protagonista a fazer aquilo para que lhe pagam: resolver problemas complicados de clientes importantes da sua empresa. Só mais tarde percebemos que tipo de empresa é – uma grande firma de advogados – e quais os valores pelos quais se rege; valores que Michael nunca costuma questionar… até que algo o leva a isso.

Apresentar o protagonista

Dentro deste mundo original, bem estabelecido e com regras mais ou menos claras, move-se um personagem que nós vamos acompanhar ao longo da estória, o protagonista. Há que apresentá-lo, também, e da maneira mais interessante possível.

Em A Origem, o protagonista Cobb é introduzido numa extensa sequência de ação (após um prólogo muito curto destinado essencialmente a despertar a curiosidade) em que o vemos fazer aquilo em que é sumamente bom: entrar nos sonhos de outras pessoas para lhes roubar informações. São inúmeras as informações que recebemos sobre ele: como é; o que faz e como o faz; o seu estilo de vida; os seus pontos fortes; e até a sua maior fraqueza, Mal.

Mas um protagonista não precisa ser apresentado em ação, como Cobb ou James Bond. Em 72 Horas não é preciso muito para conhecermos o essencial sobre a vida pacata, arrumada e não muito fascinante de John Brennan, professor universitário, marido apaixonado e pai extremoso. Mas é o seu sentido de humor particular, e evidente amor pela família, que o tornam simpático desde os primeiros momentos.

O protagonista também pode ser apresentado num momento particularmente baixo e negro da sua vida. Em O Veredito, o protagonista Galvin é apresentado como um advogado rasca, que procura casos em funerais e casas mortuárias, tendo atingido o ponto mais baixo da sua carreira. Nestes casos é próprio protagonista que contém já em si as sementes do desequilíbrio posterior.

Apresentar a questão dramática principal

Como vimos em capítulos anteriores, um bom filme coloca normalmente uma questão dramática forte. Esta é, recordo, uma per­gunta implí­cita que o nar­ra­dor coloca ao espeta­dor, dei­xada no ar no iní­cio do filme, e que deve ser res­pon­dida antes do fim: será que o protagonista vai conseguir alcançar o seu objetivo? Como é que isto vai acabar?

A par­tir do momento em que a ques­tão dra­má­tica é apre­sen­tada o nosso objec­tivo enquanto espe­ta­do­res é descobrir qual a res­posta que essa ques­tão dra­má­tica vai ter. Ela é a chave que nos vai man­ter agar­ra­dos à estória.

A questão dramática deve, pois, ser apresentada no 1º ato, e quanto mais cedo melhor. Não quer dizer que no decurso do filme ela não se transforme, ou não seja mesmo substituída por outra mais forte ou relevante. Mas se no fim do 1º ato não tiver ficado plantada na mente do espetador uma questão dramática, são maiores as probabilidades dele se desinteressar da estória.

Introduzir outros personagens e enredos secundários

Nenhum protagonista vive isolado no universo, pois não há drama sem conflito e, para haver conflito, têm de existir relações. Mesmo em filmes que apresentam propostas dramáticas mais radicais, como o recente Buried, em que o protagonista passa todo o filme preso num caixão enterrado algures no Iraque, há um leque de personagens complementares: um antagonista, ajudantes, até uma relação sentimental.

Uma parte destes personagens secundários – e as tramas secundárias que os envolvem – devem começar a ser apresentados ainda no primeiro ato.

Não é necessário que todos o sejam. Acontece muitas vezes, por exemplo, que o antagonista principal só é apresentado no decurso do 2º ato. O mesmo acontece, frequentemente, com tramas secundárias sentimentais.

Mas será muito difícil que se consiga passar um primeiro ato inteiro sem introduzir pelo menos uma parte significativa do elenco complementar. 

Definir o ADN da estória: género, tom, tema e estilo

Cada filme, cada estória, tem aquilo que se poderia definir como o seu ADN narrativo. Este nasce essencialmente da combinação de quatro elementos distintos – as suas quatro "bases": o GÉNERO, o TOM, o TEMA e o ESTILO.

Quando escolhemos um filme para ver, muitas vezes fazemo-lo em função do seu GÉNERO. O que nos apetece ver: um thriler? Um filme de terror? Uma comédia romântica? O Género em que uma determinada estória se encaixa deve pois ser bastante claro desde o início – muitas vezes desde o cartaz no átrio do cinema, com a sua frase publicitária.

O TOM do filme é também muito fácil de perceber, embora mais difícil de definir. Uma forma de o fazer é pensar em dois eixos: um que vai do Real para o Surreal; outro que vai do Leve para o Pesado. Praticamente todos os filmes podem ser definidos em função destes eixos. Por exemplo, Sózinho em Casa, uma comédia exagerada, está numa ponta do eixo Leve e do eixo Surreal. Já Seven, um thriller denso e barroco, está numa ponta do eixo Surreal, mas na extremidade oposta do eixo Pesado. Tanto um como outro não enganam o espetador; ao fim de poucos minutos do 1º ato já sabemos o que podemos esperar do resto do filme.

O TEMA é a questão humana, social, filosófica, que o filme tenta responder. É, grande parte das vezes, a verdadeira razão por que o guionista quis escrever uma determinada estória, mesmo que ele não tenha noção disso. Não é (ou não deve ser) um elemento óbvio, e por vezes é preciso ver todo o filme, e refletir bastante, para o perceber. Mas também é normal que algumas cenas, ou momentos, do 1º ato, dêem uma pista sobre ele.

Finalmente, o ESTILO diz respeito a todas as opções tomadas para a narrativa. Muitas dessas opções – realização, fotografia, edição, música, interpretações – são da responsabilidade de outros intervenientes, mas muitas outras estão já definidas no guião. Juno não seria o mesmo filme sem o estilo caraterístico dos diálogos de Diablo Cody, a autora. Os primeiros vinte minutos de There Will Be blood, sem um único diálogo, também definem logo à partida um estilo para esse grande filme.

Estes quatro elementos do ADN de um filme serão desenvolvidos num artigo posterior, mas o importante é realçar que eles ficam normalmente definidos desde o 1º ato, muitas vezes desde a 1ª sequência, e raramente mudam no decurso da estória. São muito raros os exemplos de filmes que tenham conseguido introduzir na narrativa com sucesso uma mudança radical de um ou mais destes vetores.

Momentos importantes do 1º ato

Como vimos os elementos essenciais da estória – o mundo original, protagonista, questão dramática principal, elenco complementar e ADN da estória – são apresentados no 1º ato. Podemos identificar quatro momentos chaves para o fazer-

O arranque

Se os últimos minutos de um filme são fundamentais para o seu sucesso, as primeiras páginas são cruciais para o sucesso de um guião. O final define em grande medida a opinião do espetador; o arranque determina quase por inteiro o interesse de um leitor – produtor, realizador, ator ou financiador.

É pois muito importante pensar bem a cena ou sequência inicial de um guião, fazendo com que ela transmita o máximo de informação sobre os componentes e o ADN do filme. Isso implica, normalmente, que essa sequência seja escrita e rescrita várias vezes, enquanto procuramos a forma ótima para agarrar o leitor/espetador.

Uma das regras de escrita de cinema é entrar numa cena o mais tarde possível, e sair dela o mais cedo que se consiga. Isto também se aplica às estórias; devemos começar a nossa estória o mais perto possível do início da verdadeira ação, do caudal principal da narrativa. Muitas vezes isso significa mesmo começar in media res, no meio da ação. É o que acontece no já referido A Origem, ou em Estado de Choque, só para dar dois exemplos.

Isto não quer dizer que todos os filmes tenham de começar com uma explosão, como os  exemplos referidos. Os Condenados de Shawshank, por exemplo, começam apenas com Andy embriagado, segurando numa pistola, enquanto assiste à traição conjugal da mulher. O Padrinho começa com uma longa cena entre o Don e o pobre cangalheiro Bonasera, em que ficamos a saber tudo o que precisamos sobre as relações de poder que vão estar em jogo ao longo do filme. 72 Horas começa com um jantar e uma discussão entre cunhadas. A Selva começa com um ataque de índios amazonenses a um acampamento no seringal. Juno começa com a protagonista a beber quantidades desproporcionais de sumo. Sideways começa com Miles a procrastinar as suas obrigações na casa de banho. Todos começos diferentes, mas todos interessantes.

Há mil maneiras de arrancar com uma estória. Temos apenas de escolher aquela que é mais relevante e atrativa para a nossa.

O Gatilho (inciting incident)

O GATILHO é o segundo momento chave do 1º ato. É, como referimos antes, aquele evento chave que vem abanar o sem o equilíbrio aparente do mundo original. Sem este incidente a estória não se colocaria em marcha. Se Frodo Baggins não recebesse um certo anel para guardar, a sua vida continuaria calma e tranquila, e não haveria O Senhor dos Anéis; se Olive não fosse convocada para a final do Little Miss Sunshine a sua família continuaria calmamente disfuncional; se Andy não fosse julgado e condenado pela morte da mulher nunca iria ser um d' Os Condenados de Shawshank.

Linda Seger refere nos seus livros que, por vezes, não é fácil identificar um Gatilho (a que ela chama catalizador) individual. O despoletar da ação resulta, nesses casos, de um acumular de eventos  e tensões, que causam a disrupção do equilíbrio original. Estes "catalizadores de situação", como ela os define, são um pouco mais raros, mas constituem obviamente uma opção para qualquer guionista, desde que adequados à sua estória.

A resistência

É também muito comum que o protagonista, apesar de confrontado com o evento disruptor do equilíbrio do seu mundo, resista à ideia de agir para tentar repô-lo. Todos somos na realidade vítimas de alguma inércia. Raras são as pessoas que face a um problema se atiram de imediato à sua resolução.

Esta fase de resistência à mudança, de ouvidos mocos, é muitas vezes aproveitada para introduzir na estória outros personagens e enredos secundários. O protagonista procura conselhos; esforça-se a todo o custo para fingir que nada se passou; assobia para o lado e tenta seguir em frente; até que as coisas se revelam sem solução, e ele é inevitavelmente obrigado a passar a tomar decisões e a passar à ação.

Em Assalto ao Arranha-céus o Gatilho é a entrada do bando de criminosos e a tomada dos reféns. Mas John MacLane não começa de imediato aos tiros. Foge, esconde-se, tenta avaliar a situação; procura negociar. Só quando um dos reféns é abatido a sangue frio ele percebe que está por conta própria, e é o único a poder fazer alguma coisa para inverter o rumo dos acontecimentos.

A 1ª viragem

A este momento do compromisso do protagonista com a ação; do seu envolvimento definitivo e irreversível com a estória; chama-se, como vimos antes, a 1ª Viragem, que assinala a transição do primeiro ato para o segundo ato.

Em Little Miss Sunshine é o momento em que a família embarca na carrinha Volkswagen e começa a viagem; em A Tempo e Horas é o momento em que Peter aceita boleia de Ethan; en A Ressaca, a cena em que os vários personagens acordam da bebedeira com um tigre no quarto.

É, como podemos ver, um evento, cena ou sequência geralmente fácil de identificar, que nos assinala o momento em que o motor da nossa estória atinge a velocidade de cruzeiro e ficamos prontos para seguir viagem.

Juno: o 1º ato detalhado

Juno é um pequeno filme que passou despercebido a muita gente até ganhar o Oscar de melhor argumento original. Na altura falou-se muito da sua autora, Diablo Cody, uma ex-dançarina e blogger que acertou na mouche com este seu primeiro guião, mas o filme merece muito mais do que isso. Tem uma escrita ágil, diálogos ricos, personagens credíveis, um humor muito próprio e um enorme coração, sem pieguice.

É também um exemplo perfeito de como uma estória original, com um ADN 100% próprio, pode ter uma estrutura totalmente clássica. A análise do seu 1º ato mostra-nos exatamente isso:

1º Ato

  • Outono. Juno McGuff, a protagonista, observa uma cadeira abandonada e bebe sumo.
  • Flashback para o seu momento sexo com Bleeker.
  • Genérico inicial animado, com passeio de Juno pelos subúrbios.
  • Na farmácia. Juno vai fazer o terceiro teste de gravidez.
  • 05.00 Início do GATILHO (Inciting Incident) – Teste dá positivo.
  • Juno reflete sobre a sua situação.
  • Juno telefona a Leah com a notícia. Falam de aborto.
  • Juno está com Leah, analisando opções.
  • Flashback para aula de espanhol com Bleeker.
  • Juno monta "cenário" à porta de Bleeker.
  • Bleeker prepara-se para correr.
  • 09.30 Fim do GATILHO (Inciting Incident) – Juno dá a notícia a Bleeker. Ele dá-lhe liberdade para fazer o que achar melhor.
  • Na escola. Numa aula com Bleeker assiste a uma discussão de um casal.
  • Juno telefona à clínica de aborto.
  • Juno recorda a mãe em VO e apresenta a família – pai, madrasta e irmã.
  • No exterior da clínica encontra colega manifestante anti-aborto. Ela fala-lhe nas unhas dos bebés.
  • Enfrenta a burocracia na clínica.
  • Na sala de espera da clínica recorda as unhas dos bebés. Desiste.
  • Juno com Leah, falam de adopção.
  • Lêem anúncios de adoção no parque. Gostam da fotografia de Mark e Vanessa.
  • Bleeker em casa. A mãe de Bleeker não gosta de Juno.
  • 25.00 PRIMEIRA VIRAGEM (1º turning point) – Juno dá a notícia aos pais e fala-lhes no seu plano de dar o bebé para adoção.

O 1º ato de Juno mostra-nos o mundo original – o status quo – em que a estória arranca: um bairro de subúrbios, calmo, tradicional; um liceu igual a tantos outros; uma família perfeitamente normal para este ambiente e época. Estamos na América contemporânea, suburbana e normalizada.

Apresenta-nos, também, sem qualquer margem para dúvidas, a protagonista do filme: Juno MacGuff, uma adolescente original, decidida, confiante, com um sentido de humor muito peculiar.

A questão dramática principal do filme é igualmente colocada de uma forma claríssima: como é que esta miúda, com quem simpatizamos instintivamente, vai lidar com um acontecimento que tem potencial para abalar todo o seu mundo – a gravidez inesperada?

O 1º ato de Juno apresenta ainda quase todos os personagens complementares da estória: Paulie Bleeker, o semi-namorado; a sua melhor amiga Leah; os pais, Bren e Mac; e até, indiretamente, os futuros pais adotivos, Mark e Vanessa. São também tocadas mini-tramas secundárias, apesar delas terem pouca importância neste filme: nomeadamente, a relação com Paulie e com a madrasta Bren.

Finalmente, o ADN do filme também é marcado com clareza nestas primeiras páginas/minutos. Estamos perante uma comédia juvenil, de tom leve mas firmemente assente na realidade, que nos fala da responsabilidade individual, com um estilo de humor suave assente em diálogos sofisticados.

Analisando sequencialmente este primeiro ato, vemos que começa com a ação já em curso (in media res): Juno já está grávida, sabe que o está, mas tem dificuldade em acreditar. As primeiras cenas, com o comportamente meio estranho de Juno, que recorda o passado olhando para uma cadeira abandonada enquanto bebe litros de sumo de laranja, agarram-nos de imediato. Não é "mais uma" comédia juvenil; é uma comédia com uma personalidade vincada, que por acaso é narrada por uma protagonista jovem.

O inciting incident de Juno assume uma forma muito particular. Em vez de se concentrar numa única cena, estende-se por uma sequência de cinco minutos que vai desde a confirmação definitiva da gravidez, até ao momento em que Juno percebe que terá de tomar todas as decisões sozinha.

Juno decide então abortar. Dado que, como veremos depois, o filme conta a estória da sua gravidez e plano para arranjar pais adotivos, a opção pelo aborto corresponde à fase da resistência.

Finalmente, quando Juno decide não abortar e, em vez disso, aponta para a adoção, começa a tomar forma a entrada no 2º ato. Mas é só quando ela dá a notícia à família, e obtém o apoio da madrasta e do pai, que fica definitivamente comprometida com esse rumo de ação.

Essa cena é, na minha opinião, o primeiro ponto de viragem, pois na sequência seguinte ela já vai conhecer Mark e Vanessa. O 2º ato começa o seu curso.

Conclusão

Na análise de Juno vimos que o primeiro ato tem cerca de 25 minutos, correspondentes a 30 páginas no guião. Como o filme tem, no total, 96 minutos, o primeiro ato ocupa mais ou menos um quarto da sua duração.

Esta medida de 25% é bastante normal. Grande parte dos filmes podem ser divididos em quatro partes mais ou menos equilibradas: o 1º ato; a 1ª metade do 2º ato, até ao ponto médio; a 2ª metade do 2º ato, até à segunda viragem; e o 3º ato.

É claro que não se pode escrever com fita métrica. A escrita é uma arte, e como tal suporta um número infinito de variações e de nuances. Mas se pretendemos escrever um guião nos moldes clássicos – que se adapta perfeitamente à maior parte das narrativas – devemos ter estas proporções em atenção.

Outra coisa que a experiência mostra é que muitos dos problemas do 2º  e 3º atos  têm origem em opções erradas que form tomadas na escrita do 1º ato. Por isso, frequentemente, é mais proveitoso regressar ao 1º ato para corrigir esses problemas de raíz, do que estar a tentar remediá-los mais à frente.

O Discurso do Rei: campeão de indicações

Nesse Oscar 2011, o campeão de indicações concorrendo em 12 categorias é o filme O Discurso do Rei, dirigido por Tom Hooper e escrito por David Seidler. Entre as categorias que ele pode levar a estatueta está a de melhor roteiro original e melhor filme tendo como maior oponente o filme A Rede Social .

O roteiro de David Seidler, que conta a história do rei George VI e seus problemas de fala, se passa em um momento histórico tenso para a família real britânica: véspera da II Guerra Mundial e em meio a uma crise de sucessão ao trono. O roteiro explora muito bem os vários níveis de conflito que um personagem pode estar envolvido. O mesmo rei que precisa conduzir sua nação a mais uma guerra mundial, também precisa lidar com seus traumas internos e as pressões familiares. Além, é claro, de ser o Rei e isso por si só é um enorme conflito para ele.

O grande desafio é um discurso feito na rádio para toda a nação, anunciando a entrada na Guerra. Mas para superar todos os obstáculos conta com seu médico e amigo Lionel Logue. O roteiro incorporou citações originais tiradas dos diários de Logue, que foram descobertos nove semanas antes do início das filmagens pelo neto Mark Logue e que posteriormente viraram livro.

O filme, que mostra a rainha Elizabeth II ainda menina, foi assistido pela monarca e, segundo a agência de notícias EFE, ela se emocionou com a história: “Faz você se sentir muito humilde”.

"Esta história foi escrita e filmada com grande amor, admiração e respeito com o pai de Sua Majestade. O fato de ela ter respondido favoravelmente é algo incrivelmente gratificante", concluiu Seidler.

Uma curiosidade: David Seidler também era gago quando criança. A frase comum nos livros de roteirismo “escreva sobre algo que conheça” faz algum sentido nessa história, não é?

Vencedores dos Writers Guild Awards 2011

A associação de guionistas americanos já escolheu os seus vencedores para este ano.

Os Writers Guild Awards, anunciados ontem, premiaram Christopher Nolan, pelo seu Argumento Original A Origem e Aaron Sorkin, na categoria de Argumento Adaptado, por A Rede Social.

A lista completa de nomeados pode ser consultada aqui.

Na categoria de melhor documentário foi escolhido Inside Job – A Verdade da Crise, de Charles Ferguson, Chad Beck e Adam Bolt.

Quanto à televisão, Mad Men, Modern Family, Boardwalk Empire, The Colbert Report e The Special Relationship receberam prémios para melhores séries, havendo ainda prémios para melhores episódios de Mad Men, 30 Rock e The Pacific.

2010 – O Ano da Profundidade

"I've been saying this since Day One. 3D is the waste of a perfectly good dimension." — Roger Ebert

Avatar lançou o mote no último mês de 2009. Em 2010, os estúdios lançaram-se em massa à loucura do 3D. Este foi, sem dúvida, o ano da profundidade: filmes de acção, fantasia, animação, terror, documentários – parece que todos tiveram algo a mostrar em 3D.

Mas a minha preocupação, e que começa a ser a preocupação de muita gente ligada ao cinema, é: e contar? Será que todos eles tinham algo a contar?

Em meados de 2010 circularam notícias que os estúdios em Hollywood começavam a aprovar e rejeitar guiões baseados na quantidade de cenas em 3D que contemplavam. Um guionista dizia mesmo que "tal como num episódio de uma série de comédia se tenta ter três piadas por página, tentara ter um momento em 3D a cada 8 a 10 páginas."

Walter Murch, editor de filmes como Apocalypse Now e O Paciente Inglês, apresenta-se cético. Para ele há vários problemas com o 3D, como tornar a imagem mais pequena, mais escura e indutora de dores de cabeça. O maior problema, diz este especialista, é que o cérebro humano simplesmente não está preparado para ter o ponto de focagem e o ponto de convergência da visão em locais diferentes. Como o ecrã está sempre à mesma distância, o foco é sempre o mesmo. Mas a visão é obrigada a convergir mais perto ou mais longe que essa distância conforme a ilusão dos efeitos 3D. É por esse motivo que tanta gente se queixa de dor de cabeça quando vê filmes 3D.

No entanto, para muitos, o pior nem é isso. O pior é a mudança de foco da história para os efeitos visuais e a tecnologia.

Kieran Mulroney, que está actualmente a trabalhar no guião para o segundo filme de Sherlock Holmes, teme que se os filmes se tornarem puramente espectáculos visuais "que espaço é que sobra para as conversas íntimas à mesa de jantar?"

Só espero que se o 3D passar a ser o novo Technicolor, as personagens e os argumentos não passem a ter menos profundidade.