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Taliban

A Lu trouxe com ela foto­gra­fias recen­tes dos meus filhos. Numa delas o Tomás está com aquele olhar malan­dro que o carac­te­riza, e a cabeía enro­lada numa gaze. Partiu-​​​​a na escola, em cir­cuns­tân­cias mal escla­re­ci­das, e teve de levar três pon­tos. O Fre­de­rico, com aquela sim­pa­tia tão caracterí­stica entre irmãos, alcunhou-​​​​o logo de “tali­ban”. Mas tudo bem — é o meu tali­ban­zi­nho querido.

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De Volta í  Vida

A Lu che­gou ontem. Depois de mais de um mês longe um do outro, revimo-​​​​nos com a ale­gria que seria de espe­rar. Ela, cansadí­ssima da longa via­gem, da longuí­ssima fila dos ser­viíos de fron­tei­ras, das cha­tas buro­cra­cias da che­gada; eu, irri­tado com um polí­cia que quis extorquir-​​​​me dinheiro apro­vei­tando uma legis­laíão recente (que eu nem conhe­cia) que proí­be as pelí­culas de escu­re­ci­mento nos vidros dos car­ros. Ape­sar disso, quando os nos­sos olha­res se encon­tra­ram, tudo vol­tou a ficar bem de novo. É bom estar casado; e apai­xo­nado, melhor ainda.

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Pronto-socorro

O arroz de marisco estava ser­vido no prato, fume­gante, rico em lagosta, cama­rão e choco. Chei­rava. De garfo e faca na mão, varado de fome, lan­cei um olhar em redor antes de me ati­rar à tarefa. Um homem cami­nhava para a casa de banho, alguns metros à minha direita. Mal repa­rei nele, até ao momento em que hesi­tou, parou, e caiu para trás, direito como uma tábua de engo­mar. Ouvi dis­tin­ta­mente o som da cabeça a cho­car com o chão de ladri­lho. Poças! Lá se foi o arroz quentinho…

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Gráfica

Ontem ao fim do dia fui a um pequeno evento orga­ni­zado no Baí­a Bar Lounge — um encon­tro entre pro­fis­si­o­nais de comu­ni­caíão, des­ti­nado a dar-​​​​nos opor­tu­ni­dade de nos conhe­cer­mos uns aos outros. Estava estou­rado, pois tinha feito uma directa nessa noite a ter­mi­nar um tra­ba­lho para um cli­ente. Só tinha saí­do da agên­cia depois do almoío (da hora do dito, por­que almoío mesmo não tive) para apre­sen­tar o tra­ba­lho ao cli­ente e tinha regres­sado para pôr os emails em dia.

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Noitada

São três e vinte e cinco da manhã e estou na agên­cia a bum­bar, como se diz por aqui. Ou melhor, estou í  espera que o A. acabe de bum­bar, para poder rever o tra­ba­lho dele e ir dor­mir. Os meus olhos pare­cem duas bolas de fute­bol depois de uma pela­di­nha num campo da 3ª divi­são. Já não tenho idade para estas cenas…

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Nacionalistas

Saí­ há pouco da ver­nis­sage de uma expo­siíão de arte no antigo Hotel Globo, na baixa de Luanda. “Naci­o­na­lis­tas” é o nome de guerra do grupo de cri­a­do­res ali reu­nido, e “Angola Com­ba­tente” o tí­tulo da mos­tra, orga­ni­zada pela SOSO Arte Con­tem­po­râ­nea e pelo TACCA. Quem não goste de arte con­tem­po­râ­nea, não é ali que vai ficar a gos­tar; quem apre­cie, não se vai sen­tir defrau­dado. O con­junto de obras em várias téc­ni­cas, desde a foto­gra­fia de grande for­mato í  gra­vura, pas­sando pela pin­tura, escul­tura e dese­nho, tem uma grande homo­ge­nei­dade, quer de qua­li­dade quer de influências.

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A Selva

Hoje vi “A Selva” no Luso­mundo Gal­lery. “A Selva”, ou o que res­tou dela, depois de um corte e recorte “sel­vá­tico” (perdoem-​​​​me o tro­ca­di­lho). Não sei quan­tos minu­tos reti­ra­ram a esta ver­são tele­vi­siva, mas o que sobrou tem tan­tos bura­cos nar­ra­ti­vos, tan­tos sal­tos, tan­tas falhas e inco­e­rên­cias que mal se man­tém de pé. Se se encur­tar demais uma manta, chega uma altura que os pés comeíam a ficar destapados.

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Provérbio

Ainda da mesma homi­lia (que, como se vê, foi rica em sabe­do­ria popu­lar) um dito antigo angolano:

“Não apa­gues as pega­das do leão”.

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Natchamba

Na missa de hoje, na Sagrada Famí­lia, o padre enri­que­ceu a homi­lia com uma his­tó­ria tra­di­ci­o­nal sobre a ingra­ti­dão. Reza assim:

Havia uma macaca cha­mada Nat­chamba que vivia perto de uma aldeia. Ora na aldeia houve um casa­mento. O jovem casal comeíou a vida em comum e, pouco depois, já tinha um bebé. Para garan­tir o seu sus­tento a mãe comeíou a cui­dar de um lote de terra, mas o bebé cho­rava e não a dei­xava tra­ba­lhar. Nat­chamba teve pena dela e des­ceu da árvore para dar “ó-ó” í  cri­a­nía. Esta ador­me­ceu e dei­xou a mãe tra­ba­lhar. No fim do dia a macaca devol­veu o bebé í  mãe com uma men­sa­gem: “Eu sou a Nat­chamba, venho pelo bem, pela paz e pela gene­ro­si­dade. Mas o mal virá da aldeia”.

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Festa com Figo

Sexta feira à noite houve festa. O Tiago, um colega de tra­ba­lho, estreou-​​​​se como orga­ni­za­dor de even­tos e pro­mo­tor de fes­tas aqui em Luanda. E a estreia foi pro­mis­sora — mais de mil pes­soas enche­ram o antigo Cine Loanda, actual Luanda Even­tos, e dan­ça­ram até às seis da manhã.

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Pilas

Um hábito desa­gra­dá­vel que os ango­la­nos (ou, pelo menos, os luan­den­ses) têm é o de uri­nar para onde estão vira­dos. Quando a neces­si­dade aperta, inde­pen­den­te­mente de onde estão ou de que horas sejam, sacam do ins­tru­mento e aliviam-​​​​se. É ver­dade que todos nós, num momento de pres­são e deses­pero, já fize­mos isto — de algum lado vem o ditado “quando mija um por­tu­guês…”. Mas nor­mal­mente é í noite, depois de uns copos a mais, e sem­pre apro­vei­tando o escuro de uma viela ou a pro­te­cíão de uma árvore. Aqui, não. Se for í hora de ponta, na ave­nida mais movi­men­tada da cidade, e calhar esta­rem vira­dos para o trân­sito, é nessa dire­cíão que a arma dis­para. Acho que vou comeíar a fazer um estudo cientí­fico de for­mas e dimen­sões — já sei que todos os dias terei dois ou três espé­ci­mes novos para analisar.

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Kalulu

A minha cozi­nheira Domin­gas presenteou-​​​​me hoje com um prato típico ango­lano: o kalulu de carne seca. O G., um colega bra­si­leiro, almo­çou comigo e pode con­fir­mar que o resul­tado foi exce­lente. Aqui fica a receita:

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Update Marburg

Do site da Nexus, que está sem­pre mais ou menos actu­a­li­zado, as últi­mas notí­cias sobre a epi­de­mia de febre hemorrágica:

As auto­ri­da­des sani­tá­rias ango­la­nas não regis­ta­ram nenhum caso novo de febre hemor­rá­gica pro­vo­cada pelo ví­rus de Mar­burg nos últi­mos dois dias, o que acon­te­ceu pela pri­meira vez desde que a epi­de­mia foi decla­rada em Angola, em mea­dos de Marío.

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Nota técnica

Para quem tenha curi­o­si­dade por estas coi­sas da net, este blog é man­tido gra­ças a um pro­grama “open source” (isto é, grá­tis) cha­mado Word Press.

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Cacimbo

Esta­mos na época mais fria do ano — fria e seca — a que aqui se chama o “cacimbo”. Um segu­ra­nía a quem per­gun­tei se a tem­pe­ra­tura ainda iria bai­xar mais garantiu-​​​​me que o dia 25 de Junho iria ser o mais frio do ano. í€ parte este excesso de rigor mete­re­o­ló­gico parece que sim, que ainda vai ficar mais fresco. Por mim, óptimo. Os dias são quen­tes sem ser escal­dan­tes, e as noi­tes con­vi­dam a usar cami­sas de manga com­prida e, por vezes, até um casa­qui­nho leve. Para nós, os expa­tri­a­dos, a vida fica um pou­qui­nho mais fácil.

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Dodó Miranda

Na terça-​​​​feira pas­sada arran­jei um con­vite para assis­tir a um con­certo no Hotel Tró­pico orga­ni­zado pela Embai­xada da Noru­ega no âmbito do pro­grama de come­mo­ra­ções do cen­te­ná­rio da inde­pen­dên­cia do paí­s. Aqui em Luanda estas oca­siões são para agar­rar com quan­tas mãos se tiver ao pé (para­fra­se­ando um céle­bre comen­ta­dor des­por­tivo), pois os even­tos cul­tu­rais não são tão nume­ro­sos como seria desejável.

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Fim de Semana

Este fim de semana foi bem ocupado.

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Chineses

Angola está cheia de chi­ne­ses, mas pas­sam des­per­ce­bi­dos. Estão cá em vir­tude de uma linha de cré­dito de não sei quan­tos biliões de dóla­res que o governo chi­nês abriu a Angola, tendo como con­tra­par­ti­das a adju­di­caíão de mui­tos tra­ba­lhos na cons­truíão e obras públi­cas a empre­sas chi­ne­sas. Com elas vie­ram mui­tos — não faío ideia quan­tos — téc­ni­cos e tra­ba­lha­do­res chi­ne­ses. É raro vê-​​​​los nas ruas durante o dia; pro­va­vel­mente esta­rão a tra­ba­lhar, coisa a que sem­pre se dedi­ca­ram com afinco. Tam­bém não apa­re­cem í  noite, nos res­tau­ran­tes e locais de conví­vio; devem esconder-​​​​se entre os da sua comu­ni­dade, como aliás fazem em todo o mundo. Onde temos uma melhor per­ce­píão da dimen­são rela­tiva da sua pre­se­nía é nos super­mer­ca­dos, ao fim de semana. Ainda ontem de manhã, na Mar­tal, cruzei-​​​​me com meia dúzia, num esta­be­le­ci­mento rela­ti­va­mente pequeno. Faz-​​​​me lem­brar aquele velho dito espa­nhol: “Não acre­dito em bru­xas — mas lá que as há, há.

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Cambistas

Uma das “pro­fis­sões” tí­picas aqui de Luanda são as cam­bis­tas, ou kin­gui­las. Digo “as” por­que, curi­o­sa­mente, a maior parte dos envol­vi­dos no mer­cado negro de dinheiro são mulhe­res. Cos­tumo vê-​​​​las sen­ta­das pela cidade, junto aos mer­ca­dos, perto das lojas, aba­nando vigo­ro­sa­mente os molhos de notas como leques, para afas­tar o calor e atrair cli­en­tes. O seu negó­cio é sim­ples — tro­cam os dóla­res no banco que esti­ver a dar melhor cotaíão, e depois compram-​​​​nos na rua aos cli­en­tes, com uma cotaíão dois ou três kuan­zas abaixo. Peque­nas mar­gens que, soma­das, lhes dão para sobre­vi­ver. Para pros­pe­rar, já não sei…

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Prémio

A agên­cia rece­beu um bronze no Fes­ti­val de Espi­nho, dedi­cado í  publi­ci­dade em lí­ngua por­tu­guesa. É o pri­meiro da agên­cia e, se não me engano, de qual­quer agên­cia ango­lana. Ainda não con­se­gui falar com o C., que está em Por­tu­gal a representar-​​​​nos no Fes­ti­val, mas está segu­ra­mente satis­feito com o pré­mio, até por­que a dire­cíão de arte é dele. Os anún­cios ficam aqui para apreciaíão.

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