Preços

Os preços de Luanda são absurdos. Está absolutamente fora de questão comer fora com a mesma frequência com que o fazemos em Portugal.

Felizmente temos cozinheira, o que nos permite almoçar e jantar normalmente em casa, reservando as saí­das para ocasiões mais especiais, ao fim de semana.

Mas mesmo este sistema não sai barato. Os preços nos supermercados são igualmente muito elevados. Por exemplo, uma garrafa de azeite custa oitocentos e tal kuanzas, mais de oito euros.

Estamos agora a descobrir outros fornecedores. Já compramos fruta na rua, às vendedoras ambulantes, e a Lu aventurou-se a ir com a cozinheira a um mercado na ilha de Luanda, para comprar peixe. Trouxe uma garoupa enorme, fresquí­ssima, que deu para várias refeições, por um preço inferior ao que encontrarí­amos no supermercado.

Saudades Extra

Pequenas coisas de que tenho saudades:
– de poder lavar os dentes com a água da torneira;
– de colocar gasolina no carro sem perder meia hora na bicha;
– de revistas;
– de ter internet em casa;
– do meu colchão;
– de poder dormir sem o ar condicionado ligado.

Cabo Ledo

No fim de semana passado fomos a Cabo Ledo, uma praia paradisí­aca a 120 km a sul de Luanda. A estrada até lá está em boas condiíões, mas a ligaíão final í  praia faz-se por uma picada abrupta em terra batida. Tivémos sorte por já não chover há alguns dias e o caminho estar completamente seco, ou o nosso Nissan Micra nunca teria conseguido chegar í  praia. Mesmo assim tivemos de ir com muito cuidado, em passo de caracol, fugindo í s valas e buracos. Mas valeu o trabalho – a praia é linda, limpa, sossegada, e tem um aldeamento de bungallows onde iremos seguramente passar a noite na próxima vez que lá voltarmos. A Sharon também gostou do passeio – mal chegou tomou posse da praia, que estava quase deserta, e passou o tempo todo a correr de um lado para o outro. Estava tão atrevida que tentou entrar na água atrás de nós, e foi enrolada por uma onda.´Mas não perdeu a boa disposiíão com isso.

Filmagens – II

O dia de filmagens nas Palmeirinhas terminou num tom triste de comédia neo-realista. Quando chegou a altura de pagar í s crianías locais que participaram no filme, e de agradecer a colaboraíão da aldeia com algumas ofertas í  populaíão, esta tinha-se multiplicado milagrosamente, engrossada (possivelmente) por parentes, amigos e conhecidos vindos das redondezas. E “engrossado” é mesmo o termo certo – quase todos os homens, e grande parte das mulheres, estavam completamente ébrios.
Gerou-se uma enorme confusão, que se agravou quando o soba – o administrador local – tomou posse dos presentes que levávamos e se fechou a sete chaves na sua cabana.
Saí­ de lá com um certo amargo de boca, pensando naquelas gentes que nos viram chegar, trabalhar e partir, sem que isso tivesse contribuí­do para melhorar as suas condiíões de vida.

Filmagens

Passei o último fim de semana em filmagens, a gravar um anúncio para um dos principais clientes da agência. É o primeiro projecto que acompanhei do iní­cio ao fim desde que cá estou, e serviu-me para ter uma ideia um pouco mais correcta das capacidades e limitaíões, técnicas e humanas, do mercado local.
O realizador do filme e o director de fotografia, o V. e o R., vieram de Portugal para passar algumas semanas connosco, ao abrigo de um acordo de formaíão entre a agência e uma grande produtora portuguesa. Aproveitámos a sua estadia para os envolver neste projecto, que ambos abraíaram com um entusiasmo e uma dedicaíão totais.
No primeiro dia de gravaíão, passado num local perto da barra do Kuanza, chamado de Palmeirinhas, os dois imprimiram um ritmo arrasador a toda a equipa, indispensável para conseguir cumprir um plano de trabalho muito ambicioso. Rodámos mais de vinte planos num só dia, com recurso a todos os meios que tí­nhamos ao nosso dispor: charriots, steadycam, praticáveis, iluminaíão, etc. O V. e o R. deram o exemplo não parando sequer um minuto, nem para almoíar, e só assim conseguimos chegar ao fim com todo o material que precisávamos.
No momento em que escrevo isto já vi o filme terminado, e posso dizer com total honestidade que estou plenamente satisfeito com o resultado. Ficaria contente em qualquer lugar e altura, mas ainda mais aqui e agora, depois de ver como foi difí­cil levar este trabalho a bom porto.
Palmeirinhas

Mussulo

Já fomos duas vezes ao Mussulo. Para quem não sabe do que se trata, é uma pení­nsula estreita e comprida situada alguns quilómetros a sul de Luanda. Uma das suas margens está virada para o continente, formando uma baí­a de mais de trinta quilómetros de comprimento. A outra margem, a contra-costa, batida por ondas suaves, abre-se para as águas quentes do Atlântico.

Da primeira vez fomos com o L. e a famí­lia, e com um grupo de amigos deles, todos portugueses a trabalhar mais ou menos permanentemente em Angola. Deixámos o carro estacionado no clube náutico militar e atravessámos a baí­a no barco do F., um desses amigos.

Ficámos na "lí­ngua", nome que dão à  extremidade da pení­nsula. É uma zona quase deserta, sem qualquer tipo de infra-estrutura. Apenas areia, sol e mar. Passámos o dia enfiados dentro de água, tentando fugir ao calor abrasador.

Na segunda visita ao Mussulo já fomos sozinhos e levámos a Sharon. O carro ficou guardado no mesmo sí­tio e procurámos um barqueiro local para nos levar para a "lí­ngua".

A travessia não é nada barata: ida e volta, mil kuanzas por pessoa, cerca de dez euros. Mas valeu a pena – levámos chapéu de sol e uma geleira com sanduí­ches e bebidas frescas, e um saco térmico cheio de gelo, e passámos um dia sossegadí­ssimo, a ler, conversar, tomar banho e brincar com a cadela.

A praia do lado da baí­a estava bastante suja, com resí­duos e lixo variado arrastado pelas águas; latas, garrafas, madeiras, sapatos, etc. Mas do lado oceânico a água faz lembrar Montegordo em dia de levante: turva, quente e batida por uma ondulação forte.

Os meninos teriam adorado passar o dia aqui.

Mercado Informal

O mercado informal, como a Lu lhe chama, é um dos principais motores do comércio local. Segundo me dizem, está nas mãos de comerciantes paquistaneses e libaneses que importam os produtos do sudoeste asiático e os distribuem a partir de armazéns situados na periferia. A qualquer hora do dia enxames de vendedores de rua cercam os carros nos cruzamentos, oferecendo os produtos mais dí­spares e inesperados. Antigamente vendia-se de tudo, desde mobí­lia de sala a televisores e electrodomésticos. Mas ao que parece a fiscalizaíão económica tem vindo a apertar e hoje limitam-se a produtos que não atrapalhem as fugas de emergência. Mesmo assim, hoje, depois do almoío, no meu trajecto entre a casa e a agência, poderia ter comprado lâmpadas, pilhas, pão, água, refrigerantes, porta-chaves, capas para fatos, macacos hidráulicos, chaves de cruzes, bolsas, sandálias e sapatos, pastilhas elásticas, bolachas, calculadoras e rádios, coberturas de volantes, jogos de xadrez, fichas eléctricas, um tapete de sala, cd’s e dvd’s variados e formas para gelo. É como andar num hipermercado ao ar livre, percorrendo as ruas sentados dentro de um carrinho de compras.

Kotas

Jantei com o J. e alguns outros kotas. Espero que a palavra, de origem angolana, não tenha para eles qualquer significado pejorativo; para mim expressa apenas respeito pela sua maior experiência.
Encantaram-me com histórias do antigamente; um antigamente que ao fio dos copos e do tilintar do gelo se estendeu desde as fofocas de ontem até casos ocorridos muito antes da independência.
Aprendi.

Luanda de dia

Luanda tem uma cara diferente de dia, como uma mulher bonita que nos apresentam num bar e com quem acordamos de manhã sem ter tido tempo para a conhecer bem.

Despida da maquilhagem da noite, vêm-se-lhe as rugas, os pés-de-galinha, todas as cicatrizes e sinais.

Mas não é por isso que deixa de ser bonita, apesar dos traços de uma vida difí­cil e de muitos maus tratos .

Cheguei

Domingo, pouco antes das 20 horas, desembarquei em Luanda. O ar quente e húmido e o aroma rico e penetrante recordaram-me imediatamente Manaus – memória agradável, obviamente. A viagem não teve surpresas nem sobressaltos; um pouco de turbulência a meio caminho, nada que me tirasse o sono nem a fome. Tive a companhia do F., jovem director de arte, surfista nos tempos livres, que vem trabalhar na agência.
O N. e o J. estavam í  nossa espera, logo í  saí­da das duas longas filas do controlo de passaportes e da alfândega. Com eles o C., director criativo da agência. Depois dos abraíos e cumprimentos da praxe levaram-nos í  guest house da agência, onde vou ficar provisoriamente instalado até o apartamento estar pronto.
Apesar de ser domingo, a rua estava cheia de gente, animada pelos 90.000 w de um trio eléctrico estacionado a dois ou três quarteirões do local. O restaurante onde jantámos também tremia com o som do show de três rappers americanos ali mesmo ao lado, no palco do cinema Karl Marx. Muita música, muito calor, muita animaíão.
Cheguei a ífrica.

Casa nova

A agência mudou-se recentemente para novas instalações, construí­das de raiz perto da praça da Independência, com vista para a bancada onde as personalidades do regime assistem aos desfiles e comí­cios importantes. As condições são excelentes, em termos de espaço e conforto. Toda a gente parece satisfeita com a sua casa nova, e têm razões para isso.

Mantorras

Assisti ao Benfica-Boavista durante o jantar. Boas notí­cias: os jogos importantes passam quase todos cá.

O Benfica ganhou por 4-0, com golos do Simão, do Nuno Gomes (2) e do Mantorras. Este último foi saudado por quase toda a gente que estava no restaurante.

A excepção foi o F., lagarto de gema, ainda por cima ressabiado com a derrota dos verdes em casa do Nacional da Madeira. Se somarmos a isto o empate do Porto e a derrota do Braga, foi uma jornada quase perfeita.

Saudades

De que é que eu vou ter saudades em Angola, para além, obviamente, da famí­lia, dos amigos, dos colegas e da casa? Arrisco um top ten provisório:

  • Pequenos almoços junto ao lago
  • O sol quente nos dias frios
  • Sintra a qualquer hora
  • Lisboa ao entardecer
  • Os jogos do Benfica em famí­lia
  • A FNAC e a Tema
  • Os disparates da campanha eleitoral
  • A comida da minha mãe
  • O Cinema City da Beloura
  • Regressar a casa pela Marginal ao fim do dia

Daqui a um mês actualizo este post.

Surprise!

Quando esta noite cheguei a casa dos meus pais para jantar, depois de finalmente ter conseguido levantar o visto para Angola, a última coisa que esperava era encontrar toda a famí­lia í  minha espera. Tinham preparado para mim e para a Lu uma festa-surpresa que, ainda por cima, foi mesmo surpresa.

Obrigado, pai, mãe, Carla, André, Miguel, Patrí­cia, Ruca, Inês, tio Zé, tia Ana, tio António, tia Nanda, tia Luí­sa, Tiago, Verinha, Gué, Margarida, Afonso, Bernardo, David, Analu (e anexo), Pedro, Rodrigo, Carmelinda, Ana Isabel, Luí­s Miguel, tia Milú, Damião, Idalina, Eunice, Rui, Catarina, Rui Pedro e, claro, Frederico e Tomás. Que Deus vos abeníoe a todos.

Ora pópilas!

Com a ida para Angola às portas reli o último romance de José Eduardo Agualusa. O Vendedor de Passados combina uma escrita assumidamente borgesiana com um toquezinho de Paul Auster e uma enorme fluidez e simplicidade.

É um livro para ler depressa e reler devagar. Devora-se de uma só enfiada, como é costume dizer-se da boa literatura popular e, pelos vistos, da boa literatura "ponto final". Mas uma segunda passagem revela a técnica cada vez mais segura do escritor, o seu perfeito domí­nio da lí­ngua e uma enorme riqueza de ideias, conceitos, sentimentos.

Além disso, a leitura de O Vendedor de Passados teve o condão de me recordar uma expressão que só me lembro de ter ouvido ao meu avô João, também ele angolano, embora de outras épocas. Precisamente, o "pópilas!". Só por isso já valeu a pena…

Strange fruit

As ruas ainda estão cheias de Pais Natal pendurados nas posições mais incrí­veis. De frente, de costas, amarrados pelos pulsos, acachapados contra as paredes, entalados em janelas.

Até já vi um suspenso pelos braços, com as calças para baixo, revelando um obsceno rabo de pano cor de rosa.

Só me faltou encontrar um Pai Natal enforcado, como um fruto estranho da canção da Billie Hollyday. Mas não quer dizer que ele não esteja por aí­.

Um pouco de história

Nasci em Angola em 1961 mas vim para Portugal ainda a tempo de fazer dois anos. Como é natural, não me lembro de nada desse perí­odo que passei abaixo do equador.

No iní­cio de 2004 fui convidado para participar num projecto profissional que me daria a possibilidade de passar alguns meses em Luanda. Agarrei a oportunidade com ambas as mãos. Afinal de contas, propunham pagar-me para concretizar um dos meus sonhos mais antigos – conhecer as minhas origens, a terra de que ouço o meu pai falar com tanta paixão, o paí­s que sempre coloca uma expressão nostálgica e sonhadora em todos os que o conheceram.

Acredito que quando descer do avião, daqui a uns dias, o meu corpo vai reconhecer o que a minha memória apagou: o calor, a humidade, a luz, a cor, os odores e sensações que distinguem cada paí­s de todos os outros. A impressão digital que Angola deixou marcada em mim.

Angola

Eu, a Lu e a Sharon estamos por terras de Angola. Este blog destina-se a dar a familiares e amigos a possibilidade de acompanhar dia a dia a nossa estadia.