Tutorial: Como escrever um guião em Fountain – segunda parte

No artigo anterior desta série dedicada à linguagem Fountain vimos as dez regras básicas que nos permitem escrever a maior parte dos guiões neste formato.

No artigo de hoje vamos aprofundar um pouco mais a sintaxe desta linguagem, vendo os detalhes da aplicação destas regras básicas e indo um pouco mais além.

A página de título

A página de título é sempre a primeira página num guião. Num documento Fountain ela não aparece como uma página à parte, mas sim como um conjunto de metadata nas primeiras linhas do documento. Os programas de conversão usam esta metadata para gerar a página de título.

A informação da página de título é opcional mas, a existir, tem de estar num bloco exatamente no início do documento. Este bloco terá várias linhas, para os vários elementos de metadata que o constituem: título, autor, etc.

Os elementos de metadata são indicados no formato “Chave: Valor da chave”.

A primeira parte, a Chave, é o nome do elemento; a segunda, o Valor, é o seu conteúdo, que aparecerá no guião convertido.

As chaves podem incluir espaços (por exemplo “Draft date”), mas têm de terminar em dois pontos (:).

Os valores que queremos atribuir a cada chave vêm a seguir aos dois pontos.

As principais chaves reconhecidas pelo formato Fountain são as seguintes (sempre em inglês):

  • Title – o valor que lhe atribuirmos, escrevendo-o a seguir aos dois pontos, será o título do guião (por exemplo “O Pedido”);
  • Credit – o valor será o crédito a atribuir (por exemplo “Guião de” ou “Argumento adaptado por”);
  • Author (ou Authors) – o valor será o nome do autor ou autores (por exemplo “João Nunes” ou “Izaías Almada & João Nunes”);
  • Source – o valor será o crédito do material original (por exemplo “Adaptado do romance de Ferreira de Castro”;
  • Draft date – o valor será a data da versão (por exemplo “Abril 2000”);
  • Contact: o valor será o contato do guionista ou produtora (por exemplo “omeuemail@gmail.com”).

Não é obrigatório colocar todos estes elementos de metadata, mas para gerar uma página de título completa é recomendável que pelo menos o Title, Credit, Author e Contact sejam indicados.

Podemos colocar outros pares de metadata no formato “chave:valor”, para nossa informação pessoal, mas não serão reconhecidos na conversão para o formato guião. Por exemplo “Registo IGAC: 12/2000”.

Os valores deuma determinada chave podem ficar na mesma linha dessa chave ou ser distribuídos pelas linhas seguintes. Neste caso deverão entrar depois de três espaços ou uma tabelação, para ficarem corretamente alinhados.

Podemos também usar asteriscos e traços inferiores para sublinhar ou destacar elementos dentro dos valores.

No fim dos elementos introduzem-se dois parágrafos para que seja reconhecida uma quebra de página na conversão.

Vejamos então um exemplo de uma página de título escrita em Fountain:

Title: **_A SELVA_**
Credit: Guião original de
Authors: Izaías Almada & João Nunes
Source: Adaptado do romance de Ferreira de Castro
Draft Date: Junho de 2000
Contact:
    omeuemail@gmail.com
    Tel. (+351) 1234 56789
    Morada tal e tal
Registo IGAC: 12/2000

Na conversão para o formato de guião estes elementos dariam origem a uma página título como a seguinte:

Imagem de folha de rosto de guião
Página de título de um guião

Os elementos essenciais da linguagem Fountain

Vejamos agora mais detalhadamente como se devem utilizar os diferentes elementos de escrita de guião, de forma a cobrir os casos menos evidentes de cada um deles.

Cabeçalhos

Como já vimos em artigos anteriores um Cabeçalho tem normalmente três elementos: a indicação de INTerior ou EXTerior; o LOCAL onde a cena se passa: e se é no período de DIA ou de NOITE.

Por exemplo:

EXT. CASA DE CAMPO – SALA – NOITE

Em Fountain um Cabeçalho é qualquer linha de texto que comece por um dos elementos indicados a seguir:

  • INT
  • EXT
  • EST
  • INT./EXT
  • INT/EXT
  • I/E

Uma linha de Cabeçalho deve ser precedida por pelo menos uma linha em branco e sempre seguida por outra linha em branco. Não é obrigatório ser escrita em maiúsculas, mas isso é recomendável para ser mais facilmente identificada como Cabeçalho.

Dica avançada: Cabeçalhos Secundários

Pode “forçar” os programas de conversão a reconhecer um cabeçalho que não comece pelos elementos referidos começando a linha com um ponto final (.).

Isto é útil, por exemplo, para os Cabeçalhos Secundários, que não começam com os elementos identificativos (INT., EXT:, etc).

Veja este exemplo:

EXT. PALÁCIO – JARDIM – DIA

Os convidados estão espalhados pelos bem cuidados jardins do Palácio.

.JUNTO À PISCINA

Pedro e Inês passeiam de mãos dadas junto à imensa piscina.

Neste exemplo, “EXT. MANSÃO – JARDIM – DIA” é reconhecido automaticamente como um cabeçalho, porque começa com EXT.. Já o cabeçalho secundário “JUNTO À PISCINA” tem de ter um ponto final (.) antes para ser identificado como tal. (Nota: se não tivesse o ponto no início da linha esta seria identificado como um Personagem, e a linha de texto seguinte como Diálogo).

Na conversão para o formato de guião o ponto final desaparece. A cena aparecerá assim formatada corretamente:

screenshot cena 1

Se a seguir a este ponto final inicial não vier um carater alfanumérico mas sim outro ponto final a linha já não será reconhecida como cabeçalho. Isto permite começar uma linha de Acção com três pontos (…) sem correr o risco de ser mal interpretada. Vejamos o exemplo seguinte:

Alice cai a grande velocidade pelo túnel escuro até que de repente…

INT. CAVERNA DE ALGODÃO

…aterra no chão fofo de uma enorme caverna de algodão.

Depois de convertido, ficará assim:

cena 2

Dica avançada: Numerar Cabeçalhos

Os Cabeçalhos podem ser numerados (embora não automaticamente). São considerados números de cena quaisquer carateres alfanuméricos (incluindo traços e pontos) colocados a seguir a um cabeçalho, entre símbolos de cardinal (#). Por exemplo, todas as linhas seguintes são reconhecidas como Cabeçalhos numerados:

INT. CASA – DIA #1#

EXT. RUA – NOITE #23A#

INT./EXT. – CAMPO – DIA #110-B#

I/E – ESTRADA – CARRO – DIA #44.#

e apareceriam assim depois de convertidos:

screenshot cabeçalhos numerados

Os Cabeçalhos de estilo europeu

Nos guiões europeus, incluindo muitos portugueses e brasileiros, utiliza-se uma convenção ligeiramente diferente para escrever os Cabeçalhos. Nesta convenção a indicação DIA ou NOITE segue imediatamente a seguir ao INT. ou EXT.

Um cabeçalho neste estilo ficará assim:

EXT. NOITE – RESTAURANTE

O Fountain reconhece perfeitamente este formato de Cabeçalho, pois os elementos essenciais não mudam: começa com EXT. ou INT., é escrito em maiúsculas e tem linhas vazias antes e depois.

Ação

Conforme já vimos em outros artigos a seguir a um Cabeçalho vêm normalmente parágrafos de Ação , nos quais se descreve o que pode ser visto e ouvido no filme.

Em Fountain, qualquer parágrafo de texto normal, que não seja reconhecido como outro elemento (Cabeçalho, Personagem, Diálogo…) é classificado como Ação ou Descrição de cena.

A sintaxe Fountain respeita as quebras de linha que nós introduzirmos com parágrafos. Se decidirmos criar cinco parágrafos entre duas linhas de acção, ou só um, é assim que vai aparecer na formatação final. Normalmente introduzem-se duas quebras de linha entre cada parágrafo de Ação. Por exemplo, assim:

INT. RESTAURANTE – NOITE

Um restaurante médio – não parece muito caro – com a sala meio cheia.

Jaime, de olhos baixos, come uma mousse de chocolate com colheradas minúsculas, como se quisesse retardar o mais possível o seu fim.

No entanto uma descrição escrita da seguinte forma também seria correta:

O homem encosta-se à beirada do prédio. Olha para baixo.
Alto.
Muito alto.

Respira fundo, fecha os olhos e dá um passo em frente.

Dica avançada: Tabelação da Ação

Nos parágrafos de Ação as tabelações e espaços iniciais também são reconhecidos e mantidos na formatação, permitindo indentar um parágrafo. As tabelações são convertidas em quatro espaços. Dessa forma podemos escrever um parágrafo de Ação como o seguinte exemplo:

screenshot cena 3

 

Personagem

Num guião a apresentação dos diálogos dos personagens é uma combinação de dois elementos: os nomes dos Personagens, e os Diálogos em si.

Em Fountain é considerada um nome de Personagem, e formatada como tal, qualquer linha escrita inteiramente em maiúsculas, que tenha uma linha vazia antes e uma linha de texto a seguir. No exemplo seguinte, JAIME e ANABELA são reconhecidos como personagens:

INT. COZINHA DE ESCRITÓRIO – DIA

Jaime está agora em frente de uma mulher, ANABELA.

JAIME
Pensei muito, mas é isto que eu sinto: queres ser a minha mulher?

Anabela pondera por um instante.

ANABELA
Não.

Este trecho apareceria assim no guião:

screenshot personagens

As extensões acrescentadas a seguir ao nome do personagem, como (V.O.) ou (OFF) também têm de ser escritas em maiúsculas.

HOMEM #1 (O.S.)
Por favor! Peço a vossa atenção!

Os nomes de personagens têm de ter pelo menos uma letra. “Nº22” é reconhecido como personagem, mas “22” não.

Qualquer linha de texto que venha imediatamente a seguir a um Personagem ou Parênteses é reconhecida e formatada como Diálogo.

JAIME
Queres casar comigo?

Não fica satisfeito com o resultado. Tenta de novo.

JAIME
Queres casar comigo?

É possível partir linhas dentro de um Diálogo, ou incluir intencionalmente linhas vazias, embora isso não seja comum. Este procedimento é descrito com mais detalhe na secção dedicada às Quebras de Linha, num artigo futuro.

JAIME
Dás-me o prazer…
não…
a honra…
dás-me a honra e o prazer de casar comigo?

Este monólogo será apresentado assim no guião convertido:

screenshot diálogo partido

Dica avançada: Diálogo duplo

Quando dois personagens falam ao mesmo tempo usa-se o Diálogo duplo. Em Fountain este é formatado colocando um acento circunflexo/carat (^) isolado a seguir ao nome do segundo personagem. Por exemplo:

Jaime e Anabela falam apressadamente, sobrepondo-se um ao outro.

JAIME
Queres casar comigo?

ANABELA (O.S.) ^
Queres casar comigo?

Sorriem, atrapalhados mas satisfeitos.

Este exemplo seria formatado assim:

screenshot cena 4

O acento circunflexo tem de ser o último carater da linha de Personagem.

Parênteses

Parênteses são linhas de texto, colocadas – surpresa – entre parênteses, que dão indicações de tempo, ação, expressão ou entoação no contexto de um Diálogo. Por exemplo:

(pausa)

(irónico)

(fazendo adeus)

(sussurrando)

Em Fountain os Parênteses são qualquer linha de texto que venha a seguir a uma linha de Personagem ou Diálogo e esteja entre parênteses.

JAIME
Queres casar comigo?
(pausa)
Queres casar comigo?
(pausa)
Não… São as palavras.

Depois de convertido para o guião ficará assim:

screenshot parênteses

Transição

Uma Transição é uma linha de texto em que se define como passamos de uma cena para outra. Por exemplo:

CORTA PARA:

DISSOLVE TO:

Para uma linha ser reconhecida e formatada como uma Transição em Fountain tem de ser escrita em maiúsculas, precedida e seguida por uma linha vazia, e terminar em TO:como CUT TO: ou DISSOLVE TO:.

Como em português as transições que usamos não terminam em TO: teremos de usar uma alternativa, começando a linha de transição com o símbolo de maior do que (>). Por exemplo, assim:
>FADE IN:

INT. CASA DE BANHO – DIA

Um homem fala para a câmara. É JAIME, 28 anos, magro e mortiço.

No guião este bloco de texto aparecerá assim:

screenshot transição

Conclusão

Neste segundo artigo dedicada à análise da linguagem Fountain vimos com maior detalhe a escrita dos elementos essenciais de um guião.

No terceiro artigo, a publicar em breve, iremos analisar outros elementos e aspectos ainda mais especializados da formatção de um guião, e a sua aplicação usando a linguagem Fountain.

Tutorial: Como escrever um guião em Fountain – primeira parte

Introdução

Quando o guionista John August e o autor Stu Maschwitz se puseram de acordo para criar a linguagem de escrita de guiões Fountain o seu objetivo era muito simples:

Fountain é uma sintaxe simples de marcação para escrever, editar e partilhar guiões em formato de texto simples, fácil de ser lido. Fountain permite-lhe trabalhar no seu guião em qualquer lugar, em qualquer computador ou tablet, usando qualquer programa que edite ficheiros de texto.

O artigo que se segue pretende explicar as bases essenciais da escrita de um guião usando a sintaxe Fountain.

É inspirado pela página de apresentação da sintaxe de Fountain, desenvolvendo-a e adaptando-a à realidade da língua portuguesa.

Todos os exemplos apresentados são retirados do meu guião de curta metragem O Pedido, ou criados especialmente para este tutorial.

No final do artigo encontrará um link para baixar uma versão desse guião de O Pedido em formato Fountain, que poderá comparar com a versão normal.

O que é uma linguagem de marcação

O formato de texto simples, que usa a extensão .txt, só suporta o conjunto dos carateres alfanumericos ASCII ou Unicode. Como tal não guarda quaisquer indicações de formatação, como fontes, corpo de letra, negritos, itálicos, sublinhados, etc.

Essa sua limitação é também a raíz das suas vantagens:

  • Foco no conteúdo;
  • Compatibilidade quase universal;
  • Pequeno tamanho dos arquivos.

As chamadas "markup languages" (linguagens ou sintaxes de marcação), como o HTML, são uma forma de acrescentar outro tipo de informação ao conteúdo puro e simples, atribuindo categorias a certos blocos de texto.

Por exemplo, indicando, através de certas combinações de símbolos, que um determinado bloco de texto é um parágrafo, outro é um cabeçalho, outro ainda deve ser enfatizado, etc.

Como o HTML é uma linguagem relativamente complexa surgiram posteriormente outras sintaxes de marcação, como o Markdown, que permitem dar essas mesmas indicações de uma forma mais intuitiva e natural. Por exemplo, para indicar que um texto deve ser italizado em Markdown ele é cercada por asteriscos, assim: *Eu vou ser convertido em itálico*.

Há depois programas especiais que convertem um texto escrito em Markdown em ficheiro HTML.

O Fountain é uma linguagem de marcação que tenta aplicar os mesmos princípios do Markdown à escrita de um guião em texto simples.

Aplicando algumas regras e sinais específicos ao texto simples ele poderá posteriormente ser convertido num guião corretamente formatado, sem perder o foco no conteúdo, compatibilidade e compacticidade.

O princípio básico de Fountain

O princípio básico de Fountain é muito fácil de entender: o texto deve ficar parecido à vista com um guião tradicional.

Devido às limitações específicas do formato um documento de texto simples não pode ser formatado exatamente como um guião o deve ser. Mas a sua aparência pode ser suficientemente próxima para ser reconhecido como guião por qualquer pessoa que tenha alguma familiaridade com o formato.

O documento Fountain pode mais tarde ser convertido para o formato tradicional correto de apresentação de um guião, em ficheiros .pdf ou Final Draft, por exemplo.

O essencial de Fountain em poucas linhas

Para usar o Fountain temos que decorar apenas cinco regras de sintaxe, todas elas perfeitamente intuitivas.

  1. Os Cabeçalhos são linhas de texto em MAIÚSCULAS que começam com INT. ou EXT. e têm linhas vazias antes e depois;
  2. Os nomes de Personagens são linhas de texto escritas em MAIÚSCULAS, com uma linha vazia antes;
  3. Os Diálogos são parágrafos de texto que vêm a seguir a um nome de Personagem ou a um Parênteses;
  4. Os Parênteses são linhas de texto que vêm (dentro de parênteses);
  5. As Transições são linhas de texto que terminam em TO:.

Com estas cinco regras temos cobertas as principais necessidades para escrever um guião.

Para cobrir outros aspetos importantes temos de decorar mais cinco regras:

  1. Qualquer linha de texto pode ser um Cabeçalho, desde que comece com um ponto final { . };
  2. Qualquer linha de texto pode ser uma Transição, desde que comece com o símbolo de “maior do que” { > };
  3. Para sublinhar uma palavra cercamo-la com traços inferiores { _ };
  4. Para pôr uma palavra ou mais palavras em negrito cercamo-las com dois asteriscos { ** } em cada lado;
  5. Para pôr uma ou mais palavras em itálico cercamo-las com um asterisco { * } em cada lado.

Uma cena escrita em Fountain terá então este aspeto:

INT. COZINHA DE ESCRITÓRIO – DIA

Jaime está agora em frente de uma mulher, ANABELA.

JAIME
Pensei muito, mas é isto que eu sinto: queres ser a minha mulher?

Anabela pondera por um instante.

ANABELA
(pensativa)
Não.

Anabela abana a cabeça e leva uma chávena de café à boca.

JAIME
Não, como?!

Depois de convertida conforme indicamos mais adiante esta cena aparecerá assim:

exemplo formatado web

Com as dez regras enunciadas anteriormente pode escrever praticamente qualquer guião. Para o fazer siga o workflow que explico a seguir.

Como usar o Fountain

O objetivo do Fountain, obviamente, é escrever um guião.

Não me vou aqui debruçar sobre a parte artística e técnica da escrita, apenas sobre o uso do Fountain dentro do processo.

Que etapas teremos então para montar um workflow de escrita de guião baseado no Fountain? Basicamente quatro:

  • Criação do documento Fountain;
  • Escrita e edição do guião;
  • Conversão para o formato de guião "oficial";
  • Arquivo do guião.

Vejamos então mais em detalhe este workflow minimalista.

Criação de um documento Fountain

Um documento Fountain é apenas um ficheiro em texto simples. Podemos criá-lo em qualquer programa que suporte esse formato, como o Bloco de Notas do Windows, o TextEdit do Mac ou até o Google Docs, na nuvem.

Um ficheiro de texto normalmente tem um sufixo .txt mas vamos mudar esse sufixo para .fountain.

O nosso documento vai assim chamar-se algo como O_Pedido_v2.fountain.

Apesar desta mudança de sufixo o documento continuará a ser reconhecido por todos os programas de edição de texto, em qualquer sistema operativo.

O que esta flexibilidade nos permite é podermos editar o nosso guião em qualquer plataforma. Podemos começá-lo no iPhone, editá-lo no Mac, partilhá-lo no Google Docs, corrigi-lo num PC, alterá-lo no iPad, etc.

Qualquer plataforma para onde consigamos copiar o nosso documento e que tenha um editor de texto é uma plataforma de trabalho.

Escrita e edição do guião

O ideal é começar o nosso documento incluindo alguma metadata – title, credit, author, etc – conforme veremos no próximo artigo desta série.

A partir daí é só escrever, usando as regras que mostrei neste artigo.

Como já referi, as primeiras dez regras cobrem 99% das situações.

Basta saber escrever Cabeçalhos (e, se quiser, Cabeçalhos Secundários), Personagens, Diálogos, Parênteses e Transições, e saber aplicar alguns Ênfases como o negrito e o itálico e está pronto para escrever praticamente qualquer guião.

Em caso de dúvidas, ou em situações muito especiais, consulte os próximos artigos desta série.

Conversão para o formato "oficial"

Um ficheiro de texto simples, por definição, não tem formatação. As regras que aplicamos (maiúsculas, linhas vazias antes, etc) ajudam-nos a que o documento Fountain tenha uma aparência mais ou mnos parecida com o formato tradicional de um guião.

Quem conhece o formato de guião e olha para um documento Fountain reconhece imediatamente os diferentes elementos.

No entanto isto não é suficiente para uma utilização profissional. O formato de guião é muito formalizado, por razões que já descrevi anteriormente (por exemplo, neste artigo).

Assim, antes de enviar o guião finalizado a um produtor ou concurso, será necessário convertê-lo para o formato "oficial" de guião.

Neste momento já há várias maneiras de o conseguir e, se o Fountain se afirmar, haverá com certeza muitas mais. Destaco apenas algumas.

O site Screenplain (http://www.screenplain.com/), gratuito, foi criado especificamente para converter ficheiros Fountain. Tem duas opções de saída: .html e Final Draft (.fdx). Ambas as conversões são bastante corretas e reconhecem o essencial das convenções do formato. Coisas mais específicas, como as Notas ou números de cena, podem ser ou não convertidas corretamente. Nenhum dos dois formatos reconhece a página de título. Infelizmente não faz conversão para .pdf.

O software Highland (http://quoteunquoteapps.com/highland/) é um editor de texto criado especificamente para escrever em Fountain e converter para .pdf e .fdx. Apesar de ter sido criado pelo guionista John August, um dos criadores do formato Fountain, as conversões também têm limitações. Os elementos essenciais são reconhecidos corretamente, mas outros mais específicos também mostram limitações.

O software FadeIn (http://www.fadeinpro.com/), para Mac e PC, importa o formato Fountain com muita perfeição. Só não reconhece as páginas de título, mas fora isso a conversão é muito robusta. A partir daí é muito fácil exportar em inúmeros formatos, incluindo .pdf, .fdx. .rtf, .docx, etc. Infelizmente é a opção mais cara, apesar de ser mais barato que o Final Draft.

O software Trelby (htpp://www.trelby.org/), gratuito, importa e exporta Fountain, e pode convertê-lo em vários outros formatos, incluindo .fdx e PDF. Como a versão do Trelby para Mac ainda está em desenvolvimento – há apenas versões para Windows e Ubuntu – não pude experimentar na prática. De qualquer forma, se usa uma dessas plataformas, recomendo que experimente esse programa. Pela lista de funções parece-me que será uma excelente opção, se tiver a estabilidade necessária.

Arquivo do guião

Uma das vantagens do formato .fountain ser apenas um ficheiro de texto simples é a garantia que nos oferece de arquivo de longo prazo.

Enquanto houver programas capazes de ler .txt os guiões estarão disponíveis. Mais depressa deixarão de ser reconhecidos os formatos físicos (disquetes, ZIP drives, CD's, onde é que vocês estão…) do que os ficheiros .txt.

Além disso, um ficheiro .txt ocupa um espaço mínimo: centenas de guiões Fountain ocupam menos espaço de disco do que um único ficheiro .mp3.

Baixe um guião em formato Fountain

Se quiser estudar melhor a linguagem de marcação Fountain pode baixar uma versão do meu guião "O Pedido" convertido para esta linguagem.

O Pedido em linguagem Fountain

O Pedido versão original em PDF

Conclusão

Neste primeiro artigo de três vimos os elementos essenciais da linguagem Fountai. Nos próximos, que sairão às segundas-feiras de cada semana, iremos aprofundando estes elementos.

Escreva os seus guiões no novo editor de texto Highland

O americano John August, além de ser um dos guionistas mais conhecidos e conceituados no seu mercado, é um geek de alma e coração. Nos tempos livres entre guiões tem desenvolvido projetos de software para guionistas que vão desde o programa Bronson Watermarker ao tipo de letra Courier Prime.

Através da sua empresa Quoteunquote Apps lançou agora a versão final do software Highland, para Mac, que oferece três funcionalidades:

  • Escrever guiões usando a linguagem Fountain e exportá-los para os formatos PDF ou Final Draft;
  • “Derreter” PDF’s, transformando-os em arquivos Final Draft ou Fountain, editáveis;
  • Abrir ficheiros Final Draft, exportando-os como PDF ou convertendo-os em arquivos Fountain, editáveis com qualquer editor de texto.

Highland apresenta-se assim como um verdadeiro canivete suíço da escrita de guião, permitindo conversões em todos os sentidos entre os principais formatos da indústria: o Final Draft e os PDF’s criados por qualquer processador de texto, e ficheiros em linguagem Fountain.

Estes últimos não são mais que ficheiros de texto simples que podem ser abertos em qualquer editor de texto básico, em qualquer plataforma: PC ou Mac, iOS, Android, etc.

Vejamos alguns cenários de uso possíveis:

  • Escrevo o meu guião em Fountain no meu Mac, edito-o no meu iPad, partilho-o com o meu parceiro de escrita que usa PC — sempre no mesmo ficheiro;
  • Quando termino o guião converto-o em PDF ou Final Draft para enviar ao produtor;
  • Recebo de um produtor um ficheiro PDF escrito num programa qualquer. “Derreto-o”, convertendo-o num ficheiro de texto formatado com a linguagem Fountain. A partir daí posso editá-lo sem problemas e exportá-lo no formato que quiser;
  • Abro os meus guiões antigos escritos no Final Draft e converto-os para o formato Fountain, para arquivo. Dessa forma tenho acerteza de que no futuro, aconteça o que acontecer, terei sempre acesso a eles desde que tenha um editor de texto simples.

O que é a linguagem Fountain

Já falei disso num artigo anterior, cuja leitura recomendo. Resumidamente, é um conjunto de regras muito fáceis de marcação do texto que permitem que um ficheiro de texto simples possa ser convertido num ficheiro de guião corretamente formatado.

Uma cena escrita em Fountain aparecerá assim na página:

screenshot Fountain

Como se pode ver, esta cena é perfeitamente legível na página e não usa nada de complicado – apenas meia dúzia de regras na aplicação das maiúsculas, espaços entre linhas, etc.

Apesar disso, quando a exportar para PDF ou Final Draft através do Highland, sairá perfeitamente formatada de acordo com as normas da indústria.

screenshot PDF

Preço promocional de lançamento

Highland está disponível na Mac AppStore por um preço promocional de lançamento de 8,99€ até ao fim de Março. A partir daí passará ao preço normal, que será sensivelmente o dobro.

O Final Draft é um software caro e nem todos os guionistas têm acesso a ele. Com o Highland passa a ser possível converter os seus ficheiros, editá-los e exportá-los de novo, sem problemas. O mesmo se passa com a possibilidade de “derreter” PDF’s, editá-los e exportá-los novamente.

Mesmo que não queiramos escrever guiões no Highland só estas duas ferramentas são suficientes para justificar a sua aquisição, especialmente com este preço promocional.

Os melhores programas para escrever um filme – a minha seleção

Introdução

Antes de entrar no tema do artigo, devemos perceber porque razão a maioria dos guionistas usam algum tipo de software especial para a escrita de guiões.

Afinal de contas, não é verdade que o Quentin Tarantino escreve a primeira versão de todos os seus guiões apenas com lápis e um bloco de papel?

E o Word? Praticamente toda a gente tem uma cópia (provavelmente pirata) desse programa nos seus computadores. Até há razoáveis modelos próprios para escrever guiões com o Word.

O que é que justifica então o uso de um programa especializado para escrever um filme, se isso pode ser feito por outros métodos mais generalistas?

Há três respostas para esta questão:

  1. Porque enviar um bloco de papel por email costuma ser complicado;
  2. Porque a última versão tolerável do Word foi o “95” (como em “1995”, da última década do século passado) ;
  3. E, finalmente, porque um software especializado simplifica incrivelmente a vida dos guionistas.

Esta terceira razão é particularmente importante. Numa atividade tão complexa e difícil com escrever um filme, tudo o que possa tornar a nossa vida menos complicada é bem vindo.

Características comuns

Por razões que já expliquei noutros artigos os guiões são escritos segundo convenções próprias e um formato especial. Se não faz ideia do que estou a falar, sugiro uma leitura rápida deste artigo do Curso de guião.

Assim, todos os softwares de escrita de guião partilham obrigatoriamente duas características:

  1. Tornam mais simples a introdução dos elementos componentes do guião (cabeçalhos, descrições, diálogos, etc.);
  2. Automatizam a apresentação destes elementos do guião segundo as normas de formato aceites na indústria.

A forma como os diversos programas alcançam estes objetivos é mais ou menos semelhante entre todos (com uma excepção que destacarei mais adiante).

Introdução de elementos

Para tornar mais prática a introdução dos diferentes elementos usamos uma combinação entre a tecla de parágrafo e a de tabulação.

Introduzindo estas teclas a seguir a um parágrafo de um determinado estilo determinamos qual o estilo do parágrafo seguinte.

Por exemplo, no Final Draft, se estivermos num parágrafo com o estilo Cabeçalho e carregarmos na tecla parágrafo, o estilo do parágrafo seguinte será Ação. Isto tem lógica, pois a seguir a um Cabeçalho deve vir sempre uma descrição de Ação.

Se introduzirmos agora um novo parágrafo este manterá o estilo Ação. Isto também tem lógica, pois uma descrição pode estender-se por vários parágrafos. Mas se usarmos a tabulação mudamos o estilo do parágrafo para Personagem.

Um parágrafo a seguir a Personagem introduz uma linha de Diálogo. Uma tabulação a seguir a Diálogo introduz um Parênteses. E assim por diante.

A descrição deste método é mais complexa do que a sua utilização. Após um pouco de prática tudo isto se torna automático e intuitivo, e surfamos pelo nosso texto, saltando de estilo em estilo sem sequer pensar nisso.

Formatação

A segunda etapa deste processo é igualmente importante. Todos os programas de escrita de guião asseguram que, quando exportamos ou imprimimos o nosso documento, os estilos que usamos vão aparecer na página de acordo com as normas da indústria.

Por exemplo, segundo essas normas, os parágrafos de Cabeçalho e Ação devem ser alinhados à esquerda, a 2,5 cm da margem esquerda do papel, e estender-se até 2,5 cm da margem direita.

Já os parágrafos de Personagem, Parênteses e Diálogo também alinham à esquerda, mas as suas distâncias às margens são diferentes.

Cada programa garante que no momento da impressão todas estas medidas são respeitadas e o guião fica adequadamente formatado.

Para isso são usados modelos (templates) definidos conforme o tipo de guião que estamos a escrever. Continuando a usar o Final Draft como exemplo, vemos que esse programa oferece dezenas de modelos: além de duas ou três variações do guião de cinema básico, inclui modelos para as principais séries de televisão atuais.

Mais importante do que isso, os estilos dos modelos podem ser ajustados a necessidades especiais de produção.

Por exemplo, em Portugal usa-se muito um formato para televisão em que os cabeçalhos correm a página inteira, mas as descrições ficam na metade esquerda da página, alternando com os diálogos na metade direita.

Com um pouco de trabalho conseguimos alterar os estilos e criar um modelo específico para este formato (a que podemos chamar, se quisermos, Modelo TV Idiota).

Vantagens adicionais

Além destas duas características comuns a maior parte dos programas de escrita de guião oferecem duas outras vantagens:

  1. Métodos para ajudar na fase de planeamento da escrita;
  2. E métodos para ajudar na fase de reescrita.

Muitos autores de cinema e televisão só começam a escrever depois de ter uma sinopse e/ou uma escaleta mais ou menos detalhada da estória. É o método que eu uso, e já escrevi sobre isso num artigo recente.

Cada programa oferece métodos para tornar mais simples essa planificação. De forma geral esses métodos reproduzem digitalmente os métodos analógicos tradicionais: listas de cenas e cartões de notas.

Quanto à reescrita, não me canso de repetir que é uma das fases mais importantes do processo de escrita. Há quem diga até que os guiões não se escrevem; reescrevem-se.

Os programas de escrita de guião oferecem normalmente opções e métodos para auxiliar a reescrita, que vão desde a gestão de notas e comentários até à gravação e comparação de versões alternativas.

Finalmente, a minha seleção

O que não faltam são opções de escolha entre os softwares de escrita de guião, em todas as plataformas.

Vão desde os programas de desktop mais tradicionais até às web apps baseadas na nuvem, passando por uma miríade de aplicações para as plataformas móveis, telemóveis e tablets.

Muitos destes programas estão disponíveis nos diferentes sistemas operativos – Mac OS, Windows, Unix, iOS e Android. A dificuldade está apenas na escolha.

Já experimentei uma boa parte destas opções, comprei algumas delas, e li sobre quase todas as outras.

Depois de todos esses testes a minha seleção acaba por ser bastante tradicional, resumindo-se a três (mais uma) recomendações: Final Draft, CeltX, Scrivener e o jovem Highland.

Outros programas poderiam fazer parte desta lista, como o clássico MovieMagic Screenwriter, ou o recente Fade In. Mas esta seleção corresponde aos programas que uso com mais frequência.

Passo a seguir a explicar porquê, destacando as suas principais funcionalidades e aquelas que são, na minha perspetiva, as suas vantagens e defeitos.

Final Draft – o profissional

O Final Draft apresenta-se nos seus anúncios como “o padrão da indústria” e, de fato, acaba por sê-lo. Praticamente todos os guionistas profissionais têm uma cópia no seu computador e usam-no para grande (se não a maior) parte dos trabalhos.

Está atualmente na versão 8, mas já começa a revelar um pouco a sua idade avançada. É provável que em breve saia uma nova versão, até porque estão prometidas novidades para as plataformas móveis.

Seja como for, é um programa fácil de usar, robusto e estável, com um conjunto muito completo das funcionalidades necessárias nas três fases: planeamento, escrita e reescrita.

  • Formatação transparente à medida que escrevemos.
  • Dezenas de modelos para tv, teatro e cinema.
  • Um tipo de letra especial, o Courier Final Draft (que pode também ser usado com outros programas).
  • Uso das teclas de parágrafo e tabulação conforme descrito acima.
  • Introdução rápida de elementos repetitivos (nomes de personagens, locais, etc.).
  • Introdução automática de (More’s) e (Continued’s) (não é muito útil em Portugal).
  • Função de planejamento por escaleta ou cartões.
  • Divisão do ecrã em painéis, permitindo ver o guião e a escaleta ou cartões em paralelo.
  • Janela de navegação rápida entre cenas. *Notas de escrita.
  • Modo de revisão.
  • Um assistente de formatação, que detecta erros de formato antes da impressão.
  • Página de capa.
  • Funcionalidades de produção, como bloqueio de páginas e de cenas.
  • Criação automática de relatórios de guião (por exemplo, com o número e tamanho das cenas em cada local, ou para cada personagem).
  • Exportação perfeita para .pdf

Depois de aprender a usar o Final Draft (o que é relativamente fácil e rápido) é uma delícia trabalhar com ele. A escrita sai com fluidez e naturalidade, e o guionista pode concentrar-se apenas no conteúdo, esquecendo completamente as preocupações com a forma.

Em suma: na maior parte dos casos ninguém ficará mal por decidir escrever um guião com o Final Draft.

Isso não quer dizer que ele não tenha alguns inconvenientes.

O primeiro é, obviamente, o seu preço. Para dar $250 USD por uma cópia é preciso pensar duas vezes. Só quem esteja a trabalhar regularmente como guionista se pode dar a esse luxo.

Além disso há a já referida idade avançada da versão atual, que não permite usar algumas das vantagens dos sistemas operativos mais modernos, como a escrita em ecrã inteiro ou a gestão transparente de versões anteriores.

O Final Draft ganharia também muito com uma revisão das suas ferramentas de planeamento da escrita, que não são tão práticas e completas como poderiam ser. A sua utilização dos cartões não é muito intuitiva e a visão em escaleta tem grandes limitações.

Mas o pior defeito do Final Draft é a exportação para um formato compatível com o Word, o .rtf. É uma perfeita desgraça. O resultado é tão mau que eu tive de comprar um outro programa, o Fade In, só para esse efeito.

O Final Draft exporta perfeitamente para .pdf (mal seria se não o fizesse) e razoavelmente para “texto com formato”. Mas se o seu método de trabalho implica a entrega de uma versão final em Word, como acontece ainda (infelizmente) com muitas produtoras portugueses, é melhor escolher outro programa.

CeltX – o concorrente (quase) gratuito

O CeltX apareceu e ganhou uma grande base de adeptos apresentando-se como a alternativa gratuita ao Final Draft.

Hoje em dia continua a ter uma versão gratuita, mas vale a pena gastar um pouco mais (que em certas promoções pode ser tão pouco quanto $9 USD) para ter acesso ao que chamam de “PowerPack” que inclui algumas funcionalidades extra.

O CeltX mima a maior parte das funções e método de utilização do Final Draft, acrescentando-lhe algumas novidades e cortando em outras. Já escrevi um tutorial sobre o uso do CeltX, que continua a ser um dos artigos mais populares do blogue.

Na sua versão mais recente está a notar-se uma tentativa de centralizar o uso do CeltX na nuvem, com uma versão online e funcionalidades de arquivo distante. Não é o que mais me interessa, mas admito que em certos trabalhos em equipa essa funcionalidade possa ser útil.

Vejamos então as principais características do CeltX (usando o PowerPack como referência).

  • Disponível em 34 línguas e nas plataformas Windows, Mac, Linux.
  • Modelos para cinema, teatro, guiões audiovisuais (AV), rádio, banda desenhada e ficção em geral.
  • Formatação automática.
  • Gravação local e na nunvem.
  • Sicronização de guiões entre
  • Método de escrita rápida semelhante ao FD.
  • Bloqueio de cenas e de páginas para produção.
  • Adaptação automática de um modelo para outro (de banda desenhada para cinema, por exemplo).
  • Formulários para desenvolvimento de personagens, locais, etc.
  • Cartões de notas com diferentes modos de visualização.
  • Modo de painel de cortiça para ver os cartões de notas.
  • Escrita em ecrã inteiro.
  • Cronómetro e relatórios de progresso.
  • Criação de blocos de notas com imagens, vídeos e documentos, para referências de pesquisa.
  • Criação de* storyboards* e sua visualização animada.
  • Criação de esquemas de filmagem.
  • Clip art para colocar nos storyboards .
  • Relatórios de produção, como cronogramas, folhas de serviço e relatórios de filmagem.

O CeltX é, como se pode ver, um programa completo e versátil, que tem tudo o que é necessário para planear, escrever e apresentar um guião.

Será sempre uma boa opção de escrita, especialmente atendendo ao seu baixo preço.

Não posso, no entanto, deixar de referir alguns dos seus inconvenientes, começando pelo interface, que não é muito intuitivo. Certas funções deveriam ser acessíveis de uma forma mais prática e imediata.

Uma das coisas que contribui para esta complicação é o excesso de funções de utilidade duvidosa para um guionista (como os storyboards ou os relatórios de produção). O Final Draft também tem muitas opções que raramente usamos, mas estão normalmente associadas ao guião.

As opções do CeltX, contudo, tentam torná-lo uma espécie de “canivete suíço” da produção. Talvez isso o torne útil para algumas empresas e situações (embora nunca o tenha encontrado na prática), mas torna-o mais complicado para quem queira apenas escrever com ele.

O principal defeito do CeltX, contudo, tem também a ver com a exportação dos ficheiros. Se a saída em .pdf também funciona bem (fundamental), é praticamente impossível arrancar dele um ficheiro que possa ser usado funcionalmente noutro programa.

Essa é a principal razão porque não uso o CeltX com tanta frequência como os outros dois programas da minha seleção principal.

Se o seu método de trabalho termina num .pdf use o CeltX com confiança. Se passa por outros tipos de ficheiros, esqueça.

Scrivener – a alternativa todo-o-terreno

O Scrivener é o programa que comecei a usar mais recentemente para escrever um filme ou episódio de televisão. Mas é também, neste momento, o meu favorito.

É um verdadeiro cavalo de batalha, usado por escritores de todos os tipos, desde autores de ficção a universitários. A sua principal vantagem é a versatilidade, que permite compor e estruturar documentos longos e complexos.

Tem uma enorme gama de ferramentas que podem torná-lo um pouco intimidante à primeira vista. Exige também uma curva de aprendizagem um pouco mais longa do que os outros programas. Mas depois de ultrapassadas estas barreiras iniciais, é um prazer trabalhar com ele.

E não é porque seja um programa extraordinariamente rico de funções específicas para guionistas. As funcionalidades do modo de escrita de guião são limitadas ao mínimo: modo rápido de mudança de estilos, introdução automática de elementos, e formatação perfeita.

Não tem também quaisquer das funções “profissionais” de bloqueio de páginas e cenas.

Onde o Scrivener brilha é na planificação do guião. Não só é extraordinariamente versátil, como é simples, intuitiva e prática. De todos os programas que já usei foi o único que substituiu com vantagem o lápis e papel nas fases iniciais, mais soltas, do planeamento das estórias.

A sua funcionalidade torna-o extremamente útil para a planificação de projetos longos e complexos.

Por exemplo, o trabalho que estou neste momento a terminar inclui oito guiões completos de televisão mais versões alternativas de alguns desses guiões. No total são mais de trezentas e cinquenta cenas organizadas num único documento e acessíveis a qualquer momento.

Além disso, suporta praticamente tudo o que queiramos introduzir-lhe, sem que se notem diferenças de tempo de resposta. O documento de trabalho que refiro acima inclui ainda sinopses, tratamentos, notas com alterações, apanhados de sites, documentos e fotos de pesquisa, e ainda todos os rascunhos e cenas apagadas.

O Scrivener tem ainda uma funcionalidade exclusiva que adoro. É possível seleccionar em simultâneo cenas soltas, não sequenciais, e editá-las como um documento único.

Isso permite, por exemplo, ver ao mesmo tempo e editar todas as cenas de uma trama secundária, ou as que incluem um determinado personagem. Só essa possibilidade coloca o Scrivener numa categoria à parte.

Tão importante quanto isso, podemos exportar os guiões a qualquer momento, em conjunto ou individualmente, e até cena cena, para uma enormidade de formatos. Além do obrigatório .pdf, é possível exportar para .rtf, várias versões de .doc e .docx, .html, .xml, para o Final Draft (.fdx), e até para os vários formatos de ebook.

O Scrivener só tem versões para Mac e Windows, e ainda não tem equivalente nas plataformas móveis. É um programa pago mas não é muito caro – $45 USD – e vale cada centavo que custa.

Segue um resumo das suas principais características.

  • Modo de escrita de guião
  • Método de escrita rápida.
  • Autopreenchimento de elementos.
  • Formatação perfeita e flexível.
  • Exportação perfeita para grande variedade de formatos.
  • Gestão de projetos complexos e diversificados.
  • Flexibilidade completa na organização do trabalho.
  • Arquivo de elementos de pesquisa.
  • Gestão de versões.
  • Modo de escrita em ecrã inteiro.
  • Notas de documento e de cena.
  • Modo “scrivenings” que permite combinar temporariamente cenas não contíguas.
  • O melhor modo de escaleta de entre todos estes programas.
  • O melhor modo de cartões de notas, com um “quadro de cortiça” prático e flexível.
  • Possibilidade de tirar “instantâneos” do trabalho a qualquer momento, e regressar a eles mais tarde, se nos arrependermos.
  • Possibilidade de criar “coleções” de cenas segundo uma enorme variedade de critérios.
  • Modo de revisão.
  • Comentários e notas de rodapé.
  • Backups automáticos.
  • E mais tanta coisa, que é melho parar por aqui…

Tudo indica que o Scrivener se vai tornar o meu programa de escrita por defeito. A planificação das estórias é uma fase muito importante do meu processo de trabalho, e nenhum outro programa que eu tenha encontrado me dá as mesmas vantagens.

O Scrivener pode ser tão complexo ou tão simples quanto eu queira, e isso é o ideal. O modo de escrita de guião tem tudo o que eu preciso no dia a dia.

Mas se necessitar de funções mais avançadas como o bloqueio de páginas ou de cenas, a importação e exportação para o formato do Final Draft funciona perfeitamente.

Por uma questão de equilíbrio, devo apontar também as desvantagens do Scrivener.

A primeira, que já referi, é que pode ser um pouco intimidante a princípio. Mas tem um tutorial interativo muito completo (em inglês) que ajuda a ultrapassar a confusão inicial.

O preço, apesar de razoável, também pode afastar algumas pessoas. A minha recomendação é que baixem a versão gratuita limitada e experimentem. Estou certo de que verão que o investimento é justificado.

Por fim, a única coisa que me incomoda no dia a dia. Quando estamos a escrever no modo de guião e introduzimos uma nova cena ele automaticamente passa ao modo normal.

Supostamente isto é uma vantagem, pois permite combinar cenas ainda em tratamento com outras já definitivas (e fazer, por exemplo, os scriptments que caraterizam as primeiras versões dos guiões de James Cameron). Mas é uma vantagem que eu dispensava, pois vai contra o meu método de trabalho. É provável que haja uma forma de contornar isto, mas ainda não a descobri.

Em suma, se não conhece ainda o Scrivener, experimente-o. A sua vida de escritor/guionista nunca mais será a mesma.

Highland – a abordagem minimalista

Deixo para o fim, como bónus, o programa mais recente. Tão recente que ainda está em fase experimental (a chamada fase beta).

O Highland é um programa desenvolvido pelo guionista americano John August, um dos mais conhecidos e respeitados guionistas americanos no ativo, e alguns colaboradores.

Atualização: um comentário de um leitor leva-me a acrescentar um aviso importante – como todos os programas em fase alpha ou beta também o Highland deve ser tratado com luvas. Trabalhe com cópias dos seus ficheiros e faça sempre backups frequentes do trabalho. Use-o com cuidado e, por favor, não me responsabilize se perder algum ficheiro ;-)

O Highland parte de uma premissa muito clara: trabalha apenas em ficheiros de texto simples, .txt, usando uma sintaxe própria durante o processo de escrita. Mais tarde, quando é preciso imprimir ou exportar o ficheiro, essa sintaxe é automaticamente filtrada e convertida no formato correto.

A sintaxe usada, a que John August chamou Fountain, é muito intuitiva. É semelhante à que uso neste blogue para escrever as secções de cenas de guião.

Por exemplo, num documento .fountain qualquer linha isolada escrita apenas em letras maiúsculas é interpretada como um Cabeçalho, e formatada como tal no momento da impressão.

Assim,

EXT. CASA – DIA

ou

FLASHBACK – NO BARCO

ou até

NO CIMO DO MONTE

são frases que serão impressas como Cabeçalhos, e parecerão assim na página.

EXT. CASA – DIA

NO CIMO DO MONTE

 

FRANCISCO
O que é que me querias dizer?

será interpretado como um Personagem e o respetivo Diálogo, pois a frase em miúsculas não está isolada; tem o diálogo na linha imediatamente a seguir.

FRANCISCO

O que é que me querias dizer?

Parece mais complicado do que é. Na prática o processo acaba por ser bastante fluido e transparente, embora quem está habituado aos métodos de escrita rápida do Final Draft, CltX ou Scrivener possa estranhar.

A vantagem desta abordagem é que os ficheiros, gravados como texto simples, podem ser editados por qualquer programa, em qualquer plataforma. Podemos assim começar um guião no telemóvel, escrevê-lo no portátil, apresentá-lo e editá-lo num tablet e arquivá-lo na nuvem, sempre com o mesmo documento.

Os ficheiros são também muito leves e à “`prova de tempo”. Por muitos programas que nasçam e morram nas próximas décadas, é provável que seja sempre possível abrir, ler e editar um documento de texto simples. O mesmo não pode ser garantido, por exemplo, em relação ao Final Draft ou CeltX, ou mesmo o Scrivener.

Cada pessoa fará a sua avaliação da validade deste argumento. Não é suficientemente forte para eu adotar o Highland no dia a dia, mas talvez me convença a guardar uma versão de arquivo dos guiões finalizados no formato .fountain, como precaução para o futuro.

O Highland tem ainda uma outra ferramenta muito interessante: “derrete” .pdfs, ou seja, converte documentos .pdf para o formato .fountain ou Final Draft.

Em alguns trabalhos acontece recebermos guiões fechados, gravados em .pdf. O Highland permite convertê-los para um formato novamente editável. Só isto pode justificar baixar o programa (gratuito enquanto estiver na fase beta) e acrescentá-lo à nossa lista de ferramentas.

Os inconvenientes do Highland, por outro lado, são óbvios. Não inclui quaisquer ferramentas para a planificação dos guiões, ou sua reescrita. O uso duma sintaxe própria torna-o diferente dos concorrentes, obrigando a mais uma aprendizagem.

Mas estes “defeitos” são exatamente o que pode tornar atrativo o Highland aos olhos de um guionista de pendor mais minimalista.

Veredito final

Se teve paciência de ler até aqui, parabéns, Se saltou o miolo e veio direto ao final, devia ter vergonha ;-)

Cada um destes programas tem vantagens e desvantagens.

O Final Draft, completo, robusto mas caro, continuará provavelmente a ser o mais usado pelos guionistas profissionais em todo o mundo, principalmente se receber em breve uma atualização profunda e uma versão para tablet.

O CeltX, por outro lado, deverá manter-se como o favorito dos estudantes de cinema e guião, e dos projetos de baixo orçamento. Os seus defeitos são rapidamente esquecidos quando comparados com o seu preço incrível.

O Scrivener, que neste momento é o meu programa favorito, está condenado a ser descoberto pouco a pouco por muitos escritores e autores de estilos diversos, incluindo guionistas. Se um dia vier a ter um modo de escrita um pouco mais robusto, poderá ser o melhor candidato para destronar o Final Draft.

O Highland será sempre uma alternativa de nicho, mas estou certo de que os seus adeptos, como frequentemente acontece nos produtos de nicho, serão os mais fiéis de todos.

Quer uma recomendação final? Invista $45 USD e algumas horas de estudo no Scrivener. Não se vai arrepender.

Se usa frequentemente um ou mais destes programas, por favor deixe a sua opinião e sugestões nos comentários.

Write or Die – escreva ou morra

Há um novo software de escrita no bairro. E é um da pesada – se você não escrever, já era.

Write or Die é um processador de texto simples mas com uma premissa original. O escritor define o seu objetivo para o dia (em número de palavras), ajusta o nível de dificuldade – que vai do modo "Gentil" ao modo "Kamikaze" – e começa a escrever.

Quando pára de escrever, por alguns segundos que seja, a bomba-relógio começa a funcionar. E ao fim do tempo predeterminado – há consequências.

Estas podem ir de um irritante sinal de alarme ao apagamento progressivo das palavras já escritas. Quer mais radical do que isto?

No final pode exportar o seu trabalho (o que tiver sobrado) em formato texto (.txt), o que permite escrever usando sintaxes especiais como o Markdown ou, para os guionistas, o Fountain. Nada o impede de escrever um guião completo desta forma (se for suficientemente louco para o tentar).

Write or Die começou por ser uma webapp, a correr no browser, mas agora há também versões para iPad e desktop (Mac, PC e Linux). Escolha o seu método de suicídio – e lance-se à escrita.

Fountain: um novo formato para escrever um filme

Um aviso prévio. Este artigo só interessa a argumentistas que tenham um costela de nerd/geek razoavelmente desenvolvida. Se não é o caso, sugiro que explore outros artigos do meu blogue.

O argumentista americano John August anunciou recentemente no seu blogue o lançamento de um novo formato de documento para escrever um filme, a que chamou Fountain.

Passo a traduzir o texto introdutório do site dedicado ao Fountain:

"Fountain é uma sintaxe simples de marcação de texto para escrever, editar e partilhar guiões em formato de texto simples imediatamente legível. Fountain permite-lhe trabalhar no seu guião em qualquer lugar, em qualquer computador ou tablet, usando qualquer programa que edite ficheiros de texto simples.

Fountain é inspirada pelo Markdown de John Gruber e é imediatamente legível. Quando é necessário usar uma sintaxe especial, esta é simples e intuitiva.

Mesmo quando é lido apenas como texto simples, o seu guião tem ar de guião.

A sintaxe Fountain suporta tudo o que um guionista necessita na fase inicial, criativa, da escrita do guião. Não inclui opções de produção como os MAIS e CONTINUADOS, marcas de revisão, bloqueio de páginas ou páginas coloridas.

Por ser apenas texto simples, Fountain é também ideal para arquivar guiões sem medo de obsolescência dos formatos ou incompatibilidade."

O que quer isto dizer

O formato Fountain permite-nos agarrar em qualquer programa que escreva em texto simples – o Notepad, no Windows, o TextEdit no Mac, o Vim, no Unix, o Terminal, um editor de html, um programa de email, o Google Docs, até o SimpleNote, no iPhone – e começar imediatamente a escrever um guião.

Esse guião poderá ser aberto, lido, editado e partilhado com qualquer outro programa que leia texto simples, em qualquer plataforma ou sistema operativo.

Melhor ainda, se daqui a dez ou vinte (ou cem) anos quisermos ler ou editar de novo este ficheiro, é certo que o conseguiremos. O mesmo não podemos dizer dos formatos exclusivos dos vários programas de escrita de guião que concorrem neste mercado.

Finalmente, se alguma vez for necessário usar as funcionalidades mais avançadas dos programas de escrita de guião, como o Final Draft ou o CeltX, os ficheiros de texto simples são por eles importados com grande fidelidade.

Como funciona o Fountain

Para escrever no formato Fountain usamos uma abordagem simples e intuitiva. Por exemplo, as linhas que se seguem, se gravadas num ficheiro de texto simples, seriam reconhecidas corretamente como pertencendo a um guião.

EXT. RUA – DIA

João caminha na rua, imerso nos seus pensamentos.

 

PEDRO (O.S.)

João, és tu?

 

João vira-se, surpreendido.

 

JOÃO

Pedro?!

(desconfiado)

O que fazes aqui?

 

Pedro sorri e encolhe os ombros.

CORTA PARA:

Percebe-se ao primeiro olhar que se trata de um guião, apesar dos elementos não estarem exatamente nos formatos padronizados para impressão.

Reconhecemos facilmente o CABEÇALHO, os NOMES dos personagens, as linhas de DIÁLOGO, as descrições de AÇÃO, e, no final, uma TRANSIÇÃO.

Escrever o básico em formato Fountain é tão simples quanto isto. Há depois uma série de outras indicações de sintaxe, muito simples e intuitivas, que são aplicadas em situações específicas, como diálogos paralelos, cabeçalhos secundários, etc.

No momento de imprimir o guião (para papel ou .pdf) cabe ao programa em que isso for feito aplicar os tipos e tamanhos de letra, margens e espaços entrelinhas adequados para cada um dos elementos, de forma a que o guião siga os padrões da indústria.

Resta ver se o formato Fountain vai ser adotado por guionistas profissionais, ou se será apenas uma curiosidade passageira.

Eu estou atualmente a terminar um guião, mas quando começar a escrever um filme novo vou experimentar o formato Fountain. Terei a segurança de saber que, como o Final Draft o importa perfeitamente, a qualquer momento posso mudar sem tempo perdido.