Janeiro 28, 2006
Graías ao meu novo e fabuloso clube de vídeo, consegui finalmente ver um filme que até aqui me tinha escapado: “Sideways”, escrito por Alexander Payne e Jim Taylor.
O filme é uma pequena jóia rara, daquelas que se recomendam aos amigos mais próximos, e vai entrar na minha colecíão de DVDs logo que eu consiga entrar numa Fnac.
Dois amigos de faculdade, quarentões e falhados, fazem uma viagem de uma semana pela lindíssima região dos vinhos da Califórnia. Miles quer proporcionar a Jack uma longa, tranquila, culta e sofisticada despedida de solteiro, entre degustaíões de colheitas especiais e calmas partidas de golfe. Jack só quer dar umas quecas antes de subir ao altar.
Apesar dessa premissa simples, e das longas conversas sobre taninos, castas, reservas e técnicas de produíão vinícola, “Sideways”” consegue agarrar-nos do princípio ao fim. É um case study para qualquer curso de guionismo, com a sua estrutura perfeita, voltas e reviravoltas, impecável noíão de ritmo, e um par de protagonistas/antagonistas inesquecíveis. Miles e Jack, apesar de amigos (e este é também um filme sobre a amizade masculina) estão em campos opostos desde o minuto zero. Cada um deles atravessa-se no caminho do outro, impedindo-o de conseguir o que mais deseja. E isso, como todos sabemos, é a raiz de qualquer grande história.
Algumas cenas são irrepreensíveis de inteligência, como aquela em que Miles explica apaixonadamente as razões que o levam a preferir a casta Pinot Noir — subtileza, sensibilidade, “feitio” difícil — e nós percebemos que é de si mesmo que está a falar. Outras são grandes momentos de comédia física, como o acidente automóvel que Jack provoca, ou a incursão de Miles de gatas pela casa de um marido enganado.
Aquela velha questão de como é possível torcer por personagens cheios de fraquezas e defeitos tem em “Sideways” uma resposta sublime. Miles é capaz de roubar dinheiro í mãe velhota, na véspera do aniversário dela; Jack engana a noiva a torto e a direito, e no caminho mente í namorada que arranjou na viagem. Pois mesmo assim nós queremos que as coisas lhes corram bem e que, por algum milagre, os dois encontrem um pouco da felicidade que lhes tem escapado, quem sabe até a redeníão dos seus pecados. Os autores fazem o favor de nos conceder esse desejo, mas não da forma óbvia que nós esperaríamos.
Li algures que “Sideways” teve o condão de aumentar astronomicamente as vendas de Pinot Noir nos EUA. A mim fez-me lembrar que já não escrevo nada de sério desde Novembro. E se um filme me consegue empurrar para o teclado, acho que só posso agradecer aos autores.
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Junho 19, 2005
Na missa de hoje, na Sagrada Família, o padre enriqueceu a homilia com uma história tradicional sobre a ingratidão. Reza assim:
Havia uma macaca chamada Natchamba que vivia perto de uma aldeia. Ora na aldeia houve um casamento. O jovem casal comeíou a vida em comum e, pouco depois, já tinha um bebé. Para garantir o seu sustento a mãe comeíou a cuidar de um lote de terra, mas o bebé chorava e não a deixava trabalhar. Natchamba teve pena dela e desceu da árvore para dar “ó-ó” í crianía. Esta adormeceu e deixou a mãe trabalhar. No fim do dia a macaca devolveu o bebé í mãe com uma mensagem: “Eu sou a Natchamba, venho pelo bem, pela paz e pela generosidade. Mas o mal virá da aldeia”.
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