Faça o Curso de Narrativa da Pixar gratuitamente

monstros e companhia

A Pixar, em parceria com a Khan Academy, lançou uma iniciativa chamada Pixar in a Box – Pixar na Caixinha. É um conjunto de módulos de ensino que, quando terminarem de ser publicados, irão abordar todos os aspectos da arte e técnica dos filmes da Pixar.

Há módulos dedicados à animação, teoria da cor, modelação de personagens e ambientes, entre outros. Mas o mais interessante, do nosso ponto de vista, é o curso de dramaturgia segundo a Pixar, chamado The Art of StorytellingA Arte de Contar Estórias.

Para quem é fã dos filmes de animação da Pixar, como eu sou, a perspectiva de poder aprender em primeira mão com os seus guionistas é nada menos do que excitante.

As várias lições são apresentadas por autores tão notáveis como Peter Docter (Monstros & Cª, Up, etc.), entre outros artistas da Pixar, e ilustradas com excertos e exemplos retirados dos filmes da empresa. As lições também incluem actividades práticas.

O programa de The Art of Storytelling, dividido em seis módulos, cada um com vários vídeos, é muito completo:

  1. Somos todos contadores de estórias
  2. Personagens
  3. Estrutura narrativa
  4. Linguagem visual
  5. Gramática do filme
  6. Ilustre o seu filme

Os módulos 5 e 6 ainda não estão disponíveis, mas estão prometidos para breve.

A única limitação do curso é que está disponível apenas em inglês, com legendas na mesma língua. No entanto, acredito que com o tempo, e a colaboração da net, irão surgindo legendas noutras línguas, incluindo o português, pois essa opção está disponível.

O melhor de tudo é que o curso é absolutamente gratuito. Se quer ver por dentro como se contam estórias ao estilo da Pixar, não pode perder esta oportunidade.

Termino com a minha tradução do texto introdutório do primeiro módulo.

O que faz uma grande estória? O que distingue um bom contador de estórias? Contar estórias é algo que todos fazemos naturalmente, desde muito novos, mas há uma diferença entre uma boa estória e uma grande estória. Nesta lição vai ouvir os autores e artistas visuais da Pixar explicar como começam e que tipos de estórias os inspiram, e vai começar a pensar que género de estórias poderá querer contar.

Via Roteirista Empreendedor

Os 12 princípios da animação

Durante os anos 30 os estúdios Disney estavam na vanguarda do cinema de animação mundial. Os seus animadores, incluindo Frank Thomas e Ollie Johnston, definiram o rumo dos desenhos animados até hoje. Todos os que vieram depois, incluindo a inovadora Pixar, limitaram-se a fazer evoluir para novos patamares as bases do que ali foi desenvolvido.

Uma das suas contribuições foram os chamados 12 princípios da animação, um conjunto de recomendações destinadas a dar a ilusão de vida aos personagens dos filmes Disney, fossem eles pessoas, animais ou objectos inanimados. Quando olhamos encantados para o desfile de vassouras d’O Aprendiz de Feiticeiro, são esses princípios que estão em acção.

O animador Cento Lodigiani decidiu prestar uma homenagem a esses pioneiros com um pequeno vídeo em que, através da animação de um cubo, ilustra os 12 princípios da animação.

Referi acima a Pixar. Já aqui falei várias vezes desse gigante da animação contemporânea, nomeadamente para apresentar as suas dicas de criação de estórias.. Encontrei recentemente, através do site do guionista John August mais um recurso sensacional: um pequeno vídeo em que Michael Arndt, autor de filmes como Toy Story 3, explica como escrever um primeiro acto ao jeito da Pixar. Fica aqui esse vídeo.

Mas todos estes princípios e preceitos para escrever e animar estórias de animação, servem exactamente para quê? Ora – para criar as obras primas que um grupo de animadores de todo o mundo seleccionaram há pouco tempo: os 100 melhores filmes de animação de sempre. Há aqui obras para todos os gostos e feitios. Mas sabe qual foi o filme que ficou em 1º lugar? Então, descubra a seguir.

Ebook gratuito sobre as 22 regras de escrita da Pixar

Há algum tempo atrás uma artista da Pixar, Emma Coats, escreveu uma série de tuítes com algumas regras que ela deduziu a partir dos métodos de criação usados na companhia. Essa contribuição teve grande impacto e foi reproduzida, comentada e analisada em muitos sites e artigos. Eu próprio escrevi um artigo sobre ela.

Outras referências incluem, por exemplo, esta apresentação da Slideshare que resume e ilustra as 22 regras.

Hoje apresento mais uma contribuição para o seu estudo e compreensão, pela mão de um outro ex-artista da Pixar, Stephan Bugaj. É um ebook, gratuito, que pode ser baixado aqui. Pega nos 22 tuítes originais e desenvolve-os, explicando no seu contexto.
É fundamental entender o que o autor começa por explicar, citando Emma Coats: ” São uma mistura de coisas aprendidas de realizadores & colegas na Pixar, ouvindo escritores & realizadores falar acerca do seu trabalho, e através de tentativa e erro ao fazer os meus próprios filmes“.

Logo a seguir Stefan explica o mais importante: “Algumas pessoas olharam para esta lista como a fórmula da Pixar, um conjunto de regras imutáveis que nós seguimos e que são a “maneira certa” de escrever uma estória. Mas não foi essa a sua intenção. Ela foram partilhadas como forma de pôr as pessoas a pensar acerca de cada um destes tópicos, como uma forma de começar a conversa, não se ser a última palavra“.

Baixe o ebook gratuito aqui e estude-o tendo em atenção as palavras anteriores.

Como escrever um filme ao jeito da Pixar – take 2

Como se pode ver em artigos anteriores deste blogue, sou um fã da Pixar e dos seus autores. O que não admira – nenhum outro estúdio ou produtora produziu consistentemente tantos filmes tão bons e com tanto sucesso.

Descobri recentemente um artigo, Pixar story rules, que reúne uma série de tuítes de Emma Coats, uma artista da Pixar.

Nessa série ela resume, com a economia dos 144 caracteres, alguns dos princípios básicos para escrever um filme ao jeito da Pixar. São conselhos em linha com outras coisas que já tinha lido, mas que sempre vale a pena recordar.

Resolvi pois traduzi-los e postá-los aqui. Leiam, absorvam e apliquem, para benefício vosso e dos vossos leitores.

#1: Admiramos os personagens mais pelo que tentam do que pelo que conseguem.

#2: Temos de manter em vista o que é interessante para a audiência, mais do que o que é divertido para nós, escritores. Podem ser coisas muito diferentes.

#3: Tentar encaixar o tema é importante, mas nunca vemos sobre o que a estória realmente é antes de a terminar. Resta reescrever

#4: Era uma vez —. Todos os dias, —. Um dia —. À conta disso, —. Até que finalmente —.

#5: Simplifica. Foca. Combina personagens. Salta sobre os desvios. Vais achar que estás a perder coisas preciosas, mas isso dá-te liberdade.

#6: Em que é que o teu personagem é bom, onde se sente confortável? Atira-lhe o seu oposto absoluto. Desafia-o. Como é que ele reage?

#7: Define o teu final antes de resolver o meio. A sério. Os finais são difíceis, tens de os fazer funcionar logo à partida.

#8: Termina a tua estória e põe-a a andar mesmo que não esteja perfeita. Num mundo ideal terias as duas coisas, mas segue em frente. Faz melhor na próxima.

#9: Quando estiveres bloqueado numa cena faz uma lista do que NÃO ACONTECERIA a seguir. Muitas vezes é o suficiente para te desbloquear.

#10: Analisa a fundo a estórias de que gostas. O que gostas nelas faz parte de ti; tens de o reconhecer antes de o poder usar.

#11: Colocá-lo no papel é a maneira de começar a fixá-lo. Se ficar apenas na tua cabeça, como uma ideia perfeita, nunca poderás partilhá-lo com ninguém.

#12: Deita fora a 1ª coisa de que te lembras. E a 2ª, a 3ª, 4ª, 5ª – tira as soluções óbvias do caminho. Surpreende-te a ti mesmo.

#13: Dá opiniões aos teus personagens. Passivo/maleável pode parecer agradável enquanto escreves, mas é veneno para as audiências.

#14: Porque é que tens de contar ESTA estória? Qual a crença fervorosa dentro de ti de que esta estória se alimenta? Esse é o fundo da questão.

#15: Se tu fosses o teu personagem, nesta situação, como te sentirias? A honestidade dá credibilidade às situações incríveis.

#16: O que está em jogo? Dá-nos uma razão para torcer pelo teu personagem. O que sucede se ele falhar? Atira-lhe problemas para cima.

#17: Nenhum trabalho é desperdiçado. Se não está a funcionar, abandona-o e segue em frente – voltará à tona e será útil mais à frente.

#18: Tens de te conhecer a ti mesmo: qual a diferença entre fazer o teu melhor & insistir inutilmente. Escrever é testar, não refinar.

#19: Coincidências para colocar os personagens em sarilhos são ótimas; coincidências para os tirar de sarilhos são batota.

#20: Exercício: agarra nos blocos constituintes de um filme de que não gostas. Como os rearranjarias para fazer algo DE QUE GOSTAS?

#21: Tens de te identificar com as tuas situações/personagens, não podes escrever apenas o que é ‘fixe’. O que TE faria agir de determinada maneira?

#22: Qual é a essência da tua estória? Qual a forma mais económica de a narrar? Se sabes as respostas a isto, podes desenvolver a partir daí.

É possível que venha a haver mais tuítes desta série, por isso é boa ideia passar a seguir a autora no Twitter. Já agora, pense na hipótese de me seguir a mim também. Prometo não colocar o que estou a comer ao almoço, mas sim coisas interessantes, de escrita e outros temas – design, tecnologia, fotografia, arte, etc.

Como escrever um filme ao jeito da Pixar

O excelente site de guionismo Go Into The Story publicou recentemente uma também excelente entrevista com Mary Colemant, chefe de desenvolvimento da Pixar. A sua responsabilidade na empresa é estabelecer a ponte entre os realizadores e os guionistas durante o processo de desenvolvimento dos filmes.

Dado que a Pixar é o estúdio mais bem sucedido da história do cinema, com 12 sucessos mundiais em 12 filmes produzidos, é bom tentar perceber como é que eles conseguem escrever um filme após outro sem baixar o nível.

Qual é a fórmula Pixar?

A resposta é uma desilusão para quem queira soluções fáceis e de aplicação imediata. Não há fórmula secreta. "É apenas trabalho duro, e persistir até ultrapassar os momentos difíceis".

Mas a leitura da entrevista mostra que há um método de trabalho, muito específico, próprio da cultura da empresa. Esse processo é explicado com bastante detalhe ao longo da entrevista, mas não resisto a selecionar e traduzir alguns pontos mais importantes.

"O termo certo é mesmo oficina. (…) Na Pixar demoramos anos, cerca de cinco anos, para acertar com a estória.

Vai haver versões que não funcionam, mas em vez de entrar em pânico (..) temos de confiar no nosso processo de desenvolvimento de longo prazo.

A tecnologia é sempre uma ferramenta ao serviço da estória. (…) Podemos ter inventado novos e espetaculares softwares, mas quando entramos na estória confiamos nos fundamentos da dramaturgia.

Não temos vergonha dos sentimentos.

Somos muito influenciados por Hitchcock. Os seus filmes são sempre cheios de surpresas.

[Os realizadores] são desafiados a apresentar três ideias originais. O John [Lasseter] ouve e escolhe a que ele achar mais promissora para a Pixar.

Quando a ideia é escolhida passamos cerca de uma ano a fazer pesquisa (…) e a explorar esse mundo e os personagens que podemos encontrar nele.

O mais importante é encontrar o núcleo da estória.

Começamos com outlines (escaleta) muito vagas, que são apresentadas regularmente ao Brain Trust – um grupo dos outros realizadores d Pixar. Esse é um dos aspetos mais caraterísticos da Pixar; recebemos opiniões e comentários dos nossos colegas. E são colegas tão empenhados no nosso sucesso como no seu próprio.

Muitas vezes passamos um ano inteiro na fase de outline antes de escrevermos a primeira versão do guião. 

A segunda versão do guião (…) é sempre má. Realmente má. Mas tudo bem.

Fazemos sempre muito mais de oito versões do guião. A certa altura perdemos a conta.

Fazer alterações é caro e trabalhoso, mas continuamos nisso até acertar completamente a estória. Nunca entrámos em produção com o guião completamente fechado.

Se olharmos para os nossos filmes há sempre um protagonista que começa com um defeito, embarca numa viagem, e sai do outro lado uma melhor pessoa… ou rato… ou peixe.

O motor das nossas estórias não são apenas os personagens; são as relações entre os personagens.

Por um lado sempre antropomorfisamos os nossos personagens. Mas por outro lado sempre tentamos ser verdadeiros em relação ao seu ponto de vista sobre o mundo.

[O que faz uma boa estória?:] Acho que isto pode soar brega, mas já referi antes que não temos medo dos sentimentos, por isso aqui vai… é vir do fundo do coração. Contar uma estória do fundo do coração. Todos os outros mecanismos da dramaturgia são inúteis sem isso."

Uma vez mais – a entrevista é sensacional. Pode encontrá-la aqui, dividida em seis partes: 1, 2, 3, 4, 5, 6

Como brinde, a conferência de Andrew Stanton no TED, em que ele toca em alguns dos mesmos pontos (e conta uma anedota hilariante).

E mais uma apresentação de Andrew Stanton, desta vez no Google. Eu sei que o filme John Carter não é da Pixar, mas o Andrew é. E é muito divertido.