WriterDuet acrescenta modo de planificação

O software de escrita online WriterDuet, de que já falei aqui, acrescentou uma nova funcionalidade: um modo de planificação de estórias baseado na metáfora do quadro de cortiça.

Numa breve experiência deu para perceber que o módulo funciona muito bem, ampliando dessa forma a utilidade do programa que, recordo, é gratuito e funciona na “nuvem”, através de qualquer browser.

As  principais funcionalidades do modo de planificação do WriterDuet são as seguintes:

  • Colaboração online em tempo real com outros autores
  • Modo de cartões e modo de escaleta
  • Opções de organização
  • Sequências e actos
  • Emoticons e cores de cenas
  • Personagens, com ícones e cores
  • Opção de organização livre ou em grelha
  • Opção de ver o texto da cena nos cartões
  • Exportação para PDF e impressão
  • Modo ecrã inteiro e estética de quadro de cortiça

Com esta nova opção de trabalho o WriterDuet afirma-se ainda mais como uma excelente opção para a escrita de guiões, especialmente para quem precise de funções avançadas de colaboração.

Via NoFilmSchool

Não compre o CeltX Script para o Mac

A equipa de desenvolvimento do CeltX lançou uma nova versão do seu programa de escrita de guião, chamada CeltX Script.

Baixei-a ontem e é uma verdadeira desilusão.

Em primeiro lugar, é um programa absolutamente minimalista (ou raquítico, se quisermos ser mauzinhos). Tem apenas a opção de escrever as páginas normais de guião e nada mais. Nem sequer podemos criar a página de rosto.

Tem um menu de Preferências que está desativado. Só isso diz da falta de cuidado colocada na sua produção.

Também não tem quaisquer funcionalidades de planejamento de estória, nem um modo de pré-visualização do resultado impresso. E muito menos funções mais avançadas, como notas, revisões, etc.

Mas o mais grave de tudo, para quem escreve em português, é que não reconhece as letras com acentos, como se pode ver na imagem seguinte.

celtx Script

Esta falha torna-o absolutamente inútil para nós.

E é uma falha tanto mais estranha quanto o programa se baseia, quase integralmente, no motor de processamento de texto do Mac. Como tal todas as opções de correção ortográfica automática em várias línguas estão disponíveis.

Um erro destes só se explica por absoluta falta de cuidado dos desenvolvedores.

Mesmo assim não seria muito grave se o CeltX Script fosse gratuito. Quem quisesse experimentá-lo, apesar destas limitações, baixava-o, testava-o e apagava-o.

Mas o CeltX Script custa 9,99 USD (mais de 8 euros, 20 R$).

Aí a coisa fica feia – colocar um programa com todas estas limitações por um valor desses já é uma decisão pouco séria. Principalmente porque no site do CeltX continua a estar disponível a versão tradicional, gratuita, para todas as plataformas.

Pode ser que numa próxima versão o CeltX Script corrija estas falhas e acrescente algumas funcionalidades mais avançadas que o tornem mais convidativo e justifiquem o seu preço.

Mas, para já, mantenha-se longe dele.

Teste durante três meses o programa de escrita Story Touch

Story Touch é um programa de planificação, desenvolvimento, análise e escrita de guiões. Já falei aqui dele, na altura do seu lançamento, e mais tarde recomendei uma série de entrevistas com os melhores guionistas brasileiros patrocinadas por ele.

O Story Touch tem quatro versões, desde o Básico, gratuito, até ao Top, que inclui todas as funcionalidades disponíveis. Esta versão é bastante cara, o que pode ter afastado muitos guionistas de experimentá-la.

Pois agora todos os interessados poderão fazê-lo por um período alargado de 3 meses, graças ao Story Touch Projeto 3+.

A promoção tem regras específicas, nomeadamente a necessidade de participar com um grupo de amigos, mas três meses é bastante tempo (o suficiente para escrever uma primeira versão de um guião) o que a torna bastante tentadora. Além disso vão ser sorteadas licenças do programa entre todos os participantes.

Mesmo que não esteja interessado em desenvolver um projeto de grupo, arranje alguns amigos e inscreva-se. Cada um ficará com uma cópia de teste e poderão experimentá-la nos vossos projetos individuais.

Final Draft com desconto até ao fim do mês

Quem tenha lido o meu artigo sobre softwares de escrita de guião sabe que eu recomendo o Final Draft como opção "topo de gama". É o software usado por praticamente todos os guionistas profissionais.

Infelizmente o Final Draft tem um preço muito elevado, o que afasta muitos potenciais utilizadores. O que é uma pena, pois ele ajuda muito no processo de escrita e reescrita.

A Writers' Store está neste momento a fazer uma promoção do Final Draft para download, em que o oferece com um preço um pouco mais baixo. Continua a ser um programa caro, mas para quem tenha vindo a considerar a possibilidade de dar o salto, pode ser o incentivo necessário.

Esta promoção oferece ainda uma série de materiais adicionais – livros, cursos online, etc – que não conheço, mas parecem ser interessantes.

Nota: se comprar usando o link fornecido, uma pequena porção do preço reverte para o autor do site onde encontrei esta notícia. Como é um site que leio muito, e onde já aprendi muita coisa, preferi deixar o link assim e dar-lhe esse pequeno incentivo.

Os melhores programas para escrever um filme – a minha seleção

Introdução

Antes de entrar no tema do artigo, devemos perceber porque razão a maioria dos guionistas usam algum tipo de software especial para a escrita de guiões.

Afinal de contas, não é verdade que o Quentin Tarantino escreve a primeira versão de todos os seus guiões apenas com lápis e um bloco de papel?

E o Word? Praticamente toda a gente tem uma cópia (provavelmente pirata) desse programa nos seus computadores. Até há razoáveis modelos próprios para escrever guiões com o Word.

O que é que justifica então o uso de um programa especializado para escrever um filme, se isso pode ser feito por outros métodos mais generalistas?

Há três respostas para esta questão:

  1. Porque enviar um bloco de papel por email costuma ser complicado;
  2. Porque a última versão tolerável do Word foi o “95” (como em “1995”, da última década do século passado) ;
  3. E, finalmente, porque um software especializado simplifica incrivelmente a vida dos guionistas.

Esta terceira razão é particularmente importante. Numa atividade tão complexa e difícil com escrever um filme, tudo o que possa tornar a nossa vida menos complicada é bem vindo.

Características comuns

Por razões que já expliquei noutros artigos os guiões são escritos segundo convenções próprias e um formato especial. Se não faz ideia do que estou a falar, sugiro uma leitura rápida deste artigo do Curso de guião.

Assim, todos os softwares de escrita de guião partilham obrigatoriamente duas características:

  1. Tornam mais simples a introdução dos elementos componentes do guião (cabeçalhos, descrições, diálogos, etc.);
  2. Automatizam a apresentação destes elementos do guião segundo as normas de formato aceites na indústria.

A forma como os diversos programas alcançam estes objetivos é mais ou menos semelhante entre todos (com uma excepção que destacarei mais adiante).

Introdução de elementos

Para tornar mais prática a introdução dos diferentes elementos usamos uma combinação entre a tecla de parágrafo e a de tabulação.

Introduzindo estas teclas a seguir a um parágrafo de um determinado estilo determinamos qual o estilo do parágrafo seguinte.

Por exemplo, no Final Draft, se estivermos num parágrafo com o estilo Cabeçalho e carregarmos na tecla parágrafo, o estilo do parágrafo seguinte será Ação. Isto tem lógica, pois a seguir a um Cabeçalho deve vir sempre uma descrição de Ação.

Se introduzirmos agora um novo parágrafo este manterá o estilo Ação. Isto também tem lógica, pois uma descrição pode estender-se por vários parágrafos. Mas se usarmos a tabulação mudamos o estilo do parágrafo para Personagem.

Um parágrafo a seguir a Personagem introduz uma linha de Diálogo. Uma tabulação a seguir a Diálogo introduz um Parênteses. E assim por diante.

A descrição deste método é mais complexa do que a sua utilização. Após um pouco de prática tudo isto se torna automático e intuitivo, e surfamos pelo nosso texto, saltando de estilo em estilo sem sequer pensar nisso.

Formatação

A segunda etapa deste processo é igualmente importante. Todos os programas de escrita de guião asseguram que, quando exportamos ou imprimimos o nosso documento, os estilos que usamos vão aparecer na página de acordo com as normas da indústria.

Por exemplo, segundo essas normas, os parágrafos de Cabeçalho e Ação devem ser alinhados à esquerda, a 2,5 cm da margem esquerda do papel, e estender-se até 2,5 cm da margem direita.

Já os parágrafos de Personagem, Parênteses e Diálogo também alinham à esquerda, mas as suas distâncias às margens são diferentes.

Cada programa garante que no momento da impressão todas estas medidas são respeitadas e o guião fica adequadamente formatado.

Para isso são usados modelos (templates) definidos conforme o tipo de guião que estamos a escrever. Continuando a usar o Final Draft como exemplo, vemos que esse programa oferece dezenas de modelos: além de duas ou três variações do guião de cinema básico, inclui modelos para as principais séries de televisão atuais.

Mais importante do que isso, os estilos dos modelos podem ser ajustados a necessidades especiais de produção.

Por exemplo, em Portugal usa-se muito um formato para televisão em que os cabeçalhos correm a página inteira, mas as descrições ficam na metade esquerda da página, alternando com os diálogos na metade direita.

Com um pouco de trabalho conseguimos alterar os estilos e criar um modelo específico para este formato (a que podemos chamar, se quisermos, Modelo TV Idiota).

Vantagens adicionais

Além destas duas características comuns a maior parte dos programas de escrita de guião oferecem duas outras vantagens:

  1. Métodos para ajudar na fase de planeamento da escrita;
  2. E métodos para ajudar na fase de reescrita.

Muitos autores de cinema e televisão só começam a escrever depois de ter uma sinopse e/ou uma escaleta mais ou menos detalhada da estória. É o método que eu uso, e já escrevi sobre isso num artigo recente.

Cada programa oferece métodos para tornar mais simples essa planificação. De forma geral esses métodos reproduzem digitalmente os métodos analógicos tradicionais: listas de cenas e cartões de notas.

Quanto à reescrita, não me canso de repetir que é uma das fases mais importantes do processo de escrita. Há quem diga até que os guiões não se escrevem; reescrevem-se.

Os programas de escrita de guião oferecem normalmente opções e métodos para auxiliar a reescrita, que vão desde a gestão de notas e comentários até à gravação e comparação de versões alternativas.

Finalmente, a minha seleção

O que não faltam são opções de escolha entre os softwares de escrita de guião, em todas as plataformas.

Vão desde os programas de desktop mais tradicionais até às web apps baseadas na nuvem, passando por uma miríade de aplicações para as plataformas móveis, telemóveis e tablets.

Muitos destes programas estão disponíveis nos diferentes sistemas operativos – Mac OS, Windows, Unix, iOS e Android. A dificuldade está apenas na escolha.

Já experimentei uma boa parte destas opções, comprei algumas delas, e li sobre quase todas as outras.

Depois de todos esses testes a minha seleção acaba por ser bastante tradicional, resumindo-se a três (mais uma) recomendações: Final Draft, CeltX, Scrivener e o jovem Highland.

Outros programas poderiam fazer parte desta lista, como o clássico MovieMagic Screenwriter, ou o recente Fade In. Mas esta seleção corresponde aos programas que uso com mais frequência.

Passo a seguir a explicar porquê, destacando as suas principais funcionalidades e aquelas que são, na minha perspetiva, as suas vantagens e defeitos.

Final Draft – o profissional

O Final Draft apresenta-se nos seus anúncios como “o padrão da indústria” e, de fato, acaba por sê-lo. Praticamente todos os guionistas profissionais têm uma cópia no seu computador e usam-no para grande (se não a maior) parte dos trabalhos.

Está atualmente na versão 8, mas já começa a revelar um pouco a sua idade avançada. É provável que em breve saia uma nova versão, até porque estão prometidas novidades para as plataformas móveis.

Seja como for, é um programa fácil de usar, robusto e estável, com um conjunto muito completo das funcionalidades necessárias nas três fases: planeamento, escrita e reescrita.

  • Formatação transparente à medida que escrevemos.
  • Dezenas de modelos para tv, teatro e cinema.
  • Um tipo de letra especial, o Courier Final Draft (que pode também ser usado com outros programas).
  • Uso das teclas de parágrafo e tabulação conforme descrito acima.
  • Introdução rápida de elementos repetitivos (nomes de personagens, locais, etc.).
  • Introdução automática de (More’s) e (Continued’s) (não é muito útil em Portugal).
  • Função de planejamento por escaleta ou cartões.
  • Divisão do ecrã em painéis, permitindo ver o guião e a escaleta ou cartões em paralelo.
  • Janela de navegação rápida entre cenas. *Notas de escrita.
  • Modo de revisão.
  • Um assistente de formatação, que detecta erros de formato antes da impressão.
  • Página de capa.
  • Funcionalidades de produção, como bloqueio de páginas e de cenas.
  • Criação automática de relatórios de guião (por exemplo, com o número e tamanho das cenas em cada local, ou para cada personagem).
  • Exportação perfeita para .pdf

Depois de aprender a usar o Final Draft (o que é relativamente fácil e rápido) é uma delícia trabalhar com ele. A escrita sai com fluidez e naturalidade, e o guionista pode concentrar-se apenas no conteúdo, esquecendo completamente as preocupações com a forma.

Em suma: na maior parte dos casos ninguém ficará mal por decidir escrever um guião com o Final Draft.

Isso não quer dizer que ele não tenha alguns inconvenientes.

O primeiro é, obviamente, o seu preço. Para dar $250 USD por uma cópia é preciso pensar duas vezes. Só quem esteja a trabalhar regularmente como guionista se pode dar a esse luxo.

Além disso há a já referida idade avançada da versão atual, que não permite usar algumas das vantagens dos sistemas operativos mais modernos, como a escrita em ecrã inteiro ou a gestão transparente de versões anteriores.

O Final Draft ganharia também muito com uma revisão das suas ferramentas de planeamento da escrita, que não são tão práticas e completas como poderiam ser. A sua utilização dos cartões não é muito intuitiva e a visão em escaleta tem grandes limitações.

Mas o pior defeito do Final Draft é a exportação para um formato compatível com o Word, o .rtf. É uma perfeita desgraça. O resultado é tão mau que eu tive de comprar um outro programa, o Fade In, só para esse efeito.

O Final Draft exporta perfeitamente para .pdf (mal seria se não o fizesse) e razoavelmente para “texto com formato”. Mas se o seu método de trabalho implica a entrega de uma versão final em Word, como acontece ainda (infelizmente) com muitas produtoras portugueses, é melhor escolher outro programa.

CeltX – o concorrente (quase) gratuito

O CeltX apareceu e ganhou uma grande base de adeptos apresentando-se como a alternativa gratuita ao Final Draft.

Hoje em dia continua a ter uma versão gratuita, mas vale a pena gastar um pouco mais (que em certas promoções pode ser tão pouco quanto $9 USD) para ter acesso ao que chamam de “PowerPack” que inclui algumas funcionalidades extra.

O CeltX mima a maior parte das funções e método de utilização do Final Draft, acrescentando-lhe algumas novidades e cortando em outras. Já escrevi um tutorial sobre o uso do CeltX, que continua a ser um dos artigos mais populares do blogue.

Na sua versão mais recente está a notar-se uma tentativa de centralizar o uso do CeltX na nuvem, com uma versão online e funcionalidades de arquivo distante. Não é o que mais me interessa, mas admito que em certos trabalhos em equipa essa funcionalidade possa ser útil.

Vejamos então as principais características do CeltX (usando o PowerPack como referência).

  • Disponível em 34 línguas e nas plataformas Windows, Mac, Linux.
  • Modelos para cinema, teatro, guiões audiovisuais (AV), rádio, banda desenhada e ficção em geral.
  • Formatação automática.
  • Gravação local e na nunvem.
  • Sicronização de guiões entre
  • Método de escrita rápida semelhante ao FD.
  • Bloqueio de cenas e de páginas para produção.
  • Adaptação automática de um modelo para outro (de banda desenhada para cinema, por exemplo).
  • Formulários para desenvolvimento de personagens, locais, etc.
  • Cartões de notas com diferentes modos de visualização.
  • Modo de painel de cortiça para ver os cartões de notas.
  • Escrita em ecrã inteiro.
  • Cronómetro e relatórios de progresso.
  • Criação de blocos de notas com imagens, vídeos e documentos, para referências de pesquisa.
  • Criação de* storyboards* e sua visualização animada.
  • Criação de esquemas de filmagem.
  • Clip art para colocar nos storyboards .
  • Relatórios de produção, como cronogramas, folhas de serviço e relatórios de filmagem.

O CeltX é, como se pode ver, um programa completo e versátil, que tem tudo o que é necessário para planear, escrever e apresentar um guião.

Será sempre uma boa opção de escrita, especialmente atendendo ao seu baixo preço.

Não posso, no entanto, deixar de referir alguns dos seus inconvenientes, começando pelo interface, que não é muito intuitivo. Certas funções deveriam ser acessíveis de uma forma mais prática e imediata.

Uma das coisas que contribui para esta complicação é o excesso de funções de utilidade duvidosa para um guionista (como os storyboards ou os relatórios de produção). O Final Draft também tem muitas opções que raramente usamos, mas estão normalmente associadas ao guião.

As opções do CeltX, contudo, tentam torná-lo uma espécie de “canivete suíço” da produção. Talvez isso o torne útil para algumas empresas e situações (embora nunca o tenha encontrado na prática), mas torna-o mais complicado para quem queira apenas escrever com ele.

O principal defeito do CeltX, contudo, tem também a ver com a exportação dos ficheiros. Se a saída em .pdf também funciona bem (fundamental), é praticamente impossível arrancar dele um ficheiro que possa ser usado funcionalmente noutro programa.

Essa é a principal razão porque não uso o CeltX com tanta frequência como os outros dois programas da minha seleção principal.

Se o seu método de trabalho termina num .pdf use o CeltX com confiança. Se passa por outros tipos de ficheiros, esqueça.

Scrivener – a alternativa todo-o-terreno

O Scrivener é o programa que comecei a usar mais recentemente para escrever um filme ou episódio de televisão. Mas é também, neste momento, o meu favorito.

É um verdadeiro cavalo de batalha, usado por escritores de todos os tipos, desde autores de ficção a universitários. A sua principal vantagem é a versatilidade, que permite compor e estruturar documentos longos e complexos.

Tem uma enorme gama de ferramentas que podem torná-lo um pouco intimidante à primeira vista. Exige também uma curva de aprendizagem um pouco mais longa do que os outros programas. Mas depois de ultrapassadas estas barreiras iniciais, é um prazer trabalhar com ele.

E não é porque seja um programa extraordinariamente rico de funções específicas para guionistas. As funcionalidades do modo de escrita de guião são limitadas ao mínimo: modo rápido de mudança de estilos, introdução automática de elementos, e formatação perfeita.

Não tem também quaisquer das funções “profissionais” de bloqueio de páginas e cenas.

Onde o Scrivener brilha é na planificação do guião. Não só é extraordinariamente versátil, como é simples, intuitiva e prática. De todos os programas que já usei foi o único que substituiu com vantagem o lápis e papel nas fases iniciais, mais soltas, do planeamento das estórias.

A sua funcionalidade torna-o extremamente útil para a planificação de projetos longos e complexos.

Por exemplo, o trabalho que estou neste momento a terminar inclui oito guiões completos de televisão mais versões alternativas de alguns desses guiões. No total são mais de trezentas e cinquenta cenas organizadas num único documento e acessíveis a qualquer momento.

Além disso, suporta praticamente tudo o que queiramos introduzir-lhe, sem que se notem diferenças de tempo de resposta. O documento de trabalho que refiro acima inclui ainda sinopses, tratamentos, notas com alterações, apanhados de sites, documentos e fotos de pesquisa, e ainda todos os rascunhos e cenas apagadas.

O Scrivener tem ainda uma funcionalidade exclusiva que adoro. É possível seleccionar em simultâneo cenas soltas, não sequenciais, e editá-las como um documento único.

Isso permite, por exemplo, ver ao mesmo tempo e editar todas as cenas de uma trama secundária, ou as que incluem um determinado personagem. Só essa possibilidade coloca o Scrivener numa categoria à parte.

Tão importante quanto isso, podemos exportar os guiões a qualquer momento, em conjunto ou individualmente, e até cena cena, para uma enormidade de formatos. Além do obrigatório .pdf, é possível exportar para .rtf, várias versões de .doc e .docx, .html, .xml, para o Final Draft (.fdx), e até para os vários formatos de ebook.

O Scrivener só tem versões para Mac e Windows, e ainda não tem equivalente nas plataformas móveis. É um programa pago mas não é muito caro – $45 USD – e vale cada centavo que custa.

Segue um resumo das suas principais características.

  • Modo de escrita de guião
  • Método de escrita rápida.
  • Autopreenchimento de elementos.
  • Formatação perfeita e flexível.
  • Exportação perfeita para grande variedade de formatos.
  • Gestão de projetos complexos e diversificados.
  • Flexibilidade completa na organização do trabalho.
  • Arquivo de elementos de pesquisa.
  • Gestão de versões.
  • Modo de escrita em ecrã inteiro.
  • Notas de documento e de cena.
  • Modo “scrivenings” que permite combinar temporariamente cenas não contíguas.
  • O melhor modo de escaleta de entre todos estes programas.
  • O melhor modo de cartões de notas, com um “quadro de cortiça” prático e flexível.
  • Possibilidade de tirar “instantâneos” do trabalho a qualquer momento, e regressar a eles mais tarde, se nos arrependermos.
  • Possibilidade de criar “coleções” de cenas segundo uma enorme variedade de critérios.
  • Modo de revisão.
  • Comentários e notas de rodapé.
  • Backups automáticos.
  • E mais tanta coisa, que é melho parar por aqui…

Tudo indica que o Scrivener se vai tornar o meu programa de escrita por defeito. A planificação das estórias é uma fase muito importante do meu processo de trabalho, e nenhum outro programa que eu tenha encontrado me dá as mesmas vantagens.

O Scrivener pode ser tão complexo ou tão simples quanto eu queira, e isso é o ideal. O modo de escrita de guião tem tudo o que eu preciso no dia a dia.

Mas se necessitar de funções mais avançadas como o bloqueio de páginas ou de cenas, a importação e exportação para o formato do Final Draft funciona perfeitamente.

Por uma questão de equilíbrio, devo apontar também as desvantagens do Scrivener.

A primeira, que já referi, é que pode ser um pouco intimidante a princípio. Mas tem um tutorial interativo muito completo (em inglês) que ajuda a ultrapassar a confusão inicial.

O preço, apesar de razoável, também pode afastar algumas pessoas. A minha recomendação é que baixem a versão gratuita limitada e experimentem. Estou certo de que verão que o investimento é justificado.

Por fim, a única coisa que me incomoda no dia a dia. Quando estamos a escrever no modo de guião e introduzimos uma nova cena ele automaticamente passa ao modo normal.

Supostamente isto é uma vantagem, pois permite combinar cenas ainda em tratamento com outras já definitivas (e fazer, por exemplo, os scriptments que caraterizam as primeiras versões dos guiões de James Cameron). Mas é uma vantagem que eu dispensava, pois vai contra o meu método de trabalho. É provável que haja uma forma de contornar isto, mas ainda não a descobri.

Em suma, se não conhece ainda o Scrivener, experimente-o. A sua vida de escritor/guionista nunca mais será a mesma.

Highland – a abordagem minimalista

Deixo para o fim, como bónus, o programa mais recente. Tão recente que ainda está em fase experimental (a chamada fase beta).

O Highland é um programa desenvolvido pelo guionista americano John August, um dos mais conhecidos e respeitados guionistas americanos no ativo, e alguns colaboradores.

Atualização: um comentário de um leitor leva-me a acrescentar um aviso importante – como todos os programas em fase alpha ou beta também o Highland deve ser tratado com luvas. Trabalhe com cópias dos seus ficheiros e faça sempre backups frequentes do trabalho. Use-o com cuidado e, por favor, não me responsabilize se perder algum ficheiro ;-)

O Highland parte de uma premissa muito clara: trabalha apenas em ficheiros de texto simples, .txt, usando uma sintaxe própria durante o processo de escrita. Mais tarde, quando é preciso imprimir ou exportar o ficheiro, essa sintaxe é automaticamente filtrada e convertida no formato correto.

A sintaxe usada, a que John August chamou Fountain, é muito intuitiva. É semelhante à que uso neste blogue para escrever as secções de cenas de guião.

Por exemplo, num documento .fountain qualquer linha isolada escrita apenas em letras maiúsculas é interpretada como um Cabeçalho, e formatada como tal no momento da impressão.

Assim,

EXT. CASA – DIA

ou

FLASHBACK – NO BARCO

ou até

NO CIMO DO MONTE

são frases que serão impressas como Cabeçalhos, e parecerão assim na página.

EXT. CASA – DIA

NO CIMO DO MONTE

 

FRANCISCO
O que é que me querias dizer?

será interpretado como um Personagem e o respetivo Diálogo, pois a frase em miúsculas não está isolada; tem o diálogo na linha imediatamente a seguir.

FRANCISCO

O que é que me querias dizer?

Parece mais complicado do que é. Na prática o processo acaba por ser bastante fluido e transparente, embora quem está habituado aos métodos de escrita rápida do Final Draft, CltX ou Scrivener possa estranhar.

A vantagem desta abordagem é que os ficheiros, gravados como texto simples, podem ser editados por qualquer programa, em qualquer plataforma. Podemos assim começar um guião no telemóvel, escrevê-lo no portátil, apresentá-lo e editá-lo num tablet e arquivá-lo na nuvem, sempre com o mesmo documento.

Os ficheiros são também muito leves e à “`prova de tempo”. Por muitos programas que nasçam e morram nas próximas décadas, é provável que seja sempre possível abrir, ler e editar um documento de texto simples. O mesmo não pode ser garantido, por exemplo, em relação ao Final Draft ou CeltX, ou mesmo o Scrivener.

Cada pessoa fará a sua avaliação da validade deste argumento. Não é suficientemente forte para eu adotar o Highland no dia a dia, mas talvez me convença a guardar uma versão de arquivo dos guiões finalizados no formato .fountain, como precaução para o futuro.

O Highland tem ainda uma outra ferramenta muito interessante: “derrete” .pdfs, ou seja, converte documentos .pdf para o formato .fountain ou Final Draft.

Em alguns trabalhos acontece recebermos guiões fechados, gravados em .pdf. O Highland permite convertê-los para um formato novamente editável. Só isto pode justificar baixar o programa (gratuito enquanto estiver na fase beta) e acrescentá-lo à nossa lista de ferramentas.

Os inconvenientes do Highland, por outro lado, são óbvios. Não inclui quaisquer ferramentas para a planificação dos guiões, ou sua reescrita. O uso duma sintaxe própria torna-o diferente dos concorrentes, obrigando a mais uma aprendizagem.

Mas estes “defeitos” são exatamente o que pode tornar atrativo o Highland aos olhos de um guionista de pendor mais minimalista.

Veredito final

Se teve paciência de ler até aqui, parabéns, Se saltou o miolo e veio direto ao final, devia ter vergonha ;-)

Cada um destes programas tem vantagens e desvantagens.

O Final Draft, completo, robusto mas caro, continuará provavelmente a ser o mais usado pelos guionistas profissionais em todo o mundo, principalmente se receber em breve uma atualização profunda e uma versão para tablet.

O CeltX, por outro lado, deverá manter-se como o favorito dos estudantes de cinema e guião, e dos projetos de baixo orçamento. Os seus defeitos são rapidamente esquecidos quando comparados com o seu preço incrível.

O Scrivener, que neste momento é o meu programa favorito, está condenado a ser descoberto pouco a pouco por muitos escritores e autores de estilos diversos, incluindo guionistas. Se um dia vier a ter um modo de escrita um pouco mais robusto, poderá ser o melhor candidato para destronar o Final Draft.

O Highland será sempre uma alternativa de nicho, mas estou certo de que os seus adeptos, como frequentemente acontece nos produtos de nicho, serão os mais fiéis de todos.

Quer uma recomendação final? Invista $45 USD e algumas horas de estudo no Scrivener. Não se vai arrepender.

Se usa frequentemente um ou mais destes programas, por favor deixe a sua opinião e sugestões nos comentários.

CeltX está nas nuvens

CeltX, o popular software de escrita de guião, introduz um novo serviço "nas nuvens" (cloud) a que chamou CeltX Edge. É um upgrade pago ao serviço tradicional, que se passa a chamar CeltX Free (grátis).

O CeltX Edge oferece mais capacidades do que a versão gratuita: melhor organização, arquivo, partilha e impressão dos ficheiros.

A opção CeltX nas nuvens pode ser interessante para alguns utilizadores mas para mim, que uso o Dropbox para arquivo, backup e partilha de ficheiros (incluindo os ficheiros do CeltX), nunca foi suficientemente atrativa para justificar um uso contínuo.

Mesmo com as novas capacidades melhoradas, não estou a pensar pagar quase 50 dólares por ano para poder acedê-las.

No entanto, como o CeltX Edge tem um plano experimental gratuito de 30 dias, é fácil verificar por si mesmo se estas novas capacidades são úteis para si.

Promoção do CeltX tradicional

Já o software CeltX tradicional, para computador, está a oferecer uma promoção que me parece muito interessante.

Por apenas $9.99 dólares poderá comprar o software já incluindo o "pacote escritor" (Writers kit), que oferece ferramentas adicionais: dicionários (incluindo o português), cartões para planificação da estória e o tradicional quadro de cortiça, relatórios de progresso de escrita, temporizador, e a opção de escrever em ecrã completo, sem distrações.

Continua a ser possível baixar a versão gratuita, como sempre, mas neste caso acho que se justifica o pequeno investimento para aceder às ferramentas extra.

Software de guião Story Touch foi lançado com versão gratuita

O software de guião Story Touch, sobre o qual escrevi há pouco tempo, foi finalmente lançado. No seu site pode encontrar quatro versões progressivamente mais complexas, sendo a mais básica de todas gratuita.

O programa, que foi criado pelo diretor de Cidade dos Homens, Paulo Morelli, é apresentado como "um software completo de criação e desenvolvimento dramático. Com cores e gráficos, você terá um verdadeiro raio-x do roteiro."

Já baixei a versão gratuita, que inclui um editor de texto para guião, e vou analisá-la com atenção. Penso escrever um artigo mais completo sobre o software (quem sabe depois de comprar uma das versões mais avançadas).

Um software de guião made in Brasil

Paulo Morelli, diretor brasileiro de Cidade dos Homens, criou um programa de computador especializado para escritores e roteiristas, com o nome Story Touch. Uma descrição sumária do seu funcionamento já está disponível online mas o software será lançado apenas em Junho.

Algumas das caraterísticas descritas parecem bem interessantes. Pode ser que por ter sido criado por um profissional conceituado e que está realmente a trabalhar no mercado torne este software um pouco mais útil do que a média. A maior parte dos programas do género acabam por ser pouco práticos ou inadequados, pelo menos para a forma como eu trabalho.

Pessoalmente costumo usar o Scrivener para preparar e desenvolver as escaletas dos meus guiões. Mas estou curioso para experimentar algumas das ferramentas mais específicas que este software promete oferecer. Só espero que não venha cheio de bugs, como tantas vezes acontece nos novos programas.

Atualização: o leitor Carlos Reichel partilhou connosco um link com uma série de vídeos com tutoriais para o uso do Story Touch, em inglês. Confira aqui →

CeltX: um tutorial de escrita de guião

O software de escrita de guião CeltX lançou finalmente a sua versão 1.0, depois de anos nas 0.9.qualquer coisa. As diferenças não são muito aparentes, mas são profundas, e o facto serviu de motivação para eu escrever este artigo, que ando a planear há algum tempo: uma aula prática do CeltX, para ajudar todos os que procuram uma forma simples e prática de escrever os seus guiões com um formato correcto, sem terem de perder tempo e paciência com as folhas de estilos do Word.

O aspecto geral de um guião no CeltX.

Uma breve introdução

O CeltX é um software open source de pré-produção de media, que inclui capacidades tão diversas como a planificação e escrita dos guiões, os levantamentos das necessidades de produção, a planificação de filmagens, catálogos, calendário, storyboard, etc.

A sua grande promessa é uma integração perfeita entre todos os profissionais que trabalham na pré-produção de um projeto audiovisual, desde o guionista ao realizador, passando pelo assistente de realização e produtores. Cada um destes profissionais encontrará no CeltX uma solução prática e integrada para as suas necessidades. Obviamente vou dar mais destaque às características que  interessam aos guionistas.

Outra das características do CeltX é uma integração perfeita entre o programa que baixamos para o computador, e os serviços web associados. Podemos criar uma conta no site CeltX Project Central, que nos permitirá tornar o nosso guião acessível a todos os utilizadores ou, o que é mais interessante, apenas a um grupo seleccionado por nós. Isto permite, entre outras coisas, que várias pessoas possam trabalhar num mesmo guião, ou irem sendo informadas da sua evolução. Permite também manter backups do guião, na sua forma definitiva ou em tantas versões intermédias quanto quisermos.

No site do programa estão disponíveis versões para Windows, Linux e Mac OSX (a que eu utilizo), em 9 línguas, incluindo o português do Brasil. Muitas outras irão surgir, seguramente, pois na versão anterior há mais 12 línguas disponíveis. Todas as versões são gratuitas, e os ficheiros perfeitamente compatíveis entre si.

Principais características de interesse para os guionistas

O CeltX vem de origem com seis modelos de texto pré-formatados: guião cinema ou tv, teatro, guião audiovisual, guião áudio, banda desenhada e texto simples. Podemos ainda criar modelos próprios, adaptados a necessidades específicas.

Escolhido um destes formatos para o nosso guião, a escrita é muito simples: recorrendo apenas às teclas de parágrafo e tabelação, vamos saltando entre os diferentes estilos de cada elemento da página: cabeçalhos, ação, personagem, diálogo, etc. Durante a escrita podemos a qualquer momento ver a paginação exacta do nosso guião, incluindo números de cenas e detalhes como os (Mais) e (Continuados), que não são muito usados em Portugal.

Uma característica nova da versão 1.0 é a possibilidade de transformar automaticamente um guião num dos formatos pré-definidos em qualquer um dos outros. Por exemplo, um guião escrito como  banda desenhada pode ser transformado num guião para cinema. Não sei se na prática será muito útil, mas os criadores do programa dão-lhe grande destaque.

O CeltX inclui ainda um painel de fichas, ligadas interactivamente ao guião, em que cada cena é representada por uma ficha com o mesmo cabeçalho  e as primeiras palavras do texto. No verso (virtual) destas fichas podemos tomar notas sobre as cenas. Trocando osas fichas de lugar as cenas correspondentes também são mudadas.

Além disso cada ficha pode ser associado a uma trama (A,B, C, etc), permitindo ter uma noção visual precisa dos vários enredos que estamos a entrelaçar. Este modo de trabalho pode ser muito útil na fase de planificação de um guião.

Outras características

O CeltX tem um ror de capacidades de interesse para a pré-produção de um filme, que vão desde os levantamentos gerais dos elementos de cena (atores, cenários, adereços, veículos, etc), organizados em catálogos, até à planificação das filmagens; à produção de folhas de serviço e listas diversas, etc. Os realizadores poderão criar storyboards, e todos os utilizadores beneficiam de um modo de arquivo para reunir notas, documentos, vídeos, fotografias, etc.

Não tenho muita prática de produção, por isso não sei se todas estas funcionalidades são utilizáveis numa produção real. Mas imagino que, por exemplo, os estudantes de uma escola de cinema poderiam usar a maior parte delas na produção dos seus trabalhos práticos, sem ter necessidade de piratear os softwares profissionais que os produtores e assistentes de realização usam para esse efeito.

Finalmente, as mãos na massa

Como se processa então a escrita de um guião no CeltX. Vamos ver a sequência passo a passo.

1) Novo projeto – Quando abrimos o programa surge uma janela que nos dá a opção de abrir um projeto já criado ou criar um novo. A criação de um novo projeto também pode ser obtida a partir do menu "Arquivo/Novo projeto…".

Criando um projeto novo.

Outra forma de começar um projeto.

Nesta janela devemos escolher o tipo de guião que queremos escrever: filme, A/V, teatro, etc.

2) A janela inicial – selecionada uma das opções abre-se o documento correspondente numa página em branco.

O que vemos quando iniciamos um projeto: a temida página em branco.

Na coluna da esquerda temos duas áreas: a Biblioteca do projeto, onde aparece o guião (Roteiro, em português do Brasil) e o Catálogo principal. Outros elementos, textos, versões do roteiro, etc, podem ser acrescentados a esta biblioteca. Temos ainda a área das Cenas: uma lista numerada de todas as cenas do guião. Neste momento, e porque ainda não escrevemos nada, inclui apenas o número da primeira cena.

Na coluna do centro temos a área de escrita. No topo, destacam-se uma série de botões de formatação, que analisaremos em detalhe mais à frente; em baixo, vemos vários separadores para áreas com funções diferentes; e, no meio, a temida página em branco.

Nesta destaca-se, em cima, um rectângulo cinzento onde escreveremos o cabeçalho da primeira cena. Estes rectângulos cinzentos só aparecem no modo de escrita, para nos ajudar a separar visualmente as cenas, e não são impressos ou exportados.

Na coluna da direita vemos três separadores: Notas, Mídia e Decupagem. A primeira é útil para os guionistas, pois permite-nos incluir notas para cada cena (objectivos, excertos de diálogos, alterações a fazer, etc). As outras duas destinam-se mais à pré-produção e não me vou debruçar sobre elas neste tutorial.

3) A página em branco – vejamos então os diferentes elementos que constituem a coluna central, onde toda a escrita se processa.

A barra superior é dedicada à formatação.

No topo, do lado esquerdo, temos um Menu com a palavra Personagem destacada. Seleccionando esse menu obtemos todos os estilos disponíveis para o formato em que estamos a escrever. No caso do modelo de Cinema, são Cabeçalho, Ação, Personagem, Diálogo, Rubrica, Transição, Plano e Texto. Para uma introdução ao significado e utilização destes elementos, sugiro este artigo do meu Curso de Guião.

Este menu não é a única, nem a mais prática, forma de escolher os estilos, mas está sempre disponível em caso de necessidade. Tal como estão os outros ícones que se seguem, e que representam funções comuns em muitos processadores de texto: desfazer e refazer, negrito, itálico e sublinhado, maiúsculas e minúsculas, cortar, copiar e colar, verificar ortografia e buscar. Estes ícones incluem ainda duas funções exclusivas do CeltX: diálogo duplo, e remover marca. Finalmente, na extremidade direita, temos um menu com opções de visualização: 100%, 150% e 200%.

No rodapé da coluna central temos seis separadores: Roteiro, Formatação, Borrador, Fichas, Página Título e Relatórios.

O primeiro, Roteiro, é onde se processa toda a escrita do guião.

O segundo, Formatação, permite-nos ver a qualquer momento o número exacto de páginas do guião, como este vai ficar quando impresso, e aceder a opções como a numeração das cenas.

O terceiro, Borrador, é uma área temporária de armazenagem de textos, cenas completas, excertos, etc. Contrariamente às Notas,  que são específicas de cada cena, o Borrador é partilhado por todo o guião.

O separador Fichas dá-nos acesso a um modo de visualização do guião em que cada cena é representada por um cartão visual. Mais tarde escreverei um artigo específico sobre como utilizar este separador para o planeamento do guião.

A Página Título é exactamente o que o nome indica: uma secção específica onde preenchemos os elementos que compõem a folha de rosto do guião. Esta tem um tratamento à parte pois não entra na numeração das páginas do guião.

Finalmente, os Relatórios interessam sobretudo à produção. Contudo, alguns Relatórios podem também ser usados pelos guionistas para avaliar quantos décores, ou personagens com falas, entram no guião.

 4) Passando à escrita –  a formatação de um guião com o CeltX é um processo automático. Toda a formatação é feita pelo programa e nós só precisamos de lhe indicar quando mudamos de estilo. Para isso usamos apenas duas teclas: a tabelação (tab) e o parágrafo (return ou enter).

Duas teclas são quanto basta para formatar um guião.

Quando começamos a escrever um guião o cursor encontra-se automaticamente numa zona cinzenta que identifica estarmos num Cabeçalho. Depois de introduzirmos a informação relevante (por exemplo:  INT. SALA DE ESTAR – NOITE) basta fazermos parágrafo (return ou enter) e o programa muda automaticamente para o formato de Ação, pois sabe que a seguir a um cabeçalho entra sempre, obrigatoriamente, uma descrição de ação.

Se fizermos agora um novo parágrafo o programa mantém-se no estilo Ação. Se isso estiver bem para nós, continuamos a escrever. Isto repete-se as vezes que forem necessárias.

Quando quisermos introduzir um diálogo, basta fazermos uma tabelação (tab) e passamos automaticamente para o estilo Personagem. Introduzimos o nome do personagem e fazemos parágrafo. Como o programa sabe que a seguir de um Personagem vem normalmente uma fala, conduz-nos para o estilo Diálogo. Fazendo novamente parágrafo voltamos ao estilo Personagem e, depois deste, a um novo Diálogo. Esta sequência vai-se repetindo as vezes que quisermos.

Muitas vezes, a seguir ao nome de um personagem não queremos introduzir um diálogo mas sim uma didascália, ou seja, uma indicação ao actor (por exemplo: (zangado)). Para isso, quando estamos num Diálogo basta fazer uma tabelação e o estilo muda para o formato Rubrica (que corresponde às didascálias). Depois de uma didascália vem sempre uma fala; por isso, quando fizermos parágrafo a linha seguinte muda novamente para o estilo Diálogo.

Assim, usando as teclas parágrafo (return ou enter) e tabelação (tab), vamos mudando de um estilo para outro na sequência natural em que eles aparecem num guião:

Cabeçalho -> Ação -> Personagem -> Diálogo (ou Rubrica).

Há mais dois estilos que podem por vezes ser usados num guião. São eles Transição e Plano. O primeiro aplica-se no fim das cenas, para indicar o tipo de efeito usado na mudança para a cena seguinte (por exemplo: CORTA PARA); o segundo utiliza-se para indicar um determinado tipo de plano (por exemplo: CLOSE UP). Como estes dois estilos são menos usados não entram na sequência natural da escrita. Deverão ser aplicados  usando o menu superior ou um atalho de teclas.

Os atalhos de teclas são, aliás, a maneira mais rápida de mudar o estilo de um parágrafo. Quando o cursor está num determinado parágrafo basta usar o atalho de teclas adequada para mudar o estilo desse parágrafo para qualquer outro. Por exemplo, as teclas Comando (a tecla da maçã, em Mac) ou Ctrl (em Windows) + 1 mudam o estilo para Cabeçalho; as teclas Comando/Ctrl+5 mudam para Rubrica; e Comando/Ctrl + 6 mudam-no para Transição.

O resultado profissional é automático.

5) Memória inteligente – à semelhança dos outros programas de escrita de guião, o CeltX tem uma outra forma de simplificar a nossa vida. Depois de escrevermos um Cabeçalho ou um Personagem pela primeira vez, o programa memoriza essas palavras. No próximo Cabeçalho ou Personagem que escrevermos começando com as mesmas letras ele propõe-nos uma  lista de alternativas adequadas que podemos seleccionar.

Por exemplo, em vez de escrevermos sempre o nome do personagem "Joaquim", basta escrevermos a letra "J" e aparece uma lista de alternativas (Joaquim, João, José, Jorge…), poupando-nos o trabalho de digitar a palavra completa. No fim de um guião isto representa muitos milhares de digitações a menos.

Opções inteligentes para nos poupar trabalho.

Todos estes mecanismos – o uso das teclas parágrafo e tabelação; as opções inteligentes; os atalhos de teclado – acabam por tornar-se automáticos ao fim de um curto espaço de tempo de utilização do CeltX. A partir desse momento passamos a escrever concentrados apenas naquilo que interessa – o conteúdo das nossas cenas – e esquecemos completamente os pormenores da formatação, que ficam a cargo do programa. Posso garantir-vos: depois de nos habituarmos a escrever assim, é com muito sacrifício que somos obrigados a voltar a escrever guiões num programa não especializado, como o Word.

7) Continuados e numeração – tal como os outros programas de escrita de guião o CeltX oferece como opção a inclusão automática de indicações especiais quando há quebras de diálogo ou quebras de cena. Isto aplica-se quando um bloco de diálogo ou uma cena passam de uma página para a página seguinte. O CeltX dá-nos esta opção no modo de Formatação de que já falámos antes, acessível por um dos separadores no rodapé da página.

Mais e continuados.

A minha experiência diz-me que, em Portugal, os produtores e os actores não valorizam esta opção, por isso  desactivo-a sempre antes de imprimir ou exportar os guiões.

É também no modo de Formatação que podemos escolher numerar ou não numerar as cenas. A numeração pode aparecer à esquerda dos cabeçalhos, à direita, em ambos os lados, ou não aparecer. Nos EUA recomenda-se que as versões iniciais de um guião não tenham as cenas numeradas. Em Portugal, pelo contrário, os produtores  gostam de ir à última página ver logo quantas cenas o guião tem.

Podemos numerar as cenas do guião a qualquer momento.

8) Exportar o guião – infelizmente a maior parte das produtoras ainda não adoptaram os programas de escrita de guião no seu processo normal de trabalho. É por isso muitas vezes necessário converter os documentos produzidos no CeltX para um formato que elas entendam. 

O CeltX oferece duas opções úteis para esse efeito: ou mudamos para o modo de Formatação e fazemos "Salvar  PDF"; ou vamos ao menu superior e fazemos "Roteiro/Exportar Roteiro…" e gravamos o ficheiro como "Arquivos HTML".

A primeira opção grava em formato .pdf, que hoje é lido praticamente por qualquer computador, mas não é editável. Isto pode ser útil quando queremos enviar um guião para ser lido mas queremos ter a certeza de que ele não poderá ser editado.

A segunda opção exporta em formato .html, que o Word lê perfeitamente. O Word mantém inclusivamente os estilos (Cabeçalho, Ação, etc) disponíveis para poderem continuar a ser usados. Normalmente será preciso fazer depois alguns ajustes nos espaçamentos e margens, mas 90% do trabalho de conversão fica feito automaticamente. No que diz respeito à conversão das letras acentuadas e cedilhas o CeltX faz um melhor serviço do que o Final Draft e o Screenwriter.

Temos ainda a possibilidade de exportar em formato "Arquivos de Text" (.txt) mas isso só se justifica se quisermos depois importar o guião num programa profissional, como o Movie Magic Screenwriter.

Conclusão

O Celtx veio colocar ao alcance de todos os guionistas, profissionais ou amadores, a maior parte das facilidades e opções que programas pagos como o Final Draft ou o Movie Magic Screenwriter oferecem na fase da escrita. Com a vantagem de ser gratuito e existir em versões para os três principais sistemas operativos.

Haveria muito mais a dizer sobre o CeltX, mas deixarei para outros artigos futuros. O que posso recomendar desde já é que façam o download do programa e comecem a experimentá-lo. O site da CeltX inclui um Manual de Utilização (em inglês) sob a forma de uma wiki. Ainda não está completamente atualizado para esta versão 1.0, mas é o sítio ideal para começar a explorar mais a fundo todas as capacidades do programa. Boa escrita!