Fountain: um novo formato para escrever um filme

Um aviso prévio. Este artigo só interessa a argumentistas que tenham um costela de nerd/geek razoavelmente desenvolvida. Se não é o caso, sugiro que explore outros artigos do meu blogue.

O argumentista americano John August anunciou recentemente no seu blogue o lançamento de um novo formato de documento para escrever um filme, a que chamou Fountain.

Passo a traduzir o texto introdutório do site dedicado ao Fountain:

"Fountain é uma sintaxe simples de marcação de texto para escrever, editar e partilhar guiões em formato de texto simples imediatamente legível. Fountain permite-lhe trabalhar no seu guião em qualquer lugar, em qualquer computador ou tablet, usando qualquer programa que edite ficheiros de texto simples.

Fountain é inspirada pelo Markdown de John Gruber e é imediatamente legível. Quando é necessário usar uma sintaxe especial, esta é simples e intuitiva.

Mesmo quando é lido apenas como texto simples, o seu guião tem ar de guião.

A sintaxe Fountain suporta tudo o que um guionista necessita na fase inicial, criativa, da escrita do guião. Não inclui opções de produção como os MAIS e CONTINUADOS, marcas de revisão, bloqueio de páginas ou páginas coloridas.

Por ser apenas texto simples, Fountain é também ideal para arquivar guiões sem medo de obsolescência dos formatos ou incompatibilidade."

O que quer isto dizer

O formato Fountain permite-nos agarrar em qualquer programa que escreva em texto simples – o Notepad, no Windows, o TextEdit no Mac, o Vim, no Unix, o Terminal, um editor de html, um programa de email, o Google Docs, até o SimpleNote, no iPhone – e começar imediatamente a escrever um guião.

Esse guião poderá ser aberto, lido, editado e partilhado com qualquer outro programa que leia texto simples, em qualquer plataforma ou sistema operativo.

Melhor ainda, se daqui a dez ou vinte (ou cem) anos quisermos ler ou editar de novo este ficheiro, é certo que o conseguiremos. O mesmo não podemos dizer dos formatos exclusivos dos vários programas de escrita de guião que concorrem neste mercado.

Finalmente, se alguma vez for necessário usar as funcionalidades mais avançadas dos programas de escrita de guião, como o Final Draft ou o CeltX, os ficheiros de texto simples são por eles importados com grande fidelidade.

Como funciona o Fountain

Para escrever no formato Fountain usamos uma abordagem simples e intuitiva. Por exemplo, as linhas que se seguem, se gravadas num ficheiro de texto simples, seriam reconhecidas corretamente como pertencendo a um guião.

EXT. RUA – DIA

João caminha na rua, imerso nos seus pensamentos.

 

PEDRO (O.S.)

João, és tu?

 

João vira-se, surpreendido.

 

JOÃO

Pedro?!

(desconfiado)

O que fazes aqui?

 

Pedro sorri e encolhe os ombros.

CORTA PARA:

Percebe-se ao primeiro olhar que se trata de um guião, apesar dos elementos não estarem exatamente nos formatos padronizados para impressão.

Reconhecemos facilmente o CABEÇALHO, os NOMES dos personagens, as linhas de DIÁLOGO, as descrições de AÇÃO, e, no final, uma TRANSIÇÃO.

Escrever o básico em formato Fountain é tão simples quanto isto. Há depois uma série de outras indicações de sintaxe, muito simples e intuitivas, que são aplicadas em situações específicas, como diálogos paralelos, cabeçalhos secundários, etc.

No momento de imprimir o guião (para papel ou .pdf) cabe ao programa em que isso for feito aplicar os tipos e tamanhos de letra, margens e espaços entrelinhas adequados para cada um dos elementos, de forma a que o guião siga os padrões da indústria.

Resta ver se o formato Fountain vai ser adotado por guionistas profissionais, ou se será apenas uma curiosidade passageira.

Eu estou atualmente a terminar um guião, mas quando começar a escrever um filme novo vou experimentar o formato Fountain. Terei a segurança de saber que, como o Final Draft o importa perfeitamente, a qualquer momento posso mudar sem tempo perdido.

Dez blogues indispensáveis para quem gosta de guionismo

Uma das vantagens de trabalhar por conta própria é não ter um diretor a espreitar por cima do meu ombro para ver o que eu estou a fazer na net. E eu aproveito a fundo essa liberdade ocupando todos os dias um tempinho (às vezes mais do que devia;-) a consultar uma série de blogues sobre guionismo, para me manter razoavelmente atualizado sobre o que se passa neste universo.

Neste artigo selecciono dez deles, que recomendo a todos os interessados em guionismo e cinema, pois sempre me fornecem imenso material de reflexão e aperfeiçoamento como escritor. Continuar a ler “Dez blogues indispensáveis para quem gosta de guionismo”

Guiões portugueses para baixar

Ao longo destes anos tenho disponibilizado neste blogue alguns dos guiões que escrevi, para download e consulta por eventuais interessados. São todos de obras – filmes e televisão – que já foram produzidas, com a excepção de uma curta que ainda penso vir a dirigir.

Esses guiões, contudo, estavam enterrados nos respectivos artigos e só com um pouco de sorte ou persistência era possível chegar-lhes. Resolvi, por isso, incluir na secção Recursos um pequeno repositório comum para todos eles. Com o tempo tentarei incluir mais alguns meus, e convencer outros guionistas a disponibilizarem os deles, para aumentar a diversidade e utilidade deste novo recurso.

Procure-os aqui.

Workshop de Linda Seger em Portugal

A autora, professora e script consultant Linda Seger vai dar um workshop de escrita nos Encontros  AVANCA’08, em Julho. O festival, organizado pelo Cineclube de Avanca e Câmara Municipal de Estarreja, dá aos participantes a oportunidade de aprender com 10 especialistas internacionais em áreas relacionadas com o audiovisual.

Linda Seger é uma das mais conhecidas e conceituadas conferencistas e gurus da escrita de guião, autora de vários livros muito populares, entre os quais um que faz parte da minha biblioteca básica: o muito citado Making a Good Script Great. A edição portuguesa da sua obra mais recente,  Making a Good Writer Great,  vai ser apresentada durante os Encontros. Tenho mais dois livros dela: From Script to Screen e The Art of Adaptation, e todos são muito recomendáveis.

O tema do workshop é Transforme-se num argumentista ainda melhor: Um espaço de reflexão e trabalho sobre a profissão de argumentista e da criatividade na escrita dos filmes. É seguramente a melhor proposta do ano para os guionistas portugueses e eu só não estarei presente porque, nessa altura, vou estar fora do país.

Finalmente, deixo aqui uma recomendação do Jorge Vaz Nande, guionista a quem devo o alerta para este seminário de Linda Seger:

Para quem ficou interessado e tem problemas com os dias, normalmente, os workshops em Avanca só começam mesmo no dia 24, mas logo de manhãzinha – é menos um dia a pedir para quem trabalha. A terra é minúscula, mas o ambiente durante o festival é engraçado e bom para quem quiser fazer umas mini-férias cinéfilas, já que a inscrição nos workshops dá ingresso para todas as sessões do festival e, como não há muito mais a fazer no sítio, o que a malta faz é workshop durante o dia e filmes e copos à noite… advirto desde já é que o "parque de campismo grátis" é a relva da c+s onde o festival decorre, por isso, não esperem sombras paradisíacas e visitas inesperadas de turistas suecas a meio da noite.
 

Sabatina: 21-06-2008

A Sabatina desta semana é dedicada aos escritores de férias. Começo com um apanhado de 25 softwares para escrita, acompanhado por outros 100 recursos da internet, e mais um especial para os portugueses.

Sigo com dois artigos muito interessantes para quem escreve para televisão e cinema: um sobre o funcionamento das salas de escritores, o outro sobre como dar (e receber) notas para as reescritas. Quem dera que todos os produtores os lessem.

Continuo com um artigo sintético sobre escrita eficiente, que de certa forma resume os indispensáveis Elements of Style (em .pdf) de William Strunk, Jr..

E termino com três artigos de inspiração e um de puro gozo: como contar uma grande estória; como desenvolver ideias criativas; a importância da imaginação (discurso de J.K.Rowling aos alunos de Harvard); e a versão resumida do guião do último Indiana Jones, escrita por quem detestou o filme.

Nova secção de Recursos úteis

Adicionei uma nova página ao menu no cimo deste blogue, intitulada Recursos. Aí vou reunir bibliografia, software, links para blogues e sites, e outras referências e contactos que me pareçam úteis para os guionistas.

Está ainda numa fase embrionária, mas destaco a selecção de livros que compõem a minha biblioteca básica de guionismo. Irei actualizando a página ao longo do tempo e, para isso, aceito sugestões dos leitores: quais são os livros, sites e outros recursos indispensáveis, em língua portuguesa ou noutra?

Sabatina 19-04-2008

Crash de Paul Haggis

Guiões e mais guiões

Na Internet Movie Script Database (IMSDb) encontra os guiões de centenas e centenas de filmes, no formato original. É um recurso indispensável para qualquer guionista.

Ligações perigosas

No blogue Escriativa encontra alguns links variados, nomeadamente para entrevistas de vários guionistas bem conhecidos, como Paul Haggis .

Recursos para guionistas

Já escrevi aqui sobre a inciativa ScriptFrenzy que está em curso. Mas não referi que no seu site se encontram alguns recursos bem úteis para guionistas e dramaturgos.

E mais recursos para guionistas (em português)

Outro site que também reune alguns links interessantes é o brasileiro Roteiro de Cinema. Além dos links, encontra lá também críticas de livros, de softwares, etc.

Ex-alunos de guião

Alguns ex-alunos dos workshops de escrita de guião das Produções Fictícias iniciaram o blogue Gimmicky onde escrevem sobre cinema, televisão e guiões. Têm também links que merecem atenção, como por exemplo esta entrevista dos irmãos Cohen sobre "No country for old men".

Um alerta aos autores de blogues

O blogue ReadWriteWeb publicou um artigo estimulante sobre o valor dos conteúdos de um blogue. Leitura obrigatória para quem escreve regularmente neste meio.

Somos todos freelancers

Um webdesiger inglês escreveu uma série de artigos bastante completa sobre os desafios e as boas práticas de todos os que exercem profissões criativas trabalhando por conta própria. Como ele refere lá, nós somos os únicos responsáveis pela direcção das nossas carreiras, por isso vale a pena ler e meditar sobre estes temas.

Perguntas & Respostas: guiões de filmes de formação profissional

Sou formadora de adultos há cerca de 10 anos e, paralelamente, tenho trabalhado na concepção de recursos didácticos, tendo já escrito vários guiões para filmes de formação profissional. Este tipo de filmes têm algumas características especiais: são sempre de curta duração (entre 15 e 30\’) e partem sempre de uma situação concreta (enredo), directamente ou indirectamente relacionada com o tema em aprendizagem. Até ao momento tenho sido quase exclusivamente completamente autodidacta: faço pesquisas na net, compro livros, etc., mas acho que chegou a altura de sair do "amadorismo". Será que me pode dar informações acerca de um curso orientado para as minhas necessidades? Se não for pedir muito, com local de realização e contactos? — Alda

Alda, os guiões de filmes educativos têm uma tarefa de certa forma mais complicada do que os de ficção pura. Não lhes chega prender a audiência com uma narrativa; aspiram a uma identificação da audiência com os personagens da estória narrada, ao ponto de mudar os seus comportamentos e atitudes.

O guionista desempenha neste tipo de escrita dois papéis complementares, igualmente importantes: por um lado é um dramaturgo que deve usar todos os meios clássicos ao seu alcance, criando personagens, com que a audiência se identifique, e colocando-os em situações interessantes, cheias de potencial dramático. Deve escrever de uma forma económica mas evocativa, explorando as potencialidades do meio audiovisual, mostrando mais do que descrevendo, através de imagens fortes e prenhes de significado. Para o conseguir terá de estudar livros de guionismo, ler muitos e variados guiões, explorar os diversos recursos que a internet oferece e, se possível frequentar cursos ou workshops. O importante é perceber que autodidactismo não é o mesmo que amadorismo; o que diferencia um do outro é a atitude e dedicação profissional colocadas no trabalho.

Por outro lado, o guionista de filmes educativos é um professor, que quer passar novas informações, mudar as atitudes dos espectadores, e levá-los a adoptar novos comportamentos. Dessa forma é muito importante que ele se consiga colocar dentro da cabeça e da vida do público a quem se está a dirigir, abordando os temas na sua perspectiva, falando a sua linguagem. Para o conseguir a única hipótese é fazer muita pesquisa. Teórica, lendo livros e artigos sobre o tema; mas sobretudo prática, visitando os locais, entrevistando especialistas, conversando com pessoas da audiência que se pretende atingir. É preciso, em primeiro lugar, descobrir e sintetizar quais são as informações realmente importantes que se querem passar; e depois perceber quais são as barreiras que o público do filme ergue a estes novos comportamentos e atitudes, de forma a poder ultrapassá-las.

Infelizmente não tenho conhecimento de cursos especificamente orientados para a escrita de guiões de filmes de formação profissional. No entanto, e dado a abordagem "ficcional" que diz costumar usar nos seus guiões, acho que qualquer bom workshop de escrita de guiões poderá acrescentar informação teórica e prática úteis ao seu trabalho. Se o seu inglês for razoável, sugiro-lhe também o livro "The Scriptwriter’s Handbook", de William J. Van Nostran, que tem uma abordagem muito completa sobre este tipo de filmes.

Curso #2: O que é um guião?

"A Selva"

The secret: Do good work and share it with people. – AUSTIN KLEON

Introdução

Há quem lhe chame guião e quem prefira argumento; antigamente, era frequente distinguir o argumento dos diálogos; no Brasil fala-se em roteiro. No meio disto tudo, do que é que estamos exactamente a falar?

Um guião é diferentes coisas para diferentes pessoas. Esta definição não parece ser uma grande ajuda mas é essencial entendê-la bem; muitas confusões, mal-entendidos e até conflitos nascem da ignorância desse facto.

Ao longo das diversas fases da sua existência, desde a página em branco até ao filme finalizado, o guião passa por muitas mãos:

  • O guionista
  • O produtor
  • O leitor
  • O realizador
  • Os financiadores
  • Os actores
  • A equipa técnica

Para cada uma destas pessoas o guião representa uma coisa completamente diferente.

As funções do guião

Para o seu autor – o guionista – o guião é uma obra literária, original ou adaptada, através da qual ele conta uma história, desenvolve personagens e relações, explora situações e conflitos, apresenta ideias e temas e, de forma geral, dá livre curso à sua imaginação e ímpeto criativo. É, pois, uma obra artística, um produto da sua inspiração e transpiração, um filho que ele vai querer proteger a todo o custo.

Para um produtor de cinema, por outro lado, o guião é um documento de trabalho que lhe vai servir para estimar um orçamento de produção; para obter financiamentos e co-produtores, nacionais e internacionais; para aliciar o realizador e o elenco; enfim, para poder arrancar com a pré-produção de um filme. O produtor aprecia a qualidade intrínseca do guião, o seu valor artístico; mas valoriza sobretudo a sua capacidade de vir a transformar-se num filme.

Antes de chegar à s mãos do produtor, o guião passa muitas vezes pelas mãos de um “leitor”. Este é uma pessoa a quem o produtor paga para ler, avaliar e comentar, num relatório sucinto, os muitos guiões que lhe chegam à s mãos, servindo como um primeiro filtro para separar o trigo do joio dramático. Seduzir e entusiasmar estes eventuais “leitores” (que muitas vezes são também guionistas ou aspirantes a tal) é outro papel essencial para o guião.

Para os financiadores, sejam eles o júri de um concurso público, executivos de uma empresa da especialidade, ou investidores privados, o guião é a primeira prova da viabilidade do filme. É um sinal do empenhamento do produtor, de que já há trabalho realizado, de que não se está apenas a discutir ideias mas sim uma realidade palpável. O financiador vai olhar para o guião tentando ver as suas possibilidades artísticas ou comerciais (o critério varia de caso para caso). Muitas vezes, é apenas com base no guião que ele vai decidir se aplica o seu dinheiro neste filme ou num dos muitos outros projectos que lutam pela sua atenção.

O realizador, por sua vez, tem ainda uma visão diferente do guião. Pode não ter sido ele a escrevê-lo (embora isso aconteça algumas vezes) mas vai competir-lhe a si liderar a equipa que fará o filme. O realizador analisa assim o guião sob pelo menos três perspectivas: a artística – o que é que nestas páginas me tocou, me fez vibrar, me levou a aceitar esta tarefa -, a técnica – que passos vou dar para transformar estas páginas nas imagens e sons que povoarão o écrã – e a pessoal – como é que este guião vai contribuir para a minha evolução e carreira.

Para os actores, que são outro elemento crucial desta complexa equação que é fazer um filme, o guião é a porta que lhes abre a vida íntima dos personagens que vão interpretar na tela. Se estes personagens não estiverem bem caracterizados, os seus diálogos não forem ricos e adequados, os seus comportamentos e acções não foram convenientemente motivados e explicados, o actor terá dificuldade em fazer bem o seu trabalho.

Finalmente, para a equipa técnica – o director de fotografia, o assistente de realização, o director de arte, etc. – o guião é um instrumento de trabalho essencial que os orientará nas suas funções. Cada um irá lê-lo e anotá-lo à sua maneira. O director de fotografia, ao ler uma cena, vai pensar em ambientes e emoções, e vai escolher as lentes e as luzes certas para os obter. O assistente de realização, por seu lado, vai preocupar-se com aspectos práticos – quanto tempo vai isto levar a filmar, de que recursos vamos precisar, etc.

Mas o que é mesmo um guião, afinal?

Um guião é um documento escrito que descreve sequencialmente as cenas que compõem um filme e, dentro de cada cena, as acções e diálogos dos personagens e os aspectos visíveis e audíveis que os condicionam.

Na prática, o guião de uma longa metragem é um documento impresso, que tem em média entre 80 e 130 páginas. Se for escrita num formato correcto cada página do guião corresponde grosso modo a um minuto de filme. Como não é normal os filmes terem menos de 80/90 minutos nem muito mais de duas horas, qualquer guião que fuja a estas dimensões é logo olhado com alguma desconfiança.

Os guiões para TV terão formatos mais variados. As séries dramáticas de uma hora encaixam razoavelmente nos parâmetros acima descritos. Já as sitcoms, que duram menos de 30 minutos, mas são normalmente cheias de diálogos ditos num ritmo rápido, podem ter guiões proporcionalmente mais longos.

O formato do guião pode variar de país para país, até de produtora para produtora, mas todos os guiões têm algumas coisas em comum:

  • A identificação sequencial das cenas que compõem a história
  • A descrição dos eventos
  • A identificação dos personagens
  • Os seus diálogos
  • Algumas indicações técnicas relevantes

O ideal é ver um exemplo prático, o que faremos em breve, mas antes disso há ainda um aspecto do guião que é muito importante compreender.

O guião não é o filme

Apesar de ser uma obra artística, o guião raramente chega aos olhos do público final a não ser através do filme no qual, idealmente, se vai transformar. Desse ponto de vista o guião não é um fim em si; é um meio de chegar ao filme. É como uma crisálida – a sua beleza está na borboleta que dela vai nascer, e não em si mesma.

É também fundamental perceber que, devido à natureza colaborativa da arte do cinema, o guião está sujeito a muitas transformações e mudanças. E nem todas serão sempre do agrado do guionista. Depois que a primeira versão do guião sai das suas mãos, muitas pessoas vão pedir (ou exigir) ao guionista que lhe introduza alterações. O produtor, por razões criativas, práticas ou financeiras; o realizador, por motivos artísticos, técnicos (ou de ego); e outras pessoas, com outras justificações, umas vezes razoáveis, outras nem tanto.

É bom o guionista estar preparado para esta realidade. Nos contratos que vai assinar, salvo raras excepções, terá sempre de deixar em aberto a possibilidade de outros guionistas poderem reescrever o seu guião e alterar a sua obra – e muitas vezes isso acontece mesmo.

Se acha que não consegue aceitar isso, é melhor desistir agora mesmo. Talvez o teatro, a literatura ou a escrita de um diário (ou de um blogue como este) sejam melhores escapes para a sua vontade de criar. Mas se está disposto a lidar com esse facto ou, melhor ainda, se a natureza colaborativa do cinema é o que lhe agrada nesta forma de arte, então pode continuar a ler. Está no bom caminho.

Curso #1: Como escrever para cinema e tv

Chinatown

Uma das coisas mais fáceis da vida é não escrever; se escrever fosse fácil toda a gente o faria. – William Goldman

Introdução

Vou começar hoje a alargar o âmbito deste blogue, introduzindo alguns artigos que, aos poucos, irão constituindo uma espécie de curso básico de escrita de guião.

O nome é um pouco pomposo, mas o objectivo desses artigos será muito simples: ajudar quem estiver interessado em escrever um guião para cinema ou televisão a dar os primeiros passos nesse sentido.

As perguntas que se colocam a essas pessoas são muitas: o que é essa coisa que dá pelo nome de argumento, guião ou roteiro? Para que serve? Como se escreve? Que formato tem? Por onde é que começo, se quiser escrever um? E, depois de o escrever, o que é que lhe faço?

Os artigos que eu tenciono escrever tentarão dar, de uma forma muito sucinta e elementar, respostas a essas perguntas. Quem tiver a paciência de os ler não vai tornar-se magicamente num guionista profissional. Mas vai ter algumas noções básicas essenciais, e um melhor entendimento do caminho à sua frente. Se lhes juntar determinação, talento, e um pouco de sorte, pode vir a ter a felicidade de ver o seu nome no grande écrã, no escuro de um cinema perto de si.

O que vai encontrar aqui

Os vários artigos que constituirão este curso básico vão abordar o essencial na escrita de um guião para cinema ou televisão.

Começarei por explicar o que é um guião, quem o escreve e quem o usa. Seguidamente abordarei as formas como pode surgir a ideia para um guião, e o seu tema.

Depois irei desenvolver alguns aspectos essenciais como a estrutura, os personagens e diálogos, os enredos e os géneros.

Passarei então a falar de algumas técnicas dramáticas básicas, antes de abordar aspectos mais práticos, como as considerações de produção, o desenvolvimento da história, o formato da escrita, e o processo (por vezes doloroso) da reescrita.

Terminarei dando algumas sugestões para ajudar a vender e produzir um guião já escrito, e apontando livros e outros recursos de informação úteis. Ao longo dos vários capí­tulos tentarei ir dando exemplos e, porque não, propor exercí­cios práticos que possam ajudá-lo a pôr mãos à obra. E, na medida dos possí­veis (tempo, disponibilidade e conhecimento), tentarei ir respondendo a questões que os eventuais leitores destes artigos me queiram colocar.

Recordo uma vez mais que este curso básico não é mais do que uma introdução a temas que são vastí­ssimos por natureza. Mas proponho-me ir enriquecendo sempre o seu conteúdo, conforme tiver tempo e inspiração. No próximo artigo vamos descobrir o que é realmente um guião.

Búzios

Búzios, o nosso destino de reveillon, é uma pení­nsula situada 150 kms a norte do Rio de Janeiro.

Vista no mapa, ou no Google Earth, parece uma daquelas bactérias estranhas, cheias de braços e filamentos, que quando se alojam no nosso sistema digestivo nos prendem três dias à  sanita.

A realidade, felizmente, é muito mais simpática.

Descoberta para o mundo do jet set nos anos 70 pela – então – glamourosa Brigitte Bardot, Búzios afirmou-se rapidamente pelas suas praias maravilhosas, encaixadas numa geografia anárquica de montes e vales, e pela riqueza das paisagens circundantes, salpicadas de ilhas e ilhotas verdejantes, recortadas contra o céu azul e a linha distante do horizonte.

Destino de artistas e famosos, primeiro, de ricos e aspirantes, depois, é hoje um pólo de atração para classe média brasileira, argentina e europeia.

Para os portugueses, ao que parece, nem tanto. E não me estou a queixar – infelizmente, boa parte dos portugueses que visitam o Brasil fazem-no pelas razões erradas e não transmitem exactamente uma imagem com que eu me identifique muito. A esses, prefiro vê-los longe.

Se algum problema existe hoje em Búzios é o excesso de sucesso.

Perí­odos como o fim do ano e o Carnaval atraem multidões de turistas em busca de praia e diversão. E se a multiplicidade de pousadas e casas para alugar lhes garantem alojamento, os restantes recursos da pení­nsula são puxados até ao limite. Estacionar nas praias ou no centro, à  noite, exige imaginação e perseverança; caminhar pela famosa rua das Pedras fica a parecer um percurso de obstáculos; e nem sempre é fácil encontrar um lugar para comer, beber ou dançar que não esteja com fila de espera.

Apesar disso, Búzios é um destino recomendável. Não é barato; chegar lá pode ser estressante; nem sempre se tem o sossego desejado. Mas a beleza natural, a arquitectura tí­pica, e a simpatia local compensam largamente esses defeitos.

Uma última recomendação: antes de ir, aplique-se seriamente no ginásio. Ou então vai passar o seu tempo a tentar encolher a barriga enquanto olha com inveja para os corpos sarados da multidão de garotos e garotas cariocas que enchem todos os recantos da pení­nsula.

Acredite – eu passei por isso.