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Escreve aquilo que conheces - ou não?

Um con­se­lho que tra­di­ci­o­nal­mente é dado aos gui­o­nis­tas é “escreve aquilo que conhe­ces” (“write what you know”). Pes­so­al­mente, acho que é melhor con­se­lho dizer “conhece aquilo que escre­ves”. Ou seja, para escre­ver sobre psi­có­lo­gos não é pre­ciso ser psi­có­logo ou ter feito tera­pia; para escre­ver sobre polí­cias, não é pre­ciso ter pas­sado pela PJ ou pela pri­são do Linhó; para escre­ver fic­ção cien­tí­fica não é pre­ciso ser mar­ci­ano. É evi­dente que isso dará uma base de conhe­ci­mento que é ime­di­a­ta­mente apro­vei­tá­vel, mas não é a única opção. É essen­cial, isso sim, que­rer conhe­cer o assunto sobre o qual vamos escrever.

É óbvio que não pode­re­mos falar sobre psi­có­lo­gos, ou sobre polí­cias, com seri­e­dade e pro­fun­di­dade, sem saber um mínimo sobre esses uni­ver­sos e as pes­soas que neles se movi­men­tam. Mas para isso há a pes­quisa. Falar com as pes­soas, ler, pro­cu­rar a infor­ma­ção onde ela está dis­po­ní­vel, faz parte tam­bém do tra­ba­lho do gui­o­nista responsável.Hoje encon­trar infor­ma­ção é mais fácil do que nunca. Para um guião que escrevi recen­te­mente pas­sei deze­nas de horas a reco­lher e pro­ces­sar cen­te­nas de notí­cias espa­lha­das na inter­net, e li todos os livros que encon­trei sobre o assunto. O essen­cial é que o tema nos apai­xone o sufi­ci­ente para que­rer­mos conhecê-​​lo. A fundo, se pos­sí­vel. O neces­sá­rio e sufi­ci­ente, se não tiver­mos mais tempo e dis­po­ni­bi­li­dade. Sem­pre com a cons­ci­ên­cia de que, quanto mais sou­ber­mos, mais bem pre­pa­ra­dos esta­re­mos para inven­tar o resto.

Lembro-​​me de em tem­pos ter lido uma cita­ção de um escri­tor, que entre­tanto perdi[1] , em que ele dizia algo como isto: “para criar as suas obras um escri­tor conta com a expe­ri­ên­cia, a memó­ria e a ima­gi­na­ção, e pre­cisa sem­pre de pelo menos duas des­tas três coi­sas; nunca ape­nas uma delas”. Ou seja, se não temos a expe­ri­ên­cia vivida de um assunto, tere­mos de recor­rer à ima­gi­na­ção e à memó­ria. E a pes­quisa é isso mesmo: uma memó­ria adqui­rida com base na expe­ri­ên­cia dos outros, absor­vida atra­vés dos seus tes­te­mu­nhos dire­tos ou dos seus rela­tos indiretos.

Quando tra­ba­lhava como reda­tor publi­ci­tá­rio tive de escre­ver sobre tam­pões femi­ni­nos. Uma coisa com­ple­ta­mente fora do uni­verso da minha expe­ri­ên­cia pes­soal. Uma reda­tora, natu­ral­mente, abor­da­ria o assunto com base no que ela “conhe­cia”, o que lhe daria uma van­ta­gem à par­tida mas, se calhar, tam­bém mais pre­con­cei­tos e ideia fei­tas. Eu tive que fazer pes­quisa sobre o assunto para con­se­guir supe­rar a minha falta de expe­ri­ên­cia íntima. E man­tive essa conta durante muito tempo, sem que nin­guém se quei­xasse de eu “não conhe­cer aquilo que escre­via”.

O anún­cio de sou­ti­ens que todas as mulhe­res bra­si­lei­ras recor­dam é “o pri­meiro Vali­sére a gente nunca esquece”. E no entanto foi escrito pelo Washing­ton Oli­vetto que, ao que se conhece, nunca usou sou­tien, mas sem­pre acre­di­tou no poder da pesquisa.

Resu­mindo: conhece aquilo que escre­ves, para pode­res escre­ver aquilo que conheces.

No vídeo seguinte, vários gui­o­nis­tas ame­ri­ca­nos de renome res­pon­dem a ques­tões rápi­das sobre diver­sos assun­tos. Um dos temas abor­da­dos é pre­ci­sa­mente o deste artigo, por isso acho que vale apena ouvi-​​los.

 

Notas de Rodapé

  1. se alguém me con­se­guir identificá-​​la, fica­ria muito agra­de­cido[]

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  4. Curso #3: O que é um guião (2)

Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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3 Comentários

  1. Publicado 01/07/2009 às 15:30 | Link

    Tópico impor­tan­tís­simo.

    Quanto à pro­pa­ganda bra­si­leira, ela é inesquecível.

  2. Cícero Soares
    Publicado 09/07/2009 às 13:10 | Link

    Como a Chan­tal notou, tópico de grande impor­tân­cia, João.

    Mas vejo com certo pesar mui­tos daque­les que pre­ten­dem ser “con­ta­do­res de his­tó­rias” freqüen­te­mente redu­zi­rem o conhe­cer a um mero “estar infor­mado sobre”. E mesmo quando che­gam a esta­rem bem infor­ma­dos sobre (assunto, pes­soa, etc.), ainda assim é fácil sen­tir que ainda lhes falta algo, algo mais, algo que…

    Que de certa forma você mesmo não dei­xou de notar no decor­rer do tópico: conhe­cer é deixar-​​se absor­ver na “expe­ri­ên­cia dos outros”, ou, como penso eu, é como anular-​​se para dar voz ou ima­gens (enfim, ima­gi­na­ção), as mais fide­dig­nas pos­sí­veis, àquilo que não vive­mos. Se não pro­ce­de­mos assim em rela­ção à expe­ri­ên­cia outra (assunto, pes­soa, etc.), que se dirá de nossa própria?

    (Arrá, olha só João: con­fesso que não tenho lá muita afei­ção por peças publi­ci­tá­rias, mas essa da Vali­sére, de novo con­fes­sando, eu nunca, nunca esqueci…rs.)

  3. Pedro Costa
    Publicado 21/01/2010 às 11:44 | Link

    Por acaso acho este tópico impor­tante… O seu blog está cada vez mais rico ;)

    Por exem­plo, nos meus tem­pos vagos estou a escre­ver um guião sobre mar­gi­na­li­dade e cri­mi­na­li­dade juve­nil, e para isso pas­sei algum tempo das férias em bair­ros “pro­ble­má­ti­cos”, a con­ver­sar, obser­var, ten­tar com­pre­en­der, tro­car ideias com alguns jovens, ex-​​reclusos, etc… tive alguns pro­ble­mas (assustei-​​me mas não foi nada demais) mas acho que assim con­sigo carac­te­ri­zar muito melhor as per­so­na­gens da minha his­tó­ria, e assim é pos­si­vel conhe­cer os dois lados da bar­ri­cada e dar um tom rea­lista à história…

    Dito isto, só espero não me lem­brar de escre­ver nenhuma his­tó­ria sobre maca­cos, pin­guins, indi­ge­nas ou esquimós…

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