Perguntas & Respostas: porque custa tão caro um filme

Olá, escrevo esta men­sa­gem por­que gos­tava que me escla­re­cesse uma dúvida: por­que é que às vezes os fil­mes por­tu­gue­ses cus­tam mais de 1 milhão de euros? O que custa assim tanto para atin­gir esse valor? É mate­rial humano, técnico?

Gon­çalo

Gon­çalo,

na rea­li­dade é uma mis­tura de tudo isso, em várias fases, ao longo de um extenso período de tempo. Tudo começa nor­mal­mente com o inves­ti­mento do pro­du­tor na enco­menda ou aqui­si­ção do guião que vai ser fil­mado. Infe­liz­mente (para os gui­o­nis­tas), em Por­tu­gal não é essa alí­nea que faz os orça­men­tos dispararem.

Depois do guião escrito e dos finan­ci­a­men­tos arran­ja­dos, começa a pro­du­ção, que se divide em três fases: pré-​​produção, roda­gem e pós-​​produção. Pro­du­zir um filme, seja por­tu­guês ou não, envolve deze­nas e deze­nas de téc­ni­cos espe­ci­a­li­za­dos, durante um período que vai de seis a dez sema­nas (só a roda­gem), e mais uns meses antes e depois, com uma equipa mais redu­zida (a pré– e pós-​​produção).

Na fase de pré-​​produção faz-​​se todo o pla­ne­a­mento do filme, desde a esco­lha dos acto­res, selec­ção dos locais de fil­ma­gens, con­tra­ta­ção de equi­pas, etc. É uma infi­ni­dade de tare­fas essen­ci­ais que ocu­pam uma equipa durante várias semanas.

Durante a pro­du­ção — a roda­gem do filme — entram em campo as equi­pas téc­ni­cas. Estas equi­pas, que incluem desde o rea­li­za­dor até ao esta­giá­rio de pro­du­ção, têm natu­ral­mente de ser pagas ade­qua­da­mente. Além disso  é pre­ciso trans­por­tar, ali­men­tar e mui­tas vezes alo­jar todas essas pes­soas nos locais onde o filme é feito.

Não pode­mos esque­cer tam­bém as pes­soas que ficam do outro lado da câmara -  os acto­res e actri­zes, os secun­dá­rios e os figu­ran­tes, até aque­las figu­ras indis­tin­tas que apa­re­cem lá ao fundo nas cenas, bem peque­nas. Todos eles rece­bem os seus cachets, que podem atin­gir valo­res muito altos. Além disso, tam­bém a esses é pre­ciso ali­men­tar, des­lo­car e alojar.

Tudo o mais que apa­rece na ima­gem tam­bém tem nor­mal­mente de ser com­prado, cons­truído ou alu­gado: os car­ros que são usa­dos, os déco­res onde se fazem as fil­ma­gens, as rou­pas dos acto­res, o cão, o pei­xi­nho dou­rado, os qua­dros nas pare­des, etc.

Para fil­mar tudo isto é neces­sá­rio muito equi­pa­mento espe­ci­a­li­zado: as câma­ras, obvi­a­mente, mas tam­bém todo o mate­rial de ilu­mi­na­ção, os gera­do­res, as gruas, os car­ros de fil­ma­gens, outros meios mecâ­ni­cos, etc. Esses equi­pa­men­tos tam­bém têm de ser trans­por­ta­dos em mais camiões, com mais con­du­to­res, mais cus­tos de manu­ten­ção, etc.

Depois de ter­mi­na­das as fil­ma­gens entra-​​se numa nova fase — a pós-​​produção — a que cor­res­ponde uma nova etapa de des­pe­sas: os labo­ra­tó­rios, as cópias, a mon­ta­gem, a sono­ri­za­ção, os efei­tos espe­ci­ais, e mais um monte de etce­te­ras. Final­mente, quando chega a fase de exi­bir o filme, ainda há muito dinheiro a gas­tar na sua divulgação.

Um orça­mento de cinema é um docu­mento com mui­tas pági­nas de alí­neas que têm de ser exaus­ti­va­mente con­ta­bi­li­za­das. Tudo somado, atingem-​​se rapi­da­mente os valo­res que men­ci­ona, e outros muito supe­ri­o­res. E esta­mos a falar do cinema por­tu­guês, que é rela­ti­va­mente “pobre” quando com­pa­rado com os de outros paí­ses com indús­trias cine­ma­to­grá­fi­cas mais ricas. Nes­ses paí­ses um valor de um milhão de euros, como aquele que refere,  é con­si­de­rado um baixo orçamento.

Vol­tando à ques­tão do guião, é de notar que é uma das par­ce­las mais peque­nas dos cus­tos totais de um filme, mas é aquela que mais ime­di­a­ta­mente con­tri­bui para a sua qua­li­dade ou falta dela. Um pequeno inves­ti­mento extra na escrita ou rees­crita de um guião, quando ade­qua­da­mente pen­sado, pode, por exem­plo, fazer com que se poupe muito dinheiro na fase de produção.

 

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Flashback do ano | joaonunes.com
29/12/2009 ás 23:43

{ 2 comentários… leia-os agora ou acrescente um }

P. Moreira 17/4/2009 ás 18:02

Em alter­na­tiva, há o talento. E a von­tade. E o trabalho.

Por vezes basta pegar nuns pou­cos de ami­gos, uma camera (semi-​​profissional basta) e mui­tas horas. Claro que as 3 con­di­ções acima refe­ri­das são meio cami­nho andado…

O valor mone­tá­rio do mate­rial usado, da quan­ti­dade, ou o tama­nho não são con­di­ção para que uma escul­tura seja uma obra-​​prima, por ex. Pode aju­dar e tem uma certa influên­cia (a dimen­são e mag­ni­tude de qual­quer pro­jecto mega­ló­mano é por sí só uma faceta a ter em conta. Uma obra para orques­tra de 8 horas tem for­so­sa­mente uma impor­tân­cia dife­rente dum estudo para piano com 20 segun­dos — inde­pen­den­te­mente da qua­li­dade musi­cal das obras) mas n valor artís­tico duma obra está para lá disso.

Claro que a ques­tão é saber qual é o objec­tivo prin­ci­pal: artís­tico ou comer­cial. E mesmo assim, hoje em dia, com a mas­si­fi­ca­ção dos meios tec­no­ló­gi­cos; o preço rela­ti­va­mente acs­sí­vel e a glo­ba­li­za­ção (a inter­net é o caso mais óbvio), já se chega a milhões (de pes­soas e de dinheiro) com pou­cos meios. E comer­ci­al­mente — mesmo (ou sobre­tudo?) na publicidade/​marketing, já temos inú­me­ros exem­plos de pro­du­tos que che­ga­ram a muito mais milhões de pes­soas que cam­pa­nhas milionárias!

E como isto é sobre­tudo cinema, é só pen­sar em fil­mes como “Stran­gers than Para­dise” ou o recente “O Canto dos Pás­sa­ros” para per­ce­ber que, se há limi­tes de orça­mento, não os há para a imaginação.

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João Nunes 28/4/2009 ás 13:38

Para con­se­guir fazer fil­mes nas con­di­ções que des­creve não basta o talento, tra­ba­lho e von­tade. É pre­ciso sobre­tudo a boa von­tade. Por­que um filme vai sem­pre impli­car recur­sos — huma­nos, mate­ri­ais, tec­no­ló­gi­cos — e se não hou­ver dinheiro para os pagar, terão de ser empres­ta­dos. Os equi­pa­men­tos, obvi­a­mente, mas tam­bém os téc­ni­cos, que empres­ta­rão o seu talento, tra­ba­lho e von­tade.
Esta solu­ção pode ser­vir — e tem ser­vido — para fazer mui­tos e bons fil­mes (e tam­bém mui­tos maus fil­mes) mas não pode ser o sus­tento de uma pro­fis­são, uma arte e uma indús­tria. Eu posso, por exem­plo, escre­ver de graça um guião de um pro­jecto pelo qual me apai­xo­nei; mas não posso viver de escre­ver todos os guiões sem remu­ne­ra­ção. E quem diz o argu­men­tista diz o rea­li­za­dor, o direc­tor de foto­gra­fia, o actor, o moto­rista, o assis­tente de pro­du­ção. Todos estes pro­fis­si­o­nais pre­ci­sam de, em con­di­ções nor­mais, ser pagos pelo seu tra­ba­lho.
Se calhar o dono do El Buli é capaz de ofe­re­cer um jan­tar gra­tuito a uma causa que apre­cia. Mas não é por isso que o El Buli deixa de ser um res­tau­rante caro nos outros dias do ano.

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