CeltX: um tutorial de escrita de guião

O software de escrita de guião CeltX lançou finalmente a sua versão 1.0, depois de anos nas 0.9.qualquer coisa. As diferenças não são muito aparentes, mas são profundas, e o facto serviu de motivação para eu escrever este artigo, que ando a planear há algum tempo: uma aula prática do CeltX, para ajudar todos os que procuram uma forma simples e prática de escrever os seus guiões com um formato correcto, sem terem de perder tempo e paciência com as folhas de estilos do Word.

O aspecto geral de um guião no CeltX.

Uma breve introdução

O CeltX é um software open source de pré-produção de media, que inclui capacidades tão diversas como a planificação e escrita dos guiões, os levantamentos das necessidades de produção, a planificação de filmagens, catálogos, calendário, storyboard, etc.

A sua grande promessa é uma integração perfeita entre todos os profissionais que trabalham na pré-produção de um projeto audiovisual, desde o guionista ao realizador, passando pelo assistente de realização e produtores. Cada um destes profissionais encontrará no CeltX uma solução prática e integrada para as suas necessidades. Obviamente vou dar mais destaque às características que  interessam aos guionistas.

Outra das características do CeltX é uma integração perfeita entre o programa que baixamos para o computador, e os serviços web associados. Podemos criar uma conta no site CeltX Project Central, que nos permitirá tornar o nosso guião acessível a todos os utilizadores ou, o que é mais interessante, apenas a um grupo seleccionado por nós. Isto permite, entre outras coisas, que várias pessoas possam trabalhar num mesmo guião, ou irem sendo informadas da sua evolução. Permite também manter backups do guião, na sua forma definitiva ou em tantas versões intermédias quanto quisermos.

No site do programa estão disponíveis versões para Windows, Linux e Mac OSX (a que eu utilizo), em 9 línguas, incluindo o português do Brasil. Muitas outras irão surgir, seguramente, pois na versão anterior há mais 12 línguas disponíveis. Todas as versões são gratuitas, e os ficheiros perfeitamente compatíveis entre si.

Principais características de interesse para os guionistas

O CeltX vem de origem com seis modelos de texto pré-formatados: guião cinema ou tv, teatro, guião audiovisual, guião áudio, banda desenhada e texto simples. Podemos ainda criar modelos próprios, adaptados a necessidades específicas.

Escolhido um destes formatos para o nosso guião, a escrita é muito simples: recorrendo apenas às teclas de parágrafo e tabelação, vamos saltando entre os diferentes estilos de cada elemento da página: cabeçalhos, ação, personagem, diálogo, etc. Durante a escrita podemos a qualquer momento ver a paginação exacta do nosso guião, incluindo números de cenas e detalhes como os (Mais) e (Continuados), que não são muito usados em Portugal.

Uma característica nova da versão 1.0 é a possibilidade de transformar automaticamente um guião num dos formatos pré-definidos em qualquer um dos outros. Por exemplo, um guião escrito como  banda desenhada pode ser transformado num guião para cinema. Não sei se na prática será muito útil, mas os criadores do programa dão-lhe grande destaque.

O CeltX inclui ainda um painel de fichas, ligadas interactivamente ao guião, em que cada cena é representada por uma ficha com o mesmo cabeçalho  e as primeiras palavras do texto. No verso (virtual) destas fichas podemos tomar notas sobre as cenas. Trocando osas fichas de lugar as cenas correspondentes também são mudadas.

Além disso cada ficha pode ser associado a uma trama (A,B, C, etc), permitindo ter uma noção visual precisa dos vários enredos que estamos a entrelaçar. Este modo de trabalho pode ser muito útil na fase de planificação de um guião.

Outras características

O CeltX tem um ror de capacidades de interesse para a pré-produção de um filme, que vão desde os levantamentos gerais dos elementos de cena (atores, cenários, adereços, veículos, etc), organizados em catálogos, até à planificação das filmagens; à produção de folhas de serviço e listas diversas, etc. Os realizadores poderão criar storyboards, e todos os utilizadores beneficiam de um modo de arquivo para reunir notas, documentos, vídeos, fotografias, etc.

Não tenho muita prática de produção, por isso não sei se todas estas funcionalidades são utilizáveis numa produção real. Mas imagino que, por exemplo, os estudantes de uma escola de cinema poderiam usar a maior parte delas na produção dos seus trabalhos práticos, sem ter necessidade de piratear os softwares profissionais que os produtores e assistentes de realização usam para esse efeito.

Finalmente, as mãos na massa

Como se processa então a escrita de um guião no CeltX. Vamos ver a sequência passo a passo.

1) Novo projeto – Quando abrimos o programa surge uma janela que nos dá a opção de abrir um projeto já criado ou criar um novo. A criação de um novo projeto também pode ser obtida a partir do menu "Arquivo/Novo projeto…".

Criando um projeto novo.

Outra forma de começar um projeto.

Nesta janela devemos escolher o tipo de guião que queremos escrever: filme, A/V, teatro, etc.

2) A janela inicial – selecionada uma das opções abre-se o documento correspondente numa página em branco.

O que vemos quando iniciamos um projeto: a temida página em branco.

Na coluna da esquerda temos duas áreas: a Biblioteca do projeto, onde aparece o guião (Roteiro, em português do Brasil) e o Catálogo principal. Outros elementos, textos, versões do roteiro, etc, podem ser acrescentados a esta biblioteca. Temos ainda a área das Cenas: uma lista numerada de todas as cenas do guião. Neste momento, e porque ainda não escrevemos nada, inclui apenas o número da primeira cena.

Na coluna do centro temos a área de escrita. No topo, destacam-se uma série de botões de formatação, que analisaremos em detalhe mais à frente; em baixo, vemos vários separadores para áreas com funções diferentes; e, no meio, a temida página em branco.

Nesta destaca-se, em cima, um rectângulo cinzento onde escreveremos o cabeçalho da primeira cena. Estes rectângulos cinzentos só aparecem no modo de escrita, para nos ajudar a separar visualmente as cenas, e não são impressos ou exportados.

Na coluna da direita vemos três separadores: Notas, Mídia e Decupagem. A primeira é útil para os guionistas, pois permite-nos incluir notas para cada cena (objectivos, excertos de diálogos, alterações a fazer, etc). As outras duas destinam-se mais à pré-produção e não me vou debruçar sobre elas neste tutorial.

3) A página em branco – vejamos então os diferentes elementos que constituem a coluna central, onde toda a escrita se processa.

A barra superior é dedicada à formatação.

No topo, do lado esquerdo, temos um Menu com a palavra Personagem destacada. Seleccionando esse menu obtemos todos os estilos disponíveis para o formato em que estamos a escrever. No caso do modelo de Cinema, são Cabeçalho, Ação, Personagem, Diálogo, Rubrica, Transição, Plano e Texto. Para uma introdução ao significado e utilização destes elementos, sugiro este artigo do meu Curso de Guião.

Este menu não é a única, nem a mais prática, forma de escolher os estilos, mas está sempre disponível em caso de necessidade. Tal como estão os outros ícones que se seguem, e que representam funções comuns em muitos processadores de texto: desfazer e refazer, negrito, itálico e sublinhado, maiúsculas e minúsculas, cortar, copiar e colar, verificar ortografia e buscar. Estes ícones incluem ainda duas funções exclusivas do CeltX: diálogo duplo, e remover marca. Finalmente, na extremidade direita, temos um menu com opções de visualização: 100%, 150% e 200%.

No rodapé da coluna central temos seis separadores: Roteiro, Formatação, Borrador, Fichas, Página Título e Relatórios.

O primeiro, Roteiro, é onde se processa toda a escrita do guião.

O segundo, Formatação, permite-nos ver a qualquer momento o número exacto de páginas do guião, como este vai ficar quando impresso, e aceder a opções como a numeração das cenas.

O terceiro, Borrador, é uma área temporária de armazenagem de textos, cenas completas, excertos, etc. Contrariamente às Notas,  que são específicas de cada cena, o Borrador é partilhado por todo o guião.

O separador Fichas dá-nos acesso a um modo de visualização do guião em que cada cena é representada por um cartão visual. Mais tarde escreverei um artigo específico sobre como utilizar este separador para o planeamento do guião.

A Página Título é exactamente o que o nome indica: uma secção específica onde preenchemos os elementos que compõem a folha de rosto do guião. Esta tem um tratamento à parte pois não entra na numeração das páginas do guião.

Finalmente, os Relatórios interessam sobretudo à produção. Contudo, alguns Relatórios podem também ser usados pelos guionistas para avaliar quantos décores, ou personagens com falas, entram no guião.

 4) Passando à escrita –  a formatação de um guião com o CeltX é um processo automático. Toda a formatação é feita pelo programa e nós só precisamos de lhe indicar quando mudamos de estilo. Para isso usamos apenas duas teclas: a tabelação (tab) e o parágrafo (return ou enter).

Duas teclas são quanto basta para formatar um guião.

Quando começamos a escrever um guião o cursor encontra-se automaticamente numa zona cinzenta que identifica estarmos num Cabeçalho. Depois de introduzirmos a informação relevante (por exemplo:  INT. SALA DE ESTAR – NOITE) basta fazermos parágrafo (return ou enter) e o programa muda automaticamente para o formato de Ação, pois sabe que a seguir a um cabeçalho entra sempre, obrigatoriamente, uma descrição de ação.

Se fizermos agora um novo parágrafo o programa mantém-se no estilo Ação. Se isso estiver bem para nós, continuamos a escrever. Isto repete-se as vezes que forem necessárias.

Quando quisermos introduzir um diálogo, basta fazermos uma tabelação (tab) e passamos automaticamente para o estilo Personagem. Introduzimos o nome do personagem e fazemos parágrafo. Como o programa sabe que a seguir de um Personagem vem normalmente uma fala, conduz-nos para o estilo Diálogo. Fazendo novamente parágrafo voltamos ao estilo Personagem e, depois deste, a um novo Diálogo. Esta sequência vai-se repetindo as vezes que quisermos.

Muitas vezes, a seguir ao nome de um personagem não queremos introduzir um diálogo mas sim uma didascália, ou seja, uma indicação ao actor (por exemplo: (zangado)). Para isso, quando estamos num Diálogo basta fazer uma tabelação e o estilo muda para o formato Rubrica (que corresponde às didascálias). Depois de uma didascália vem sempre uma fala; por isso, quando fizermos parágrafo a linha seguinte muda novamente para o estilo Diálogo.

Assim, usando as teclas parágrafo (return ou enter) e tabelação (tab), vamos mudando de um estilo para outro na sequência natural em que eles aparecem num guião:

Cabeçalho -> Ação -> Personagem -> Diálogo (ou Rubrica).

Há mais dois estilos que podem por vezes ser usados num guião. São eles Transição e Plano. O primeiro aplica-se no fim das cenas, para indicar o tipo de efeito usado na mudança para a cena seguinte (por exemplo: CORTA PARA); o segundo utiliza-se para indicar um determinado tipo de plano (por exemplo: CLOSE UP). Como estes dois estilos são menos usados não entram na sequência natural da escrita. Deverão ser aplicados  usando o menu superior ou um atalho de teclas.

Os atalhos de teclas são, aliás, a maneira mais rápida de mudar o estilo de um parágrafo. Quando o cursor está num determinado parágrafo basta usar o atalho de teclas adequada para mudar o estilo desse parágrafo para qualquer outro. Por exemplo, as teclas Comando (a tecla da maçã, em Mac) ou Ctrl (em Windows) + 1 mudam o estilo para Cabeçalho; as teclas Comando/Ctrl+5 mudam para Rubrica; e Comando/Ctrl + 6 mudam-no para Transição.

O resultado profissional é automático.

5) Memória inteligente – à semelhança dos outros programas de escrita de guião, o CeltX tem uma outra forma de simplificar a nossa vida. Depois de escrevermos um Cabeçalho ou um Personagem pela primeira vez, o programa memoriza essas palavras. No próximo Cabeçalho ou Personagem que escrevermos começando com as mesmas letras ele propõe-nos uma  lista de alternativas adequadas que podemos seleccionar.

Por exemplo, em vez de escrevermos sempre o nome do personagem "Joaquim", basta escrevermos a letra "J" e aparece uma lista de alternativas (Joaquim, João, José, Jorge…), poupando-nos o trabalho de digitar a palavra completa. No fim de um guião isto representa muitos milhares de digitações a menos.

Opções inteligentes para nos poupar trabalho.

Todos estes mecanismos – o uso das teclas parágrafo e tabelação; as opções inteligentes; os atalhos de teclado – acabam por tornar-se automáticos ao fim de um curto espaço de tempo de utilização do CeltX. A partir desse momento passamos a escrever concentrados apenas naquilo que interessa – o conteúdo das nossas cenas – e esquecemos completamente os pormenores da formatação, que ficam a cargo do programa. Posso garantir-vos: depois de nos habituarmos a escrever assim, é com muito sacrifício que somos obrigados a voltar a escrever guiões num programa não especializado, como o Word.

7) Continuados e numeração – tal como os outros programas de escrita de guião o CeltX oferece como opção a inclusão automática de indicações especiais quando há quebras de diálogo ou quebras de cena. Isto aplica-se quando um bloco de diálogo ou uma cena passam de uma página para a página seguinte. O CeltX dá-nos esta opção no modo de Formatação de que já falámos antes, acessível por um dos separadores no rodapé da página.

Mais e continuados.

A minha experiência diz-me que, em Portugal, os produtores e os actores não valorizam esta opção, por isso  desactivo-a sempre antes de imprimir ou exportar os guiões.

É também no modo de Formatação que podemos escolher numerar ou não numerar as cenas. A numeração pode aparecer à esquerda dos cabeçalhos, à direita, em ambos os lados, ou não aparecer. Nos EUA recomenda-se que as versões iniciais de um guião não tenham as cenas numeradas. Em Portugal, pelo contrário, os produtores  gostam de ir à última página ver logo quantas cenas o guião tem.

Podemos numerar as cenas do guião a qualquer momento.

8) Exportar o guião – infelizmente a maior parte das produtoras ainda não adoptaram os programas de escrita de guião no seu processo normal de trabalho. É por isso muitas vezes necessário converter os documentos produzidos no CeltX para um formato que elas entendam. 

O CeltX oferece duas opções úteis para esse efeito: ou mudamos para o modo de Formatação e fazemos "Salvar  PDF"; ou vamos ao menu superior e fazemos "Roteiro/Exportar Roteiro…" e gravamos o ficheiro como "Arquivos HTML".

A primeira opção grava em formato .pdf, que hoje é lido praticamente por qualquer computador, mas não é editável. Isto pode ser útil quando queremos enviar um guião para ser lido mas queremos ter a certeza de que ele não poderá ser editado.

A segunda opção exporta em formato .html, que o Word lê perfeitamente. O Word mantém inclusivamente os estilos (Cabeçalho, Ação, etc) disponíveis para poderem continuar a ser usados. Normalmente será preciso fazer depois alguns ajustes nos espaçamentos e margens, mas 90% do trabalho de conversão fica feito automaticamente. No que diz respeito à conversão das letras acentuadas e cedilhas o CeltX faz um melhor serviço do que o Final Draft e o Screenwriter.

Temos ainda a possibilidade de exportar em formato "Arquivos de Text" (.txt) mas isso só se justifica se quisermos depois importar o guião num programa profissional, como o Movie Magic Screenwriter.

Conclusão

O Celtx veio colocar ao alcance de todos os guionistas, profissionais ou amadores, a maior parte das facilidades e opções que programas pagos como o Final Draft ou o Movie Magic Screenwriter oferecem na fase da escrita. Com a vantagem de ser gratuito e existir em versões para os três principais sistemas operativos.

Haveria muito mais a dizer sobre o CeltX, mas deixarei para outros artigos futuros. O que posso recomendar desde já é que façam o download do programa e comecem a experimentá-lo. O site da CeltX inclui um Manual de Utilização (em inglês) sob a forma de uma wiki. Ainda não está completamente atualizado para esta versão 1.0, mas é o sítio ideal para começar a explorar mais a fundo todas as capacidades do programa. Boa escrita!