Adaptação

Há coisas que o cinema faz bem e outras que faz menos bem. Por exemplo, o cinema é muito bom a contar uma história pela perspectiva de um personagem, ou várias histórias pela perspectiva de vários personagens.

Já contar uma mesma história pela perspectiva de personagens diferentes, saltando de um para o outro, – coisa corriqueira em termos de literatura – não é tão natural para a escrita cinematográfica.

Quando o faz normalmente adopta uma postura experimental, que não me parece a abordagem certa para este filme. Não estou a falar de variação de perspectivas como no caso do "Rashommon", por exemplo, em que vários personagens contam a mesma história do seu ponto de vista, mas contam-na do princí­pio ao fim.

No caso deste romance trata-se de uma história única que vai progredindo sob a perspectiva ora de um, ora de outro personagem. Esse é um dos desafios que provavelmente vou ter de enfrentar com esta adaptação: descobrir como posso contar a mesma história, do ponto de vista de um único personagem, mas sem perder a riqueza de algumas narrativas secundárias que se vão desenrolando em paralelo. E, sobretudo, decidir que personagem será esse, decisão que não é tão óbvia como pode parecer.

 

Este Artigo Tem 2 Comentários

  1. Ivana Rowena

    E afinal, você conseguiu resolver o problema de como escrever essa adaptação?

    1. João Nunes

      Interrompi este processo por questões meramente burocráticas. Consegui a autorização falada do autor para fazer a adaptação, reiterada em vários contatos, mas quando comecei a lidar com a sua agente nunca consegui passar essa autorização por escrito.
      O que eu pretendia era um contrato por opção, mas a agente provavelmente queria uma venda imediata e fugiu de todas as formas possíveis a negociar comigo. A certa altura percebi que estava a investir tempo e talento sem ter a certeza de conseguir ir até ao fim, e interrompi.
      Ainda hoje tenho essa espinha encravada na garganta, até porque, tanto quanto sei, o livro ainda não foi adaptado por ninguém. E posso garantir que é um grande livro, com uma grande estória, que está praticamente a suplicar: “Adaptem-me”.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.