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Mais uma etapa no "projecto z"

Ter­mi­nei final­mente de reler e ano­tar o romance que estou a adap­tar para cinema.

Como tinha pre­visto num artigo ante­rior, esta fase demo­rou mais do que tinha pla­ne­ado ini­ci­al­mente. Mas é natu­ral — esta relei­tura foi mais cui­da­dosa e pro­funda do que a pri­meira, tomei mui­tas notas, já come­cei a deli­near a estru­tura do filme e a criar novas cenas e situ­a­ções. Apro­vei­tei tam­bém para subli­nhar os diá­lo­gos mais impor­tan­tes, que gos­ta­ria de fizes­sem parte do guião final.

Digo “gos­ta­ria” por­que só o pode­rei saber com cer­teza quando o guião come­çar a tomar forma. Ape­sar dos diá­lo­gos do livro serem mag­ní­fi­cos, cheios de força e sub­ti­leza (parece um para­doxo mas não é), e eu que­rer preservá-​​los tanto quanto pos­sí­vel, há três aspec­tos a ter em conta na sua adaptação:

  • se fazem a his­tó­ria avan­çar ou, pelo con­trá­rio, a travam;
  • se encai­xam bem nas cenas e diá­lo­gos que vou ter de criar ou pare­cem implan­ta­dos à força nelas;
  • se são diá­lo­gos ade­qua­dos para cinema ou são exces­si­va­mente “literários”;

Outro desa­fio inte­res­sante que encon­trei é a pai­xão que o per­so­na­gem prin­ci­pal nutre pela poe­sia. Sem entrar em dema­si­a­dos deta­lhes, o pro­ta­go­nista é um homem de acção e vio­lên­cia, um mili­tar com um pas­sado cheio de man­chas que quer esquecer/​apagar. Não é um homem de quem, à pri­meira vista, espe­rás­se­mos um amor pela pala­vra poé­tica; assim, esse gosto enriquece-​​o e dá pro­fun­di­dade à sua personalidade.

O pro­blema é que este amor à poe­sia é mos­trado, no romance, de uma forma intei­ra­mente interna e sub­jec­tiva. Con­fron­tado com situ­a­ções, dile­mas, diá­lo­gos, memó­rias, o pro­ta­go­nista lembra-​​se de ver­sos dos seus poe­tas favo­ri­tos. Tudo se passa den­tro da sua cabeça, sem nenhuma exte­ri­o­ri­za­ção dessa pai­xão. Há alguns diá­lo­gos em que ele usa esses ver­sos, mas não os cita como tal.

Tudo isto me deixa num dilema: mos­trar ou não mos­trar esse lado do pro­ta­go­nista, que é tanto mais impor­tante por ser tão para­do­xal? E se sim, como fazê-​​lo cine­ma­to­gra­fi­ca­mente (pondo de lado, obvi­a­mente, solu­ções de “cinema de autor”…)?

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Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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