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16 coisas a evitar num guião de baixo custo

Quando um pro­du­tor por­tu­guês olha para um guião não se vai limi­tar a apre­ciar o seu valor artís­tico e cri­a­tivo, a sua qua­li­dade intrín­seca. Vai tam­bém – pro­va­vel­mente até em pri­meiro lugar – ava­liar a via­bi­li­dade da sua pro­du­ção. Todos os fil­mes por­tu­gue­ses são, sem excep­ção, fil­mes de baixo orça­mento. Mesmo os fil­mes naci­o­nais mais caros são, pelos padrões da maior parte dos outros paí­ses (come­çando aqui ao lado por Espa­nha), rela­ti­va­mente baratos.

Um gui­o­nista pode aumen­tar con­si­de­ra­vel­mente as pro­ba­bi­li­da­des do seu guião ser pro­du­zido se tiver isso em aten­ção e evi­tar uma série de ele­men­tos que con­tri­buem para enca­re­cer a pro­du­ção de um filme. Não quer dizer que a ausên­cia des­tes ele­men­tos vai tor­nar só por si um mau guião ape­te­cí­vel. Mas é garan­tido que a pre­sença de mui­tas des­tas coi­sas  no guião vai obri­gar o pro­du­tor a fazer mui­tas con­tas antes de se lan­çar na aven­tura de o produzir.

  1. Guião grande demais
    Quanto maior for o guião, mais tempo demora a rodar. Mais tempo repre­senta mais dinheiro inves­tido em salá­rios, equi­pa­men­tos, trans­por­tes, etc. O melhor é man­ter­mos os nos­sos guiões entre as 90 e as 110 pági­nas (de pre­fe­rên­cia mais perto das 90).
  2. Dema­si­a­dos papéis
    Mais papéis impli­cam mais acto­res, mais salá­rios, mais com­pli­ca­ções no pla­ne­a­mento do mapa de roda­gem, mais cus­tos de des­lo­ca­ções, hotéis, etc. Deve­mos ava­liar bem as  neces­si­da­des da  estó­ria e usar ape­nas os per­so­na­gens estri­ta­mente necessários.
  3. Cas­tings muito espe­cí­fi­cos
    Um papel com carac­te­rís­ti­cas dema­si­ado espe­cí­fi­cas, ou com­pli­ca­das de encon­trar, pode cau­sar pro­ble­mas des­ne­ces­sá­rios de cas­ting e assus­tar os pro­du­to­res. Temos de pesar bem as suas van­ta­gens e desvantagens.
  4. Ani­mais
    A pre­sença ou depen­dên­cia de ani­mais implica tra­ta­do­res, veí­cu­los espe­ci­ais, e tem­pos de roda­gem mais len­tos. Tudo isso sig­ni­fica cus­tos adi­ci­o­nais. Como é evi­dente, um cavalo é mais com­pli­cado que um periquito.
  5. Cri­an­ças
    As cri­an­ças são pro­te­gi­das por legis­la­ção espe­cial que limita os tem­pos de fil­ma­gem, etc. Além disso são mais difí­ceis de diri­gir, o que implica tam­bém tem­pos de roda­gem mais demo­ra­dos. Cri­an­ças com ani­mais são par­ti­cu­lar­mente de evitar.
  6. Dema­si­a­dos déco­res
    Um filme com mui­tos déco­res implica ou muita cons­tru­ção de déco­res em estú­dio ou mui­tas des­lo­ca­ções da equipa de uns locais exte­ri­o­res para outros. Ambas as situ­a­ções pesam no orça­mento, por isso temos de  encon­trar o equi­lí­brio certo – pou­cos déco­res e o filme parece “pequeno” e limi­tado, dema­si­a­dos e fica insu­por­ta­vel­mente caro.
  7. Exte­ri­o­res em locais públi­cos
    Locais públi­cos e movi­men­ta­dos, como ruas agi­ta­das, esta­ções de com­boios ou aero­por­tos, impli­cam licen­ças difí­ceis de obter, mui­tos figu­ran­tes, mais meios de pro­du­ção, mais des­pe­sas. Se for pos­sí­vel encon­trar déco­res alter­na­ti­vos e inte­res­san­tes é melhor ser­mos nós a fazê-​​lo antes que o pro­du­tor o faça por nós – se calhar com opções bem menos criativas.
  8. Exte­ri­o­res noc­tur­nos
    As cenas noc­tur­nas em exte­rior impli­cam uma série de com­pli­ca­ções logís­ti­cas nas fil­ma­gens, dão dores de cabeça aos assis­ten­tes de rea­li­za­ção, difi­cul­tam o pla­ne­a­mento dos mapas de roda­gem e can­sam muito as equi­pas. Se a sua estó­ria não for um filme de vam­pi­ros pas­sado no Alasca, modere o número de cenas nocturnas.
  9. Cenas de mul­ti­dão
    Os gran­des épi­cos depen­dem mui­tas vezes de cenas com mul­ti­dões em movi­mento. Alguém se lem­bra de um épico assim no cinema português?
  10. Muita depen­dên­cia de efei­tos espe­ci­ais
    Mesmo nos tem­pos actu­ais, em que a tec­no­lo­gia está cada vez mais aces­sí­vel, os efei­tos espe­ci­ais ainda impli­cam cus­tos adi­ci­o­nais para um filme, que por vezes são con­si­de­rá­veis. Os úni­cos efei­tos espe­ci­ais que os pro­du­to­res gos­tam de usar são os que lhes pou­pam dinheiro; não os que impli­cam mais custos.
  11. Acções espec­ta­cu­la­res
    As cenas com per­se­gui­ções auto­mó­veis, que­das espec­ta­cu­la­res ou gran­des tiro­teios são sem­pre mais com­pli­ca­das e caras de rea­li­zar. Quer acre­di­tem ou não, cada tiro dado é con­ta­bi­li­zado. E os pro­du­to­res come­çam a fazer as con­tas logo na lei­tura do guião.
  12. Efei­tos cli­má­ti­cos
    Tem­pes­ta­des, nevões, até uma sim­ples chu­vada – todos estes efei­tos de clima têm de ser cri­a­dos espe­ci­al­mente para fil­mar. Será que aquela cena secun­dá­ria do seu guião tem mesmo de ser numa pista de ater­ra­gem do aero­porto de Lis­boa debaixo de uma intensa queda de granizo?
  13. Cenas de época
    Cenas no pas­sado, como pró­lo­gos ou flash­backs, impli­cam pre­o­cu­pa­ções espe­ci­ais de pro­du­ção: guarda-​​roupa, ade­re­ços, déco­res, veí­cu­los, etc. Tudo isto inflac­ci­ona um orça­mento e tem sem­pre de ser bem pon­de­rado. Os fil­mes de época, evi­den­te­mente, são ainda mais com­pli­ca­dos, mas aí a opção foi feita logo à par­tida pelo produtor.
  14. Veí­cu­los em movi­mento
    Cenas pas­sa­das em veí­cu­los em movi­mento, quer sejam car­ros, com­boios ou heli­cóp­te­ros, são de pro­du­ção mais com­pli­cada e morosa. E, como penso já ter dei­xado bem claro por esta altura, em pro­du­ção tempo é dinheiro e o dinheiro é sem­pre escasso.
  15. Cenas aquá­ti­cas
    Idem idem aspas aspas.
  16. Maqui­lha­gens muito com­ple­xas
    Tra­ba­lhos de maqui­lha­gem muito com­pli­ca­dos ocu­pam muito tempo às equi­pas e rou­bam muito tempo aos acto­res. Se isso se repe­tir todos os dias pode ter um efeito sig­ni­fi­ca­tivo na pro­du­ção. E não é neces­sá­rio ser um filme de zom­bies – por vezes basta ter de enve­lhe­cer cre­di­vel­mente um per­so­na­gem durante parte sig­ni­fi­ca­tiva da estória.

Com esta lista não estou a que­rer limi­tar cri­a­ti­va­mente os gui­o­nis­tas, mas sim dar-​​lhes parâ­me­tros rea­lis­tas para apli­ca­rem a sua cri­a­ti­vi­dade. Pro­va­vel­mente será impos­sí­vel ( e até  mesmo inde­se­já­vel) evi­tar todos estes ele­men­tos num mesmo guião. Mas incluir uma quan­ti­dade exces­siva  é segu­ra­mente a melhor maneira de afas­tar os pro­du­to­res por­tu­gue­ses do seu guião.

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

4 comentários… add one

  • berni ferreira 19/11/2007, 21:43

    Um post muito útil. Por mais básicos que possam parecer, acho que já cometi a maior parte destes erros. Desnecessariamente.

    Cumprimentos

  • Salvador Palma 22/11/2007, 15:35

    Bom Post… Os meus guiões são destinados a curtas académicas e pouco mais, visto ainda estar a começar, porém este post ajuda sempre a ter uma dimensão mais global do que é um bom guião com viabilidade comercial. Talvez ter lido este post tão prematuramente me vá evitar de futuro alguns problemas.

    Cumprimentos,
    Salvador Palma

  • Eduardo 18/10/2008, 20:58

    post bastante util.
    aliás, varios dos posts que encontrei por aqui sao de grande utilidade, pois escrever para cinema/televisão é o meu grande objectivo na vida.

    muito obrigado pelas muitas dicas que por aqui encontrei.

  • joana 20/11/2008, 11:25

    boa tarde, este blog é bastante útil, continue a dar-nos estes textos que valem a pena, obrigada.

    já agora queria perguntar uma coisa, onde é que eu poderia encontrar as regras que têm que se ter com as crinaças nas rodagens, tempos que podem filmar, etc.

    obrigada, joana

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