Isolado em casa? Candidate-se aos concursos do ICA para apoio à escrita.

Todos os anos o Instituto do Cinema e do Audiovisual abre novos concursos de apoio ao setor cinematográfico e audiovisual nacional.

Este ano não vai ser exceção. Apesar da pandemia do coronavírus, o ICA vai passar ao regime de teletrabalho e, dessa forma, assegurar que os concursos referentes ao ano de 2020 continuam a decorrer normalmente e nos prazos previstos.

Se está fechado em casa, porque é que não aproveita o regime de isolamento social para preparar um projeto e concorrer a um dos apoios disponíveis?

Afinal de contas, uma das maiores queixas que sempre ouço dos candidatos a guionistas é a falta de tempo para escrever. Pois tempo, agora, é coisa que não vai faltar. É uma questão de ocupá-lo bem, em vez de o gastar nas redes sociais a fazer like ao meme do momento.

Quem pode concorrer?

Os concursos mais adequados aos guionistas são os do Apoio à Escrita e Desenvolvimento de Obras Cinematográficas e do Apoio à Escrita e Desenvolvimento de Obras Audiovisuais e Multimédia. Vou focar-me exclusivamente neles.

Ambos estes concursos se destinam a financiar atividades de escrita e desenvolvimento de projetos de produção independente de obras cinematográficas, no primeiro caso, e de obras audiovisuais e multimédia, no segundo.

O desenvolvimento inclui a escrita dos guiões de longas-metragens e de séries televisivas ou telefilmes, o que nos interessa particularmente. São também apoiados documentários, obras de animação e projetos multimédia.

Os concursos cobrem duas modalidades de candidaturas. Em primeiro lugar temos as candidaturas para apoio a planos plurianuais, com diversos projetos, que são exclusivas para empresas produtoras.

Mas estes concursos prevêem também o apoio a obras singulares, em que podem candidatar-se argumentistas e realizadores com os seus projetos próprios. É sobre esta segunda modalidade que me vou debruçar, pois é aquela em que se pode concorrer sem ter contactos prévios na indústria do cinema e audiovisual.

Se concorrer nesta segunda modalidade e conseguir um apoio, terá em seguida que nomear uma produtora independente para tratar de todo o processo subsequente, incluindo os pagamentos. Mas, estando o apoio atribuído, creio que encontrar essa produtora não será problema.

Limitações

É importante destacar duas limitações, aplicáveis em ambos os concursos.

Um autor, argumentista ou realizador, pode apresentar mais do que uma candidatura singular em cada concurso, desde que sejam de categoria diferente. Por exemplo, pode concorrer ao apoio às obras cinematográficas com uma longa-metragem de cinema, uma curta de animação e um documentário.

No entanto, apenas o projeto melhor classificado pode ser objeto de apoio, seja qual for a categoria da obra. Ou seja, desses vários projetos apenas um poderá receber apoio.

Por outro lado, um autor pode apresentar os seus projetos independentes e, ao mesmo tempo, estar incluído num plano apresentado por uma produtora.

Nesse caso será possível a acumulação de apoios a ambos os projetos: um independente e um incluído no plano.

Prazos do concurso

O concurso de apoio às obras cinematográficas decorre até 30 de Abril; o de apoio às audiovisuais, até 21 de Maio.

Isto quer dizer que, com um bom planeamento e alguma disciplina, terá tempo suficiente para desenvolver dois projectos, um para cada concurso.

Concursos ICA

Como se concorre?

O primeiro passo é ir ao site do ICA e consultar as páginas dos concursos do apoio à escrita e desenvolvimento para cinema e do apoio à escrita e desenvolvimento para audiovisual e familiarizar-se com os requisitos, aí resumidos. Deve também baixar os regulamentos, disponíveis no fundo da página, e lê-los atentamente.

Segundo passo: inscreva-se no site, criando uma conta para si como novo utilizador (se for o caso) ou fazendo login se já tiver conta. Siga as instruções passo a passo e não deverá ter dificuldades quanto a isso.

O terceiro passo é decidir em que tipos de projectos quer apostar. No caso das obras cinematográficas estão incluídas longas-metragens de ficção, longas e curtas-metragens de animação e documentários cinematográficos.

No caso das obras audiovisuais há maior variedade: séries de televisão de ficção, séries de televisão de animação, séries de telefilmes e telefilmes individuais, séries de televisão de documentário, documentários unitários e especiais de animação para televisão, designados «especiais TV».

Aqui a escolha é totalmente sua. Vasculhe a gaveta e os seus cadernos de ideias; procure nos recônditos do seu computador; ou parta do zero e faça um brainstorming.

O meu livro Como Escrever um Argumento de Cinema, disponível em e-book ou versão impressa, pode ajudar neste processo de criação da ideia, além de o guiar até ao fim da escrita.

O Curso de Guionismo que ofereço aqui no site também dá muitas sugestões quanto a isso, especialmente nos primeiros artigos.

Finalmente, deve estabelecer um plano de trabalhos que tenha em conta o tempo disponível até ao fecho dos concursos e o volume de trabalho a fazer. Lembre-se que, para cada candidatura, é necessário escrever uma grande variedade de documentos.

Assim, para cada projeto de obra cinematográfica com que concorrer de forma independente terá de desenvolver e escrever:

  • Uma sinopse com o máximo de 500 caracteres;
  • A caracterização dos personagens, para projetos de ficção ou animação, exceto para documentários de animação;
  • Três cenas dialogadas e interligadas, e/ou versão inicial do argumento, para projeto de ficção/animação que inclua proposta de escrita de argumento;
  • Um tratamento, se existir, no caso de documentários, ou descrição da estrutura proposta para a obra;
  • No caso de projetos de animação, é necessária ainda a apresentação gráfica do projeto (personagens e ambientes) e um memorando descritivo das técnicas a utilizar;
  • Um plano e calendário indicativa dos trabalhos de escrita;
  • Se aplicável, o contrato com o autor da obra preexistente, relativamente à respetiva adaptação para cinema ou autorização suficiente, conforme o modelo aprovado pelo ICA;
  • Um orçamento;
  • Uma declaração de intenções sobre o tema, abordagem, fontes de
    pesquisa e trabalho de campo a realizar, com o máximo de 5.000 caracteres;
  • E, por fim, o seu currículo.

Por outro lado, para cada projeto de obra audiovisual ou multimédia com que concorrer terá de apresentar:

  • Uma sinopse, com no máximo de 500 caracteres;
  • A caracterização dos personagens, para projeto de ficção ou animação, exceto para documentários de animação;
  • Um tratamento e/ou a versão inicial do argumento, se existirem, ou, no caso de documentários, descrição da estrutura proposta para a obra;
  • Um documento descritivo das principais linhas de ação, personagens, ambientes e contexto, no caso das séries de ficção, de animação ou séries de telefilmes ou, com as devidas adaptações, no caso das séries documentais;
  • No caso de projetos de animação, é necessária ainda a apresentação gráfica do projeto (personagens e ambientes) e memorando descritivo das técnicas a utilizar;
  • Um plano e calendário dos trabalhos de escrita;
  • O contrato com o autor de uma obra preexistente relativamente à respetiva adaptação ou autorização, se for o caso;
  • Um orçamento;
  • Uma declaração de intenções sobre o tema, abordagem, fontes de pesquisa e trabalho de campo a realizar, no máximo de 5.000 caracteres;
  • E, finalmente, o currículo do autor.

Em ambos os concursos, se o seu projeto estiver incluído dentro de um plano de uma produtora, poderá ser necessário ainda fornecer outros documentos, como um contrato ou uma autorização suficiente para o uso da sua obra. Não me debruço sobre esses documentos, porque a produtora irá orientá-lo quanto a eles.

O que são estes documentos?

É verdade que o ICA exige muitos documentos, mas não se assuste. Vamos ver em seguida os principais pontos que deve ter em conta na escrita de cada um.

Declaração de intenções

Este é um documento muito pessoal e por isso difícil de definir ou explicar. É sempre o último documento que escrevo, juntamente com o orçamento, e sugiro que faça o mesmo.

Costumo usá-lo para falar um pouco sobre o que me interessa no projeto, os motivos pessoais que me atraem nesta ideia e o que pretendo conseguir com a obra final. Exploro temas, conceitos, ideias. Falo de questões artísticas e desafios técnicos. De forma geral, explico a minha abordagem autoral ao projeto.

Dou também algumas referências de outras obras que possam ter alguma afinidade temática, artística ou técnica com o que pretendo conseguir, pois acho que isso facilita a tarefa dos avaliadores do projeto.

Seja com esta estrutura, ou com outra que ache mais adequada, a Declaração de Intenções dá-lhe 5.000 caracteres para explicar a sua visão sobre o seu projeto. Aproveite-os bem e trate este documento com imaginação e empenho, pois é lido com muita atenção pelo júri.

Sinopse

É um documento curto, com o máximo de 500 caracteres (mais ou menos o tamanho de três tweets).

Segundo a definição que ofereço num dos artigos do Curso o que o ICA pede neste documento deveria ser designado mais como uma storyline do que como uma verdadeira sinopse, que normalmente é mais longa.

Seja como for, esta sinopse destina-se a contar a sua estória em poucas palavras. Deve dar uma ideia de quem é o protagonista, qual o seu objetivo e os principais obstáculos que se colocam no seu caminho, e que tipo de conclusão poderá ter.

Deve ser escrita de forma linear, na 3ª pessoa do presente (Rui faz, Bela corre, Valdir atira…), com construções simples, economia de palavras e ideias claras.

O importante é tornar esta sinopse muito vívida, interessante e atrativa. Se tivesse de convencer alguém a investir no seu filme e dispusesse apenas de trinta segundos para o fazer, como o iria descrever? Pense nisso e escreva a sinopse dessa forma.

Caracterização dos personagens

Cada estória, seja qual for o seu formato, tem alguns personagens que se destacam pela sua importância na construção da narrativa. Este documento destina-se a apresentá-los, por ordem de importância.

Obviamente, não é preciso descrever o motorista de táxi que entra apenas numa cena e diz duas linhas. Mas se este motorista de táxi aparecer recorrentemente, e tiver importância no desenrolar da estória, deve merecer a sua atenção.

Podemos definir os nossos personagens segundo os seus traços físicos (nome, sexo, idade, aparência, etc…), sociais (classe social, profissão, estado civil, etc…) e psicológicos (atitudes, comportamentos, medos, sonhos, etc…).

Também aqui não precisa estender-se demasiado nas descrições. Tem total liberdade para as desenvolver mais, dado que o regulamento não impõe um limite de caracteres para este documento. Mas, em minha opinião, e pensando nos jurados que têm dezenas de projectos para ler e avaliar, a moderação e economia são normalmente melhores estratégias.

Assim, para os personagens mais importantes, sugiro que escreva três ou quatro bons parágrafos. Para os restantes personagens, faça com que um parágrafo seja suficiente.

O essencial é garantir que cada palavra conte, criando retratos interessantes para estas pessoas com que vai povoar as páginas da sua estória.

Cenas dialogadas (obras cinematográficas)

O regulamento do concurso de apoio à escrita de obras cinematográficas pede “Três cenas dialogadas e interligadas, e/ou versão inicial do argumento, para projeto de ficção/animação que inclua proposta de escrita de argumento”.

O enunciado é um pouco confuso, mas a minha interpretação (partilhada por outros guionistas) é que deverá enviar o que já tiver escrito para o seu projeto, sendo as tais “três cenas dialogadas e interligadas” o mínimo dos mínimos.

O objetivo dessas três cenas é mostrar ao júri a sua capacidade de escrever um guião conforme as práticas usadas no cinema e audiovisual.

Tudo o resto que conseguir acrescentar irá ajudar o júri a perceber melhor o seu projeto.

Por isso, se já tiver uma primeira versão do guião, envie; se tiver as primeiras páginas do guião escritas, envie; se tiver um tratamento completo, envie; se tiver uma sinopse mais longa, envie; se tiver apenas uma sinopse curta, então envie isso, juntamente com as três cenas obrigatórias.

Pessoalmente, acho que o seu objetivo para este documento deve ser escrever um tratamento tão completo quanto possível.

Conforme explico num artigo do Curso de Guionismo, um tratamento “é uma sinopse mais desenvolvida e envolvente, que se lê quase como um conto. Tem uma função mais evocativa, inspiradora, e mostra uma preocupação acrescida com aspectos de estilo e ambiente.”
Recomendo a leitura do resto do artigo para mais detalhes.

Combinado com as cenas dialogadas interligadas, o tratamento dá uma ideia completa do seu filme e da sua capacidade para o escrever.

Tenha em atenção que, seja o que for que decidir enviar, só será útil se for relevante e contribuir positivamente para a avaliação dos jurados.

Se tiver 50 páginas de guião mal escritas, sem estrutura e cheias de erros, possivelmente não será boa ideia submetê-las à apreciação de quem vai decidir sobre o futuro do seu projeto.

Tratamento (documentários)

No caso dos documentários, é pedido outro tipo de material de apresentação.

Por definição, um documentário, por ser gravado a partir da realidade, não terá provavelmente “cenas dialogadas” escritas previamente e a locução final (quando existe) só é definida depois de obtida parte significativa do material.

Em vez de cenas dialogadas o autor deverá então fornecer um tratamento desenvolvido ou a descrição da estrutura que pensa dar à obra.

Na realidade não vejo grande diferença entre estes dois documentos. O tratamento, no caso de um documentário, deve ser entendido como uma extensão/complemento à declaração de intenções de que falei antes. Nesse âmbito, pode incluir, entre outras coisas, uma ideia da estrutura pretendida.

Além disso, o tratamento pode explicar de forma mais detalhada o interesse e relevância que o tema tem para si e para os espectadores; o contexto do documentário, ou seja, qual o mundo/realidade que pretende explorar; a pesquisa que possa já ter feito sobre o seu tema; que pessoas (pessoas concretas ou tipos de pessoas) tenciona acompanhar; qual o potencial dramático da sua abordagem; as opções técnicas e estéticas que vai privilegiar; enfim, tudo o que possa ajudar a entender a natureza do seu documentário.

Tratamento (obras audiovisuais)

Para o concurso de apoio à escrita para audiovisual o ICA também pede documentos diferentes dos requeridos no apoio à escrita para cinema, o que é compreensível. São obras com características diversas e a sua apresentação deve refletir isso mesmo.

O documento mínimo exigido, neste caso, é um tratamento. Se for para um telefilme, será muito semelhante ao tratamento de cinema de que falámos.

Se for para uma mini-série ou uma série, para televisão ou para web, poderá ser um pouco diferente. Enquanto uma longa-metragem de cinema tem, em média, cerca de duas horas, uma série ou mini-série é normalmente uma narrativa muito mais extensa.

De igual forma, a chegada de canais especializados, como a HBO, e posteriormente das plataformas de streaming, como o Netflix, introduziram algumas diferenças no formato e lógica das séries. Formatos, dimensões, temas, lógicas dramáticas… a variedade de opções é hoje muito maior.

Assim, o tratamento para uma série, além de ter as mesmas preocupações com a envolvência e capacidade de inspirar, deve encontrar um bom equilíbrio entre a explicação do tipo de série, o detalhe dos conteúdos de cada episódio e a evolução das tramas dramáticas ao longo de toda a obra.

Uma opção é escrever um tratamento longo, tratando a série como uma única narrativa longa, com o seu princípio meio e fim, sem dar grande importância à forma como isso vai ser organizado em episódios. Outra possibilidade é escrever um tratamento mais curto e complementá-lo com sinopses para cada episódio.

As opções são tantas quantas as séries são diferentes. Cada autor deverá encontrar a forma mais adequada às características específicas do seu projeto. E sempre tendo em atenção que o ICA pede, no ponto seguinte, um outro documento que tem uma relação muito próxima com o tratamento e deve ser desenvolvido em conjunto com ele.

A “bíblia”

Quando se escrevem séries de televisão é normal – diria mesmo obrigatório – desenvolver um documento de apresentação muito completo a que se chama, vulgarmente, a “bíblia”.

O ICA pede, para o concurso do audiovisual, um documento muito semelhante a uma bíblia. Segundo o regulamento esse documento deve incluir o “descritivo das principais linhas de ação, personagens, ambientes e contexto”. Como se percebe por esta descrição, tem uma relação muito estreita com o tratamento descrito no ponto anterior.

Já escrevi sobre as bíblias noutro artigo, por isso não me vou alongar muito aqui. Recomendo a leitura desse artigo.

Deixo no entanto algumas notas adicionais. Quanto mais extenso e detalhado o seu projeto for, mais se destacará, assumindo que a qualidade da ideia e dos personagens está lá.

Se o seu projeto é uma série de televisão, não deixe de explicar bem o tipo de formato que quer explorar: uma mini-série fechada é diferente de uma série pensada por temporadas, e ainda mais de uma série de telefilmes, etc.

Escolha o tipo de informação que vai incluir na sua bíblia tendo em conta essas diferenças, nomeadamente na importância dada às tramas de cada episódio e às tramas que se estendem ao longo de toda a série.

Finalmente, esqueça a ideia de apresentar uma proposta de telenovela. Não só o ICA não tem qualquer interesse em apoiar novelas, como esse tipo de produto audiovisual tem um processo de génese, gestação, desenvolvimento e escrita muito particular, que não encaixa aqui.

Apresentação gráfica e descritivo técnico

Nos projetos de animação um dos critérios mais importantes de avaliação é a parte visual do projeto que, muitas vezes, é desenvolvida em simultâneo com o seu guião e o influencia.

Assim, além dos documentos referidos anteriormente, comuns a vários tipos de ficção cinematográfica e audiovisual, os autores de animação têm de apresentar também documentos especiais que cubram este aspecto das suas propostas.

É o caso dos estudos prévios do grafismo do projeto, nomeadamente dos personagens e ambientes. Se houver sequências de storyboards já preparados, mesmo que parciais, também será valioso apresentá-las.

Os autores devem também fazer um documento descritivo do tipo e características das técnicas que vão usar, que são muito variadas e têm um impacto direto no resultado final. Podem ainda incluir referências de outros filmes produzidos com essas técnicas, se existirem.

concursos ICA

Plano e calendário de escrita

Como é natural, o ICA quer ter uma ideia de como se vai processar a escrita de projecto. No caso de candidaturas singulares, estabelece até que o prazo de execução para a escrita do guião é de no máximo um ano.

Deve pois fazer parte na sua candidatura um documento com a calendarização da sua escrita. Pode incluir, por exemplo, um período para pesquisa; um prazo para a escrita do tratamento detalhado; um prazo para a escrita da primeira versão do guião; um prazo para reescrita; e um para a versão final do seu guião.

Note que cada projeto tem as suas características, e cada autor os seus processos e prazos. Você conhece-se melhor do que ninguém, defina o seu calendário conforme lhe for mais conveniente.

Contrato com autor de obra preexistente

Se a sua obra é uma adaptação de outra obra anterior, tem de poder provar que o autor dessa obra lhe deu autorização para a adaptar. Isso é feito através de um contrato ou de uma declaração de autorização.

É evidente que isto só se aplica em relação a obras protegidas pelos direitos de autor. Se a obra adaptada está no domínio público, ou seja, já passou o prazo de proteção garantido pela lei após a morte do autor, não precisa dessa autorização. Pode adaptar “Os Lusíadas” à vontade, sem precisar de fazer uma sessão espírita com o Camões.

Um orçamento

Este é dos temas mais bicudos, por duas razões distintas.

Por um lado, o orçamento que o ICA fornece nas páginas dos concursos é assustadoramente complexo. Trata-se de um orçamento de produção completo, com dezenas de alíneas divididas em categorias e subcategorias.

Não se preocupe: não tem de as preencher a todas. Isso só é necessário noutros tipos de concursos. Nesses casos é uma obrigação das empresas produtoras, que têm técnicos especializados para isso.

Para a sua candidatura singular concentre-se nas seguintes alíneas: aquisição de direitos de autor; direitos de adaptação ou argumento original (no caso de ter de pagar ao autor da obra original que está a adaptar); valor da escrita e/ou reescrita do argumento ou tratamento até à versão definitiva; direitos sobre a criação de personagens e ambientes (no caso dos projetos de animação); e remuneração do argumentista.

Veja ainda, no âmbito do desenvolvimento, se há algum capítulo em que preveja despesas. Por exemplo, se tiver a intenção de participar em algum laboratório de desenvolvimento de guiões, essa verba pode ser considerada para apoio.

Pode também incluir verbas para: viagens, estadias e ajudas de custo (que devem ser especificadas), se houver uma boa justificação para essas despesas. E preveja também as atividades de pesquisa (no caso do seu Plano de Trabalhos prever esta etapa).

A segunda razão que complica a elaboração do orçamento é a decisão sobre qual o valor a pedir.

Os valores pagos por um mesmo documento – o guião – variam muito, conforme a situação e o projeto. Em Hollywood, pode valer milhões de dólares; num filme independente de baixo orçamento, feito por amor, talvez seja pago em pizzas e convites para a estreia.

A APAD – Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos, numa tabela publicada em tempos, dava como referência mínima para um guião de cinema o valor 10.000 euros. Hoje em dia, creio que um valor entre 15.000 e 20.000 euros será mais adequado, com a experiência do autor a ter bastante influência.

Se pensarmos em séries e mini-séries, filmes e séries de animação, documentários, etc., os valores podem variar ainda mais.

A minha sugestão é que consulte as tabelas das candidaturas admitidas e aprovadas pelo ICA nos anos anteriores para estes mesmos apoios. Todas estão disponíveis no site do ICA.

Baixe as tabelas, compare os valores que os autores pediram para projetos semelhantes ao seu, anote os que o ICA por fim atribuiu, e defina o seu valor a partir daí.

Currículo do autor

Este documento parece ser óbvio, mas não deve ser menosprezado. O currículo do autor tem um peso muito importante nos critérios de avaliação dos projetos.

Tudo o que possa acrescentar para valorizar o seu currículo (desde que seja verdadeiro, como é óbvio) deve ser incluído.

Naturalmente, guiões já escritos, vendidos ou produzidos, devem obrigatoriamente ser referidos. Outros tipos de escrita, especialmente de ficção ou como jornalista, também podem ser uma mais valia.

Se é realizador deve incluir quaisquer obras realizadas por si, mesmo que sejam as curtas-metragens produzidas na escola, ou criadas e produzidas durante uma pandemia do coronavírus.

Mas não se fique por aí. Coloque-se no ponto de vista de um jurado que está a avaliar o seu currículo. Ele está à procura de motivos para acreditar na sua capacidade de terminar bem o projeto. Ajude-o, dando-lhe argumentos para ter confiança em si.

Por exemplo, se o seu guião é baseado na sua experiência como trabalhador numa plataforma petrolífera, essa experiência deve ser referido no currículo, pois dar-lhe-á credibilidade adicional.

Outros

O regulamento refere que “o candidato pode incluir outros elementos descritivos que considere relevantes para a apreciação do plano com base nos critérios previstos”.

Veja como pode enriquecer a sua candidatura com mais peças, desde que estas contribuam para uma avaliação positiva.

Voltando ao exemplo da plataforma petrolífera, o autor poderia incluir algumas fotografias que tirou nos anos que lá trabalhou. Um autor de fantasia talvez queira incluir um mapa do mundo que criou; o guionista que escreve sobre o mercado de capitais pode juntar um glossário de termos técnicos da área; um outro que está a desenvolver uma série histórica pode anexar um cronograma dos principais eventos da época.

A regra aqui é a relevância: os jurados têm muitos projetos para ver e pouco tempo para os avaliar; se encher a sua candidatura de materiais inúteis é possível que abafe os que são efetivamente importantes.

Notas finais

Não esqueça que é um escritor a apresentar um documento escrito para defender um projeto de escrita. Trate-o com o devido respeito: seja inventivo nas ideias, rigoroso nas formulações e caprichado no uso das palavras.

Argumentos mal formulados, incoerências lógicas, frases deficientes, erros de ortografia: tudo isso leva os jurados a questionar a sua capacidade para escrever um guião competente e de qualidade. Não lhes dê esse argumento para o rejeitarem, pois é dos mais fáceis de adotar.

A crise da COVID-19 é um flagelo mundial que está a ceifar vidas, a ameaçar o nosso modo de vida e a colocar em risco a economia global. Não quero, obviamente, menosprezar o seu impacto e importância.

Mas é importante encontrar motivos de inspiração e objetivos motivadores nestes tempos conturbados. Assumindo o lugar-comum, recordo um dito conhecido: “Se a vida lhe dá limões, faça limonada”. E se essa limonada puder adoçar a nossa vida individual ou até coletiva, através do poder da arte, então tanto melhor.

Uma espécie de advertência legal

Não posso deixar de destacar alguns aspetos importantes sobre a minha responsabilidade ao escrever este artigo:

  • Não tenho qualquer tipo de relação com o ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual, nem estou mandatado por ninguém dessa instituição, ou de outra, para falar sobre estes concursos.
  • Escrevo sobre eles apenas porque acho que abordar o tema é uma contribuição válida neste momento de crise.
  • Não sou advogado nem especialista em concursos públicos. O que escrevo vale o que vale, e deve ser tomado como a opinião de um leigo.
  • Os conselhos que dou neste artigo refletem exclusivamente a minha opinião. São baseados na experiência pessoal, na interpretação que faço dos textos disponíveis no site do ICA e no bom senso.
  • Finalmente, também vou apresentar projetos nestes concursos. Nesse sentido, eu e você podemos vir a concorrer pelo mesmos apoios. Isso não me incomoda, mas se for problemático para si, a solução é simples: esqueça tudo o que escrevi acima.

Este artigo foi criado com a intenção de ajudar mas, em última instância, a responsabilidade sobre o que incluir numa candidatura é sempre de cada autor. Por isso, como ensinou o grande Bruce Lee, “absorva o que é útil, elimine o que é inútil e adicione o que é especificamente seu”.

Se os seus projetos forem aprovados, não estou à espera que me dê qualquer crédito por isso. No caso de não serem, por favor, também não me atribua qualquer responsabilidade.

Boas escritas e boa sorte na sua candidatura.

Isolado em casa? Candidate-se aos concursos do ICA para apoio à escrita.

Este Artigo Tem 4 Comentários

  1. Carmo Castro

    Caro João, Dou-lhe os parabéns pela qualidade e timing deste artigo!
    Não sou da área, apesar de apreciar muito todo este mundo da ficção e de cada passo necessário. Não é qualquer pessoa que “perde”, ou neste caso “investe” o seu tempo em prol de informação para os outros, que podem ser eles “concorrentes”! Parabéns pela sua ousadia, e ética ao disponibilizar o seu tempo, em tempos difíceis, isto é também solidariedade!
    Agora uma pergunta: O ICA também está disponível a receber candidaturas de quem não é da área, mas que respeita todos os parâmetros do regulamento? Qual a sua experiência?

    1. João Nunes

      Carmo, obrigado pelas suas palavras simpáticas, que me motivam a continuar.
      Quanto à sua questão, não tenho nenhuma informação em contrário. O currículo dos autores é tido em consideração na avaliação final, mas o critério principal é a qualidade artística e técnica do projeto.
      O regulamento do concurso do audiovisual, que ainda está em curso, refere explicitamente dois critérios de avaliação: A ? Qualidade e relevância cultural dos projetos; B ? Adequação do currículo do candidato ao projeto apresentado.
      A fórmula usada para obter a Classificação Final é CF = (7A + 3B) / 10, o que indica que o critério A (qualidade) é avaliado em mais do dobro do B (currículo).

  2. Filomena Sousa

    Caro João Nunes,

    O seu artigo é fantástico. Muito útil. Agradeço a partilha e a boa vontade, algo muito raro nos dias que correm.

    Não vou participar no concurso do ICA, mas tenho o draft de um episódio piloto e estou com uma dúvida. Quando participamos neste género de concursos, no documento da caracterização dos personagens, devemos “abrir o jogo todo” ou devemos “manter o mistério”? Género: “Manuel é o assassino”, ou “Manuel é uma das principais suspeitas porque…”, não revelando tudo. Tenho a mesma dúvida em relação ao documento resumo de cada um dos episódios.

    Grata.
    Filomena Sousa

    1. João Nunes

      Viva Filomena, obrigado pelas palavras simpáticas.
      Quanto à sua questão, receio não poder ajudar. Não há uma regra para isso; a sua sensibilidade de autora é que deve avaliar o que é mais favorável à proposta, caso a caso.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.