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Perguntas & respostas: posso escrever um guião especulativo para televisão?

Estive a ler um dos livros recomendados por ti sobre escrever para televisão. A autora sugere que um guionista deve começar por escrever para sitcoms já estabelecidas. Eu tenho uma pergunta, como deveremos fazer isto em Portugal? Como escolher a sitcom? Deveremos entrar em contacto com a produtora primeiro? -- Bruno

Bruno, na realidade não tenho conhecimento de que em Portugal se costume utilizar esse tipo de abordagem. O que não quer dizer que ela não possa funcionar muito bem no nosso mercado.

Nos EUA os guionistas de televisão não escrevem os guiões em "spec" ("especulativos", ou seja, por iniciativa própria) para ser contratados especificamente pela equipa que produz a série que adotaram. O seu objetivo é mais amplo: demonstrar, através de um exemplo prático, a sua imaginação, técnica, versatilidade e capacidade de entender um universo ficcional específico. Por isso escrevem sempre guiões para duas ou três séries diferentes, que passam a servir como os seus cartões de visita quando se candidatam a um trabalho.

Imagino que em Portugal esta estratégia também possa funcionar.

Nesse caso eu faria o seguinte:

  • Escolheria uma série portuguesa que estivesse no ar e fosse bastante popular.
  • Veria tantos episódios dessa série quantos conseguisse, para me familiarizar com o seu universo, personagens, temas, estilo e tom.
  • Analisaria as características técnicas da série (duração, número médio de cenas, estrutura, "tiques" de escrita, etc.).
  • Tentaria perceber as limitações de produção (cenários fixos, número de personagens, relação entre interiores e exteriores, etc.).
  • Procuraria conhecer bem os personagens, para ver como se comportam, de que forma falam, que importância e presença têm nos episódios.
  • Tentaria - idealmente - arranjar um guião dessa série, que me servisse de modelo para o formato usado.
  • E, finalmente, escreveria um guião que fosse original e fresco, mas respeitasse integralmente as características da série.

Um bom exemplo poderia ser a série "Conta-me como foi". É uma série popular, com personagens, universo e temas muito específicos, e seria um desafio interessante para um guionista.

Quanto aos direitos, não há precedentes em Portugal, e eu não sou advogado. Mas não me parece que uma produtora fosse levantar problemas a um jovem autor por usar a sua série desta forma, desde que o objetivo seja transparente e justo. É claro que o guião que vai escrever nunca poderá ser vendido, publicado ou sequer divulgado num âmbito muito alargado, pois não tem qualquer direito sobre a série e os seus personagens.

O importante é não esquecer que o guião deve ser o mais representativo possível da sua capacidade de escrita. Por isso nada de tomar atalhos ou fazer batota; se não for para ficar perfeito, mais vale não o escrever.

É claro que, tendo um bom guião nas mãos, não perderia a oportunidade de o mostrar aos próprios autores da série. Nunca se sabe...

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4 Comentários

  1. Publicado 11/08/2010 às 13:26 | Link

    Sim!
    Final­mente uma per­gunta sobre isto, sem­pre tive esta dúvida.
    Che­guei a come­çar a escre­ver um spec para O Ins­pec­tor Max, mas parei por­que a série já tinha sido can­ce­lada. Em todos os livros que li, isso é tido como geral­mente “big no-​​no”, mas agora arrependo-​​me de não o ter acabado.

    Avanço então com outra ques­tão: visto a pro­du­ção naci­o­nal (fora o for­mato tele­no­vela) ser escassa e ron­dar muito o secre­tismo na sua pro­du­ção, como podem os entu­si­as­tas e/​ou futu­ros pro­fis­si­o­nais ter acesso ao mate­rial (guiões, biblias)? Que sugere o João para que­brar esta bar­reira? Deve­mos ir pedir mate­rial às pro­du­to­ras? Será isso bem visto?

    • João Nunes
      Publicado 11/08/2010 às 14:19 | Link

      Eu já colo­quei alguns guiões aqui no site para con­sulta. Mais do que isso só pedindo às pro­du­to­ras. Não faço ideia de como rea­gi­rão — acho que deve variar de pro­du­tora para pro­du­tora, e de pes­soa para pes­soa. Mas ten­tar não custa — o “não” está garan­tido, por isso qual­quer coisa que se con­siga é lucro, não é?

    • João Nunes
      Publicado 11/08/2010 às 14:23 | Link

      Devia ter aca­bado o seu guião. Pri­meiro, por­que o Max con­ti­nua a pas­sar na TVI, em repe­ti­ções. Aliás, se eu rece­besse direi­tos por todas as vezes que esses epi­só­dios pas­sa­ram era um gui­o­nista rico. Depois, por­que foi uma série sufi­ci­en­te­mente popu­lar para ainda ser conhe­cida, mesmo já não estando em pro­du­ção.
      Se tinha come­çado o seu guião, devia ter ido até ao fim. É muito fácil entrar num ciclo de come­çar guiões, desenvolvê-​​los e interrompê-​​los, pas­sando para outros que nos entu­si­as­mam mais. Mas é uma receita garan­tida para nunca ter­mi­nar nenhum, e por­tanto ter um grande inves­ti­mento de tempo sem resul­ta­dos à vista.

  2. Kadgi
    Publicado 12/08/2010 às 15:42 | Link

    Bom con­ce­lho, a ten­tar mudar isso há uns tem­pos, e a melho­rar. A expe­ri­ên­cia Ins­pec­tor Max já foi há uns anos, se calhar ainda volto a ela.
    Obrigado!

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