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Perguntas & respostas: posso escrever um guião especulativo para televisão?
rita blanco imagem agosto

Estive a ler um dos livros reco­men­da­dos por ti sobre escre­ver para tele­vi­são. A autora sugere que um gui­o­nista deve come­çar por escre­ver para sit­coms já esta­be­le­ci­das. Eu tenho uma per­gunta, como deve­re­mos fazer isto em Por­tu­gal? Como esco­lher a sit­com? Deve­re­mos entrar em con­tacto com a pro­du­tora pri­meiro? — Bruno

Bruno, na rea­li­dade não tenho conhe­ci­mento de que em Por­tu­gal se cos­tume uti­li­zar esse tipo de abor­da­gem. O que não quer dizer que ela não possa fun­ci­o­nar muito bem no nosso mercado.

Nos EUA os gui­o­nis­tas de tele­vi­são não escre­vem os guiões em “spec” (“espe­cu­la­ti­vos”, ou seja, por ini­ci­a­tiva pró­pria) para ser con­tra­ta­dos espe­ci­fi­ca­mente pela equipa que pro­duz a série que ado­ta­ram. O seu obje­tivo é mais amplo: demons­trar, atra­vés de um exem­plo prá­tico, a sua ima­gi­na­ção, téc­nica, ver­sa­ti­li­dade e capa­ci­dade de enten­der um uni­verso fic­ci­o­nal espe­cí­fico. Por isso escre­vem sem­pre guiões para duas ou três séries dife­ren­tes, que pas­sam a ser­vir como os seus car­tões de visita quando se can­di­da­tam a um trabalho.

Ima­gino que em Por­tu­gal esta estra­té­gia tam­bém possa funcionar.

Nesse caso eu faria o seguinte:

  • Esco­lhe­ria uma série por­tu­guesa que esti­vesse no ar e fosse bas­tante popular.
  • Veria tan­tos epi­só­dios dessa série quan­tos con­se­guisse, para me fami­li­a­ri­zar com o seu uni­verso, per­so­na­gens, temas, estilo e tom.
  • Ana­li­sa­ria as carac­te­rís­ti­cas téc­ni­cas da série (dura­ção, número médio de cenas, estru­tura, “tiques” de escrita, etc.).
  • Ten­ta­ria per­ce­ber as limi­ta­ções de pro­du­ção (cená­rios fixos, número de per­so­na­gens, rela­ção entre inte­ri­o­res e exte­ri­o­res, etc.).
  • Pro­cu­ra­ria conhe­cer bem os per­so­na­gens, para ver como se com­por­tam, de que forma falam, que impor­tân­cia e pre­sença têm nos episódios.
  • Ten­ta­ria – ide­al­mente – arran­jar um guião dessa série, que me ser­visse de modelo para o for­mato usado.
  • E, final­mente, escre­ve­ria um guião que fosse ori­gi­nal e fresco, mas res­pei­tasse inte­gral­mente as carac­te­rís­ti­cas da série.

Um bom exem­plo pode­ria ser a série “Conta-​​me como foi”. É uma série popu­lar, com per­so­na­gens, uni­verso e temas muito espe­cí­fi­cos, e seria um desa­fio inte­res­sante para um guionista.

Quanto aos direi­tos, não há pre­ce­den­tes em Por­tu­gal, e eu não sou advo­gado. Mas não me parece que uma pro­du­tora fosse levan­tar pro­ble­mas a um jovem autor por usar a sua série desta forma, desde que o obje­tivo seja trans­pa­rente e justo. É claro que o guião que vai escre­ver nunca poderá ser ven­dido, publi­cado ou sequer divul­gado num âmbito muito alar­gado, pois não tem qual­quer direito sobre a série e os seus personagens.

O impor­tante é não esque­cer que o guião deve ser o mais repre­sen­ta­tivo pos­sí­vel da sua capa­ci­dade de escrita. Por isso nada de tomar ata­lhos ou fazer batota; se não for para ficar per­feito, mais vale não o escrever.

É claro que, tendo um bom guião nas mãos, não per­de­ria a opor­tu­ni­dade de o mos­trar aos pró­prios auto­res da série. Nunca se sabe…

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

4 comentários… add one

  • Kadgi 11/08/2010, 13:26

    Sim!
    Finalmente uma pergunta sobre isto, sempre tive esta dúvida.
    Cheguei a começar a escrever um spec para O Inspector Max, mas parei porque a série já tinha sido cancelada. Em todos os livros que li, isso é tido como geralmente “big no-no”, mas agora arrependo-me de não o ter acabado.

    Avanço então com outra questão: visto a produção nacional (fora o formato telenovela) ser escassa e rondar muito o secretismo na sua produção, como podem os entusiastas e/ou futuros profissionais ter acesso ao material (guiões, biblias)? Que sugere o João para quebrar esta barreira? Devemos ir pedir material às produtoras? Será isso bem visto?

    • João Nunes 11/08/2010, 14:19

      Eu já coloquei alguns guiões aqui no site para consulta. Mais do que isso só pedindo às produtoras. Não faço ideia de como reagirão – acho que deve variar de produtora para produtora, e de pessoa para pessoa. Mas tentar não custa – o “não” está garantido, por isso qualquer coisa que se consiga é lucro, não é?

    • João Nunes 11/08/2010, 14:23

      Devia ter acabado o seu guião. Primeiro, porque o Max continua a passar na TVI, em repetições. Aliás, se eu recebesse direitos por todas as vezes que esses episódios passaram era um guionista rico. Depois, porque foi uma série suficientemente popular para ainda ser conhecida, mesmo já não estando em produção.
      Se tinha começado o seu guião, devia ter ido até ao fim. É muito fácil entrar num ciclo de começar guiões, desenvolvê-los e interrompê-los, passando para outros que nos entusiasmam mais. Mas é uma receita garantida para nunca terminar nenhum, e portanto ter um grande investimento de tempo sem resultados à vista.

  • Kadgi 12/08/2010, 15:42

    Bom concelho, a tentar mudar isso há uns tempos, e a melhorar. A experiência Inspector Max já foi há uns anos, se calhar ainda volto a ela.
    Obrigado!

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