Que software usar para escrever um guião?

Um guião pode escrever-se com um simples lápis e papel. É assim que o Quentin Tarantino escreve as primeiras versões dos guiões dele e se o sistema é bom para ele é bom para qualquer um. Mas há softwares que podem ajudar nessa tarefa, simplificando a vida do guionista. E escrever uma boa história (ou até uma má história) já é só por si tão complicado que qualquer ajuda é sempre bem vinda.

Em todos os guiões que escrevi até agora usei o Word ou o Final Draft. O primeiro, porque é utilizado pela maior parte dos argumentistas portugueses, e pela totalidade das produtoras que conheço. Qualquer guião, seja escrito em que programa for, terá inevitavelmente de ser transformado no formato do Word, mais tarde ou mais cedo. O que é uma pena, porque perdem-se assim muitas das vantagens que o outro programa, o Final Draft, oferece.

Este é um programa especializado na escrita de guiões, com uma quantidade de funções e truques adaptados à tarefa desde a formatação automática até à assistência na introdução dos nomes dos personagens, dos cabeçalhos, etc. A escrita é muito fluida e rápida, depois de aprender a usar a tecla de parágrafo e a de tabelação para saltar de uns elementos para os outros. Tem um mode de outline básico mas funcional e mais meia dúzia de particularidades destinadas a simplificar-nos o trabalho. Tem também uma enorma quantidade de funções destinadas à fase de produção – numeração, páginas A e B, indicação de alterações, etc. É a possibilidade de usar estas funções que se perde quando temos de converter os ficheiros para Word porque, infelizmente, o processo de conversão é trabalhoso. Muitos caracteres acentuados e outros símbolos (cês cedilhados, etc) ficam baralhados com a mudança para o formato do Word, o que implica uma limpeza completa do guião. Isso torna completamente impraticável andar a saltar do FD para o Word e vice-versa. Quando se converte, é para sempre, e é uma pena.

Não que o FD seja perfeito – longe disso. Além desse problema de conversão, tem mais meia dúzia de características irritantes, e é extremamente subdesenvolvido na fase de planeamento do guião. O outline, como referi, é básico, e tem um modo de cartões que não serve praticamente para nada. Além disso, quando saiu a nova versão, a 7, vinha tão cheia de bugs que era quase inutilizável. Hoje isso já passou, mas deixou-me uma má vontade terrível contra o programa.

Alternativas? Conheço três que valha a pena mencionar: MovieMagic Screenwriter, Montage e CeltX. O primeiro é o grande concorrente do FD, mas nunca tive a oportunidade de o experimentar. Anunciam para este Verão uma nova versão, nativa para Mac, que está a gerar muita expectativa. Já está em fase de testes beta mas os testadores assinaram acordos de confidencialidade e não se sabe quase nada das suas características. Vamos esperar para ver – se realmente for boa e tiverem algum programa de cross-upgrade pode ser que deixe o FD de vez.

O Montage é um programa que me desiludiu imenso. Participei na fase de testes beta, mas nunca esteve à altura das expectativas. É o mais Mac de todos os programas, com algumas ideias muito boas na sua concepção, mas é tão cheio de erros, bugs, falhas, tudo, que nunca tive coragem de escrever mais do que uma página seguida com ele. E a conversão para outros formatos também não é o seu forte. Pode ser que tenha melhorado recentemente, mas eu desisti dele até uma próxima versão 2 (e tal, porque a 2.0 deve ser uma nova caixa de bugs…).

Deixei o melhor para o fim. O CeltX é um programa grátis, multiplataformas (Mac, Windows e Unix) com uma série de funções muito interessantes.

Na fase de escrita tem todas as vantagens do Final Draft, e o módulo de outline é muito mais capaz. Além disso tem a possibilidade de funcionar como bloco de notas para a pesquisa, organizando a informação de que precisarmos. Tem também módulos para ajudar a descrever os personagens, planificar as cenas, etc. As funções de produção não me parecem muito úteis, mas a exportação para Word (através de html) é imaculada, conservando os estilos e tudo. O interface não é muito intuitivo, e foge um pouco aos padrões Mac que eu tanto aprecio, mas depois da pessoa se habituar funciona bem. Estou seriamente tentando a escrever o meu próximo guião (em que estou a trabalhar neste momento) usando o CeltX, e recomendo-o vivamente a quem até agora tem escrito os guiões no Word. Para saber mais sobre ele, consultem a wiki do CeltX.

No mundo desconhecido dos Pc’s há outras alternativas, da qual se destaca o Sophocles. Se já experimentou programas de escrita de guião nessa plataforma deixe as suas sugestões e críticas nos comentarios deste artigo.

Este Artigo Tem 7 Comentários

  1. João Tomé

    Também tenho andado a fazer tudo pelo word. Acho que vou experimentar este Celtx, obrigado pela dica!

  2. Marilia Meireles

    Obrigada pela informação.Já agora perguntava: Onde adquirir o Celtx?
    Fico a aguardar.

  3. Francisco

    Olá , tenho andado a escrever um guião , mas não sei se como ando a escrever está da melhor forma , desde as falas , ás didascálias ! alguém me poderia ajudar ?
    e esse programa ” Final Draft” onde o posso encontrar ?

  4. Helder Lucas

    ola eu tambem escrevo no word
    mais vou experimentar outros programas

  5. Bernadete

    Se você exportar o guião do Movie magic para o word 2007, fica com problemas de acentuação e dá um trabalhão consertar, mas se você exporta para o word 2003 fica perfeito. O único problema é que aumenta absurdamente o número de páginas. Dá pra você fazer o seu próprio modelo no word fazendo adapando os estilos e colocando teclas de atalho. Já escrevi assim e não sei se não volto para o meu prório modelo do word.

    1. João Nunes

      Nos EUA, de onde estes programas são originários, essa questão não se põe, pois os guionistas só entregam os guiões impressos ou em formato .pdf. Nunca se faz a conversão para Word. As produtoras só precisam do guião para imprimir e distribuir; se for para editar ou rescrever, deve ser o guionista a fazê-lo, no seu programa; e se for para outro guionista editar, que se lixe – ele que escreva de novo.

  6. geovete

    curti mesmo, acho que é um grande programa.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.