≡ Menu
Perguntas & Respostas: diferenças entre guiões de televisão e cinema

Que­ria saber quais as dife­ren­ças bási­cas (de for­ma­ta­ção, de estru­tura) entre guiões para tele­vi­são e para o cinema. Caio

Tony SopranoCaio, a sua per­gunta impli­ca­ria uma res­posta muito extensa, mas vou ten­tar ser breve:

Em pri­meiro lugar, há dife­ren­ças for­mais entre uns guiões e outros, mas não são mui­tas. São até mais em Por­tu­gal do que no Bra­sil, ao que con­se­gui apu­rar. Aqui usa-​​se muito a página divi­dida em duas colu­nas, com as des­cri­ções puxa­das para a esquerda e os diá­lo­gos encos­ta­dos à direita[1]; no Bra­sil, pelos exem­plos que con­se­gui encon­trar, usa-​​se basi­ca­mente o mesmo for­mato do cinema. Pode encon­trar exem­plos por­tu­gue­ses na minha página de recur­sos.

Em segundo lugar, há dife­ren­ças que nas­cem da dura­ção e número de cenas. Um epi­só­dio de tele­vi­são é mais curto do que um filme de longa metra­gem, e isto con­di­ci­ona o tipo e natu­reza das estó­rias, e a forma de as con­tar. Há tam­bém limi­ta­ções que são impos­tas pelas con­di­ções de pro­du­ção. Numa série de tele­vi­são há nor­mal­mente um cas­ting fixo que tem de estar pre­sente segundo deter­mi­na­das con­di­ções; há limi­tes para o número de per­so­na­gens secun­dá­rios em cada epi­só­dio; há cená­rios fixos que têm de apa­re­cer recor­ren­te­mente, etc. Mui­tas vezes, o gui­o­nista tem tam­bém de con­tar com os inter­va­los publi­ci­tá­rios que par­tem o epi­só­dio, e estru­tu­rar a nar­ra­tiva de forma a criar situ­a­ções de ten­são antes de cada inter­rup­ção. Essa é uma pre­o­cu­pa­ção que no cinema não existe.

Mas a prin­ci­pal dife­rença é no momento da con­cep­ção da série ou do filme. Um filme é um objecto único, fechado em si mesmo. Em alguns casos pode dar ori­gem a seque­las, pre­que­las, e outras deri­va­ções, mas começa sem­pre por ser pen­sado como uma obra inde­pen­dente. Ou vale por si só, ou não tem valor.

Já numa série o cri­té­rio é exa­ta­mente o oposto; o que tem de ser ava­li­ado é não tanto o mérito de uma ideia indi­vi­dual, mas a pro­pen­são da série a dar ori­gem a um número ele­vado de estó­rias. Se a pre­missa da série se esgo­tar em meia dúzia de exe­cu­ções, ou é adap­tá­vel para um for­mato de mini-​​série fechada, ou então não tem saída comercial.

É por isso que, antes de se escre­ver o piloto de uma série, é nor­mal desen­vol­ver uma “bíblia”, ou seja, um docu­mento em que são reu­ni­das as des­cri­ções de per­so­na­gens, cená­rios, ante­ce­den­tes, enqua­dra­mento geral, estilo, e pos­si­bi­li­da­des dra­má­ti­cas e nar­ra­ti­vas. Nessa bíblia são tam­bém reu­ni­dos exem­plos de um número ele­vado de estó­rias, de forma muito sin­té­tica. A escrita do piloto vem depois, quando se esco­lhe a melhor estó­ria para mos­trar, na prá­tica, o estilo e o poten­cial da série.

Cos­tuma tam­bém dizer-​​se que, num filme, o enredo é mais impor­tante do que os per­so­na­gens, enquanto que numa série de tele­vi­são os per­so­na­gens são mais impor­tan­tes do que o enredo. Não sei se isso é ver­dade no caso do cinema, onde me parece que as duas coi­sas se equi­li­bram e com­ple­tam, mas parece-​​me cor­reto no caso da tele­vi­são: os “Sopra­nos” foram um sucesso tão grande não tanto por uma ou outra estó­ria indi­vi­dual, mas sim pela per­so­na­li­dade única de Tony Soprano. “House”, “Dex­ter”, “Sexo e a cidade”, “Che­ers” – é dos per­so­na­gens que nos lem­bra­mos, muito depois de esque­ci­das as estó­rias.
 

Notas de Rodapé

  1. as más lín­guas dizem que é para os ato­res dobra­rem a folha ao meio e se con­cen­tra­rem ape­nas nas falas[]

Acerca do autor: João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

0 comentários… add one

Partilhe aqui as suas ideias e experiência