A cena está chata? Apague e recomece.

Li recentemente numa resposta do Quora um dos melhores conselhos possíveis para um guionista: Escreva sempre como se o seu leitor estivesse a ficar aborrecido e prestes a parar de ler.

Vou até um passo mais à frente. Imprima a imagem seguinte e coloque-a numa moldura de fotografia, na sua secretária, ao lado do seu computador.

A cena está chata

O autor do conselho, o matemático e estatístico Michael Hochster, propõe também três corolários lógicos para o seu axioma:

  1. Diga o mais importante no início.
  2. Se possível, seja breve.
  3. Se vai escrever algo complexo ou difícil, assegure-se de que é relevante para o leitor.

Cada um por si é um excelente conselho, com aplicação prática imediata na escrita de um guião. De uma maneira ou de outra já abordei todos eles em outros artigos aqui no blogue.

Diga o mais importante no início.

Corresponde a uma das mais conhecidas “regras” do guionismo: “Entre tarde e saia cedo”.

Numa boa cena não se perde tempo com introduções, apresentações e conversa mole. Devemos começa-la o mais perto possível do seu cerne dramático, e sair logo de seguida, cortando o máximo da palha que vem antes e depois. Se não o fizermos nós, no guião, vai com certeza fazê-lo o realizador nas filmagens, ou o montador durante a edição.

A única excepção para esta regra é se a demora contribuir de alguma forma para o dramatismo da cena. Um exemplo disto é a cena inicial de Inglorious Basterds.

Um guionista vulgar teria resolvido a situação com uma cena de acção como já vimos muitas vezes: os nazis chefiados pelo famigerado coronel nazi Hans Landa chegam em alta velocidade, interrogam o lavrador e metralham os fugitivos judeus.

Quentin Tarantino, mais sabido, optou por outra abordagem: colocou Landa a falar despreocupadamente com o cada vez mais nervoso lavrador, apesar de saber perfeitamente que ele está a albergar foragidos.

Essa “perda de tempo” serve para duas coisas: em primeiro lugar, para caracterizar o coronel como uma espécie de gato cruel que gosta de brincar com os ratos antes de os matar. Essa informação será importante mais tarde, numa das cenas cruciais do filme.

Em segundo lugar, a demora em chegar ao clímax da cena contribui para o aumento gradual do nível de tensão dramática da cena, especialmente após o momento em que nós, espectadores, descobrimos que os fugitivos estão escondidos debaixo do soalho da cozinha onde a cena se passa.

Se possível, seja breve.

Quando escrevemos um guião estamos sempre a contar as páginas. As 120 que eram normais há uns anos atrás têm-se convertido gradualmente em 110, 100 ou mesmo 90.

Em Portugal, e penso que no Brasil, a média estará entre as 90 e as 100, raras vezes passando disso.

A responsabilidade dessa tendência, em grande parte, são as limitações orçamentais. Mais páginas de guião correspondem a mais minutos de filme, que implicam mais dias de filmagens e, por conseguinte, um orçamento mais elevado.

É por essa razão que um dos pedidos mais frequentes que me fazem quando rescrevo um guião é para reduzir o número de cenas, e encurtar as maiores.

Mas não é só por causa do orçamento. O espectador médio contemporâneo, alimentado a uma dieta de séries de televisão e vídeos de YouTube, tem menos paciência para filmes longos.

Além disso, esse espectador tem também um entendimento muito mais apurado da linguagem audiovisual. Não precisa ver e ouvir tudo para entender o que se está a passar. Assimila imediatamente as elipses e os saltos temporais. Se não corremos à sua frente, somos rapidamente apanhados e ele aborrece-se.

Guiões mais curtos, mais enxutos, vendem-se mais facilmente. Pense nisso quando estiver a rescrever o seu guião.

Seja relevante.

Num bom guião cada cena nasce das anteriores e dá origem às que lhe sucedem, de uma forma irrepreensível. É simultaneamente causa e consequência, como aquelas peças de dominó que tombam em sequência desenhando coreografias complicadíssimas.

Para que isso seja possível uma cena só deve ficar no guião se contribuir para a narrativa de uma de três maneiras:

  • Fazer avançar a estória;
  • Revelar o carácter dos personagens;
  • Ser muito dramática/divertida.

O ideal é fazer as três coisas ao mesmo tempo – fazer avançar a estória revelando carácter de uma forma espectacular.

Se fizer duas, também é bom. Mas raramente uma cena sobrevive apenas por ser dramática/divertida, se não cumprir também uma das duas primeiras funções.

Nada contribui mais para a sensação de aborrecimento na leitura de um guião do que cenas que parecem estar lá apenas por capricho dos autores: “É pá, era tão cool meter aqui aquela cena de que me lembrei ontem. Não tem nada a ver com nada, mas é tão gira…”

É por isso que muitos escritores, com William Faulkner à cabeça, apelam para que “matemos as nossas queridas”[1].

Ou seja, devemos eliminar sem piedade as cenas por que nos apaixonamos, porque muitas vezes estão no caminho de outras melhores e mais relevantes.

Conclusão

Escrever um guião chato é o maior pecado que podemos cometer como guionistas. O leitor está disposto a aceitar muitos erros e fraquezas desde que a leitura o esteja a cativar. O ideal é que no fim de cada página ele sinta uma vontade irresistível de ler a seguinte.

Por isso, espere sempre o pior do seu leitor – ele tem mais que fazer na vida. Compete-lhe a si, como guionista, garantir que essas outras opções são mais chatas do que ler o seu guião.

Notas de Rodapé

  1. “In writing, you must kill all your darlings.” ? William Faulkner[]

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2 comentários

  • Vasny Machado 18/01/2014   Deixe uma resposta a →

    Caro amigo João Nunes, como sempre você me surpreendo com as escritas que nos oferecem. São muito ricas as dicas que nos fornecem.
    Gostaria de uma sugestão sua. Quando fiz o curso de guionista na
    Casa do Artista em Lisboa, nosso grupo fizemos um capítulo com 19 cenas, faltando algumas para completar.A ideia foi nossa, bem como todos os pormenores( Descrição e núcleo dos personagens, escaleta etc).Terminado o curso, convidei todos os membro para continuarmos o capítulo e mais alguns para ir em frente. Todos desistiram. Terminei o capítulo e pretendo registrá-lo. Diga-me; isto é antiético ou posso fazê-lo?
    Abraços. Vasny

    • Caro Vasny, é complicado responder à sua questão. Só você pode avaliar se realmente há uma concordância plena de todos os restantes autores em desistir da ideia e deixar-lhe os direitos de continuar a explorá-la. O ideal seria ter uma confirmação por escrito de cada um, mas imagino que não seja fácil.
      Uma questão que deve considerar é se os produtores a quem vai apresentar essa ideia vão sentir-se confortáveis com essa situação. Acho que muitos poderão ter medo de complicações futuras. Quando chegar a altura de assinar contratos você terá de lhes garantir que os direitos são seus; se não o puder fazer eles vão provavelmente retrair-se.
      Avalie bem se vale a pena arriscar possíveis complicações e decida a partir daí.

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