Os vencedores do Frenesi 2013

Chegou a altura de divulgar – finalmente – os vencedores do concurso que organizei no blogue, o FrenesiDeEscrita 2013.

Antes de os anunciar, contudo, quero fazer um comentário em relação a todos os participantes: de forma geral, o nível de escrita dos guiões apresentados foi bastante elevado.

Nota-se, naturalmente, que são primeiras versões, escritas em 30 dias, com todas as limitações e problemas que isso acarreta. Mas a qualidade média é muito superior ao que seria de esperar nestas circunstâncias.

Como consequência disso, a tarefa de escolher os três finalistas do Frenesi 2013 não foi nada fácil. Mas chegou um momento em que tive de fazer opções, e são elas que passo agora a apresentar.

Rufar dos tambores…

E os finalistas selecionados são, por ordem alfabética:

  • João Ramos, com Adrenalina de Sentir
  • Nélia Matos, com Henriques
  • Rui Lopes, com O Cordeiro que Caiu do Céu

Estes três autores terão direito ao prémio que atribuí: um relatório completo sobre os seus guiões, com a análise das suas forças e fraquezas e algumas sugestões.

Os meus parabéns vão para o João, Nélia e Rui mas estendem-se também a todos os participantes do Frenesi 2013. Cada um, à sua maneira, foi igualmente um vencedor.

O FrenesiDeEscrita terminou e foi um sucesso

Com o fim de Abril terminou também o desafio de escrita que lancei aos leitores deste blogue: escrever um guião em trinta dias.

Sessenta e seis valentes inscreveram-se no FrenesiDeEscrita. Dezoito chegaram ao fim.

É mais de 25% do total, o que, do meu modesto ponto de vista, torna o Frenesi 2013 num enorme sucesso.

Tão importante quanto isso é que os participantes que não terminaram dentro deste prazo apertado avançaram significativamente na escrita dos seus guiões.

Era esse, na realidade, o objetivo central do desafio: ajudar a quebrar as resistências internas e criar uma situação especial que motivasse os leitores a sair das suas zonas de conforto.

Não adianta muito estudar a teoria dramática, ler guiões e ver filmes se não se der o passo seguinte: escrever.

A todos os participantes do Frenesi 2013, que deram corajosamente esse passo, deixo aqui os meus parabéns.

Deixo também a promessa de que no próximo ano haverá novo Frenesi, preparado com mais tempo, mais cuidado e ainda mais surpresas.

Dicas de Escrita do Frenesi 2013 – quarta semana

DICA #16

Como gerir a informação?

Uma das principais tarefas de um guionista é gerir o fluxo de informação que passa entre os seus personagens e o leitor/espectador.

Há três situações possíveis:

  • espectador e personagens sabem o mesmo;
  • o espectador sabe mais que os personagens;
  • os personagens sabem mais do que o espectador.

Os primeiros dois casos ficam bem claros na situação que Hitchcock descrevia na sua distinção entre surpresa e suspense.

Se uma bomba explodir inesperadamente, há um efeito de surpresa tanto para os personagens, na estória, como para os espectadores, na audiência. A explosão da bomba é uma informação nova que nenhum dos dois possuía antes.

Pelo contrário, se nos for mostrada uma bomba debaixo da mesa dos personagens, sem eles o saberem, cria-se um efeito de suspense. Como espectadores sabemos mais do que os personagens, o que acentua o dramatismo da situação.

O terceiro caso é diferente – os personagens recebem alguma informação que não é passada ao espectador.

Por exemplo, no 3º ato de A Parte dos Anjos o protagonista explica aos amigos o seu plano para o clímax do filme. A cena começa com um diálogo normal mas depois passa a ser mostrada à distância, e deixamos de ouvir as suas palavras.

Outro exemplo: no fim de Juno a protagonista escreve uma mensagem que vai deixar em casa dos pais adotivos do seu bebé. Nós sabemos que ela a escreveu, mas não o seu conteúdo.

Em ambos estes casos os personagens passam a ter uma informação de que nós não dispomos, o que aguça a nossa curiosidade e aumenta a expectativa sobre o que irá acontecer a seguir.

É claro que esta terceira situação só funciona se soubermos que os personagens têm uma informação que nós desconhecemos. Caso contrário, não se cria efeito de suspense; quando muito de surpresa, quando ela for revelada.

Parafraseando o secretário de Estado norte-americano, Donald Rumsfeld, "há as coisas que sabemos que sabemos; há as coisas que sabemos que não sabemos; e há ainda as coisas que não sabemos que não sabemos".

E você – sabe o que os seus leitores e personagens sabem em cada momento?

DICA #17

Como escrever os Cabeçalhos

Começo hoje a explicar alguns aspetos formais da escrita de um guião. O seu resumo pode ser encontrado num infografismo que publiquei no blogue, a Anatomia de um Guião.

Num guião de cinema uma cena é uma unidade dramática definida por um determinado local e período, sem quebras de tempo.

Se mudarmos de local devemos começar uma nova cena. Se houver uma passagem de tempo, mesmo que o local se mantenha, também devemos começar uma cena nova.

Como é que indicamos que há uma mudança de cena? Introduzindo um novo CABEÇALHO.

Um Cabeçalho é uma linha de texto, alinhada à margem esquerda, escrita totalmente em maiúsculas, com uma linha vazia antes e uma depois.

Contém três elementos essenciais:

  • deve começar indicando se é uma cena passada num interior ou exterior, INT. ou EXT.
  • deve indicar o local da cena, por exemplo CASA DE JOAQUIM – SALA
  • deve indicar o período do dia ou da noite, separado por um travessão – DIA ou NOITE

Por exemplo, são cabeçalhos válidos os seguintes:

INT. CASA DE JOAQUIM – SALA – DIA

ou

EXT. ESCOLA – CAMPO DE FUTEBOL – NOITE

Também são válidos, e usados por vezes em Portugal e no Brasil, os cabeçalhos escritos numa outra ordem, como os seguintes:

INT. DIA – CASA DE JOAQUIM

ou

EXT. NOITE – RUA

Mas já não são válidos

INT – CAMPO DE FUTEBOL – CENA 10 (não tem ponto final depois do INT; não tem lógica um campo de futebol ser interior; e os números de cena não se indicam assim)

ou

EXTERIOR; Casa do Francisco; manhã (deveria ser toda em maiúsculas; começar com EXT.; e usar um travessão em vez do segundo ponto e vírgula)

A escrita dos cabeçalhos tem mais algumas subtilezas que pode explorar num artigo que escrevi no blogue, incluindo o uso de Cabeçalhos Secundários. Mas 90% das situações são resolvidas como indicado.

Os softwares de escrita de guião, como o Final Draft, o CeltX ou o Trelby, resolvem automaticamente a formatação dos Cabeçalhos e restantes elementos. Processadores de texto como o Word ou o Pages também podem ser usados, desde que se respeitem as convenções de formato.

DICA #18

Como escrever as Descrições?

Cada nova cena começa com um Cabeçalho, como vimos ontem. O parágrafo seguinte, separadpo por uma linha vazia, deve sempre ser uma DESCRIÇÃO.

Descrição, ou Ação, são os parágrafos do guião onde se descreve o que pode ser visto ou ouvido no filme (com a excepção dos Diálogos, que têm outro tratamento).

Isto inclui a descrição dos locais onde as cenas decorrem, dos adereços ou veículos importantes para a cena, dos personagens, incluindo a sua aparência e roupas, dos efeitos especiais ou sonoros, etc.

Também inclui a descrição das ações, comportamentos, gestos, movimentos dos personagens e outros elementos em cena.

Tudo o que deva ser visto ou ouvido no filme deve ser colocado nas Descrições. Os americanos têm uma frase para isso; "If it's not on the page, it's not on the stage" – se não está na página, não está no filme.

Algumas notas importantes quanto às Descrições:

  • São escritas sempre na terceira pessoa do singular: Pedro olha. O carro despista-se. O cão ladra.
  • Devem incluir apenas a informação necessária e suficiente para perceber o local, as pessoas, as relações e as ações. Informação em excesso pode tornar um guião muito difícil de ler; informação em falta pode torná-lo pouco apelativo.
  • Sempre que um personagem é apresentado pela primeira vez num guião, o seu nome deve ser indicado em maiúsculas. Também é costume dedicar-lhe uma pequena descrição, tanto mais cuidada quanto mais importante ele for.
  • Efeitos sonoros, efeitos especiais e alguns acessórios particularmente importantes também podem ser destacados em maiúsculas.
  • Os parágrafos de Descrição são normalmente curtos, com duas ou três linhas, como demonstrei num artigo do blogue. Isto torna a leitura mais fácil e fluida.
  • Podemos dar a entender o ritmo de uma cena através da sucessão e do ritmo da escrita das Descrições.

Para terminar, vejamos uma pequena cena do meu guião O Pedido, composta apenas por Descrição.

INT. SALA – DIA

Jaime está na sala comum do seu pequeno apartamento, perto da mesa. Veste o seu fato bom, com uma gravata vistosa. É a sua melhor tentativa para ser elegante, mas não fica nem perto.

Confere uma caixinha de veludo de ourivesaria e parece ficar satisfeito com o conteúdo.

Guarda a caixa no bolso e afasta uma das cadeiras da mesa. Depois sobe para cima da cadeira, equilibrando-se com alguma dificuldade. Desce e volta a subir, tentando dar elegância e dignidade ao movimento.

Repete mais uma ou duas vezes.

DICA #19

Como escrever os Diálogos e Parênteses

Na maior parte dos filmes – mesmo nos mudos – os personagens falam. E, quando bem utilizados, os Diálogos são um elemento fundamental de um guião.

Bons diálogos têm algumas características em comum:

  • São elementos de ação, que fazem avançar a trama.
  • São demonstrações de conflito, confrontos orais, que contribuem para a manutenção e escalada do drama.
  • Fornecem novos desafios e informações.
  • Não são óbvios e expositórios. Não estão na cena apenas para cumprir alguma função ou responder a alguma necessidade.
  • São vivos, dinâmicos, interactivos, e variados. Contribuem para o ritmo e dinâmica das cenas.
  • Soam a verdadeiros, parecem retirados da vida real, embora quando analisados à lupa demonstrem ser uma construção rigorosa, económica e depurada.
  • São adequados aos personagens que os falam; às suas características sociais, históricas, psicológicas.
  • São cheios de segundos sentidos e interpretações paralelas, aquilo a que normalmente se chama o “subtexto”.

Em termos formais, para apresentar os diálogos num guião usam-se três elementos: os Personagens, Diálogos e Parênteses.

O elemento Personagem identifica quem fala; o elemento Diálogo identifica o que ele diz; e o elemento Parênteses dá indicações adicionais que não sejam óbvias da leitura do diálogo. Por exemplo, um tom especial (irónico) ou a quem se dirige a fala, quando há várias pessoas (para Rita).

Um bloco de diálogos pode aparecer assim:

PEDRO
Queres saber o que me aconteceu hoje?

RITA
(irónica)
Mal posso esperar…

PEDRO
(pausa)
Queres saber, ou não?

RITA
(para a cozinha)
Paula, trazes-me um cafézinho?
(para Pedro)
Estavas a dizer…?

Em termos de disposição na página devemos respeitar estas normas de formato:

  • Os Personagens começam a ser escritos a 9,25cm da margem esquerda e alinham à esquerda (não são centrados na página).
  • Os Parênteses são escritos entre os 7,75cm da margem esquerda e os 7,25 da direita.
  • Os Diálogos estendem-se dos 6,5cm da margem esquerda a 6,5cm da direita.

Na prática o diálogo acima vai aparecer na página com esta disposição:

DICA #20

Qual é o uso correcto das Transições e Planos?

A resposta é fácil: o uso correto das Transições e Planos é o mínimo possível.

Quando procuramos na net guiões para ler muitas vezes encontramos os chamados shooting scripts, ou guiões de rodagem.

São versões dos guiões que já foram reescritas de acordo com as indicações dos realizadores para servir de guia durante a rodagem do filme. Por isso incluem muitas indicações de câmara e de edição, como planos, movimentos, tranições, etc.

Por exemplo, o guião de A rainha africana começa assim:

EXT. A NATIVE VILLAGE IN A CLEARING BETWEEN THE JUNGLE AND THE RIVER. LATE MORNING

LONG SHOT — A CHAPEL

As indicações de LONG SHOT, MEDIUM SHOT, CLOSER SHOT, REVERSE ANGLE, DISSOLVE TO:, etc., sucedem-se nas páginas desse tipo de guiões, o que pode criar a ideia de que é obrigação do guionista encher o guião com este tipo de informação. Na realidade, é exatamente o contrário.

O tipo de guiões que devem ser escritos no FrenesiDeEscrita são os chamados guiões literários. O seu objetivo é contar a estória do filme de uma forma envolvente, que transporte o leitor para dentro do universo dramático e o ajude a imaginar o filme.

Indicações de planos ou movimentos de câmara, paradoxalmente, têm o efeito contrário. Em vez de prender o leitor, quebram o fluxo da narrativa e afastam-no do filme imaginado.

O tipo de direção que podemos fazer num guião é indireta e subjetiva. Por exemplo, se escrevermos

A ponta do pé de Rita bate no chão em cadência acelerada.

sugerimos implicitamente um CLOSE UP do pé de Rita, sem precisar de o explicitar.

Não perca tempo a dar indicações de câmara no seu guião. Os leitores não gostam – e os realizadores também não.

Dicas de escrita de guião do Frenesi 2013 – terceira semana

O FrenesiDeEscrita 2013 terminou mais uma semana, e com isso divulgo mais cinco dicas de escrita que enviei diariamente aos participantes.

DICA #11

Conflito, conflito, conflito…

"— Hoje à tarde, saí de casa e fui à padaria.

Silêncio.

— E…?

— Mais nada. Foi isso. Saí de casa e fui à padaria."

Esta é, possivelmente, a estória mais chata do mundo.

A não ser que…

…o protagonista sofra de agorafobia, doença psicológica que o mantém preso em casa há anos, como Sigourney Weaver em Copycat. Nesse caso sair de casa e ir à padaria pode ter sido uma luta titânica – contra si mesmo e os seus medos.

E é de lutas, titânicas ou não, de conflitos, que se contrói o drama.

Um personagem tem um objetivo. Consegue-o sem luta. Ninguém liga.

O mesmo personagem tem o mesmo objetivo. Mas, desta vez, tem obstáculos no caminho. Conflito. Surpresas. Aqui, sim, as coisas aquecem.

Quais são os tipos de conflito que o seu protagonista pode encontrar? Com ele mesmo? Com um opositor ou uma força antagónica? Com a sua família ou vizinhos? Com a sociedade? Com espíritos superiores?

Qualquer uma dessas forças – ou todas elas – podem ser antagonistas à altura do seu protagonista. Certifique-se apenas de que ele as encontra no caminho.

DICA #12

Surpresas, surpresas, surpresas…

O outro grande elemento do drama, além do conflito, são as surpresas.

Como David Mamet diz, a única obrigação do guionista é manter os espectadores curiosos sobre o que vai acontecer a seguir. Se não houver surpresas, se tudo for plano e previsível, isso será impossível. Filme sem surpresas não consegue prender o espectador.

Os nossos amigos gregos, a quem tanto devemos em termos de dramaturgia, já falavam nas peripateia – as peripécias. Segundo eles, tratavam-se dos eventos que, mantendo-se dentro do verossímil, imprimiam um rumo diferente e inesperado ao curso da narrativa. As nossas surpresas, portanto.

Alfred Hitchcock, nas entrevistas que deu a Truffaut, diz preferir o suspense à surpresa, como refiro no artigo 17 do curso de guião.

De acordo com a sua teoria, é mais eficaz saber que há uma bomba que pode explodir a qualquer momento, do que vê-la simplesmente explodir. Concordo com ele, mas…

…a apresentação da bomba, e da possibilidade da sua explosão, já foi só por si uma surpresa. Ao acrescentar o elemento de suspense estamos simplesmente a espremer todo o potencial dramático dessa surpresa.

E no seu guião, que surpresas existem que implicam uma mudança do rumo da estória? Se não houver nenhuma, onde poderia incluí-las? Faça isso e terá seguramente uma estória mais interessante.

DICA #13

Escolhas, escolhas, escolhas…

No cinema, ao contrário da literatura, temos acesso muito limitado à introspeção dos nossos personagens. A única maneira de os conhecer é ver como se comportam – o que dizem e o que fazem na sua realidade ficcional.

Para isso, para podermos revelar os seus comportamentos, temos de criar situações que os obriguem a agir. Mas, melhor ainda, é criar situações em que os obriguemos a fazer escolhas, pois é através dessas escolhas que mostramos quem eles realmente são.

Se lançarmos um carro contra o nosso protagonista, forçamo-lo a agir, desviando-se do carro.

Se enviarmos um carro contra ele e a sua mulher, forçamo-lo a escolher entre dois cursos de acção: desviar-se sozinho, ou salvar a mulher primeiro, com risco da própria vida.

Mas se enviarmos dois carros, um contra a sua mulher e outro contra a sua mãe, criamos um dilema – uma escolha sem solução ótima. Essa escolha difícil revelará ainda mais sobre ele.

Crie cenas que obriguem os seus personagens a fazer escolhas. Quanto mais difíceis forem, mais reveladoras de caráter serão, e o seu guião ganhará com isso.

DICA #14

Como escrever uma boa cena

O guionista John August escreveu em tempos um artigo sobre como escrever uma cena. Ryan Rivard, um outro guionista, fez um infografismo inspirado nesse artigo que teve bastante divulgação no Twitter:

Em suma, para escrever um guião cheio de boas cenas, deverá dar estes passos para cada uma delas:

  1. O que tem de acontecer nesta cena?
  2. Qual a pior coisa que aconteceria se esta cena fosse omitida?
  3. Quem tem de estar nesta cena?
  4. Onde é que esta cena pode ter lugar?
  5. Qual a coisa mais surpreendente que poderia acontecer nesta cena?
  6. É uma cena longa ou uma cena curta?
  7. De que três formas diferentes esta cena poderia começar?
  8. Imaginar esta cena a correr na nossa mente.
  9. Escrever uma versão resumida.
  10. Escrever a versão longa.
  11. Repetir 200 vezes (uma para cada cena do guião).

Pessoalmente, acho que falta um aspeto muito importante: o que muda na estória com esta cena? Se nada mudar, a nível do curso da trama ou da evolução emocional – mesmo que seja uma mudança muito pequena – então possivelmente a cena não faz falta e deve ser cortada.

A maior parte dos pontos referidos por John August são óbvios e não exigem grande explicação, mas chamo a atenção para o 4 e o 5.

Ponto 4 – Qual é o local mais interessante em que a cena pode desenrolar-se? O que é que esse local pode acrescentar ao drama, ao interesse, à emoção da cena?

Em televisão temos normalmente de usar os mesmos decores repetidamente. No cinema, pelo contrário, tentamos – dentro dos limites do razoável – reduzir ao mínimo as repetições dos cenários.

Quanto ao ponto 5 – Este é um exercício para fazer sempre, mas para aplicar apenas de vez em quando.

Como o próprio John August explica: "Dê a si próprio a oportunidade de fugir à escaleta e considerar algumas possibilidades loucas. E se um carro rebentasse a parede? E se o herói se engasgasse e morresse? E se um miúdo vomitasse um dedo?"

Não é para usar estas possibilidades loucas em todas as cenas, obviamente. Mas se em algumas cenas do seu guião introduzir algum elemento completamente inesperado, vai ganhar vivacidade e energia com isso.

Siga estes passos na escrita das suas cenas (ao fim de algum tempo eles tornam-se praticamente instintivos) e o seu guião só terá a ganhar.

DICA #15

Elipses e ritmo narrativo.

Uma das principais regras na escrita de uma cena é "entrar tarde, sair cedo". Ou seja, começar a cena o mais perto possível do seu núcleo dramático e sair dela logo que a sua razão de ser esteja cumprida.

Para o fazermos recorremos normalmente à elipse narrativa, uma das principais ferramentas do guionista.

Segundo a definição da Wikipedia, suficiente para o nosso âmbito, "Em narrativa, elipse é a exclusão, pelo narrador, de determinados acontecimentos diegéticos, dando origem a vazios narrativos, mais ou menos extensos. A elipse é um processo fundamental da técnica narrativa, pois nenhum narrador pode relatar com estrita fidelidade todos os pormenores da diegese".

A diegese, se está a interrogar-se, é a realidade ficcional que criamos para os nossos personagens, o mundo em que eles habitam e se movem.

O que é que a definição acima quer então dizer?

Se o nosso protagonista vai visitar a namorada – uma cena possível no seu mundo ficcional – nós não precisamos de mostrá-lo a pegar na chave do carro, sair de casa, descer as escadas, atravessar a rua, entrar no carro, ligar o carro, fazer uma trajetória tipo Google Street View, estacionar o carro, sair do carro, tocar à campainha, etc, etc. Com o trânsito que há normalmente, teríamos gasto metade do filme só nessa cena.

Em vez disso, podemos simplesmente passar dele a agarrar na chave do carro para ele a tocar a campainha. Ou, melhor ainda, cortar simplesmente para o nosso personagem a fazer um café, já na cozinha da namorada.

No entanto, se a visita dele se destinasse a discutir um assunto delicado, poderíamos querer introduzir alguns planos do seu trajeto. Dessa forma introduziríamos um atraso artificial na estória, reduzindo o seu ritmo.

A elipse é, pois, uma espécie de potenciómetro que nos permite aumentar ou diminuir o ritmo de uma narrativa, acelerando ou atrasando a passagem de uma situação para outra.

O ritmo final de um filme será resultado das decisões do realizador e editor do filme na fase de montagem, manuseando cenas, aparando diálogos, cortando planos. Mas a definição desse ritmo começará sempre no guião que estamos a escrever.

Que cenas ou momentos do seu guião pode cortar ou prolongar? Como é que isso afecta o ritmo narrativo da sua estória? Tenha consciência disso e dominará melhor a experiência dramática dos seus leitores/espectadores.

Dicas de escrita de guião do Frenesi 2013 – segunda semana

O FrenesiDeEscrita 2013 chega hoje ao fim da segunda semana. Os 67 participantes estão envolvidos de corpo e alma e eu continuo  tentar motivá-los enviando dicas de escrita de guião todos os dias.

O artigo de hoje reúne as dicas que escrevi esta semana.

DICA #6

Já tem a sua escaleta?

"Quando me sento para escrever já tenho uma lista de todas as cenas, o que acontece em cada cena, e quantas páginas prevejo que cada cena vai ocupar." – Paul Schrader (Taxi Driver, Raging Bull)

Há dois tipos de escritores: os que planificam a estória antes de escrever e os que partem à descoberta da estória conforme vão escrevendo.

Um dos caminhos não é necessariamente melhor do que o outro; o que funciona para um escritor, funciona – e ponto final.

Os guionistas profissionais, contudo, têm grande vantagem em pertencer ao primeiro grupo.

Em primeiro lugar, porque muitas vezes os seus trabalhos são encomendas, e os produtores querem sempre ver um tratamento antes de se comprometerem a encomendar o guião.

Depois, porque um guião tem uma dimensão limitada de mais ou menos 90 a 120 páginas. É muito mais fácil chegar ao fim dentro desses limites tendo feito um plano de trabalho antes.

Para o guionista esse plano de trabalho é a escaleta.

Uma escaleta é uma lista dos principais momentos de uma estória, ou seja, dos eventos dramáticas que impulsionam a estória para frente ou mudam o seu rumo bruscamente.

Não é preciso escrever uma linha da escaleta para cada cena, apenas para cada evento dramático. Um determinado evento resumido numa linha da escaleta – João decide criar o FrenesiDeEscrita – pode ser dividido no guião em várias cenas – João lê a notícia de que não vai haver ScriptFrenzy; João discute o assunto com um amigo guionista; João toma duche pensativo; João senta-se ao computador e escreve artigo anunciando o FrenesiDeEscrita.

Se faz parte dos seus planos escrever uma escaleta comece por definir os principais eventos dramáticos da sua estória.

Por exemplo:

  • o mundo inicial do protagonista;
  • o incidente que perturba a sua estabilidade;
  • o momento em que o protagonista se decide tomar a inciativa;
  • uma grande reviravolta que acontecerá no meio da estória;
  • o momento negro em que o protagonista quase desiste;
  • a sua decisão de dar o tudo por tudo;
  • o confronto final com o seu antagonista;
  • e o fim da sua estória.

Com isso já terá oito eventos dramáticos, e um esboço de estrutura para a sua estória. Agora só falta encher os espaços vazios entre uns e outros.

Para um filme de longa metragem deve contar com cerca de quarenta eventos dramáticos.

DICA #7

Qual o Género do seu filme?

Desde o tempo de Aristótles que se classificam as obras de ficção por géneros. No caso do Ari, os géneros eram o Épico, a Tragédia e a Comédia, que tinham definições algo diferentes das que usamos hoje.

Nos nossos dias a maior parte das obras de ficção, especialmente os filmes, também encaixam em géneros.

A classificação destes varia com os autores, mas alguns são facilmente reconhecíveis e consensuais: o Drama, a Comédia, a Comédia Romântica, a Aventura, o Terror, o Thriller, o Western, a Fantasia, a Ficção Científica, o Filme de Época, o Filme de Detectives, etc.

Há também subgéneros que se afirmam com alguma autonomia em certos períodos: dentro do Terror, por exemplo, podemos identificar os subgéneros de Zombies, de Vampiros, de Fantasmas, de Possessões Demoníacas, de Gore, etc.

Os géneros são importantes porque carregam consigo uma série de convenções bem estabelecidas que correspondem a certas expectativas das audiências.

É preciso conhecer as convenções dos géneros para as respeitar, ou desrespeitar intencionalmente.

Por exemplo, durante muito tempo os zombies andavam devagar e de braços estendidos; nos filmes mais recentes temos assistido a uma vaga de zombies corredores. Antigamente eram mortos-vivos ressuscitados por algum fenómeno excepcional; hoje são pessoas comuns infetadas por vírus altamente contagiosos.

Também é interessante conhecer bem as convenções dos géneros para os poder combinar entre si. Recentemente temos assistido a combinações estranhas, recebidas com maior ou menor sucesso: western+ficção científica = Cowboys & Aliens; vampiros+ romântico= Crepúsculo; histórico+vampiros= Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, etc.

Há ainda uma terceira possibilidade muito interessante: escrever o guião jogando com as convenções e as expetativas associadas ao género, para as subverter. É o caso de filmes de sucesso como O Sexto Sentido, Scream ou A Casa na Floresta, e de um monte de comédias burras, como os Scary Movies e congéneres.

Se o seu filme encaixa dentro de um género – o Thriller de Psicopatas, por exemplo -, é importante ver as obras mais importantes desse género antes de começar a escrever.

Vê-las e estudá-las com atenção e respeito, não para copiar, mas para ter a certeza de que não defraudará desnecessariamente as expectativas dos seus espectadores.

DICA #8

Qual o Tema do seu filme?

O Tema é provavelmente o mais mal entendido elemento do universo de uma estória. No entanto é também um dos mais importantes.

O que é, então, o Tema de uma estória? Talvez seja mais fácil começar por dizer o que o Tema não é.

Em primeiro lugar, não é o assunto explícito da estória, a sua temática. O Tema dos Salteadores da Arca Perdida, a existir um, não é a luta contra os Nazis. O Tema de O Padrinho não é a luta das famílias da Mafia pelo poder.

Não é, também, a mensagem da estória, embora esteja mais próximo disso. Samuel Goldwin, um famoso chefe de estúdio americano, gostava de dizer, "Se querem enviar uma mensagem vão aos Correios". O Tema é mais subtil do que a mensagem explícita que se possa tirar de um filme.

O Tema não tem a mesma importância em todos os tipos de filme. Costuma ter mais peso em filmes dramáticos, que tocam questões morais e éticas importantes, e menos relevância nos filmes de aventura e fantasia.

Finalmente, o Tema não é a premissa do filme. Normalmente até começamos a escrever sem ter uma ideia clara dos componentes temáticos do guião. Estes vão surgindo naturalmente no decurso da montagem da estória, da relação que se vai construindo entre os personagens e o enredo.

Para muitos autores, o Tema é um conceito moral, ético ou filosófico que o filme implicitamente discute. Nesse sentido, os Temas dos filmes acima mencionados talvez fossem a importância do indivíduo, nos Salteadores, e a primazia da lealdade no Padrinho.

Obviamente, estas interpretações serão sempre subjetivas e refletirão tanto do intérprete como do objeto interpretado. Duas pessoas verão o mesmo filme e verão nele um Tema ou Temas diferentes, de acordo com a sua própria estrutura moral e ética.

Por isso a minha visão do Tema toma esse aspecto em consideração.

Segundo John Truby, no livro The Anatomy of Story: 22 Steps to Becoming a Master Storyteller (que neste momento está em promoção para o Kindle) "O Tema é a visão do autor de como agir no mundo. É a sua visão moral."

A minha interpretação do Tema aproxima-se desta: O Tema é a razão verdadeira e profunda porque um autor se interessa por uma determinada estória e não por outras. É a projeção da visão de mundo do autor na sua estória.

Neste sentido o Tema é sempre uma opção inconsciente que tomamos no momento em que nos apaixonamos por uma certa premissa de estória, um personagem ou uma ideia de enredo, e decididmos desenvolvê-la num guião. O processo de escrita vai limitar-se a revelá-lo, pouco a pouco, em camadas sucessivas.

Não se preocupe em encontrar já o Tema do seu guião. Mas conforme o for escrevendo esteja atento a preocupações morais e éticas que esteja a aflorar.

DICA #9

Qual o Tom do seu filme?

Aqui está outro conceito nem sempre bem entendido: o Tom de um filme. No entanto, é um conceito extremamente importante de compreender.

O Tom de um filme fica claramente definido nas primeiras páginas de um guião. A partir daí o guionista tem a responsabilidade de manter esse tom de forma consistente. Caso não o faça corre o risco de confundir e alienar a sua audiência.

Por exemplo, há filmes que misturam muito bem drama e comédia, como o Silver Linnings Playbook. Mas isso fica claro desde os primeiros minutos de exibição, e o espectador aceita sem problemas essa combinação.

Pelo contrário, um filme como Amour é quase totalmente desprovido de humor, o que os seus espectadores também entendem e aceitam sem problemas.

No entanto, se ao fim de uma hora de exibição, os autores removessem do primeiro todo o sentido de humor, ou começassem a introduzir piadas no segundo, correriam sérios riscos de perder o envolvimento que tivessem até aí conseguido com os espectadores.

O Tom faz pois parte do contrato implícito entre autores e público.

Para tornar as coisas um pouco mais concretas podemos recorrer a um pequeno gráfico.

Usando dois eixos Leve – Pesado e Realista – Fantasista obtemos quatro quadrantes nos quais podemos enquadrar praticamente todos os filmes de modelo clássico.

Em que quadrante enquadraria o seu filme?

Reflita sobre isso e certifique-se de que o mantém lá do início ao fim.

DICA #10

Você não está a escrever um guião; está a escrever um filme.

O cinema é um meio audiovisual. Quando estamos a escrever um guião temos de ter isso em conta: cinema é áudio mais visual.

O que isso significa é que temos de deixar cair todos os hábitos provenientes da literatura e privilegiar os que são específicos do meio cinema.

Muito resumidamente, e na prática, isto significa duas coisas.

Em primeiro lugar, só podemos escrever num guião aquilo que possa ser mostrado, por imagem e por som, num filme.

Parece óbvio, mas na realidade não o é. Quantos guiões já eu li em que são escritas frases como a seguinte:

Francisco olha para Sofia e recorda como ela estava linda no dia em que se conheceram.

Como é que motramos isto num filme? É impossível, a não ser que nós o tornemos explícito de outra forma. Por exemplo:

Francisco olha para Sofia.

 

FLASHBACK – INT. FESTA – NOITE (1999)

 

Sofia, dez anos mais nova, dança animadamente no centro da sala.

Francisco, encostado a uma parede, olha para ela, encantado.

Ao introduzir o flashback transformamos o recurso literário da frase inicial – uma introspecção – em algo que pode ser mostrado num filme.

Em segundo lugar, devemos sempre privilegiar as soluções visuais e auditivas específicas da linguagem cinematográfica antes de recorrer a outras. É o famoso "show, don't tell""mostra, não contes".

Por exemplo, podemos ter um personagem a contar a outro como foi difícil desativar o alarme do banco e entrar no cofre; ou podemos mostrar essa cena de grande tensão, sem um único diálogo. Qual opção acha que teria mais impacto numa sala de cinema?

Olhe para o seu guião e faça esta análise: escreveu alguma coisa que não possa ser mostrada em imagens ou sons? Escreveu alguma coisa que possa ser mostrada apenas em imagens ou sons?

Faça isso e terá um guião definitivamente mais cinematográfico.

Dicas de escrita do FrenesiDeEscrita 2013

No domingo passado anunciei o desafio de guião FrenesiDeEscrita 2013: escrever um guião de cinema completo nos trinta dias de Abril.

Foi um sucesso inesperado; mais de 60 pessoas inscreveram-se e estão neste momento a trabalhar nos seus guiões.

Atualização: Neste momento as inscrições já estão encerradas e não serão aceites mais participantes.

Como forma de as incentivar tenho-lhes enviado um email diário com uma dica de escrita. Neste artigo recolho as cinco dicas desta primeira semana.

Nota: hoje vou fechar as inscrições do FrenesiDeEscrita 2013. Se ainda quiser participar tem só até à meia noite (horário de Brasília) para o fazer.

DICA #1 – Como avaliar o potencial da sua ideia

Um bom filme do modelo clássico tem um protagonista ativo, com um objetivo claro e obstáculos progressivamente mais complicados no caminho da concretização desse objetivo.

Uma forma de avaliar o potencial dramático do seu filme é fazer uma lista de todos os obstáculos e empecilhos de que se consegue lembrar.

Se conseguir, sem muita dificuldade, pensar em meia dúzia ou mais, é bom sinal.

Se, pelo contrário, der voltas à cabeça e não se lembrar de mais do que um ou dois obstáculos, talvez a sua ideia não tenha grande potencial de conflito e, logo, de drama.

DICA #2 – O seu protagonista é interessante?

O seu protagonista, é suficientemente interessante para suportar o peso do guião que está a escrever?

Enredos, eventos, incidentes, cenas, desaparecem da memória; personagens fascinantes permanecem para sempre.

Certifique-se de que o seu protagonista tem uma personalidade própria, marcada, e bem distinta da sua. Não queira um personagem que seja apenas o seu alter ego. Uma maneira de o fazer é dar-lhe um TRAÇO ÚNICO, uma FALHA e um SEGREDO.

Um traço único – algo inesperado ou até paradoxal: o polícia que adora cozinhar, o bandido que escreve sonetos nos tempos livres, a psicóloga que não se consegue livrar de pesadelos terríveis. Pode ser um traço físico, uma atitude, um hobby, mas será qualquer coisa que o torna mais memorável.

Uma falha – um defeito ou limitação inesperado que poderá ter algum efeito no decurso da estória. Indiana Jones tem medo de cobras? Vamos lançá-lo num poço cheio delas.

Um segredo – personagens com segredos, que não revelam tudo à primeira vista, são mais interessantes de acompanhar. São, também, mais interessantes de escrever.

O que é que o seu protagonista tem de especial? Escreva meia página sobre isso.

DICA #3 – Quais as consequências do fracasso do seu protagonista?

Num filme de modelo clássico o protagonista tem um objetivo claro desde muito cedo, e corre atrás dele durante todo o tempo. O drama nasce dos obstáculos que surgem no seu caminho.

Mas não basta ter um objetivo. Este tem de ser relevante, e o fracasso tem de ter consequências sérias para o protagonista e para o mundo em que ele vive.

O objetivo de Indiana Jones nos “Salteadores da Arca Perdida” não é encontrar um artefato muito raro para colocar no museu da sua universidade; é encontrar a Arca da Aliança que, se cair na mão dos nazis, pode fazer pender os destinos do mundo para o lado do Mal.

O objetivo de “Lincoln” não é aprovar a verba para renovação dos jardins da Casa Branca; é aprovar a legislação que porá fim à escravatura e marcará toda a história dos Estados Unidos e do mundo.

O objetivo de “Juno” não é encontrar o par de sapatos perfeito para combinar com o casaco novo; é encontrar os pais perfeitos para o bebé que traz na barriga.

E o objetivo do seu protagonista – quais as consequências que ele sofrerá se não o conseguir concretizar?

DICA #4 – Quem é o seu antagonista?

Todos temos os nossos protagonistas favoritos. Salvo raras – e honrosas – excepções (Miles, de “Sideways”, estou a olhar para ti…) são personagens ativos, com objetivos importantes, que tomam as decisões difíceis mas necessárias para concretizar esses objetivos.

Mas quantas vezes não é o antagonista que nós recordamos em primeiro lugar ou, pelo menos, ao mesmo nível do protagonista. Por vezes até dão o título ao filme: “Terminator”, “Alien”, “Tubarão”…

Certifique-se de que passa tanto tempo a pensar no seu antagonista como no seu protagonista. Qual é o seu objectivo? Porque é que é importante para ele? O que o motiva? Quais as suas forças e fraquezas? Qual o seu plano, e que lógica há por trás dele? Qual é o seu passado? Quais os seus sonhos?

Certifique-se também de que sabe o que o seu antagonista está a fazer em cada momento da estória. Ele não pode entrar e sair apenas por sua conveniência. O que é que ele está a fazer durante o resto do tempo. Não entrou em hibernação, pois não?

Crie um antagonista à altura do seu protagonista e terá mais um ingrediente para uma estória de sucesso.

DICA #5 – Já tem um título para o seu filme?

Quando for exibido nas salas o filme que está a escrever há de ter um título. O ideal é que seja você a batizá-lo no guião.

Não é garantido que o nome que você escolher venha a ser adotado por toda a gente que ainda vai dar parecer sobre o assunto: produtor, realizador, até os distribuidores, poderão ter outras opiniões. Mas você tem a oportunidade de dar o primeiro tiro, e muitas vezes é este que cola.

Vejamos os nomes de alguns dos candidatos ao Oscar 2013: Amour, Argo, Beasts of the Southern Wild, Django Unchained, Les Misérables, Life of Pi, Lincoln, Silver Linings Playbook, Zero Dark Thirty, The Master, Flight, The Impossible, The Sessions, Brave, Frankenweenie, ParaNorman, The Pirates! Band of Misfits, Wreck-it Ralph, Anna Karenina, Mirror Mirror, Kon-Tiki, No, A Royal Affair, War Witch, Hitchcok, The Hobbit: An Unexpected Jorney, Skyfall, Moonrise Kingdom.

Que conclusões podemos tirar daqui:

  • A maior parte dos títulos são muito curtos, uma ou duas palavras (Amour, Argo, Flight, Lincoln, The Sessions, Anna Karenina, No…);
  • Muitos incluem o nome do protagonista (Django Unchained, Life of Pi, Lincoln, ParaNorman, Hitchcock…) ou uma alusão direta a um personagem importante (Brave, The Master, The Hobbit…);
  • Muitos referem um elemento importante da narrativa (Argo, Kon-Tiki, Mirror Mirror, No…);
  • Outros escolhem uma referência ao universo ficcional do filme (Beasts of The Southern Wild, Les Misérables, The Sessions, A Royal Affair…);
  • Finalmente, outros vão pelo caminho oposto, escolhendo um título misterioso e enigmático (Silver Linings Playbook, Zero Dark Thirty, Sky Fall, Moonrise Kingdom…).

Não precisa escolher o título do seu filme para começar a escrever. Mas é bom que durante todo o mês vá pensando nisso e tomando notas dos títulos que lhe forem ocorrendo.

Este ano não há ScriptFrenzy mas há o FrenesiDeEscrita + Três prémios especiais

O desafio ScriptFrenzy, que tenho divulgado todos os anos, não vai ter edição 2013. A notícia foi divulgada num artigo no próprio site.

Segundo os organizadores os 85.000 guionistas que aderiram ao ScriptFrenzy desde 2007 não foram suficientes para garantir a viabilidade financeira do projeto, que estaria a desviar recursos necessários para outras iniciativas mais bem sucedidas.

Recordo que o desafio lançado pelo ScriptFrenzy era escrever um guião de 100 páginas durante os 30 dias do mês de Abril. Não havia júris nem prémios, apenas a satisfação de participar num movimento partilhado por milhares de guionistas em todo o mundo.

O meu desafio: o FrenesiDeEscrita

Atualização: o desafio foi um sucesso, com mais de 60 guionistas a inscrever-se. Neste momento as inscrições já estão encerradas e não serão aceites mais participantes.

Não vai haver ScriptFrenzy, mas vai haver a minha versão, o FrenesiDeEscrita: quantos leitores deste blogue estão dispostos a aceitar o desafio de escrever um guião completo até ao fim de Abril?

Não vou mentir: terminar um guião de 100 páginas em 30 dias não é a coisa mais fácil do mundo, mas também não é excessivamente difícil.

Se já tiver uma ideia e a estrutura básica da estória, essa meta representa pouco mais de 3 páginas por dia. Uma boa hora de trabalho permite-lhe alcançar esse objetivo diário.

Se ainda não tem a ideia ou a estrutura, só tem de esforçar-se um pouco mais. Siga os passos seguintes e garanto-lhe que chegará ao fim.

Plano de trabalhos

  • De 1 a 4 de Abril faça um brainstorming diário de 1 hora à procura de ideias. Não se autocritique nem se reprima; escreva todas as ideias que conseguir imaginar. O objetivo não é a qualidade, mas sim a quantidade. Uma boa fonte de inspiração é o jornal do dia. Um dos exercícios que costumo fazer nas minhas aulas de guião é distribuir jornais pelos alunos e pedir-lhes para escrever ideias baseadas nas notícias. Nunca faltam ideias.
  • Dia 5 de Abril, a próxima sexta-feira, faça uma sessão de análise das ideias que reuniu. Essa será a altura de ser crítico e exigente. Analise as suas ideias segundo os seguintes critérios: força do conceito; interesse dos personagens e do mundo ficcional onde se movem; originalidade; potencial dramático. O objetivo é escolher uma e apenas uma ideia – aquela que o vai ocupar durante o resto do mês.
  • Dias 6 e 7 de Abril escreva a logline da sua ideia. É um resumo da sua estória em poucas palavras, respondendo às seguintes questões: quem é o protagonista, qual o seu objetivo e que obstáculos o impedem de o concretizar. A logline é a bússula que lhe permitirá manter o rumo nas fases seguintes.
  • Ao mesmo tempo comece a pensar no protagonista, nas sua motivações e interesses, no seu arco de transformação. Pense também nos restantes personagens, e como se relacionam com ele. Se for preciso faça alguma pesquisa, mas vamos ser honestos: é melhor escolher uma ideia que não exija muita investigação.
  • Comece também a definir os momentos cruciais da sua estória: qual é o incidente dramático que põe a narrativa em marcha; quando é que o seu protagonista se compromete definitivamente com o seu objetivo, dando início ao 2º ato; o que acontece mais ou menos a meio do guião que representa uma viragem ou escalada importante no conflito; qual o momento dramático que encerra o 2º ato e obriga o protagonista a dar tudo por tudo; qual é o clímax da estória, o obstáculo final e decisivo que o protagonista tem de enfrentar; como se conclui a estória. Escreva cada um destes momentos num post-it, cole-o na parede e terá a estrutura essencial do seu guião já definida.
  • De 8 a 12 de Abril desenvolva a escaleta do seu guião. É uma lista dos principais momentos da sua estória, colocados na sequência em que aparecerão no guião. Para um guião de cinema de 100 páginas, como o que tem de escrever, deverá ter por volta de 40 eventos. Parta dos momentos-chave que definiu no ponto anterior e recheie os espaços entre eles. Se quiser refrescar os conceitos básicos leia os artigos 20, 21, 22e 23 do meu curso de guião.
  • De 13 a 30 de Abril, escreva. Tem 18 dias para terminar o seu guião, o que significa que terá de escrever pouco mais de 5 páginas por dia. Não é nada que não se consiga fazer em duas horas de escrita intensa. E não venha com desculpas de que não tem tempo para escrever. Se o guião for a sua prioridade o tempo aparecerá.
  • De 30 de Abril para 1 de Maio, celebre. Terminou o seu guião, o que lhe dá o direito universalmente reconhecido de abrir uma garrafa de espumante.

É importante esclarecer que o objetivo do FrenesiDeEscrita não é ter um final draft perfeito no fim de Abril; apenas uma primeira versão, com todos os seus defeitos e limitações. Por muito apressada e cheia de problemas que essa versão seja, será sempre melhor do que não ter nada.

Para tornar a sua primeira versão numa obra finalizada virá depois toda a fase de reescrita. Quando chegar a essa etapa pode guiar-se pelo ebook gratuito que disponibilizo aqui.

Apesar de não haver ScriptFrenzy 2013 o site continua no ar e tem uma extensa secção de artigos e recursos de escrita (em inglês) que podem ser muito úteis para guionistas de qualquer nível. O artigo sobre a formatação dos elementos básicos de um guião, por exemplo, é muito bem conseguido.

Dito isto, está disposto a aceitar o desafio do FrenesiDeEscrita?

Se estiver, poderá vir a ganhar…

Os prémios especiais do FrenesiDeEscrita

Contrariamente ao ScriptFrenzy, que não tinha prémios, o FrenesiDeEscrita vai ter três Prémios Especiais.

Para os atribuir irei ler as dez páginas iniciais dos guiões que forem escritos pelos leitores durante este desafio. Desses guiões irei selecionar os três que tiverem os inícios mais interessantes. O prémio será a oferta dos meus serviços como script doctor, sem qualquer custo, nesses três guiões.

O serviço de scrip doctoring incluirá uma leitura do guião, a avaliação dos seus pontos positivos e negativos, e uma pequena lista de sugestões de melhoramento. Será uma análise semelhante ao serviço que faço profissionalmente e pelo qual costumo cobrar centenas de euros.

Como participar no FrenesiDeEscrita

As regras são simples porque ninguém tem tempo para muitas complicações:

  1. Os guiões terão de ser originais e escritos apenas durante este período de trinta dias;
  2. Os autores poderão ser de qualquer nacionalidade, mas os guiões terão de ser em português;
  3. Para se inscrever basta deixar o seu nome nos Comentários no fim desta página, indicando a sua intenção de participar, e enviar o guião completo no dia 1 de Maio. Enviarei um email de confirmação a cada leitor que se inscrever.

Uma questão de honestidade

Sei perfeitamente que o “regulamento” minimalista deste FrenesiDeEscrita pode criar a tentação de inscrever um guião que já tenha sido escrito anteriormente, com vista a tentar ganhar um script doctoring de graça.

Mas estou disposto a confiar que isto não irá acontecer.

Quero crer na honestidade intrínseca de todas as pessoas, e especialmente dos leitores deste blogue, por isso acredito que irão inscrever apenas guiões escritos integralmente durante estes trinta dias.

Fazer três script doctorings vai-me ocupar muitas horas de trabalho não remunerado. A única coisa que peço em troca é que seja respeitada a primeira regra: Os guiões terão de ser originais e escritos apenas durante este período de trinta dias. Não é pedir muito, pois não?

Dito isto, mãos à obra. Abril já começou e não há tempo a perder.

Boas escritas e até breve.