O Story Circle de Dan Harmon

A minha primeira introdução a Dan Harmon e ao seu Story Circle foi através de um artigo de 2011 da revista Wired, que relatava os métodos usados pelo autor para desenvolver a sitcom Community. Achei a sua abordagem interessante mas na altura não me marcou particularmente e acabei por esquecê-la por completo.

Até que, há poucos meses, o meu amigo Cláudio Rafael me perguntou se conhecia o Story Circle, acrescentando que essa teoria o estava a ajudar a desbloquear algumas estórias.

No momento nem recordei o artigo acima mencionado, só o tendo associado a esta conversa quando fui pesquisar um pouco mais sobre o Story Circle. E, desta vez, a metodologia de Dan Harmon fez bastante mais sentido para mim; pelo menos o suficiente para lhe querer dedicar este artigo.

O que é o Story Circle

O Story Circle de Dan Harmon é uma versão simplificada da “Viagem do Herói” de Joseph Campbell, que nos anos 80 já tinha sido adaptada para a escrita audiovisual por Christopher Vogler, uma analista de guião da Disney, entretanto convertido em “guru” do guionismo.

Já escrevi diversas vezes sobre a “Viagem do Herói”, por exemplo neste texto ou no artigo 24 do Curso de Guião, que lhe é totalmente dedicado.

Trata-se de um modelo de narrativa circular, em que um herói segue uma determinada sucessão de etapas simbólicas que formam uma viagem. Este formato pode ser encontrado em lendas e contos de todas as civilizações, o que lhe concede um certo caráter universal.

Na versão original de Campbell a Viagem do Herói teria 17 passos, ou mais; Vogler reduziu-a para 12 etapas; e no Story Circle de Dan Harmon o modelo foi ainda mais simplificado, passando a ter apenas 8 momentos.

Em comum, todas as versões mantêm a ideia de viagem e simetria: o protagonista sai do mundo normal para um mundo especial, regressando no fim, transformado, ao mundo normal para a conclusão da estória.

Os 8 passos do Story Circle

Vejamos então como se desenrolam as 8 etapas do Story Circle:

  1. ALGUÉM – Um protagonista interessante – individual ou coletivo – vive a sua vida num mundo que lhe é normal.
  2. QUER ALGO – Esse protagonista tem necessidade de alguma coisa; seja porque esta já estava em falta antes, seja porque algo veio perturbar o equilíbrio do seu mundo.
  3. PARTE – Para obter o que necessita ele parte numa viagem, real ou metafórica, que o faz atravessar algum tipo de passagem para um mundo especial.
  4. EM BUSCA – O herói tem de sobreviver nesse mundo caótico, adaptando-se às suas regras para enfrentar as ameaças e ultrapassar os obstáculos que lhe vão sendo sucessivamente apresentados.
  5. ENCONTRA – Mais ou menos a meio da estória o protagonista consegue uma versão do que procurava; às vezes terá uma forma mais óbvia, outras menos, mas dar-lhe-á uma perspectiva da conclusão possível.
  6. PAGA O PREÇO – No entanto, ainda há muito caminho a percorrer e ele vai enfrentar obstáculos cada vez mais difíceis. Será mesmo obrigado a pagar um preço elevado para garantir a possibilidade de sucesso.
  7. E VOLTA – O protagonista regressa à situação inicial da estória, literalmente ou através de alguma forma de simetria. Começa assim a reta final da narrativa.
  8. MUDADO – A transformação que o herói sofreu durante a sua viagem é determinante para a conclusão da estória.

É particularmente interessante a ideia de simetria entre o início e o fim da estória, e como ela conduz a uma divisão entre o familiar e o desconhecido, o consciente e o inconsciente, a ordem e o caos, o yang e o yin.

Este movimento dialético de tese/antítese/síntese pode ser encontrado em muitos aspectos da dramaturgia, como já referi num outro artigo do Curso, e parece ser também fundamental aqui no Story Circle.

Como o Joker dizia a Harvey Dent, numa cena de The Dark Knight, “Se introduzes um pouco de anarquia, desequilibras a ordem estabelecida, e tudo se transforma em caos. Eu sou um agente do caos. E sabes o melhor do caos, Harvey? É justo.”

Mas chega de teoria: vejamos, na prática, como funciona o Story Circle, usando um exemplo do seu próprio criador.

Um exemplo: Rick e Morty

Vamos analizar um episódio da série Rick e Morty, criada pelo próprio Dan Harmon com Justin Roiland. Este episódio específico, Poção de Amor, é o 6º da 1ª temporada e foi-me recomendado pelo meu filho Frederico.

Veremos que tanto o enredo principal como o secundário seguem à risca o Story Circle do seu criador.

No enredo principal:

  1. (ALGUÉM) Morty vive com a sua família ligeiramente disfuncional: um avô louco, uma irmã superficial e distante, e os pais com um casamento complicado.
  2. (QUER ALGO) Morty está apaixonado por uma colega, Jessica, e quer convidá-la para o Baile do liceu, mas o seu amor não é retribuído.
  3. (PARTE) Pede ao avô, o cientista louco Rick, uma poção de amor, que este prepara com base no seu ADN.
  4. (EM BUSCA) Morty infeta Jessica com a poção e esta fica loucamente apaixonado por ele, mas o facto da rapariga estar com gripe tem consequências inesperadas.
  5. (ENCONTRA) Além de Jessica, todas as pessoas do mundo (literalmente – só os membros da família são imunes) são infetadas e ficam loucamente apaixonadas por Morty, perseguindo-o. Encontrou o amor mas não é o que esperava.
  6. (PAGA O PREÇO) O avô Rick salva Morty e tenta reverter a situação, curando as pessoas com outra poção, mas o resultado é ainda pior: estas transformam-se, primeiro, em louva-a-deus mutantes que querem acasalar com Morty antes de o matar, e, depois, em monstros amorfos e flácidos (os “cronembergs”…) à deriva no caos de um mundo destruído. O preço a pagar pela realização do desejo de Morty foi alto.
  7. (E VOLTA) O avô usa um último trunfo para resolver a situação. Rick e Morty regressam a casa e tudo parece normal, até percebermos que, afinal, estão numa realidade alternativa em que o “Rick” e “Morty” locais acabaram de morrer num acidente.
  8. (MUDADO) Rick e Morty enterram os cadáveres dos alter egos e assumem o seu lugar na família. Tudo fica como no início… exceto Morty.

O enredo secundário também segue a estrutura do story circle de forma muito perceptível:

  1. (ALGUÉM) Jerry, o pai, relata a Morty o início da sua relação com a mãe, Beth, mas Rick desmonta essa versão e alerta-o para o fim eminente do casamento.
  2. (QUER ALGO) Jerry interroga Beth sobre o estado do seu casamento, mas a resposta desta não é muito tranquilizadora. Beth é chamada de urgência ao local de trabalho.
  3. (PARTE) Mordido pelos ciúmes, Jerry sai de casa para ir espiar Beth.
  4. (EM BUSCA) Na estrada, Jerry é interrompido pelos louva-a-deus mutantes e converte-se num Mad Max furioso, exterminando-os sem dó nem piedade.
  5. (ENCONTRA) Na Clínica Veterinária o médico tenta seduzir Beth e acaba por se transformar também num louva-a-deus obcecado por Morty. Jerry chega a tempo e mata-o, conquistando Beth (que tinha resistido aos avanços iniciais do médico).
  6. (PAGA O PREÇO) Jerry e Beth, apaixonadíssimos, conduzem numa estrada cheia de “cronembergs”, enfrentando-os sem uma réstia das sua personalidades anteriores.
  7. (E VOLTA) A filha consegue juntar-se a Jerry e Beth.
  8. (MUDADO) Numa sequência pós-genérico, vemos Jerry, Beth e a filha Summer numa tranquila cena familiar, no que resta da sua casa no mundo pós-apocalíptico em que agora vivem, sem Rick nem Morty.

Outros exemplos: The Dark Knight, Ford v Ferrari e Cafarnaum

O Story Circle não se adapta apenas às estórias de Dan Harmon, ou a sua utilidade seria muito limitada. O blogue do site Studio Binder desenvolve esta ideia com um exemplo muito convincente: o filme The Dark Knight.

Fizeram até um infografismo para o explicar, que poderá baixar aqui (juntamente com outros materiais sobre o Story Circle).

Vejamos primeiro o vídeo colocado no site:

Obviamente que The Dark Knight é um filme longo e complexo, mas conseguimos encontrar nos seus grandes movimentos as oito etapas do Story Circle:

  1. (ALGUÉM)A vida normal de Bruce Wayne é combater o crime em Gotham como Batman.
  2. (QUER ALGO) Mas o “cruzado da capa” tem o sonho de encerrar a carreira de justiceiro e ficar com Rachel.
  3. (PARTE) Para isso dispõe-se a ajudar Harvey Dent, o novo procurador de Gotham, que talvez seja a solução na luta contra o crime.
  4. (EM BUSCA) É nesse momento que um novo elemento entra em cena: o Joker, o agente do caos por excelência. Como Alfred diz acerca dele, ”algumas pessoas só querem ver o mundo a arder.”.
  5. (ENCONTRA) O Joker lança um ultimato ao “homem-morcego”, desafiando-o a revelar a sua identidade para poupar vidas inocentes. Bruce vai fazê-lo (o que seria uma forma irónica de cumprir o seu desejo expresso no ponto 2) mas Harvey Dent antecipa-se, assumindo a identidade de Batman.
  6. (PAGA O PREÇO) Batman lança-se em perseguição do Joker, mas este acaba por colocá-lo num dilema irresolúvel que termina com a morte de Rachel e a transformação de Harvey no Duas—Caras – um preço verdadeiramente elevado.
  7. (E VOLTA) Sem nada mais a perder, Bruce torna a assumir o seu papel de justiceiro mascarado em Gotham, para travar o Joker e o Duas-Caras…
  8. (MUDADO) … mas a única maneira de o conseguir é tornando-se ele próprio num assassino – o Cavaleiro das Trevas do título. O seu mundo regressa assim a uma versão simétrica, mas distorcida, da normalidade inicial.

Vejamos outro exemplo, mais recente: o filme Ford v Ferrari.

  1. (ALGUÉM) – Carrol Shelby e Ken Miles vivem no universo das corridas de automóveis nos EUA. O primeiro é um ex-vencedor de Le Mans convertido em fabricante de veículos desportivos por motivos de saúde; o outro um piloto cujo feitio difícil o manteve longe da ribalta.
  2. (QUER ALGO) – Nenhum deles está realmente satisfeito com a sua condição, pois ambicionam chegar a outro nível.
  3. (PARTE) – O fabricante de automóveis americano Ford, movido pela vontade de superar a Ferrari, lança a Carrol o desafio de construir um carro de corridas para vencer a mítica corrida francesa de Le Mans, e este envolve Ken no processo.
  4. (EM BUSCA) Os dois trabalham arduamente para converter o Ford GT40 num veículo imbatível…
  5. (ENCONTRA)…mas as políticas internas da Ford acabam por forçar Carrol a tirar Ken da equipa. Em consequência disso os Ford GT40 são derrotados de forma humilhante em Le Mans.
  6. (PAGA O PREÇO) – Carrol consegue convencer a Ford a aceitar Ken na equipa, e os dois voltam a aplicar toda a sua arte e engenho no aperfeiçoamento do Ford GT40. Perante uma nova tentativa de afastar Ken, Carrol recusa e coloca toda a sua fortuna em risco.
  7. (E VOLTA) Os dois protagonistas regressam a uma versão simétrica da situação inicial, em que estão unidos no mundo das corridas, mas desta vez ao mais alto nível – correndo em Le Mans.
  8. (MUDADO) – E os dois estão transformados: Carrol aprendeu a confiar em Ken, e este aprendeu a colocar os interesses da equipa acima dos seus impulsos individuais.

E para que não se pense que este modelo se aplica apenas a produções de Hollywood, vejamos como ele também está presente no excelente filme libanês Cafarnaum.

  1. (ALGUÉM) – Zain é um miúdo pobre de uma família numerosa e miserável de Beirute.
  2. (QUER ALGO) – A sua grande preocupação, além de arranjar comida, é proteger a irmã adolescente da cobiça lasciva de um vizinho.
  3. (PARTE) – Quando percebe que a irmã vai ser casada à força, Zain tenta fugir de casa com ela. O seu plano falha mas ele deixa a família e procura refúgio nas ruas.
  4. (EM BUSCA) Zain aprende a sobreviver nos bairros pobres da capital libanesa.
  5. (ENCONTRA) Encontra um simulacro de família nas pessoas de Rahil, uma imigrante ilegal, e do seu filho bebé Yonas, que o aceitam.
  6. (PAGA O PREÇO) – Zain toma conta de Yonas enquanto Rahil trabalha, mas quando esta é presa numa rusga acaba por ficar sozinho com o bebé. Isso obriga-o a procurar novos expedientes para sobreviver e, por fim, a entregar Yonas a um comerciante que promete ajudá-lo a emigrar para a Europa.
  7. (E VOLTA) Zain regressa a casa para tentar arranjar os documentos de que precisa para emigrar, e descobre que a irmã morreu em consequência de uma gravidez.
  8. (MUDADO) – Mas agora Zain já não é a criança indefesa do início; é um adolescente duro e decidido, que tenta matar o cunhado e, depois de preso por isso, coloca os pais em tribunal por o terem trazido a este mundo injusto.

Conclusão

Como qualquer outra teoria dramática, não devemos pensar no Story Circle como uma receita infalível para todas as narrativas.

É apenas uma lente especial, entre muitas outras, com a qual podemos olhar para a nossa estória.

Se acharmos que é o prisma adequado, podemos então tentar moldar a narrativa às suas etapas, sabendo que dessa forma estamos a tocar em pontos sensíveis do subconsciente dos nossos espectadores.

Se quiser conhecer melhor o Story Circle, veja como Dan Harmon o explica pelas suas próprias palavras em alguns artigos que ele publicou no seu blogue.

  1. https://channel101.fandom.com/wiki/Story_Structure_101:_Super_Basic_Shit
  2. https://channel101.fandom.com/wiki/Story_Structure_102:_Pure,_Boring_Theory
  3. https://channel101.fandom.com/wiki/Story_Structure_103:_Let%27s_Simplify_Before_Moving_On
  4. https://channel101.fandom.com/wiki/Story_Structure_104:_The_Juicy_Details
  5. https://channel101.fandom.com/wiki/Story_Structure_105:_How_TV_is_Different
  6. https://channel101.fandom.com/wiki/Story_Structure_106:_Five_Minute_Pilots

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2 comentários

  • Caro João Nunes,
    Bom dia!
    Sou brasileiro, morei em Lisboa entre outubro de 2018 e setembro de 2019. Fiz um Curso Geral de Cinema e dois curtas neste curso. tenho acompanhado e seu blog e baixado todo material disponível. Acabei de ler O Herói das Mil faces de Campbell, mas achei este material do Dan Harmon bastante interessante e didático. Vou utilizar as dicas no novo roteiro que estou escrevendo. Parabéns pela página!
    Abs
    Nelson

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