Perguntas & Respostas: transições e legendas.

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(…) Tenho algu­mas dúvi­das: quando usar FADE IN, FADE TO BACKFADE TO BLACK ? Tam­bém já vi em guiões o uso de SUPERIMPOSETITLE OVER BLACK. Como se usa­riam num guião em português.

Jorge

Jorge, não se pre­o­cupe: as suas dúvi­das são par­ti­lha­das por mui­tos lei­to­res, o que se com­pre­ende: além da falta de infor­ma­ção sobre o tema, há uma grande carên­cia de guiões em por­tu­guês dis­po­ní­veis para con­sulta na net. Acho pois que se jus­ti­fica a escrita de um artigo sobre este tema.

inglourious-basterds-crop

Estas expres­sões são encon­tra­das com frequên­cia e um gui­o­nista deve estar bem cons­ci­ente das suas for­mas cor­rec­tas de uti­li­za­ção. Per­ten­cem a dois tipos dife­ren­tes de recur­sos téc­ni­cos, com usos e efei­tos diferentes.

Transições

Antes de avan­çar, devo fazer um escla­re­ci­mento: nunca vi a uti­li­za­ção da expres­são “FADE TO BACK” que, aliás, não faz muito sen­tido. Acho que deve ser uma con­fu­são sua (tal­vez com o “BACK TO:” de que falo adi­ante) ou, então, um erro de orto­gra­fia no guião onde a refe­ren­ciou[1].

As outras duas expres­sões que men­ci­ona — “FADE IN.” e “FADE TO BLACK.” (aten­ção à pon­tu­a­ção — o ponto final deve ser incluído, se qui­ser­mos ser  puris­tas) — são o que se chama tran­si­ções. São indi­ca­ções dadas no guião acerca de for­mas espe­cí­fi­cas de pas­sar de uma cena para a cena seguinte.

A tran­si­ção nor­mal entre duas cenas é o corte, que cos­tuma ser indi­cado como “CUT TO:” (com dois pon­tos). Há outras: “DISSOLVE TO:”, “BACK TO:” ou “MATCH CUT TO:”, só para refe­rir­mos algumas.

O “FADE IN.” é tra­di­ci­o­nal­mente uti­li­zado no iní­cio dos guiões. É um resquí­cio do tempo em que o começo nor­mal de um filme era um bloco autó­nomo com o gené­rico (nor­mal­mente letras bran­cas sobre um fundo negro), sendo a maneira nor­mal de intro­du­zir as pri­mei­ras ima­gens elas materializarem-​​se len­ta­mente sobre esse gené­rico (por “fade in”).

Hoje os fil­mes come­çam mui­tas vezes sem gené­rico, ou este só entra depois de uma sequên­cia ini­cial, ou vai sendo sobre­posto às ima­gens do pró­prio filme. As solu­ções são múl­ti­plas, mas a tra­di­ção leva-​​nos a con­ti­nuar a usar o “FADE IN.” antes do pri­meiro cabe­ça­lho do guião. Se não o uti­li­zar não vem mal nenhum ao mundo; na rea­li­dade, é uma indi­ca­ção com­ple­ta­mente inútil.

O “FADE TO BLACK.”, por outro lado, tem uma uti­li­za­ção com­ple­ta­mente dife­rente. Recor­re­mos a ele quando que­re­mos que  haja uma pas­sa­gem por um fundo com­ple­ta­mente negro entre uma cena e outra. Por exem­plo, se um per­so­na­gem é agre­dido e perde a cons­ci­ên­cia. Veja­mos um exem­plo con­creto, reti­rado do meu guião para o filme “Min­delo“[2]:

INT./EXT. JEEPESTRADA DE SÃO VICENTE — NOITE

Sara con­duz com ar meio tresloucado.

O jeep ace­lera pela estrada.

Sara olha pelo retro­vi­sor e vê o namo­rado de Maria João com ar cha­te­ado. Vira a cabeça para trás, distraindo-​​se por um momento.

O jeep entra depressa demais numa curva aper­tada. Os pneus guincham.

Sara, assus­tada, vira-​​se de novo para a frente, e tenta con­tro­lar o carro…

… mas é tarde demais.

FADE TO BLACK.

NEGRO

Sobre o ecrã negro, ouvi­mos o SOM DE UMA TRAVAGEM BRUSCA, a que se segue a caco­fo­nia de METAL AMOLGADOVIDRO PARTIDO de um aci­dente automóvel.

Por fim fica ape­nas a ouvir-​​se o som de UMA BUZINA DE AUTOMÓVEL a tocar con­ti­nu­a­mente, dimi­nuindo pouco a pouco até ficar apenas…

… o SILÊNCIO. UM FEIXE DE LUZ rasga a escu­ri­dão. É uma porta que se abre.

Já agora, veja­mos a uti­li­za­ção das outras tran­si­ções que, a título de exem­plo, referi antes:

  • CUT TO: — tran­si­ção nor­mal de uma cena para outra, por corte sim­ples. Alguns gui­o­nis­tas, como Wil­liam Gold­man, fazem um uso inten­sivo desta indi­ca­ção.  Pode ser usada com muita efi­cá­cia, por exem­plo, numa deter­mi­nada sec­ção de um guião, entre várias cenas cur­tas de uma sequên­cia de acção, para refor­çar a sen­sa­ção de ritmo rápido. Hoje caiu em desuso, pre­ci­sa­mente por ser a norma — o “default”.
  • DISSOLVE TO: — tran­si­ção entre duas cenas, em que a última ima­gem de uma se sobre­põe gra­du­al­mente à pri­meira ima­gem da seguinte. Pode ser usada para intro­du­zir uma sequên­cia de sonho, ou um flashback.
  • BACK TO: — usada quando regres­sa­mos a uma cena ou situ­a­ção que já tinha sido apre­sen­tada antes.
  • MATCH CUT TO: — usa­mos quando que­re­mos que a pri­meira ima­gem de uma cena seja for­mal­mente muito seme­lhante à última ima­gem da cena ante­rior, fazendo uma forte liga­ção entre ambas. Um exem­plo con­creto: ter­mi­nar uma cena com a ima­gem de uma cruz na campa de uma vítima de assas­si­nato, para fazer a liga­ção com a cruz for­mada pelas bar­ras da pri­são onde o assas­sino está preso.

Quando usar as transições

Agora, o mais impor­tante a fixar em rela­ção às tran­si­ções: não as use. Ou, pelo menos, use-​​as o menos possível.

As tran­si­ções, tal como os ângu­los de câmara, são um recurso nar­ra­tivo da com­pe­tên­cia do rea­li­za­dor do filme (no caso dos ângu­los, em acordo com o direc­tor de foto­gra­fia; neste caso, em cola­bo­ra­ção com o mon­ta­dor). Na maior parte das vezes o seu uso será evi­dente, e por­tanto não adi­anta nada estar a indicá-​​las. Nou­tras vezes, a sua uti­li­za­ção depende das solu­ções de rea­li­za­ção que o rea­li­za­dor encon­trar, e que o gui­o­nista não tem como prever.

Assim, deve­mos usar as tran­si­ções com grande mode­ra­ção e ape­nas em casos em que elas acres­cen­tam alguma coisa à com­pre­en­são da nossa nar­ra­tiva. O exem­plo que dei antes, do “MATCH CUT TO:” entre a cruz no cemi­té­rio e as bar­ras da pri­são, seria jus­ti­fi­cá­vel, pois con­tri­bui para esta­be­le­cer uma rela­ção forte entre as duas situ­a­ções: vítima e car­rasco. É pos­sí­vel que o rea­li­za­dor agra­de­cesse a suges­tão e a uti­li­zasse. Mas tam­bém é pos­sí­vel que não o fizesse, ou pre­fe­risse outra solu­ção, e esta­ria no seu pleno direito.

Pense no assunto desta maneira: se escre­ver um guião inteiro sem usar uma única tran­si­ção, é pro­vá­vel que nin­guém repare. Se o encher de tran­si­ções, a torto e a direito, todos vão repa­rar e é pro­vá­vel que irrite algu­mas pes­soas. Além de que vai ocu­par muito espaço que, nor­mal­mente, seria melhor apro­vei­tado para con­tar a sua história.

Final­mente, quanto ao uso das tran­si­ções em guiões por­tu­gue­ses, é fre­quente tro­car “CUT TO:” por “CORTA PARA:” e  “FADE TO BLACK.” por “FADENEGRO.”. Já o “FADE IN.” ou o “MATCH CUT TO:” não têm, que eu conheça, tra­du­ção cor­rente[3]. Idem para o “FADE OUT.”, “FADE TO:” e “JUMP CUT TO:”, ouras tran­si­ções pos­sí­veis sobre as quais não me vou aqui alongar.

Legendas

O segundo grupo a que se refere — o “SUPERIMPOSE:” e o “TITLE OVER BLACK:” — já são de uso mais fre­quente e, como nor­mal­mente con­tri­buem de forma impor­tante para o enten­di­mento da nar­ra­tiva, devem ser uma pre­o­cu­pa­ção do guionista.

Em por­tu­guês nor­mal­mente usam-​​se expres­sões como “LEGENDA:”, “TÍTULO:” ou “CARTÃO:” e “LEGENDA SOBRE NEGRO:” e “TÍTULO SOBRE NEGRO:”. Veja­mos um exem­plo, reti­rado do meu guião para o filme “Assalto ao Santa Maria“[4] .

EXT. PRAÇA DE CARACASAMANHECER

Um GRUPO DE HOMENS, amon­to­ado de forma com­pacta, está de pé num canto de uma praça arbo­ri­zada da cidade.

LEGENDA: Cara­cas, Venezuela

Entre eles destacam-​​se os ros­tos fecha­dos de Zé e Júlio, lutando para man­ter o lugar na pri­meira fila do grupo.

LEGENDA: Dezem­bro de 1960

À sua frente, esta­ci­o­nada, está uma pequena cami­o­neta de caixa aberta, onde já se amon­toam mui­tos operários.

Zé tenta subir para a cami­o­neta mas um CAPATAZ empurra-​​o e fecha a porta da caixa. Bate com a mão na caixa de madeira da cami­o­neta, dando sinal ao moto­rista para pôr o motor em marcha.

CAPATAZ

(em espa­nhol)

Hoje já chega.

Zé olha para o homem, desalentado.

A car­ri­nha afasta-​​se dei­xando para trás aquela massa de tra­ba­lha­do­res, todos com o mesmo ar deses­pe­rado e triste.

É um exem­plo típico da uti­li­za­ção de um texto sobre­posto num guião para iden­ti­fi­car um local e uma época. O texto é indi­cado na des­cri­ção da cena e deve, pois, apa­re­cer tam­bém sobre­posto às ima­gens do filme. Nor­mal­mente o rea­li­za­dor aceita este tipo de suges­tões, a não ser que exa­ge­re­mos, usando indis­cri­mi­na­da­mente legen­das para indi­car coi­sas que são óbvias, ou que podem ser mos­tra­das de outra maneira.

Uma outra pos­si­bi­li­dade de uso de tex­tos sobre­pos­tos são os  que indi­cam uma hora do dia, repe­ti­dos para dar noção da pas­sa­gem do tempo. Um bom exem­plo é a sua uti­li­za­ção nos epi­só­dios da série “24”, em que con­tri­buem para o ritmo e ten­são da narrativa.

O segundo caso, da “LEGENDA SOBRE NEGRO:” ou “TÍTULO SOBRE NEGRO:” é menos vul­gar, mas muito do agrado de alguns gui­o­nis­tas con­tem­po­râ­neos. Quen­tim Taran­tino, por exem­plo, gosta bas­tante deste recurso. No seu último filme, “Inglou­ri­ous Bas­terds”, estas legen­das sobre fundo negro são usa­das como títu­los dos “capí­tu­los” em que a estó­ria é dividida.

Este recurso marca muito, esti­lis­ti­ca­mente, o resul­tado final do filme, e por­tanto deve ser usado com mode­ra­ção. Nem todas as estó­rias se pres­tam a ele. Ao usá-​​lo cor­re­mos o risco de que­brar o fluxo da nar­ra­tiva, e per­der a cone­xão com o espec­ta­dor. É um recurso que torna mais evi­dente o cará­ter fic­tí­cio da nar­ra­ção cine­ma­to­grá­fica, jogando con­tra a simi­li­tude de rea­li­dade que nor­mal­mente que­re­mos conseguir.

É claro que para Quen­tin Taran­tino, que dirige fil­mes que ele pró­prio escre­veu, é mais fácil tomar a deci­são de usar este tipo de recur­sos. Nós, os sim­ples mor­tais, deve­mos fazê-​​lo com mais prudência.

O mais impor­tante é que se entenda bem quando é um caso e quando é o outro. O gui­o­nista bra­si­leiro Bráu­lio Man­to­vani, no seu guião “Cidade de Deus”, usa, por exem­plo, a seguinte frase:

Texto enche a tela: A HISTÓRIA DE CABELEIRA”.

Não é tal­vez a forma mais cor­rente, mas não res­tam dúvi­das sobre o que o autor pre­tende indi­car, e isso é que é o fundamental.

Ter­mino com refe­rên­cia a outra expres­são cor­rente — o “SUBTITLE:”. Usa-​​se quando um per­so­na­gem fala numa lín­gua estran­geira (em rela­ção à lín­gua prin­ci­pal do filme) e as suas pala­vras devem apa­re­cer legen­da­das, mesmo na ver­são ori­gi­nal. Dois exem­plos recen­tes: o já refe­rido “Inglou­ri­ous Bas­terds” e o filme de fic­ção cien­tí­fica “Dis­trict 9″.

O pri­meiro, em que há per­so­na­gens que falam em qua­tro lín­guas dife­ren­tes, usa inten­si­va­mente este recurso. Tem até cenas que se, em vez de legen­da­das, fos­sem dobra­das per­de­riam com­ple­ta­mente o sen­tido. É o caso da genial sequên­cia em “ita­li­ano” antes da ses­são final de cinema. Quanto ao segundo, o uso da legen­da­gem dos diá­lo­gos dos extra­ter­res­tres, que falam sem­pre na sua lín­gua nativa, é muito inte­li­gente e eficiente.

Em por­tu­guês pode­mos usar tam­bém a expres­são “LEGENDA:” para iden­ti­fi­car as fra­ses que entram na legen­da­gem des­ses diá­lo­gos em lín­gua estran­geira. Não me lem­bro de nenhum exem­plo con­creto, por isso peço a ajuda dos lei­to­res: conhe­cem algum guião em por­tu­guês em que haja esta indi­ca­ção de legen­da­gem? Como é que foi apre­sen­tada no guião?

Notas de Rodapé

  1. se algum lei­tor já encon­trou esta expres­são, ou tem opi­nião dife­rente da minha, por favor deixe-​​a nos comen­tá­rios[]
  2. filme ainda não pro­du­zido[]
  3. tam­bém aqui, se algum lei­tor qui­ser avan­çar com suges­tões ou cor­rec­ções, sirva-​​se dos comen­tá­rios[]
  4. obra que, não sei porquê, está a tar­dar a ser exi­bida[]

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{ 11 comments… read them below or add one }

1 Cícero Soares Novembro 20, 2009 às 16:32

 
Duas dúvidas, João, e, ao final, uma certeza (hum, e me desculpe se me alongar demais):
 
- Uma tradução corrente para "DISSOLVE TO:" não poderia ser "FUSÃO PARA:"? Por outro lado, em relação a seus usos para marcar passagens no tempo entre uma cena e outra, podemos considerá-la atualmente redundante?
 
- Quanto à "BACK TO:" ("VOLTA PARA:"), subetende-se que saindo também de cenas de flashback?
 
E a certeza: puxa vida, João, a gente se deixa levar pelo costume (equivocado) e acaba ficando cego ao óbvio: óbvio, "TÍTULO SOBRE NEGRO:" é o modo mais que perfeito de pontuar/nominar capítulos na narrativa. Óbvio, quando temos realmente a intenção de "quebrá-la" e, portanto, deliberar contra aquela "similitude de realidade".
 
Então… indo rapidinho me corrigir.
 
P.S.: Ah, você não falou da tradução para "INTERCUT:" (talvez porque não constasse na pergunta do Jorge), mas um tempinho atrás acho que vi você mesmo usar "INTERCALA:", e eu: "Meus deuses, óbvio!"

Responder

2 João Nunes Novembro 20, 2009 às 17:19

Cícero,

de acordo com tudo o que disse. Nomeadamente que:
- DISSOLVE TO: ou FUSÃO PARA: são normalmente redundantes;
- BACK TO: ou VOLTA PARA: podem também ser usados na saída de um flashback, se “voltarmos para” a cena anterior. Eu prefiro indicar FIM DO FLASHBACK, ou FIM DO SONHO, etc.
- E realmente costumo usar INTERCALA COM: no lugar do INTERCUT:, geralmente em chamadas telefónicas, mas também quando andamos a “saltitar” entre duas cenas.

O que me leva a uma consideração – talvez estivesse na hora de fazermos um esforço, portugueses e brasileiros, para encontrar uma terminologia técnica comum em português.

Responder

3 Cícero Soares Novembro 20, 2009 às 21:38

 
Dúvidas sanadas, obrigado, João. Agora… a respeito da consideração ao qual você foi levado, tenho alguma coisa a dizer:
 
Olha, João, não sou do "meio", mas acho que já vi o bastante para lançar algumas opiniões: pelo menos aqui no Brasil, a disseminação de uma formato padronizado ainda está em curso, mas acho que ainda não encontrou um, hum, solo bem assentado e fértil para prosperar. O "Master Scenes", o modelo que conhecemos, sim, está ele sendo cada vez mais adotado, principalmente pelas novas gerações. Mas há pouca literatura nacional que lhe ajude a ganhar um público não-profissional, a torná-lo popular, como aquele livro do Christopher Riley, por exemplo. E, consequentemente, o que acaba faltando é um caldo de cultura para a "minúcia" da coisa, que nos obrigue (profissionais e não-profissionais) a ficar ali, pensando, discutindo e analisando exaustivamente a escrita da composição de cena a cena de um guião.
 
Mas por que isso? Por que não damos lá muita importância ao espírito, hum, pragmático dos anglo-saxões? E continuamos a achar que formatação é coisa de somenos? Não é bem assim. Acho que aquilo com o qual estamos em falta é aquilo que os EUA já têm há pelo menos um século: 1) guionistas como categoria profissional forte (e olha que nem estou dizendo das coisas do "autoral", João, de tudo isso, aliás, que foi reforçado na Conferência Mundial), o que leva a: 2) Ok, se diretores são guionistas, eles DEVEM escrever como guionistas, e as produtoras DEVEM exigir que os guiões sejam escritos como tais para que sejam produzidos como tais.
 
Aí todo mundo retruca: "Mas isso nunca vai acontecer, só há indústria cinematográfica nos EUA." Ah, mas pode não ser esse o verdadeiro obstáculo. Veja só um grande empecilho para isso começar a acontecer, João (no Brasil principalmente, mas creio que em Portugal se sofra do mesmo): as redes de TVs. Pegue um guião das séries televisivas dos EUA, Canadá ou da Inglaterra e ponha lado a lado com um screenplay qualquer. Você bate o olho e se pergunta: "Mas não é a mesma coisa?"
 
Então, esses esforços para uma comum terminologia técnica (trazida da origem inglesa e, depois, decidida de comum acordo entre os países de língua portuguesa) vão ter resultados práticos mais rápidos, muito mais rápidos se pari-passu com os esforços para se assumir e popularizar o "Master Scenes" entre nós.
 
(Ih, João, me alonguei muito mais que antes…rs.)

Responder

4 João Nunes Novembro 20, 2009 às 23:11

Uma vez mais concordo plenamente com a sua análise. Já começa a ser norma ;-)
Falando a sério, vou pensar numa forma de dar passos concretos no sentido dessa normalização. Talvez criando uma wiki aqui no site, em que as pessoas possam ir interagindo e definindo em conjunto essa “norma”. Ou sugerindo uma parceria ao Fernando Marés de Souza, do Roteiro de Cinema.
Há pouco tempo fui contactado por uma editora, que vai lançar em Portugal um livro de guionismo (não me disseram qual era) e que tinham dúvidas semelhantes, por isso acho que seria útil.
Um primeiro passo será sempre fazer um levantamento de quais os termos ingleses que deveriam ser traduzidos e normalizados. Um segundo passo seria, por exemplo, ver como os nuestros hermanos os traduziram. E depois, procurar as nossas melhores soluções, e as alternativas viáveis.
É claro que começamos mal: em Portugal não nos conseguimos decidir entre “argumento” e “guião”; mais o “roteiro” do Brasil, e a norma começa a descaminhar desde cedo ;-)

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5 Cícero Soares Novembro 21, 2009 às 0:41

 
É isso aí, João. Iniciativas. Pessoais e, como indispensável complemento, iniciativas de "classe". E a sua contemplaria ambos os tipos, já que você está exercendo a presidência da APAD. E já que o Fernando Marés é da diretoria da Associação dos Roteiristas daqui, e tem trânsito na dos AC (Autores de Cinema), a parceria com ele viria bem a calhar.
 
E… Nossa, é mesmo! Não podemos esquecer dos hermanos, os daqui e os de além-mar…rs. (Inclusive… Hoje é o último dia, no Rio de Janeiro, do II Encontro de Roteiristas, que este ano agrega a participação de guionistas latino-americanos: http://www.encontroderoteiristas.com.br. Um avanço.)

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6 JORGE RIBEIRO Novembro 21, 2009 às 2:20

Muito obrigado pelo post.
Muito brevemente só gostaria de perguntar, você usa o FADE TO BLACK. talvez por ser como eu (curtir a lingua inglesa), e usou um termo em portugues o LEGENDA: e nao o SUPERIMPOSE:, seria correcto pôr FADE TO BLACK(que pessoalmente prefiro do que pôr FADE A PRETO), e no mesmo guiao por palavras como LEGENDA: em vez de SUPERIMPOSE:   ?
Eu gosto muito de usar o ingles como voce ja disse uma vez que gostava de usar quando pensa para si, eu gosto de usar muitas vezes termos mesmo quando falo com os meus amigos. Seria correcto por esses "FADE TO BLACK" e "SUPERIMPOSE" que se usam num guiao a ingles num guiao supostamente todo em portugues ?

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7 João Nunes Novembro 23, 2009 às 14:12

Perfeitamente correcto. Não há regras estritas nessas coisas, a única preocupação é que as pessoas a quem destinamos o guião saibam o que queremos dizer. Enquanto não houver um entendimento generalizado, que conduza a uma “norma” aplicada na prática, o que vale é o que funciona para nós. Até nos EUA há inúmeras variações e usos diferenciados.
Por exemplo, já tive de alterar um guião porque o produtor não entendeu o (V.O.) e o (O.S.). Transformei tudo em (OFF) e deixei que as descrições de cada cena dessem o contexto certo.

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8 Nélia Novembro 22, 2009 às 16:51

Eu por acaso também tenho dúvidas no uso do "INTERCALA COM:" e do seu uso em cenas que estão a decorrer ao mesmo tempo.
Numa cena ao telefone, por exemplo, colocamos sempre o cabeçalho da cena de cada vez que intercala ou estabelecemos no início onde está cada personagem e depois só precisamos de indicar o diálogo entre personagens?
E em cenas que decorrem ao mesmo tempo, como no final do "Padrinho"? Já tentei ler o guião original mas ainda não consegui. Como se estabelece essa ligação entre as cenas que estão a decorrer em simultâneo? Tem de se colocar o "INTERCUT:" em todas?
Obrigado.

Responder

9 João Nunes Novembro 23, 2009 às 14:13
10 Tiago Dezembro 7, 2009 às 12:35

Parece-me que o termo usado nos anos de ouro do cinema português para DISSOLVE TO: era ENCADEAR PARA:
Se é mais correcto nos dias de hoje que FUSÃO PARA: isso não sei…

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11 João Nunes Dezembro 7, 2009 às 12:39

Obrigado, Tiago

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