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Perguntas & Respostas: transições e legendas.

(…) Tenho algu­mas dúvi­das: quando usar FADE IN, FADE TO BACKFADE TO BLACK ? Tam­bém já vi em guiões o uso de SUPERIMPOSETITLE OVER BLACK. Como se usa­riam num guião em português.

Jorge

Jorge, não se pre­o­cupe: as suas dúvi­das são par­ti­lha­das por mui­tos lei­to­res, o que se com­pre­ende: além da falta de infor­ma­ção sobre o tema, há uma grande carên­cia de guiões em por­tu­guês dis­po­ní­veis para con­sulta na net. Acho pois que se jus­ti­fica a escrita de um artigo sobre este tema.

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Estas expres­sões são encon­tra­das com frequên­cia e um gui­o­nista deve estar bem cons­ci­ente das suas for­mas cor­rec­tas de uti­li­za­ção. Per­ten­cem a dois tipos dife­ren­tes de recur­sos téc­ni­cos, com usos e efei­tos diferentes.

Transições

Antes de avan­çar, devo fazer um escla­re­ci­mento: nunca vi a uti­li­za­ção da expres­são “FADE TO BACK” que, aliás, não faz muito sen­tido. Acho que deve ser uma con­fu­são sua (tal­vez com o “BACK TO:” de que falo adi­ante) ou, então, um erro de orto­gra­fia no guião onde a refe­ren­ciou[1].

As outras duas expres­sões que men­ci­ona — “FADE IN.” e “FADE TO BLACK.” (aten­ção à pon­tu­a­ção — o ponto final deve ser incluído, se qui­ser­mos ser  puris­tas) — são o que se chama tran­si­ções. São indi­ca­ções dadas no guião acerca de for­mas espe­cí­fi­cas de pas­sar de uma cena para a cena seguinte.

A tran­si­ção nor­mal entre duas cenas é o corte, que cos­tuma ser indi­cado como “CUT TO:” (com dois pon­tos). Há outras: “DISSOLVE TO:”, “BACK TO:” ou “MATCH CUT TO:”, só para refe­rir­mos algumas.

O “FADE IN.” é tra­di­ci­o­nal­mente uti­li­zado no iní­cio dos guiões. É um resquí­cio do tempo em que o começo nor­mal de um filme era um bloco autó­nomo com o gené­rico (nor­mal­mente letras bran­cas sobre um fundo negro), sendo a maneira nor­mal de intro­du­zir as pri­mei­ras ima­gens elas materializarem-​​se len­ta­mente sobre esse gené­rico (por “fade in”).

Hoje os fil­mes come­çam mui­tas vezes sem gené­rico, ou este só entra depois de uma sequên­cia ini­cial, ou vai sendo sobre­posto às ima­gens do pró­prio filme. As solu­ções são múl­ti­plas, mas a tra­di­ção leva-​​nos a con­ti­nuar a usar o “FADE IN.” antes do pri­meiro cabe­ça­lho do guião. Se não o uti­li­zar não vem mal nenhum ao mundo; na rea­li­dade, é uma indi­ca­ção com­ple­ta­mente inútil.

O “FADE TO BLACK.”, por outro lado, tem uma uti­li­za­ção com­ple­ta­mente dife­rente. Recor­re­mos a ele quando que­re­mos que  haja uma pas­sa­gem por um fundo com­ple­ta­mente negro entre uma cena e outra. Por exem­plo, se um per­so­na­gem é agre­dido e perde a cons­ci­ên­cia. Veja­mos um exem­plo con­creto, reti­rado do meu guião para o filme “Min­delo“[2]:

INT./EXT. JEEPESTRADA DE SÃO VICENTE — NOITE

Sara con­duz com ar meio tresloucado.

O jeep ace­lera pela estrada.

Sara olha pelo retro­vi­sor e vê o namo­rado de Maria João com ar cha­te­ado. Vira a cabeça para trás, distraindo-​​se por um momento.

O jeep entra depressa demais numa curva aper­tada. Os pneus guincham.

Sara, assus­tada, vira-​​se de novo para a frente, e tenta con­tro­lar o carro…

… mas é tarde demais.

FADE TO BLACK.

NEGRO

Sobre o ecrã negro, ouvi­mos o SOM DE UMA TRAVAGEM BRUSCA, a que se segue a caco­fo­nia de METAL AMOLGADOVIDRO PARTIDO de um aci­dente automóvel.

Por fim fica ape­nas a ouvir-​​se o som de UMA BUZINA DE AUTOMÓVEL a tocar con­ti­nu­a­mente, dimi­nuindo pouco a pouco até ficar apenas…

… o SILÊNCIO. UM FEIXE DE LUZ rasga a escu­ri­dão. É uma porta que se abre.

Já agora, veja­mos a uti­li­za­ção das outras tran­si­ções que, a título de exem­plo, referi antes:

  • CUT TO: — tran­si­ção nor­mal de uma cena para outra, por corte sim­ples. Alguns gui­o­nis­tas, como Wil­liam Gold­man, fazem um uso inten­sivo desta indi­ca­ção.  Pode ser usada com muita efi­cá­cia, por exem­plo, numa deter­mi­nada sec­ção de um guião, entre várias cenas cur­tas de uma sequên­cia de acção, para refor­çar a sen­sa­ção de ritmo rápido. Hoje caiu em desuso, pre­ci­sa­mente por ser a norma — o “default”.
  • DISSOLVE TO: — tran­si­ção entre duas cenas, em que a última ima­gem de uma se sobre­põe gra­du­al­mente à pri­meira ima­gem da seguinte. Pode ser usada para intro­du­zir uma sequên­cia de sonho, ou um flashback.
  • BACK TO: — usada quando regres­sa­mos a uma cena ou situ­a­ção que já tinha sido apre­sen­tada antes.
  • MATCH CUT TO: — usa­mos quando que­re­mos que a pri­meira ima­gem de uma cena seja for­mal­mente muito seme­lhante à última ima­gem da cena ante­rior, fazendo uma forte liga­ção entre ambas. Um exem­plo con­creto: ter­mi­nar uma cena com a ima­gem de uma cruz na campa de uma vítima de assas­si­nato, para fazer a liga­ção com a cruz for­mada pelas bar­ras da pri­são onde o assas­sino está preso.

Quando usar as transições

Agora, o mais impor­tante a fixar em rela­ção às tran­si­ções: não as use. Ou, pelo menos, use-​​as o menos possível.

As tran­si­ções, tal como os ângu­los de câmara, são um recurso nar­ra­tivo da com­pe­tên­cia do rea­li­za­dor do filme (no caso dos ângu­los, em acordo com o direc­tor de foto­gra­fia; neste caso, em cola­bo­ra­ção com o mon­ta­dor). Na maior parte das vezes o seu uso será evi­dente, e por­tanto não adi­anta nada estar a indicá-​​las. Nou­tras vezes, a sua uti­li­za­ção depende das solu­ções de rea­li­za­ção que o rea­li­za­dor encon­trar, e que o gui­o­nista não tem como prever.

Assim, deve­mos usar as tran­si­ções com grande mode­ra­ção e ape­nas em casos em que elas acres­cen­tam alguma coisa à com­pre­en­são da nossa nar­ra­tiva. O exem­plo que dei antes, do “MATCH CUT TO:” entre a cruz no cemi­té­rio e as bar­ras da pri­são, seria jus­ti­fi­cá­vel, pois con­tri­bui para esta­be­le­cer uma rela­ção forte entre as duas situ­a­ções: vítima e car­rasco. É pos­sí­vel que o rea­li­za­dor agra­de­cesse a suges­tão e a uti­li­zasse. Mas tam­bém é pos­sí­vel que não o fizesse, ou pre­fe­risse outra solu­ção, e esta­ria no seu pleno direito.

Pense no assunto desta maneira: se escre­ver um guião inteiro sem usar uma única tran­si­ção, é pro­vá­vel que nin­guém repare. Se o encher de tran­si­ções, a torto e a direito, todos vão repa­rar e é pro­vá­vel que irrite algu­mas pes­soas. Além de que vai ocu­par muito espaço que, nor­mal­mente, seria melhor apro­vei­tado para con­tar a sua história.

Final­mente, quanto ao uso das tran­si­ções em guiões por­tu­gue­ses, é fre­quente tro­car “CUT TO:” por “CORTA PARA:” e  “FADE TO BLACK.” por “FADENEGRO.”. Já o “FADE IN.” ou o “MATCH CUT TO:” não têm, que eu conheça, tra­du­ção cor­rente[3]. Idem para o “FADE OUT.”, “FADE TO:” e “JUMP CUT TO:”, ouras tran­si­ções pos­sí­veis sobre as quais não me vou aqui alongar.

Legendas

O segundo grupo a que se refere — o “SUPERIMPOSE:” e o “TITLE OVER BLACK:” — já são de uso mais fre­quente e, como nor­mal­mente con­tri­buem de forma impor­tante para o enten­di­mento da nar­ra­tiva, devem ser uma pre­o­cu­pa­ção do guionista.

Em por­tu­guês nor­mal­mente usam-​​se expres­sões como “LEGENDA:”, “TÍTULO:” ou “CARTÃO:” e “LEGENDA SOBRE NEGRO:” e “TÍTULO SOBRE NEGRO:”. Veja­mos um exem­plo, reti­rado do meu guião para o filme “Assalto ao Santa Maria“[4] .

EXT. PRAÇA DE CARACASAMANHECER

Um GRUPO DE HOMENS, amon­to­ado de forma com­pacta, está de pé num canto de uma praça arbo­ri­zada da cidade.

LEGENDA: Cara­cas, Venezuela

Entre eles destacam-​​se os ros­tos fecha­dos de Zé e Júlio, lutando para man­ter o lugar na pri­meira fila do grupo.

LEGENDA: Dezem­bro de 1960

À sua frente, esta­ci­o­nada, está uma pequena cami­o­neta de caixa aberta, onde já se amon­toam mui­tos operários.

Zé tenta subir para a cami­o­neta mas um CAPATAZ empurra-​​o e fecha a porta da caixa. Bate com a mão na caixa de madeira da cami­o­neta, dando sinal ao moto­rista para pôr o motor em marcha.

CAPATAZ

(em espa­nhol)

Hoje já chega.

Zé olha para o homem, desalentado.

A car­ri­nha afasta-​​se dei­xando para trás aquela massa de tra­ba­lha­do­res, todos com o mesmo ar deses­pe­rado e triste.

É um exem­plo típico da uti­li­za­ção de um texto sobre­posto num guião para iden­ti­fi­car um local e uma época. O texto é indi­cado na des­cri­ção da cena e deve, pois, apa­re­cer tam­bém sobre­posto às ima­gens do filme. Nor­mal­mente o rea­li­za­dor aceita este tipo de suges­tões, a não ser que exa­ge­re­mos, usando indis­cri­mi­na­da­mente legen­das para indi­car coi­sas que são óbvias, ou que podem ser mos­tra­das de outra maneira.

Uma outra pos­si­bi­li­dade de uso de tex­tos sobre­pos­tos são os  que indi­cam uma hora do dia, repe­ti­dos para dar noção da pas­sa­gem do tempo. Um bom exem­plo é a sua uti­li­za­ção nos epi­só­dios da série “24”, em que con­tri­buem para o ritmo e ten­são da narrativa.

O segundo caso, da “LEGENDA SOBRE NEGRO:” ou “TÍTULO SOBRE NEGRO:” é menos vul­gar, mas muito do agrado de alguns gui­o­nis­tas con­tem­po­râ­neos. Quen­tim Taran­tino, por exem­plo, gosta bas­tante deste recurso. No seu último filme, “Inglou­ri­ous Bas­terds”, estas legen­das sobre fundo negro são usa­das como títu­los dos “capí­tu­los” em que a estó­ria é dividida.

Este recurso marca muito, esti­lis­ti­ca­mente, o resul­tado final do filme, e por­tanto deve ser usado com mode­ra­ção. Nem todas as estó­rias se pres­tam a ele. Ao usá-​​lo cor­re­mos o risco de que­brar o fluxo da nar­ra­tiva, e per­der a cone­xão com o espec­ta­dor. É um recurso que torna mais evi­dente o cará­ter fic­tí­cio da nar­ra­ção cine­ma­to­grá­fica, jogando con­tra a simi­li­tude de rea­li­dade que nor­mal­mente que­re­mos conseguir.

É claro que para Quen­tin Taran­tino, que dirige fil­mes que ele pró­prio escre­veu, é mais fácil tomar a deci­são de usar este tipo de recur­sos. Nós, os sim­ples mor­tais, deve­mos fazê-​​lo com mais prudência.

O mais impor­tante é que se entenda bem quando é um caso e quando é o outro. O gui­o­nista bra­si­leiro Bráu­lio Man­to­vani, no seu guião “Cidade de Deus”, usa, por exem­plo, a seguinte frase:

Texto enche a tela: A HISTÓRIA DE CABELEIRA”.

Não é tal­vez a forma mais cor­rente, mas não res­tam dúvi­das sobre o que o autor pre­tende indi­car, e isso é que é o fundamental.

Ter­mino com refe­rên­cia a outra expres­são cor­rente — o “SUBTITLE:”. Usa-​​se quando um per­so­na­gem fala numa lín­gua estran­geira (em rela­ção à lín­gua prin­ci­pal do filme) e as suas pala­vras devem apa­re­cer legen­da­das, mesmo na ver­são ori­gi­nal. Dois exem­plos recen­tes: o já refe­rido “Inglou­ri­ous Bas­terds” e o filme de fic­ção cien­tí­fica “Dis­trict 9″.

O pri­meiro, em que há per­so­na­gens que falam em qua­tro lín­guas dife­ren­tes, usa inten­si­va­mente este recurso. Tem até cenas que se, em vez de legen­da­das, fos­sem dobra­das per­de­riam com­ple­ta­mente o sen­tido. É o caso da genial sequên­cia em “ita­li­ano” antes da ses­são final de cinema. Quanto ao segundo, o uso da legen­da­gem dos diá­lo­gos dos extra­ter­res­tres, que falam sem­pre na sua lín­gua nativa, é muito inte­li­gente e eficiente.

Em por­tu­guês pode­mos usar tam­bém a expres­são “LEGENDA:” para iden­ti­fi­car as fra­ses que entram na legen­da­gem des­ses diá­lo­gos em lín­gua estran­geira. Não me lem­bro de nenhum exem­plo con­creto, por isso peço a ajuda dos lei­to­res: conhe­cem algum guião em por­tu­guês em que haja esta indi­ca­ção de legen­da­gem? Como é que foi apre­sen­tada no guião?

Notas de Rodapé

  1. se algum lei­tor já encon­trou esta expres­são, ou tem opi­nião dife­rente da minha, por favor deixe-​​a nos comen­tá­rios[]
  2. filme ainda não pro­du­zido[]
  3. tam­bém aqui, se algum lei­tor qui­ser avan­çar com suges­tões ou cor­rec­ções, sirva-​​se dos comen­tá­rios[]
  4. obra que, não sei porquê, está a tar­dar a ser exi­bida[]
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16 Comentários

  1. Publicado 20/11/2009 às 16:32 | Link

     
    Duas dúvi­das, João, e, ao final, uma cer­teza (hum, e me des­culpe se me alon­gar demais):
     
    – Uma tra­du­ção cor­rente para “DISSOLVE TO:” não pode­ria ser “FUSÃO PARA:”? Por outro lado, em rela­ção a seus usos para mar­car pas­sa­gens no tempo entre uma cena e outra, pode­mos considerá-​​la atu­al­mente redun­dante?
     
    – Quanto à “BACK TO:” (“VOLTA PARA:”), subetende-​​se que saindo tam­bém de cenas de flash­back?
     
    E a cer­teza: puxa vida, João, a gente se deixa levar pelo cos­tume (equi­vo­cado) e acaba ficando cego ao óbvio: óbvio, “TÍTULO SOBRE NEGRO:” é o modo mais que per­feito de pontuar/​nominar capí­tu­los na nar­ra­tiva. Óbvio, quando temos real­mente a inten­ção de “quebrá-​​la” e, por­tanto, deli­be­rar con­tra aquela “simi­li­tude de rea­li­dade”.
     
    Então… indo rapi­di­nho me cor­ri­gir.
     
    P.S.: Ah, você não falou da tra­du­ção para “INTERCUT:” (tal­vez por­que não cons­tasse na per­gunta do Jorge), mas um tem­pi­nho atrás acho que vi você mesmo usar “INTERCALA:”, e eu: “Meus deu­ses, óbvio!”

    • João Nunes
      Publicado 20/11/2009 às 17:19 | Link

      Cícero,

      de acordo com tudo o que disse. Nome­a­da­mente que:
      DISSOLVE TO: ou FUSÃO PARA: são nor­mal­mente redun­dan­tes;
      BACK TO: ou VOLTA PARA: podem tam­bém ser usa­dos na saída de um flash­back, se “vol­tar­mos para” a cena ante­rior. Eu pre­firo indi­car FIM DO FLASHBACK, ou FIM DO SONHO, etc.
      – E real­mente cos­tumo usar INTERCALA COM: no lugar do INTERCUT:, geral­mente em cha­ma­das tele­fó­ni­cas, mas tam­bém quando anda­mos a “sal­ti­tar” entre duas cenas.

      O que me leva a uma con­si­de­ra­ção — tal­vez esti­vesse na hora de fazer­mos um esforço, por­tu­gue­ses e bra­si­lei­ros, para encon­trar uma ter­mi­no­lo­gia téc­nica comum em português.

  2. Publicado 20/11/2009 às 21:38 | Link

     
    Dúvi­das sana­das, obri­gado, João. Agora… a res­peito da con­si­de­ra­ção ao qual você foi levado, tenho alguma coisa a dizer:
     
    Olha, João, não sou do “meio”, mas acho que já vi o bas­tante para lan­çar algu­mas opi­niões: pelo menos aqui no Bra­sil, a dis­se­mi­na­ção de uma for­mato padro­ni­zado ainda está em curso, mas acho que ainda não encon­trou um, hum, solo bem assen­tado e fér­til para pros­pe­rar. O “Mas­ter Sce­nes”, o modelo que conhe­ce­mos, sim, está ele sendo cada vez mais ado­tado, prin­ci­pal­mente pelas novas gera­ções. Mas há pouca lite­ra­tura naci­o­nal que lhe ajude a ganhar um público não-​​profissional, a torná-​​lo popu­lar, como aquele livro do Chris­topher Riley, por exem­plo. E, con­se­quen­te­mente, o que acaba fal­tando é um caldo de cul­tura para a “minú­cia” da coisa, que nos obri­gue (pro­fis­si­o­nais e não-​​profissionais) a ficar ali, pen­sando, dis­cu­tindo e ana­li­sando exaus­ti­va­mente a escrita da com­po­si­ção de cena a cena de um guião.
     
    Mas por que isso? Por que não damos lá muita impor­tân­cia ao espí­rito, hum, prag­má­tico dos anglo-​​saxões? E con­ti­nu­a­mos a achar que for­ma­ta­ção é coisa de some­nos? Não é bem assim. Acho que aquilo com o qual esta­mos em falta é aquilo que os EUA já têm há pelo menos um século: 1) gui­o­nis­tas como cate­go­ria pro­fis­si­o­nal forte (e olha que nem estou dizendo das coi­sas do “auto­ral”, João, de tudo isso, aliás, que foi refor­çado na Con­fe­rên­cia Mun­dial), o que leva a: 2) Ok, se dire­to­res são gui­o­nis­tas, eles DEVEM escre­ver como gui­o­nis­tas, e as pro­du­to­ras DEVEM exi­gir que os guiões sejam escri­tos como tais para que sejam pro­du­zi­dos como tais.
     
    Aí todo mundo retruca: “Mas isso nunca vai acon­te­cer, só há indús­tria cine­ma­to­grá­fica nos EUA.” Ah, mas pode não ser esse o ver­da­deiro obs­tá­culo. Veja só um grande empe­ci­lho para isso come­çar a acon­te­cer, João (no Bra­sil prin­ci­pal­mente, mas creio que em Por­tu­gal se sofra do mesmo): as redes de TVs. Pegue um guião das séries tele­vi­si­vas dos EUA, Canadá ou da Ingla­terra e ponha lado a lado com um scre­en­play qual­quer. Você bate o olho e se per­gunta: “Mas não é a mesma coisa?“
     
    Então, esses esfor­ços para uma comum ter­mi­no­lo­gia téc­nica (tra­zida da ori­gem inglesa e, depois, deci­dida de comum acordo entre os paí­ses de lín­gua por­tu­guesa) vão ter resul­ta­dos prá­ti­cos mais rápi­dos, muito mais rápi­dos se pari-​​passu com os esfor­ços para se assu­mir e popu­la­ri­zar o “Mas­ter Sce­nes” entre nós.
     
    (Ih, João, me alon­guei muito mais que antes…rs.)

    • João Nunes
      Publicado 20/11/2009 às 23:11 | Link

      Uma vez mais con­cordo ple­na­mente com a sua aná­lise. Já começa a ser norma ;-)
      Falando a sério, vou pen­sar numa forma de dar pas­sos con­cre­tos no sen­tido dessa nor­ma­li­za­ção. Tal­vez cri­ando uma wiki aqui no site, em que as pes­soas pos­sam ir inte­ra­gindo e defi­nindo em con­junto essa “norma”. Ou suge­rindo uma par­ce­ria ao Fer­nando Marés de Souza, do Roteiro de Cinema.
      Há pouco tempo fui con­tac­tado por uma edi­tora, que vai lan­çar em Por­tu­gal um livro de gui­o­nismo (não me dis­se­ram qual era) e que tinham dúvi­das seme­lhan­tes, por isso acho que seria útil.
      Um pri­meiro passo será sem­pre fazer um levan­ta­mento de quais os ter­mos ingle­ses que deve­riam ser tra­du­zi­dos e nor­ma­li­za­dos. Um segundo passo seria, por exem­plo, ver como os nues­tros her­ma­nos os tra­du­zi­ram. E depois, pro­cu­rar as nos­sas melho­res solu­ções, e as alter­na­ti­vas viá­veis.
      É claro que come­ça­mos mal: em Por­tu­gal não nos con­se­gui­mos deci­dir entre “argu­mento” e “guião”; mais o “roteiro” do Bra­sil, e a norma começa a des­ca­mi­nhar desde cedo ;-)

  3. Publicado 21/11/2009 às 0:41 | Link

     
    É isso aí, João. Ini­ci­a­ti­vas. Pes­so­ais e, como indis­pen­sá­vel com­ple­mento, ini­ci­a­ti­vas de “classe”. E a sua con­tem­pla­ria ambos os tipos, já que você está exer­cendo a pre­si­dên­cia da APAD. E já que o Fer­nando Marés é da dire­to­ria da Asso­ci­a­ção dos Rotei­ris­tas daqui, e tem trân­sito na dos AC (Auto­res de Cinema), a par­ce­ria com ele viria bem a calhar.
     
    E… Nossa, é mesmo! Não pode­mos esque­cer dos her­ma­nos, os daqui e os de além-mar…rs. (Inclu­sive… Hoje é o último dia, no Rio de Janeiro, do II Encon­tro de Rotei­ris­tas, que este ano agrega a par­ti­ci­pa­ção de gui­o­nis­tas latino-​​americanos: http://​www​.encon​tro​de​ro​tei​ris​tas​.com​.br. Um avanço.)

  4. JORGE RIBEIRO
    Publicado 21/11/2009 às 2:20 | Link

    Muito obri­gado pelo post.
    Muito bre­ve­mente só gos­ta­ria de per­gun­tar, você usa o FADE TO BLACK. tal­vez por ser como eu (cur­tir a lin­gua inglesa), e usou um termo em por­tu­gues o LEGENDA: e nao o SUPERIMPOSE:, seria cor­recto pôr FADE TO BLACK(que pes­so­al­mente pre­firo do que pôr FADEPRETO), e no mesmo guiao por pala­vras como LEGENDA: em vez de SUPERIMPOSE:   ?
    Eu gosto muito de usar o ingles como voce ja disse uma vez que gos­tava de usar quando pensa para si, eu gosto de usar mui­tas vezes ter­mos mesmo quando falo com os meus ami­gos. Seria cor­recto por esses “FADE TO BLACK” e “SUPERIMPOSE” que se usam num guiao a ingles num guiao supos­ta­mente todo em portugues ?

    • João Nunes
      Publicado 23/11/2009 às 14:12 | Link

      Per­fei­ta­mente cor­recto. Não há regras estri­tas nes­sas coi­sas, a única pre­o­cu­pa­ção é que as pes­soas a quem des­ti­na­mos o guião sai­bam o que que­re­mos dizer. Enquanto não hou­ver um enten­di­mento gene­ra­li­zado, que con­duza a uma “norma” apli­cada na prá­tica, o que vale é o que fun­ci­ona para nós. Até nos EUA há inú­me­ras vari­a­ções e usos dife­ren­ci­a­dos.
      Por exem­plo, já tive de alte­rar um guião por­que o pro­du­tor não enten­deu o (V.O.) e o (O.S.). Trans­for­mei tudo em (OFF) e dei­xei que as des­cri­ções de cada cena des­sem o con­texto certo.

  5. Nélia
    Publicado 22/11/2009 às 16:51 | Link

    Eu por acaso tam­bém tenho dúvi­das no uso do “INTERCALA COM:” e do seu uso em cenas que estão a decor­rer ao mesmo tempo.
    Numa cena ao tele­fone, por exem­plo, colo­ca­mos sem­pre o cabe­ça­lho da cena de cada vez que inter­cala ou esta­be­le­ce­mos no iní­cio onde está cada per­so­na­gem e depois só pre­ci­sa­mos de indi­car o diá­logo entre per­so­na­gens?
    E em cenas que decor­rem ao mesmo tempo, como no final do “Padri­nho”? Já ten­tei ler o guião ori­gi­nal mas ainda não con­se­gui. Como se esta­be­lece essa liga­ção entre as cenas que estão a decor­rer em simul­tâ­neo? Tem de se colo­car o “INTERCUT:” em todas?
    Obrigado.

  6. Tiago
    Publicado 07/12/2009 às 12:35 | Link

    Parece-​​me que o termo usado nos anos de ouro do cinema por­tu­guês para DISSOLVE TO: era ENCADEAR PARA:
    Se é mais cor­recto nos dias de hoje que FUSÃO PARA: isso não sei…

    • João Nunes
      Publicado 07/12/2009 às 12:39 | Link

      Obri­gado, Tiago

  7. Publicado 24/09/2010 às 12:12 | Link

    João Nunes eu estou come­çando a desen­vol­ver o site TOP ROTEIRISTAS para ser um espaço aberto para os rotei­ris­tas se encon­tra­rem e não estou falando de um encon­tro, mas de um pen­sa­mento mais pro­fundo sobre a classe de rotei­ris­tas do Bra­sil. Pre­tendo fazer con­cur­sos para rotei­ris­tas onde quem vai esco­lher, votar e expli­car por­que esco­lheu os cinco melho­res rotei­ros são os pró­prios rotei­ris­tas par­ti­ci­pan­tes. Estou me sen­tindo assim como quem pre­para uma festa com todo cari­nho e aten­ção, mas não tem cer­teza se os con­vi­da­dos vão apa­re­cer. Mas, enfim, vou con­ti­nuar a minha pro­posta de união e inde­pên­cia dos rotei­ris­tas e nossa rela­ção com o mer­cado audi­o­vi­sual, que parece estar abrindo fren­tes pelo qu tenho lido pela Inter­net. Mas eu não entrei aqui no seu site para divul­gar os con­cur­sos do TOP ROTEIRISTAS (ainda que eu esteja apro­vei­tando todos os espa­ços para fazer está divul­ga­ção), Eu entrei aqui por­que resolvi já dis­po­ni­bi­li­zar os meus rotei­ros no site e estou com uma dúvida sobre como posso usar INSERT: no sen­tido de fazer o filme rodar para trás rápido, sem que a gente possa iden­ti­fi­car as iam­gens. Não sei se uso DISSOLVE TO: ou FUSÃO PARA: ou se uso BACK TO: ou VOLTA PARA: Se você puder me dar uma luz, fico agra­de­cida. O nome do roteiro é “NÃO FALA QUEM MATOU!”, uma expe­ri­ên­cia que estou fazendo de escre­ver o roteiro sem nenhum diá­logo. Por isto é impor­tante usar movi­men­tos de câmera ou trânsições.

  8. Vinicius M. Ribeiro
    Publicado 18/10/2011 às 19:20 | Link

    Olá, Joao.

    Estava aqui a pro­cura de uma tra­du­ção inter-​​cut para a legenda de um filme que estou fazendo e caí no seu blog. A opção por ‘inter­ca­lar’ é boa, mas creio ser melhor ‘entre-​​corte’. O ‘entre’ dá uma dimen­são melhor para a sepa­ra­ção espa­cial mesmo que existe entre uma cena e outra que se desen­rola em outra rede de rea­li­dade. E ‘corte’ é pelo res­gate do sen­tido do ori­gi­nal em ingles ´cut´; pois o que é cada enqua­dre de cena numa sequen­cia senão uma suces­são de cor­tes de ima­gens estacionadas?

    Vini­cius.

    • João Nunes
      Publicado 18/10/2011 às 19:31 | Link

      Olá Vini­cius, é curi­osa a sua suges­tão (ape­sar de não con­cor­dar com ela ;). Isso realça o fato de não haver uma tra­du­ção con­sen­sual para mui­tas das expres­sões ingle­sas (e fran­ce­sas) usa­das no cinema. Um dos meus pro­je­tos é criar uma wiki asso­ci­ada ao blo­gue com a expli­ca­ção, e tra­du­ção, da ter­mi­no­lo­gia usada na nossa área. Só ainda não o fiz por falta de tempo, mas ainda che­ga­rei lá.

  9. Vinicius
    Publicado 25/10/2011 às 16:22 | Link

    Olá, João.
    Boa tarde.

    Gos­ta­ria de conhe­cer sua jus­ti­fi­ca­tiva para a tra­du­ção de inter-​​cut como ‘inter­ca­lar’. Será que para todo filme onde haja um inter-​​cut, lembrei-​​me de Os Pas­sa­ros, de Hit­ch­cock, no inter-​​cut ocor­rido entre as cenas da explo­são no posto de gaso­lina e a cena aérea que nos dá uma visão pano­râ­mica, mape­ada do acon­te­cido, tirando-​​nos ime­di­a­ta­mente da cena primeira.

    • João Nunes
      Publicado 26/10/2011 às 13:52 | Link

      Inter­ca­lar”, o verbo, sig­ni­fica “alter­nar, entre­me­ter, inter­po­lar”, e é exa­ta­mente isso que nós faze­mos nes­tas situ­a­ções: alter­na­mos, entre­me­te­mos, inter­po­la­mos cenas umas nas outras.

      Nor­mal­mente só uso isto em cha­ma­das tele­fó­ni­cas ou em situ­a­ções em que sal­ta­mos várias vezes entre duas cenas que decor­rem ao mesmo tempo. Mui­tas vezes isso é uma deci­são tomada ape­nas na edi­ção, e não está no guião; se nós já qui­ser­mos indi­car isso no guião, a forma que uso é esta:

      INT. LOCAL A — DIA
      Cena.
      INTERCALA COM:

      EXT. LOCAL B — AO MESMO TEMPO
      Outra cena.
      INTERCALA COM:

      INT. LOCAL A
      Etc…

      Se pre­fe­rir usar a sua forma, tam­bém está bem, desde que os seus lei­to­res enten­dam. No entanto sugiro que adote as regras do novo acordo orto­grá­fico e escreva “ENTRECORTE”, sem hífen.

Um Trackback

  1. Por Flashback 2009 | joaonunes.com a 29/12/2009 às 18:10

    […] Tran­si­ções e legendas […]

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