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Novo desafio: escrever uma cena de flashback

Aten­ção: o pas­sa­tempo já encer­rou. Por favor não enviem mais cenas. Foi um sucesso e os ven­ce­do­res serão apre­sen­ta­dos na segunda feira. Incluindo o ven­ce­dor do Pré­mio Entu­si­asmo, que resolvi criar depois de rece­ber as propostas.

No iní­cio do ano lan­cei aos lei­to­res o desa­fio de escre­ve­rem um guião em 2010. Não sei quan­tos lei­to­res o acei­ta­ram (houve bas­tan­tes a dizer que o iam fazer) mas neste momento já vamos quase em 30% do ano, o que quer dizer que deve­riam ter perto de 30 pági­nas escri­tas. Estão pró­ximo? Ou ainda andam a afi­nar ideias?

Seja como for, lembrei-​​me de lan­çar um novo desa­fio, mais pequeno, sim­ples e de dura­ção limi­tada, mas que pode ser muito esti­mu­lante e diver­tido: escre­ver uma única cena, segundo um mote que vou dar a seguir.

Mas antes, os prémios:

  • para o pri­meiro lei­tor a enviar uma cena (com pés e cabeça) — um DVD (usado ;), à esco­lha do vencedor, de “Blade Run­ner” ou “Taxi Dri­ver”, dois dos meus fil­mes favo­ri­tos de sem­pre[1].
  • para a melhor cena (segundo o meu cri­té­rio pes­soal e alta­mente sub­je­tivo) — uma cópia por estrear do diver­tido livro “Which lie did I tell”, do gui­o­nista Wil­liam Gold­man, sobre as suas expe­ri­ên­cias em Hollywood[2].

Os por­tes de cor­reio são por minha conta.

O desa­fio

Então aqui fica o mote:

No nosso filme fic­tí­cio, “Culto Zom­bie”, Oscar, o pro­ta­go­nista, foi apa­nhado com a namo­rada Andreia no meio de uma epi­de­mia de ‘zom­bies’ de pri­meira grandeza.

Depois de pas­sa­rem uma boa parte do tempo a fugir deles, quase são alcan­ça­dos num par­que de esta­ci­o­na­mento de um shopping.

Nesta cena Oscar des­co­bre que, em vez de o faze­rem em peda­ços, os ‘zom­bies’ come­çam a adorá-​​lo como um deus.

EXT. PARQUE DE ESTACIONAMENTO — NOITE

Oscar, ainda com a caça­deira na mão, abre os olhos. Está vivo.

Olha em redor espantado. O enorme ‘zom­bie’ gordo está ajo­e­lhado aos seus pés, tocando com devo­ção na barra das suas calças.

Andreia levanta-​​se tam­bém, incré­dula com o que está a ver: os ‘zom­bies’ que momen­tos antes os per­se­guiam estão agora ajo­e­lha­dos, esten­dendo os bra­ços na direc­ção de Oscar e baixando-​​se depois até tocar com as tes­tas no chão.

ANDREIA

Oscar. O que é que está a acontecer?

Oscar não res­ponde. O seu olhar está per­dido na distância.

ANDREIA

Oscar…?

CORTA PARA FLASHBACK:

Segue-​​se o FLASHBACK que vocês terão de escre­ver.

O FLASHBACK pode ser sério, engra­çado, raci­o­nal, absurdo, cien­tí­fico. Pode ser longo, ou curto, linear ou com­plexo. Pode ser uma única cena, ou uma sequên­cia, ter diá­lo­gos ou ser mudo. É como quiserem.

Tem é de ser ori­gi­nal, cri­a­tivo e fazer algum sen­tido na sequên­cia da cena ante­rior. E, obvi­a­mente, tem de ser bem escrito, de acordo com os melho­res padrões de escrita de guião.

Uma res­salva impor­tante. O pré­mio Rapi­dez, entre­gue ao pri­meiro lei­tor a enviar uma cena será sem­pre entre­gue; o pré­mio Melhor Cena só será entre­gue se eu gos­tar real­mente  de alguma das pro­pos­tas envi­a­das. Mas pro­meto que vou esforçar-​​me por gostar.

Dei­xem as vos­sas pro­pos­tas nos comen­tá­rios a este artigo, até à pró­xima sexta-​​feira, 16 de abril. Não se pre­o­cu­pem por­que só serão mos­tra­das depois do pas­sa­tempo terminar.

No fim de semana de 1718 esco­lhe­rei a melhor cena e de hoje a uma semana, a 19 de abril, indi­ca­rei o vencedor.

Podem come­çar!

Nota para os lei­to­res des­con­fi­a­dos (por­que os há): não estou a escre­ver nenhum filme de zom­bies e não vou apro­vei­tar estas cenas para guião nenhum. Não quero rou­bar as vos­sas ideias. Todas as cenas que envi­a­rem serão publi­ca­das no fim do pas­sa­tempo. Se mesmo assim con­ti­nu­a­rem a des­con­fiar das minhas inten­ções, basta não con­cor­rer; não é pre­ciso dei­xar comen­tá­rios desagradáveis.

Notas de Rodapé

  1. vou com­prar em Blu­e­Ray, por isso posso dis­pen­sar um[]
  2. não sei porquê, com­prei dois exem­pla­res em altu­ras dife­ren­tes[]

Alguns artigos afins de que talvez goste:

  1. Uma cena de Conexão
  2. Per­gun­tas & Res­pos­tas: escre­ver uma curta ou uma longa?
  3. Que tal o novo visual?
  4. Per­gun­tas & Res­pos­tas: como se escreve um flashback?

Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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25 Comentários

  1. berni ferreira
    Publicado 12/04/2010 às 6:03 | Link

    Exce­lente desa­fio, João! Diverti-​​me bas­tante a escre­ver o resto da sequên­cia. Espero que tenha saído alguma coisa acei­tá­vel e que os res­tan­tes par­ti­ci­pan­tes se divir­tam tanto como eu.
    Só espero que não haja grande incon­ve­ni­ente com os pro­ble­mas de for­ma­ta­ção, uma vez que não tenho nenhum plug-​​in para lidar com esse problema.

    Abraço

    CORTA PARA FLASHBACK:

    INT. QUARTO DE HOSPITAL — NOITE

    VITORINO, o pai de Oscar, con­si­de­ra­vel­mente enve­lhe­cido, pálido e magro, está dei­tado numa cama de hos­pi­tal. Tem um tubo enfi­ado em cada narina. Um moni­tor de bati­men­tos car­día­cos emite PIPS regu­la­res, acom­pa­nhando a sua res­pi­ra­ção pesada.

    Oscar, agora com 17 anos, está ao seu lado, de pé, a segurar-​​lhe a mão e a ten­tar sor­rir. O resul­tado desse esforço é ape­nas uma expres­são que parece ainda mais grave do que se não o fizesse.

    VITORINO
    Oscar… tens de saber uma coisa…
    Este segredo já dura há dema­si­ado tempo.
    Con­se­gues tirar-​​me o colar?

    OSCAR
    Tenta não falar, pai. O médico disse que não
    devias fazer esforços.

    VITORINO
    É impor­tante, Oscar.

    Oscar estende as mãos na direc­ção do colar do seu pai. Cui­da­do­sa­mente, eleva-​​lhe um pouco a cabeça e retira do pes­coço de Vito­rino uma cor­rente, com uma chave na extremidade.

    VITORINO
    Vais saber o que fazer quando che­gar
    o dia… Filho…

    OSCAR
    Sim, pai…

    VITORINO
    Sei que vais fazer a esco­lha certa. Pro­cura na cave…

    Vito­rino não con­se­gue ter­mi­nar. Os seus olhos imobilizam-​​se. O moni­tor dis­para, sol­tando um silvo con­tí­nuo, agudo.

    Oscar agarra-​​se ao pai, ten­tando deses­pe­ra­da­mente acordá-​​lo.

    OSCAR
    Pai! Acorda!

    INT. QUARTO DE OSCAR — NOITE

    Oscar, agora com 12 anos, está sen­tado no chão do seu quarto a brin­car com legos. Come­çam a ouvir-​​se VOZES QUE DISCUTEM atra­vés da porta, que des­per­tam de ime­di­ato a sua atenção.

    O miúdo ergue-​​se len­ta­mente e, hesi­tante, aproxima-​​se da porta do quarto. Abre-​​a len­ta­mente. As VOZES aumen­tam de inten­si­dade, mas as pala­vras con­ti­nuam a não se perceber.

    Oscar atra­vessa a porta para o

    CORREDOR,

    que começa a per­cor­rer em pon­tas de pés, ten­tando fazer o mínimo de baru­lho possível.

    Enquanto desce as esca­das para o hall, a dis­cus­são torna-​​se gra­du­al­mente mais per­cep­tí­vel. A pri­meira é a voz do seu pai.

    VITORINO (O.S.)
    Você não pode fazer isto! Esta­mos a falar do
    meu filho, porra!

    ESTRANHO (O.S.)
    Não é só o seu filho! Ele é o esco­lhido! Ele é o
    líder! Não pode con­ti­nuar a impedi-​​lo de cum­prir
    o seu destino!

    Oscar con­se­gue agora ver, atra­vés das bar­ras do cor­ri­mão das esca­das, o seu pai, que con­versa com um homem de sobre­tudo e casaco, vol­tado de costas.

    VITORINO
    Ele é um só um menino! Uma cri­ança! O meu
    filho é um ser humano!

    Neste momento, o tom de voz do Estra­nho torna-​​se mais baixo, mais calmo, mais confiante.

    ESTRANHO
    Sabe bem que isso não é verdade.

    O pai de Oscar esconde a cabeça entre as mãos. Quando se pre­para para con­ti­nuar a dis­cus­são, per­cebe final­mente que o seu filho está a assis­tir à discussão.

    VITORINO
    Oscar! O que é que estás a fazer a pé?
    Já para a cama!
    (para o Estra­nho)
    E você, saia já daqui! Saia desta casa e
    não volte mais!

    Oscar desa­pa­rece a cor­rer pelas esca­das acima.

    ESTRANHO
    Eu saio, não se pre­o­cupe. Mas não se esqueça…
    Não pode adiar eter­na­mente o inevitável.

    INT. QUARTO DE OSCAR — DIA

    Oscar, agora com oito anos de idade, está dei­tado na cama, debaixo de um monte de man­tas, com um tre­mó­me­tro na boca, a ler uma banda desenhada.

    A sua mãe, VITÓRIA, entra no quarto, car­re­gando uma ban­deja com um copo de leite e bola­chas de cho­co­late. Aproxima-​​se do filho, sentando-​​se sobre a cama. Faz-​​lhe uma festa no cabelo.

    VITÓRIA
    Então? Como vai o meu menino?

    Vitó­ria retira cui­da­do­sa­mente o ter­mó­me­tro da boca de Óscar, em cujo rosto surge ime­di­a­ta­mente um sor­riso apagado.

    OSCAR
    Acho que estou na mesma.

    Enquanto Vitó­ria observa o ter­mó­me­tro, um pedaço de pele cai do seu rosto, dando lugar a um buraco atra­vés do qual a carne se tor­nou visível.

    OSCAR
    Mãe? Tam­bém estás doente?

    VITÓRIA
    Doente como?…

    Óscar estica a mão para o rosto da mãe, incré­dulo. Toca-​​lhe direc­ta­mente na ferida recente. Dois dos seus peque­nos dedos estão agora cober­tos de san­gue, que exibe perante o olhar de Vitória.

    VITÓRIA
    Esquece isto, Oscar! Não acon­te­ceu nada,
    foi só uma brin­ca­deira parva. Esquece isto,
    estás a ouvir?

    Vitó­ria ergue-​​se de rom­pante e sai do quarto a correr.

    FIM DE FLASHBACK:

    EXT. PARQUE DE ESTACIONAMENTO — NOITE

    Vol­ta­mos ao pre­sente. Oscar está exac­ta­mente na mesma posi­ção, ainda com­ple­ta­mente absorto. Os zom­bies con­ti­nuam a venerá-​​lo como muçul­ma­nos vol­ta­dos para Meca ao final do dia. Andreia começa a sacudi-​​lo violentamente.

    ANDREIA
    Oscar? Oscar! O que é que tu tens?

    Com um pis­car de olhos e um aba­nar de cabeça, Oscar regressa final­mente à realidade.

    OSCAR
    Acho que a minha mãe era um zombie…

    ANDREIA
    Estás parvo? Não dizes coisa com coisa!

    No rosto de Oscar, há agora uma expres­são de pânico.

    OSCAR
    Andreia… Será que eu sou um zombie?

  2. Filipe Vicente
    Publicado 12/04/2010 às 16:06 | Link

    EXT. LARGO DA IGREJA — DIA

    Oscar e Andreia estão de pé, lado a lado, olhando para a igreja. Oscar olha de forma deci­dida para Andreia e começa a avan­çar em direc­ção à igreja. Andreia agarra com força a camisa de Oscar e segue-​​o de perto.

    Oscar empurra len­ta­mente a porta de madeira da igreja, que range. Avança cui­da­do­sa­mente para..
    INT. IGREJA — DIA

    Oscar e Andreia estão para­dos junto à porta, espe­rando que os seus olhos se acos­tu­mem à escuridão.

    Um forte foco de luz natu­ral entra por uma janela alta, projectando-​​se mesmo em frente ao altar. Esta luz é sufi­ci­ente para obser­var toda a igreja, ainda que de forma ténue.

    Oscar avança pelo cor­re­dor cen­tral, ana­li­sando cada fila de cadei­ras, seguido de perto por Andreia.

    POV con­fes­si­o­ná­rio: den­tro do con­fes­si­o­ná­rio, atra­vés da fresta da porta semi-​​cerrada, alguém os observa.

    Oscar e Andreia param a meio do corredor.

    OSCAR
    Padre Lúcio?

    Silên­cio. Subi­ta­mente, um baru­lho por detrás do altar. Oscar segura a caça­deira fir­me­mente com as duas mãos, apon­tando em direc­ção ao altar.

    Avan­çando de gatas para a frente do altar, surge um pesado padre. Oscar e Andreia tro­cam um sor­riso e cami­nham rapi­da­mente para o altar.

    Ao aproximarem-​​se do padre, Andreia tenta pas­sar à frente de Oscar, que pára e a impede.

    ANDREIA
    Que foi?

    OSCAR
    Calma.

    Para­dos sob o foco de luz, Oscar e Andreia obser­vam o padre que se tenta levan­tar. Oscar aponta a caça­deira à cabeça do padre. Este pára de se mexer e, ajo­e­lhado, levanta final­mente a cabeça. O seu olhar não tem vida. Oscar repara que o padre tem san­gue no pes­coço. Com o cano da arma, afasta ligei­ra­mente a batina do padre, reve­lando uma ferida. O padre foi mordido.

    Andreia, hor­ri­fi­cada, leva as mãos tré­mu­las à boca. Oscar abana a cabeça, desiludido.

    OSCAR
    Che­gá­mos tarde.

    ANDREIA
    E agora?

    OSCAR
    Não olhes.

    Andreia fixa o olhar no padre por um segundo, engole em seco e vira-​​se para trás. Uma lágrima escorre-​​se pela cara. Oscar aponta de novo a arma à cabeça do padre, que não reage.

    Silên­cio.

    Subi­ta­mente, a cara do padre muda de expres­são: olha ame­a­ça­do­ra­mente para Oscar e solta um rugido. Oscar fecha os olhos, morde os lábios e, a custo, pres­si­ona o gatilho.

    PUM! Sal­pi­cos de san­gue enchem a cara de Oscar. Andreia, cho­rosa, corre em direc­ção à porta e sai. Oscar limpa a cara à camisa e levanta os olhos em direc­ção à figura de Cristo sob o altar.

    Oscar vira-​​se para trás, mas antes de dar o pri­meiro passo, ouve um silvo. Olha para o seu lado e vê uma menina ’zom­bie’ (4 anos) parada a cerca de um metro. Oscar aponta a caça­deira à menina ’zom­bie’, mas não dispara.

    POV con­fes­si­o­ná­rio: Oscar está parado sob o foco de luz, de arma em riste. Visto da escu­ri­dão, Oscar parece um anjo agra­ci­ado por uma luz divina.

    Oscar baixa a arma. A menina ’zom­bie’ solta um novo silvo. Um gru­nhido forte, vindo do inte­rior do con­fes­si­o­ná­rio, leva Oscar a empu­nhar de impe­di­ato a caça­deira e a menina-​​zombie a cor­rer na direc­ção do som.

    Ela entra no con­fes­si­o­ná­rio. Pas­sado um segundo, sai len­ta­mente do con­fes­si­o­ná­rio uma figura enorme: é o ‘zom­bie’ gordo que vimos ante­ri­or­mente, car­re­gando a menina ’zom­bie’. O ’zom­bie’ abraça a menina como um humano abra­ça­ria uma filha, pare­cendo que­rer protegê-​​la.

    Oscar observa-​​os em silên­cio, boqui­a­berto. Os ’zom­bies’ olham-​​no. As suas faces reve­lam uma estra­nha calma, não são ame­a­ça­do­ras. Oscar baixa a sua arma e começa a cami­nhar em direc­ção à porta. Olha para trás, sem parar de andar, ainda espan­tado. Os zom­bies olham-​​no em silên­cio. Oscar sai da igreja.

    FIM DE FLASHBACK

  3. Pedro Emanuel Cabeleira
    Publicado 12/04/2010 às 23:57 | Link

    Já escrevi a cena. Gos­ta­ria de a enviar.

  4. Pedro Emanuel Cabeleira
    Publicado 13/04/2010 às 0:00 | Link

    Como é que envio a cena?

    • João Nunes
      Publicado 13/04/2010 às 9:51 | Link

      Basta deixá-​​la aqui nos comen­tá­rios. Só será publi­cada depois de fechado o desafio.

  5. Pedro Emanuel Cabeleira
    Publicado 13/04/2010 às 0:11 | Link

    Ah! É para dei­xar aqui no comentário!

    Aqui está a minha proposta:

    INTERIORQUARTO ARRENDADO DE ANDREIA – NOITE

    GRANDE PLANO da face de Óscar que dorme sos­se­ga­da­mente. ZOOM OUT é reve­lado a caça­deira que repousa ao lado do seu dono.
    Movi­mento gira­tó­rio a 180 graus, neste movi­mento de câmara dá para per­ce­ber toda a cons­ti­tui­ção do quarto, um típico quarto de hotel, ape­nas com uma cadeira com um casaco lá pen­du­rado, as pare­des são bran­cas, sim­ples. O movi­mento pára e enquadra-​​se num plano de Andreia na casa de banho.
    Andreia lava a cara, e olha-​​se ao espe­lho. Olha para a direita para Óscar. Fita-​​o com um olhar de menos­prezo. Volta a olhar-​​se ao espe­lho e limpa o rosto com uma toa­lha.
    GRANDE PLANO da face de Óscar, este acorda. Senta-​​se na late­ral­mente na cama sem nunca emi­tir um único vocá­bulo.
    Andreia repara que ele acor­dou. Óscar leva as mãos à cara e chora.

    ANDREIA
    (irri­tada)
    Por­que não paras de cho­rar? Pára.

    Óscar olha para ela, pára de solu­çar. Uma lágrima corre len­ta­mente do olho direito de Óscar.

    ANDREIA

    Fala! Por­que não falas? (grita)

    Andreia corre em direc­ção a ele, agarra-​​o num braço, e tenta reanimá-​​lo. Óscar retri­bui com um olhar triste.

    ANDREIA

    O que fazes aqui? O que fazes, assas­sino? Porquê?

    Óscar olha inex­pres­sivo para o vazio. Levanta-​​se vaga­ro­sa­mente e pega na caça­deira. Vai bus­car o seu casaco que estava pen­du­rado na cadeira. O casaco está ensan­guen­tado. Veste-​​o. Dirige-​​se vaga­ro­sa­mente à porta.
    Andreia não se con­forma. Começa a chorar.

    ANDREIA

    Pára! (grita)

    Óscar pára e vira-​​se, olha para ela peno­sa­mente. Andreia começa a arque­jar devido ao pranto.

    ANDREIA
    Porquê? Por­que me salvaste?

    Óscar dirige-​​se a ela. Andreia fica à espera res­pi­rando deses­pe­ra­da­mente. Ele aproxima-​​se dela. GRANDE PLANO LATERAL da cara deles a um palmo de dis­tân­cia. Andreia res­pira tão ofe­gan­te­mente que ouvi­mos a sua res­pi­ra­ção.
    Óscar prende-​​lhe um cabelo atrás da ore­lha. PLANO AMERICANO LATERAL de Óscar a bei­jar a face de Andreia.
    Óscar dirige-​​se à saída vaga­ro­sa­mente, Andreia fica está­tica.
    Óscar sai e a porta fecha-​​se bruscamente.

    CORTA PARA:

    EXTERIORRUELA – NOITE

    TRAVELLING LATERAL de Óscar numa ruela porca e escura. Óscar cami­nha com pas­sos pesa­dos e pon­de­ra­dos. Puxa de um cigarro e acende-​​o. Cami­nha com a caça­deira na mão cal­ma­mente. De repente, apa­rece no plano uma ruela per­pen­di­cu­lar. FOCO na ruela, um ser estra­nho, pro­va­vel­mente um zom­bie devora as entra­nhas de um homem. O homem está morto.
    Óscar pára, dá uma última passa e manda o cigarro fora, aponta len­ta­mente a caça­deira ao zom­bie e dis­para. O tiro seco acerta no braço do zom­bie e arremessa-​​o vio­len­ta­mente con­tra o chão. O zom­bie solta uma gar­ga­lhada. Olha para Óscar e ri-​​se. Depois pára. Óscar aproxima-​​se e aponta-​​lhe a caça­deira à cabeça.
    O zom­bie fita-​​o e começa a falar de um modo diver­tido.
    GRANDE PLANO do zom­bie enquanto este dis­cursa, o rosto branco como cal con­trasta com o ver­me­lho do san­gue que lhe rodeia a boca. De resto apa­renta como qual­quer pes­soa. Fala de uma maneira arras­tada e a sua voz é rouca.

    ZOMBIE

    És tu meu amigo, não és? És tu, eu sei que és tu! Obri­gado. Vai aca­bar. Final­mente vai aca­bar. Beija-​​me com a tua arma. Qual o teu nome?

    O Zom­bie sorri sar­cas­ti­ca­mente ao fazer a última per­gunta. Óscar impinge-​​lhe com vio­lên­cia um golpe na face com o cabo da caça­deira. O zom­bie começa a jor­rar san­gue da boca que se mis­tura com o san­gue do outro indi­vi­duo. No entanto con­ti­nua a rir-​​se.

    ZOMBIE

    Pois é! Não falas! És mudo! (ri-​​se às gargalhadas)

    Óscar volta a agredi-​​lo com a caça­deira. O zom­bie começa a ficar mais sério.

    ZOMBIE

    Des­culpa, amigo. Mas sabes que eu sou assim. Já perdi tudo, deixa-​​me gozar um pouco. Acaba com isto. Eu já não sou eu. Mata-​​me. Não podes fazer pior que isto, amigo.

    Óscar con­ti­nua a fitá-​​lo seriamente.

    ZOMBIE

    Eu sei. Nin­guém te ama, assas­sino. (assas­sino é dito de um modo trai­ço­eiro)
    Mas nós amamos-​​te, nós queremos-​​te, por­que tu não nos que­res e não nos amas. Sabes que não vais ficar assim, antes morto. Mas nós não temos cora­gem para nos matar­mos, não con­se­gui­mos. Tens que ser tu, e por isso amamos-​​te. E quanto mais for­mos, mais dese­jado e amado serás. Tu és capaz, já mataste cri­an­ças e mulhe­res, não te impor­taste. És mau.

    Uma lágrima escor­rega len­ta­mente pela face de Óscar. O zom­bie assume uma pos­tura sóbria e indulgente.

    ZOMBIE

    Óscar, mata-​​me e depois mata os outros, nós que­re­mos, deixa-​​me vol­tar para a minha famí­lia, deixa-​​me ver o meu irmão.
    Isto não é vida, estou farto de magoar as pes­soas que amo, estou farto de magoar aque­les que são como eu era. Não con­sigo parar. Acaba com isto. A fome é muita, não pára. Mata-​​nos.

    Ouve-​​se mais um tiro seco. PLANO de Óscar, uma grande quan­ti­dade de san­gue salta repen­ti­na­mente para cima de Óscar. PLANO AÉREO da ruela, o zom­bie encontra-​​se dei­tado sem cabeça, e Óscar está de pé defronte dele.
    GRANDE PLANO da cara de Óscar que esboça um sor­riso. Vira-​​se, e olha para o hori­zonte. O Sol nasce sobre o caos urbano.
    CORTA PARA:

  6. Publicado 13/04/2010 às 10:55 | Link

    Tudo bala, João?
    É de desa­fios como este que gosto. Vou ganhar esta par­tida, juro!
    Sei que o porte para Angola deve ser caro, mas estou mais é inte­res­sado em poder melho­rar as minhas habi­li­da­des, se é que as tenha! Até breve!

  7. Elsa
    Publicado 14/04/2010 às 14:04 | Link

    Desa­fio aceite. Mesmo sem pré­mio, é um óptimo exer­cí­cio. Mesmo que não goste, pode dar uma opi­nião, de modo a cor­ri­gir o que não está bem?

  8. Nélia
    Publicado 15/04/2010 às 0:48 | Link

    Pode­mos sub­me­ter duas? Estou inde­cisa em qual das ver­sões escolho…

  9. berni ferreira
    Publicado 15/04/2010 às 4:03 | Link

    A res­peito do desa­fio anterior:

    Tenho vinte e cinco pági­nas escri­tas. O que quer dizer que ou ace­lero, ou não vou ter tempo de fazer uma revi­são cui­dada do guião antes de o ano acabar.

    Tinha-​​me pro­posto a (pelo menos ten­tar) aca­bar o ano com dois guiões escri­tos. O outro pro­jecto que estou a desen­vol­ver está mais ou menos no mesmo ponto: 24 páginas.

    Já agora, João, como vai o seu objec­tivo anual? Tam­bém fico curi­oso em rela­ção aos outros participantes.

    Abra­ços

    • João Nunes
      Publicado 15/04/2010 às 22:32 | Link

      É curi­oso que ambos este­jam com vinte e pou­cas pági­nas. Se os guiões tive­rem uma estru­tura tra­di­ci­o­nal, isso quer dizer que vocês têm o pri­meiro ato mais ou menos com­pleto.
      Ora, é muito comum isso acon­te­cer: a pes­soa sabe como a estó­ria começa, até sabe como acaba, mas enca­lha na ponte entre uma coisa e outra, o fami­ge­rado segundo ato.
      Só posso dar um con­se­lho: obs­tá­cu­los e surpresas.

  10. Ventura de Azevedo
    Publicado 15/04/2010 às 10:10 | Link

    CULTO ZOMBIE

    EXT. AVENIDA BELLA SHOPPINGNOITE
    O céu relam­peja em meio a nuvens pre­tas e cin­zen­tas e ver­me­lhas, rumando em todas as direc­ções.
    Da esquina de um cru­za­mento que dá para a ave­nida Bella Shop­ping, surge Óscar arras­tando atrás de si Andréia. Há pou­cos metros des­tes, qua­tro cri­a­tu­ras tra­ja­das com peles de ani­mais, cho­ca­lhos nos pés des­cal­ços, olha­res dia­bó­li­cos e com cabe­ças dimi­nu­tas, vêm em direc­ção ao casal.
    Nenhuma alma viva, nenhum carro, nenhum movi­mento na ave­nida. Óscar e Andréia cor­rem em direc­ção ao Bella Shop­ping. Nos seus ros­tos estam­pado o ter­ror. De repente, Óscar pára, repara atrás e espan­tado cons­tata que o mais gordo das esqui­si­tas cri­a­tu­ras faz sinal ao outros para se dete­rem. Todos obe­de­cem ao mesmo tempo que se ajo­e­lham.
    ANDRÉIA(espantada): Paraste por quê, Óscar?!
    Andréia vira-​​se para ver o que Óscar vê.
    ÓSCAR: Acho que não nos que­rem fazer mal nenhum.
    (CORTA PARA

  11. Nélia
    Publicado 15/04/2010 às 14:28 | Link

    CORTA PARA FLASHBACK:

    EXT. PRAIA — DIA

    Esta­mos no local da cena de aber­tura do filme: a mesma praia vazia, o mesmo mar bravo.

    Uma pran­cha de surf vem dar à costa.

    OSCAR (V.O.)
    Por­que é que os zom­bies iam vene­rar um humano vivo como eu?

    No mar, uma cabeça emerge e volta a mer­gu­lhar. É Oscar. Parece que está ape­nas a mer­gu­lhar à pro­cura de alguma coisa até o ver­mos de mais perto: está em apuros.

    Oscar está a lutar para se liber­tar das ondas revol­tas que o sugam para o fundo.

    OSCAR (V.O.)
    E foi então que percebi…

    Debate-​​se furi­o­sa­mente mas a cabeça volta a sub­mer­gir. Por alguns momen­tos desaparece…

    OSCAR (V.O.)
    Não iam…

    … até vir dar à costa, ao pé da sua prancha.

    Ao lado da pran­cha, Oscar per­ma­nece imó­vel, ina­ni­mado. Depois abre os olhos repen­ti­na­mente e ins­pira. Senta-​​se e tosse, expele água. Oscar reclina-​​se para trás, ins­pi­rando e expi­rando de olhos fecha­dos, ten­tando recompor-​​se de um grande esforço físico. Mais calmo, olha então para o mar.

    Acom­pa­nha­mos a par­tir de agora a cena ini­cial do filme. Sen­tado cal­ma­mente, observa o mar revolto à sua fente. Depois levanta-​​se, pega na pran­cha e cami­nha pela areia em direc­ção ao carro.
    FIM DO FLASHBACK

  12. Publicado 15/04/2010 às 14:33 | Link

    CENA 01. EXTERIOR. DIA. CAMPO.
    Um rapaz com cerca de 6 anos (ÓSCAR) corre atrás de uma mulher de 30 (MÃE). Quando a alcança, prega-​​lhe uma ras­teira. A mulher cai na relva a rir. O rapaz atira-​​se para cima dela, pega-​​lhe numa perna e prende-​​a con­tra si, simu­lando um golpe de luta livre.

    ÓSCAR
    Estás presa.
    MÃE não pára de rir.

    MÃE
    Pára Óscar… (rindo-​​se) Pára…
    ÓSCAR
    Desis­tes?
    MÃE
    Desisto.
    ÓSCAR larga a perna da MÃE, que con­trola final­mente o riso e levanta-​​se. De repente, agarra em ÓSCAR, ergue-​​o e aperta-​​o, de cos­tas, con­tra si. Agora é OSCAR que ri per­di­da­mente e tenta soltar-​​se.
    MÃE
    Desis­tes?
    ÓSCAR
    Sim.
    CENA 02. INTERIOR. CASA.

    ÓSCARMÃE entram em casa, ÓSCAR corre para outra divi­são, MÃE fica à porta.
    MÃE
    Eunice!
    Uma negra grande com cerca de 50 anos (EUNICE), vinda de outra divi­são, limpa as mãos a um pano de cozi­nha.
    EUNICE
    Sim, senhora. (pausa)
    MÃE
    Eunice, por favor vá ver se o Óscar toma mesmo banho, sim?
    EUNICE
    (obser­vando MÃE) A Senhora está bem? Parece can­sada.
    MÃE
    Deve ser do sol. (Pausa) O menino Óscar se calhar foi a cor­rer ves­tir roupa lavada. Diga-​​lhe que não é por isso que janta mais cedo.
    EUNICE fica alguns ins­tan­tes a olhar para MÃE.
    EUNICE
    Vou já ver, senhora.

    EUNICE vai para a casa-​​de-​​banho. MÃE entra na sala e senta-​​se numa cadeira, com ar can­sado, res­pira fundo.

    CENA 03. INTERIOR. CASA-​​DEBANHO

    ÓSCAR está de cue­cas na casa-​​de-​​banho. Água da banheira está a cor­rer.
    ÓSCAR
    Olha, Eunice, uma ara­nha!
    Uma ara­nha desloca-​​se junto à banheira.
    ÓSCAR
    Mata, Eunice!
    EUNICE
    Porquê, menino?
    ÓSCAR
    Ela está em nossa casa!
    Eunice vai até à banheira e pega na ara­nha.
    EUNICE
    Vá, menino, quando vol­tar quero vê-​​lo de banho tomado.
    ÓSCAR
    E o que é que vais fazer com ela?
    EUNICE
    Vamos dar-​​lhe outra oportunidade.

    CENA 04. INTERIOR. DIVISÃO ESCURA.

    Ima­gem de uma teia de ara­nha magis­tral. Ouve-​​se as pri­mei­ros notas de gui­tarra eléc­trica dedi­lhada num com­passo lento, entre silên­cios. Sequên­cia de uma ara­nha a andar pela casa desde a teia até a um quarto. A MÃE está na dei­tada na cama. Está ligei­ra­mente mais enve­lhe­cida, careca e doente. EUNICE está à beira da cama.
    MÃE
    O Óscar?
    EUNICE
    Fugiu outra vez, senhora.
    Música pára.
    CENA 05. INTERIOR. QUARTO.
    MÃE dei­tada, mori­bunda. ÓSCAR entra com uma ban­deja com uma fatia de pão e um copo.
    ÓSCAR
    Mãe?
    MÃE
    Óscar, onde esti­veste?
    ÓSCAR
    A tra­tar de si.
    ÓSCAR dá o copo de beber à mãe, que o bebe em esforço.

    CENA 06. INTERIOR. HALL DE ENTRADA. DIA.
    Um casal com cerca de qua­renta anos está à beira da porta com EUNICE. Estão todos ves­ti­dos de preto. ÓSCAR está à frente deles, apre­en­sivo.
    EUNICE
    Óscar, esta é a sua tia Alberta, prima da sua mãe. Estão à sua espera para levá-​​lo para Lis­boa.
    ÓSCAR
    Mas eu quero ficar aqui com a mãe…
    EUNICE
    A sua mãe fale­ceu, Óscar, o menino não pode fazer nada por ela.
    ÓSCAR
    Não, ela não mor­reu.
    ALBERTA
    Nós tam­bém vamos sen­tir muito a falta dela.
    ÓSCAR
    (cho­rando) Não…!
    ALBERTA
    Já foste a Lis­boa, Alberto? Eu e o teu tio Rui temos uma casa com um quarto só para ti e um cão cha­mado Frank que vai ado­rar ter um novo dono.
    CENA 07. EXTERIOR. DIA.

    EUNICE está à porta de casa. Um carro está esta­ci­o­nado à porta. ÓSCAR está den­tro do carro com ALBERTA. RUI coloca as malas no porta-​​bagagens. RUI entra no carro e faz um sinal breve de des­pe­dida a EUNICE. EUNICE acena de volta. Carro arranca. Close-​​up da cara de EUNICE, séria.

    CENA 08. INTERIOR DO CARRO. DIA.

    Pri­mei­ros acor­des da música da Cena 4.
    RUI con­duz. ALBERTA, calada e a olhar pela janela, no lugar do morto. Estão a ouvir … ÓSCAR no banco de trás cabis­baixo. Tem a mão den­tro da mochila. Tira de den­tro da mochila um livro com uma lom­bada antiga “A SERPENTE E O ARCO-​​ÍRIS”. ÓSCAR abre a janela e atira-​​o da janela.

    CENA 09. EXTERIOR. NOITE.

    Música da Cena ante­rior não é inter­rom­pida.
    Chove. Plano cor­rido pró­ximo da relva com insec­tos até o que parece ser um túmulo. A terra mexe-​​se até apa­re­cer pele humana extre­ma­mente pálida.

  13. Nélia
    Publicado 15/04/2010 às 14:36 | Link

    CORTA PARA FLASHBACK:

    INT. CASA DOS PAIS DE OSCARSALA — DIA

    As mãos habi­li­do­sas de uma MULHER colo­cam mais um alfi­nete na barra das cal­ças do PEQUENO OSCAR, de 9 anos, de pé num banquinho.

    MARIA (o.s.)
    Fica quieto.

    A MULHER, MARIA, 34 anos, tem uma série de alfi­ne­tes na boca, vira­dos para fora, que tira um a um para mar­car as bai­nhas das calças.

    JÚLIO (O.S.)
    É ver­dade que a coro­a­ram morta?

    MARIA
    (sim)
    Hum hum.

    JÚLIO, 12 anos, está sen­tado ao pé da janela num sofá com um livro entre as per­nas. Maria coloca o último alfinete.

    JÚLIO
    Uau… A pri­meira rai­nha
    ’zom­bie’ de Portugal.

    MARIA
    Pro­va­vel­mente do mundo.
    Podes tirar as cal­ças, Oscar.

    Oscar tira as cal­ças e fica só em cue­cas. Júlio começa-​​se a rir. Oscar senta-​​se ao pé do irmão. Maria enfia uma agu­lha e começa a fazer a bai­nha à mão.

    MARIA
    Claro que assim que se tor­nou rei,
    D. Pedro vingou-​​se.

    JÚLIO
    O que é que ele fez?

    MARIA
    O que é que tu fazias
    se matas­sem a tua namorada?

    OSCAR
    (bai­xi­nho)
    Eu matava-​​os a todos…

    Maria levanta pela pri­meira vez o olhar das bainhas.

    JÚLIO
    (ri-​​se)
    Pra isso tinhas de ter namo­rada, tótó.

    OSCAR
    Cala-​​te, estúpido.

    E Oscar atira uma almo­fada do sofá ao irmão, numa ten­ta­tiva de aba­far o riso.

    MARIA
    Bem… foi o que ele fez…
    E o povo chamou-​​o de Justiceiro.

    JÚLIO
    Tam­bém os reis podiam fazer tudo.

    Maria sorri.

    MARIA
    Quem poli­cia a polí­cia, não é?

    OSCAR
    Quê?

    MARIA
    Ima­gina que eras rei.
    Quem é que te impe­dia de
    te por­ta­res mal?
    Quem te impe­dia de
    abu­sa­res do poder que tinhas?

    JÚLIO
    (a rir-​​se)
    Oh, mãe, não te pre­o­cu­pes.
    O Oscar aqui só se fosse
    o rei da cocada preta.
    Ou de ‘zom­bies’! Era ao con­trá­rio.
    O pri­meiro rei humano
    dos mor­tos vivos!

    Maria pica-​​se sem que­rer e os irmãos calam-​​se. Maria chupa o san­gue do dedo, uma expres­são séria agora.

    OSCAR
    (meio enver­go­nhado)
    Pen­sava que nin­guém man­dava no rei.

    MARIA
    Eles tam­bém acham sem­pre isso…

    O olhar de Oscar perde-​​se no infinito.

    FIM DO FLASHBACK

  14. Nélia
    Publicado 15/04/2010 às 16:16 | Link

    Para res­pon­der a berni fer­reira, o meu desa­fio anual vai mais ou menos no mesmo. Estou com 22 pági­nas. Mas tam­bém estou a fazer a tal “revi­são cui­dada” do que ter­mi­nei no ano pas­sado. Vamos ver se isto avança :)

    • João Nunes
      Publicado 15/04/2010 às 16:46 | Link

      Mas tam­bém estou a fazer a tal “revi­são cui­dada” do que ter­mi­nei no ano passado.

      E que eu já come­cei a ler e a ano­tar, como pro­me­tido. Infe­liz­mente meteram-​​se tra­ba­lhos pelo meio e não ter­mi­nei. Mas do que li, para já, devo dizer que gos­tei bastante.

  15. tiago carvalho
    Publicado 15/04/2010 às 21:24 | Link

    FLASHBACKINT. SALA DE ESTAR — TARDE

    Óscar (12) sen­tado no chão monta um puzzle enquanto o seu
    AVÔ (65), homem calvo e ana­fado, sen­tado num velho sofá
    indi­vi­dual, vê o noti­ciá­rio. Na tele­vi­são apa­rece uma
    JORNALISTA (30) morena e bem vestida.

    JORNALISTA (V.O.)
    A pro­posta de lei, para a
    legi­ti­ma­ção do casa­mento entre
    ‘zom­bies’ e huma­nos, rejei­tada
    ontem pelos par­ti­dos da opo­si­ção, é
    agora apoi­ada pela Asso­ci­a­ção
    Inter­na­ci­o­nal para Defen­sora das
    Espé­cies Não-​​humanas.
    (O AVÔ cen­tra a sua aten­ção na
    jor­na­lista, ajeita os óculos e
    levanta-​​se para por o som mais
    alto.)
    Base­ada num estudo da Uni­ver­si­dade
    de Glas­gow, esta asso­ci­a­ção mos­tra
    que da rela­ção entre zom­bies e
    huma­nos, surge uma espé­cie mutante
    que à noite, ao con­trá­rio da
    habi­tual, se apa­zi­gua e entra num
    estado de hip­nose e de vene­ra­ção ao
    “Deus da Caça­deira Pra­te­ada”.
    (na tele­vi­são apa­rece agora
    ÁLVARO (70) magro e de barba
    com­prida)
    Temos agora em estú­dio Álvaro
    Matias, fun­da­dor da Igreja DCP que
    pro­cu­rará elucidar-​​nos um pouco
    melhor. Álvaro, é notó­rio que esta
    muta­ção ocorre por via gené­tica,
    mas porquê con­si­de­rar que estes
    ‘zom­bies’ mutan­tes entram neste
    estado de ado­ra­ção durante a noite?

    ÁLVARO (V.O.)
    Há muito que a Igreja do Deus da
    Caça­deira Pra­te­ada faz uma aná­lise
    dife­rente da Pro­fes­sia Omega. Para
    nós, o 984ž capi­tulo que fala dos
    fru­tos da rela­ção homem-​​zombie,
    mos­tra que estes são vul­ne­rá­veis à
    noite ficando enfra­que­ci­dos e
    saci­o­sos de puri­fi­ca­ção por parte
    do Deus da Caça­deira Pra­te­ada. Ou
    seja, esta espé­cie fica por­tanto
    pronta para que o Deus da Caça­deira
    os trans­forme nova­mente em huma­nos.
    É certo que gru­pos mais
    con­ser­va­do­res que­re­rão man­ter a
    exis­tên­cia de zom­bies puros, mas
    sere­mos hones­tos, a exis­tên­cia
    desta espé­cie nos mol­des actu­ais
    naão é boa para a nossa sociedade.

    JORNALISTA (V.O.)
    (Pen­sa­tiva)
    Está a que­rer então dizer que há
    alguém no Mundo, deten­tor dessa
    caça­deira que irá puri­fi­car esta
    espé­cie não-​​humana?

    ÁLVARO (V.O.)
    No Mundo não. Tenho infor­ma­ções de
    que a caça­deira anda algu­res pela
    Penin­sula Ibé­rica, muito perto da
    fron­teira entre Por­tu­gal e Espa­nha.
    Há muito que Por­tu­gal e Espa­nha
    estão uni­dos na luta con­tra os
    zom­bies. Essa arma tem pas­sado de
    gera­ção em gera­ção, e é entre as 20
    e as 22 horas é que ela pode ser
    acti­vada, con­forme o horá­rio em
    ques­tão. É ape­nas nessa altura que
    o Sol já nao se vis­lum­bra e que as
    balas de madeira da caça­deira se
    tor­nam exi­lir da purificação.

    JORNALISTA (V.O.)
    Sendo assim, a arma pode ter ori­gem
    portuguesa?

    ÁLVARO (V.O.)
    (pouco con­vin­cente)
    Sim a caça­deira Pra­te­ada é
    por­tu­guesa. Mas aten­ção, peço a
    quem esteja lá em casa e que pos­sua
    a Caça­deira Pra­te­ada que entre
    rapi­da­mente em con­tacto con­nosco, a
    Igreja DCP para que o pos­sa­mos
    auxi­liar na luta pela puri­fi­ca­ção
    dos zom­bies que por aqui andam. A
    Caça­deira Pra­te­ada, é do século
    XII, tem cra­vado DCP e uma caixa
    com balas de madeira.

    JORNALISTA (V.O.)
    Muito obri­gado Álvaro. Pas­sa­mos
    agora para as noti­cias des­por­ti­vas.
    A equipa naci­o­nal de atletismo…

    O Avô levanta-​​se, dirigindo-​​se a um grande móvel de madeira.
    De den­tro de uma gaveta tira deli­ca­da­mente a CAÇADEIRA
    PRATEADA.

    AVÔ
    Óscar.

    ÓSCAR
    Sim avô.
    (Óscar vis­lum­bra o avô sem
    sair de perto do puzzle, e
    demons­trar muita atenção)

    AVÔ
    Estás a ver esta caça­deira? Quando
    fores mais velho e sen­ti­res o
    cha­ma­mento, sabe­rás o que fazer. As
    tre­vas ajoelhar-​​se-​​ão aos teus pés,
    e tu terás o poder e a força
    neces­sá­ria para sal­var o Mundo

    Óscar sem per­ce­ber de que fala o seu avô, acena
    afir­ma­ti­va­mente com a cabeça

    AVÔ
    Mas por enquanto, isto é ape­nas um
    segredo nosso.

    AVÔ (V.O.)
    Niguém liga­ria para o que diz um
    velho como eu, o mesmo se pas­sou
    com o teu pai, mas sei que con­tigo
    será diferente.

    FIM DE FLASHBACK

  16. tiago carvalho
    Publicado 15/04/2010 às 21:28 | Link

    assim que li o desa­fio pen­sei “tenho mesmo que par­ti­ci­par, só mesmo na desportiva”

    sem ideias e tra­ba­lhos extra — ins­pi­ra­ção zero
    entre­tanto agora que sai da capi­tal e embar­quei numa via­gem de duas horas, tive ideia, li, reli, corrigi/​reestruturei e ainda nem che­guei ao des­tino.
    João depois, inde­pen­den­te­mente dos resul­ta­dos, gos­ta­ria de ter algum feed­back seu.
    cum­pri­men­tos
    tiago

  17. Publicado 15/04/2010 às 22:56 | Link

    Só hoje é que a facul­dade me deu tempo para poder pegar nisto. Não vou ter tempo de algo muito rigo­roso mas conto dei­xar aqui a minha par­ti­ci­pa­ção ainda amanhã ; )

  18. Publicado 16/04/2010 às 21:54 | Link

    Aqui está o link para a minha par­ti­ci­pa­ção: http://​lydart2​.com​.sapo​.pt/​C​e​n​a​F​l​a​s​h​b​a​c​k​Z​o​m​b​i​e​.​pdf

    Não sabia como dei­xar aqui, por isso tomei a liber­dade de fazer um upload.

  19. Pedro Cadeira
    Publicado 16/04/2010 às 23:27 | Link

    EXT. PARQUE DE ESTACIONAMENTO — NOITE

    Óscar e Andreia cor­rem desal­ma­da­mente pelo par­que de esta­ci­o­na­mento fora, con­tor­nando os mui­tos car­ros que aí se encon­tra­vam abandonados.

    Atrás deles, em per­se­gui­ção, vem uma horda de “zom­bies”. Seguem de forma desor­de­nada; fre­quen­te­mente um deles embate num carro, ficando para trás.

    Óscar tem uma caça­deira. Olha para trás, e vê os “zom­bies” a ganha­rem ter­reno. Dis­para a caça­deira con­tra o “zom­bie” mais pró­ximo, acertando-​​lhe na mão, decepando-​​a. O “zom­bie” atrasa-​​se durante um ins­tante, mas logo con­ti­nua a corrida.

    Vira-​​se para trás de novo, e dis­para outro tiro. Volta a acer­tar na mão de um “zom­bie”. Andreia vira-​​se para ele com ar zangado.

    ANDREIA
    Podes parar de lhes ten­ta­res fazer a “mani­cure” e acer­ta­res na por­ca­ria da cabeça, se não te importas?

    ÓSCAR
    Estou a tentar!

    ANDREIA
    Estás sem­pre a ten­tar, e nunca con­se­gues nada!

    Enquanto Andreia estava dis­traída a dis­cu­tir com Óscar, não repa­rou num cai­xote do lixo à sua frente. Foi con­tra ele a toda a velo­ci­dade, caindo ao chão.

    ÓSCAR
    Merda!

    Óscar pára de cor­rer e aproxima-​​se de Andreia, que per­dera os sen­ti­dos. Entre­tanto, os “zom­bies” aproximam-​​se. Óscar, vendo isto, dis­para mais 3 tiros, acer­tando em 3 “zom­bies” dife­ren­tes, que cai­ram por terra. Ainda assim, os outros con­ti­nu­a­ram a aproximar-​​se, com um “zom­bie” gordo na dian­teira. Óscar ten­tou dis­pa­rar outra vez, mas apercebeu-​​se que estava sem balas.

    ÓSCAR
    Pronto, agora é que esta­mos mesmo feitos.

    Os “zom­bies” estão cada vez mais perto de Óscar e Andreia. Óscar agacha-​​se e tapa a cara, espe­rando o pior.

    ÓSCAR
    Pai Nosso que estais no céu!

    Nisto, eis que há uma alte­ra­ção no com­por­ta­mento dos “zom­bies”. Em vez de avan­ça­rem com ar homi­cida, param, e ajoelham-​​se. Come­çando pelo “zom­bie” gordo, todos come­çam subi­ta­mente a reci­tar o “Pai Nosso”, con­ti­nu­ando o que tinha sido come­çado por Óscar.

    ZOMBIES
    San­ti­fi­cado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino…

    FIM DO FLASHBACK

  20. Publicado 28/04/2010 às 23:05 | Link

    FLASHBACKFESTA DE GALA
    A sala é ilu­mi­nada ilu­mi­nada por luzes pon­tu­ais em cima das mesas reple­tas de pes­soas que comem e bebem bem ves­ti­das.
    Pas­sam alguns gar­çons.
    Oscar e Andreia estão junto à mesa das bebi­das, que é bas­tante mais iluminada.

    Falam e Sor­riem. Ela despede-​​se e afasta-​​se.

    Um HOMEM GORDO, bem mais baixo que OSCAR, de ar des­po­jado aproxima-​​se dele. É o PADRINHO.

    PADRINHO
    (cumprimentando-​​o)
    Quem é ela?
    OSCAR
    Tudo bem?
    PADRINHO
    Como sempre.

    Andreia olha para trás e sorri para Oscar.

    PADRINHO
    É bonita, sim senhor.

    Oscar con­sente.

    PADRINHO
    Ah… Já aca­baste o curso rapaz?
    OSCAR
    Está quase aca­bado…
    PADRINHO
    Letras… Nunca per­cebi bem. Pen­sei que fos­ses mais de aven­tu­ras. Emo­ções, porra!… His­tó­rias reais e não de papel.
    OSCAR
    Lite­ra­tura Clás­sica.
    PADRINHO
    Nunca te devia ter ofe­re­cido aque­les comic books todos. Sem­pre pen­sei que fos­sem mais os rabis­cos que as pala­vras, mas…
    OSCAR
    Pois.
    PADRINHO
    E já esco­lheste o presente?

    EXT. PARQUE DE ESTACIONAMENTONOITE
    Ela está aflita.
    Os Zom­bies pedem a mão a Oscar. Ele dá.
    O Zom­bie trinca-​​lhe a mão, o braço enche-​​se de san­gue que escorre vigo­ro­sa­mente. Ela fica ater­ro­ri­zada e e ele des­nor­te­ado.
    Ela grita, ele per­ma­nece calado.

    FLASHBACKFESTA DE GALA

    OSCAR
    A–
    PADRINHO
    Eu sem­pre ofe­reci pre­sen­tes aqui e ali, e já não te vejo há uns 50 anos… Que se lixe o pre­sente por agora, e o futuro? Depois do Curso? Casar? Viver? Foder?
    OSCAR
    Depois do curso vou tra­ba­lhar na aréa, espero…
    PADRINHO
    … Já namo­ram há muito tempo?
    OSCAR
    (aponta para onda ela se diri­giu) … algum
    PADRINHO
    Sabes, casei 5 vezes. Fui sem­pre feliz, até encon­trar a feli­ci­dade nou­tros luga­res… 3 filhos, 6 afi­lha­dos e mui­tos ami­gos, são as tre­tas que deixo.
    OSCAR
    Não sei se é algo tão sério assim.
    PADRINHO
    Não sabes? E quando vais saber? Quando tiver os pei­tos caí­dos, rugas no rosto e for insu­por­tá­vel?
    OSCAR
    Não sei.
    PADRINHO
    Essas coi­sas têm que ser vivi­das. Têm que ser expe­ri­men­ta­das, é a única forma de saber rapaz!
    OSCAR
    Tal­vez nunca tenha sen­tido… nunca tenha sen­tido medo de a per­der. Ou medo de me per­der sem que o seu rosto seja a ultima ima­gem que levo comigo.

    EXT. PARQUE DE ESTACIONAMENTO — NOITE

    ANDREIA
    Oscar!

    Ele leva, len­ta­mente, a mão ensan­guen­tada à boca.

    OSCAR (V.O.)
    Agora tudo fazia sen­tido. A caça­deira ofe­re­cida pelo meu padri­nho– eu nem gosto de caça. As balas que não pene­tra­vam os zom­bis.
    ANDREIA
    Oscar!? O que é que se passa?

    Oscar olha em redor… pou­cas pes­soas, os zom­bies. E na esquina uma car­ri­nha preta com escrito “ZM even­tos: a arte da emo­ção“
    Ele olha com ter­nura para ela, prepara-​​se para a bei­jar.
    A câmara anda em redor, inten­si­fi­cando o momento.
    De cos­tas vê-​​mo-​​los bei­jar.
    A câmara con­ti­nua a rodar… o beijo foi na bochecha.

    FIM

  21. Publicado 28/04/2010 às 23:08 | Link

    Pos­tei por moti­vos reli­gi­o­sos.
    1º man­da­mento da minha reli­gião: Pro­cras­ti­nar
    2º man­da­mento da minha reli­gião: Deso­be­de­cer
    3º man­da­mento da minha reli­gião: Para­be­ni­zar o autor deste blog.

    • João Nunes
      Publicado 29/04/2010 às 10:43 | Link

      Zé, boa par­ti­ci­pa­ção. Pena que não tenha vindo a tempo, por­que segu­ra­mente teria entrado nas con­tas finais. No pró­ximo pas­sa­tempo tem de deso­be­de­cer ao seu 1º mandamento.

2 Trackbacks

  1. […] This post was men­ti­o­ned on Twit­ter by joa­o­nu­nes. joa­o­nu­nes said: Novo artigo do blo­gue:: Novo desa­fio: escre­ver uma cena de flash­back http://​bit​.ly/​a​7​J​5uC […]

  2. Por Desafio flashback: os vencedores a 19/04/2010 às 0:14

    […] Rapi­dez, é atri­buído à pro­posta de Berni Fer­reira, publi­cada ainda durante a madru­gada do lan­ça­mento do desa­fio. Curiosamente, […]

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