José P. Miguel é realizador e argumentista, licenciado em Cinema e Arte dos Media pela Universidade Lusófona. Escreve desde sempre e encontrou no cinema a forma de transformar essa escrita em imagens. Escreveu e realizou Auto de Fé, vencedor do prémio «Over and Out» de Melhor Piloto de Série, e Último Canto, curta-metragem filmada em película 16 mm no Alentejo, centrada no luto e na morte.
Atualmente, desenvolve Dois Tempos, uma nova curta-metragem da sua autoria, que recebeu apoio à produção da Universidade Lusófona. É também o criador do primeiro software de escrita de guião feito em Portugal, o PØRTAL S, sobre o qual já escrevi aqui.
O José P. Miguel aceitou simpaticamente dar esta entrevista para falar dessas suas duas vertentes de cineasta e criador de aplicativos.
João Nunes: Estás num cocktail, a fazer contactos. Como te apresentas a um desconhecido?
José P. Miguel: Olá, sou o Zé. Faço filmes. E, por acaso, também fiz o software onde os escrevo.
JN: O que destacas mais na tua carreira, até ao momento?
JPM: A minha carreira ainda é curta mas escrevo desde miúdo e sempre quis fazer filmes. O que mais destaco até agora é ter começado a concretizar isso e a experimentar coisas muito diferentes.
Fiz Auto de Fé, um piloto de série com um lado mais físico e energético, passado nos dias de hoje e filmado em digital, e depois Último Canto, uma curta muito mais contemplativa, sobre a morte, num Alentejo seco nos anos 60, filmada em 16 mm.

Entretanto, também tive a oportunidade de filmar um videoclipe de fado em 35 mm, que era um sonho antigo.
JN: O que tens no horizonte, que já possas revelar?
JPM: Tenho um projeto chamado Dois Tempos, que escrevi há cerca de dois anos e que tenho vindo a aprimorar desde então. É uma curta-metragem muito pessoal, que nasce de um sentimento que já vivi algumas vezes: quando perdemos alguém, ficam também as coisas que essa pessoa deixou para trás.
A história acompanha três irmãos que, depois de perderem o pai, se juntam para perceber o que ficou. Passa-se numa herdade no Alentejo que me é familiar. Há vários elementos pessoais meus ali, por isso é um filme muito querido para mim. É uma história simples, mas acredito que tem um certo charme exatamente por isso.
O projeto recebeu um apoio à produção da Universidade Lusófona e, se conseguirmos fechar os restantes apoios, espero filmá-lo em julho do próximo ano.
JN: No teu site descreves um pouco das fases da escrita da tua curta-metragem Último Canto. Como costuma ser o teu processo criativo, do início ao fim?
JPM: Tenho uma relação um bocado estranha com a escrita, porque tenho muito medo da página em branco. Para mim, um guião é como ficarmos nus, despirmo-nos lentamente à frente de uma folha de papel, e isso é assustador.
Por isso quando tenho uma ideia e consigo vê-la, entro quase num estado de urgência. Tenho de a escrever imediatamente. Às vezes, sobretudo numa curta-metragem, consigo escrever de uma ponta à outra numa ou duas horas. Numa longa, pode acontecer o mesmo com um ato ou uma sequência de cenas.
Nessa primeira fase, não me preocupo muito em saber se está bom. Escrevo tudo muito depressa e sem filtro, à mão, em papel. Quero é ter qualquer coisa escrita.
Depois vem a parte dura: passar tudo para o computador. Aí releio, odeio coisas, apago, volto a escrever, retiro, acrescento, reorganizo e tento perceber o que é realmente importante. É um processo caótico e pesado. Foi numa altura dessas que criei o modo Goblin no PØRTAL S. Posso ir escrevendo notas e ideias ao lado, sem interromper o fluxo do que estou a fazer, e ficam lá para trabalhar depois.
No Último Canto, houve um momento em que percebi que o que era realmente importante era a morte e que muita coisa que tinha escrito a estava a esconder. Fui retirando, deixando só o essencial, porque a única coisa real que tapa a morte é a terra. Foi doloroso, mas fez todo o sentido.
Daqui também vem a ideia do board do PØRTAL S. Gosto de olhar para as cenas como papéis no chão, mudá-las de sítio e perceber como se relacionam. Há um momento muito satisfatório em que o filme começa a formar-se e deixamos de ver as costuras. A escrita dói bastante até chegar aí. Depois, deixa de doer, ou a dor transforma-se em algo diferente.
JN: Que limitações dos softwares disponíveis no mercado te levaram a criar o primeiro programa de escrita de guiões feito em Portugal, o PØRTAL S?
JPM: Quando comecei a escrever, nem sabia muito bem que software usar. Aliás, nem sequer sabia formatar guiões muito bem, sempre escrevi tudo em papel e nunca me preocupei com isso, nem concebia mostrar alguma vez um guião meu a alguém. Fazia coisas no Google Docs e rapidamente percebi que precisava de uma ferramenta que tratasse da formatação por mim, porque não queria estar a pensar nisso enquanto escrevia.
Comecei por usar o StudioBinder. Tinha algumas coisas de que gostava, mas irritava-me bastante com as limitações. Na altura, se bem me lembro, só podia ter um guião e havia várias funcionalidades que não estavam disponíveis gratuitamente. Acabei por não me dar muito bem com aquilo.
Depois, nas minhas pesquisas, encontrei o Beat, de que gostei muito e que usei bastante. Mas havia uma coisa que me fazia falta: conseguir ter o guião comigo em qualquer dispositivo e alterá-lo imediatamente. No Beat, da forma como eu o usava, pelo menos, não tinha uma conta que me permitisse simplesmente entrar noutro dispositivo e ter lá os meus guiões.
E isto é um bocado contraditório, porque sou um bocado maluco por privacidade e não gosto de andar a criar contas e a dar os meus dados a aplicações aleatórias. Mas queria também poder estar num sítio sem o meu computador ou o meu telemóvel, entrar noutro dispositivo qualquer e continuar a escrever onde tinha ficado. Por isso, no PØRTAL S., também criei a possibilidade de fazer uma conta sem e-mail.
Sou muito esquecido e escrevo muito depressa, por isso deixo erros ortográficos e coisas provisórias no meio. Às vezes, num diálogo, escrevo simplesmente «António mente sobre o assunto», só para não perder a ideia e seguir. Acontecia-me exportar o guião em PDF, pronto para enviar a alguém ou preparar-me para o mostrar no dia seguinte e, à última hora, reparar num erro ou numa coisa que queria mudar e não ter forma de o fazer. Queria poder pegar no telemóvel, corrigir aquilo rapidamente e voltar a exportar o PDF. Curiosamente, isso era uma das coisas que o StudioBinder tinha, que o Beat não tinha e que agora o PØRTAL S. tem.
Também havia a questão da língua. Em alguns programas apareciam correções em português do Brasil e nem sempre era claro como mudar para português de Portugal. Há muita gente a escrever em português europeu e, para mim, era importante que essa possibilidade estivesse bem tratada.
Foi desse conjunto de pequenas frustrações que nasceu o PØRTAL S.
JN: Quais são as principais razões para um guionista, neófito ou profissional, adotar o PØRTAL S?
JPM: Não digo que o PØRTAL S. seja melhor do que os outros softwares. Fui eu que o criei sozinho — mas estou a tentar que seja.
Mas o ponto mais forte é mesmo esse. Quem o fez, quem mexe nele, quem o atualiza, sou eu. E eu gostava que isto fosse uma comunidade. Quero mesmo estar em contacto com quem usa, ouvir, melhorar em conjunto. Não é uma empresa, sou eu, disponível para afinar isto lado a lado com quem escreve.
JN: Como decorreu o processo de criação desse programa?
JPM: Criei o programa para mim próprio porque não me entendia a 100% com nenhum dos que usava e queria uma coisa com que me entendesse mesmo.

Quando percebi que conseguia fazê-lo e que o código não era assim tão complicado, fui fazendo, usando e melhorando. Depois pensei: não devo ser o único com este problema. E decidi lançá-lo. Claro que demorou algum tempo e suor, mas a realidade é essa.
JN: Que tal tem sido a reação dos utilizadores a ele? Tens dados sobre isso?
JPM: A verdade é que não tenho propriamente dados de utilização, e isso é propositado. Pela forma como construí o PØRTAL S. e pela importância que dei à privacidade, consigo ver apenas quantas contas foram criadas, mas não consigo ver se as pessoas estão a escrever, quanto escrevem ou, obviamente, o que escrevem. E isso, para mim, é também um dos pontos fortes do programa.
Neste momento, há cerca de 40 contas criadas. Sei que tenho dois amigos a usá-lo e ambos gostam. Às vezes mandam-me feedback e vamos mexendo nas coisas a partir daí. Comigo é igual: eu próprio escrevo no PØRTAL S. e, quando encontro alguma coisa de que não gosto ou que acho que pode funcionar melhor, mudo-a.
De resto, acho que não conheço nenhuma das outras pessoas que criaram conta ou, pelo menos, ninguém me disse que está a escrever com o meu programa. E isso deixa-me mesmo contente. Saber que há pessoas que eu não conheço, que querem escrever e que, por alguma razão, encontraram o PØRTAL S. e decidiram usá-lo é mesmo incrível.
Também tento ir pondo as atualizações no Instagram, para que as pessoas saibam o que vai mudando e o que está a acontecer com o programa.
JN: Imaginemos dois cenários distintos: no primeiro, o PØRTAL S não desperta grande atenção e pouquíssimas pessoas aderem ao seu uso; no segundo, pelo contrário, é um sucesso enorme, atraindo milhares de utilizadores em Portugal e no estrangeiro. O que é que eu, como utilizador atual, posso esperar em cada um desses casos?
JPM: Se o PØRTAL S. não tiver grande adesão, não há problema. Criei-o primeiro para mim e vou continuar a usá-lo e a melhorá-lo à medida que escrevo.
Se crescer muito, ainda bem. As únicas limitações que poderiam surgir seriam ao nível do armazenamento, mas, como os guiões são leves e tenho controlo sobre o assunto, isso agora não me preocupa. Já fiz as contas e só se um dia chegarmos mesmo a milhões de utilizadores é que terei de pensar nisso. Por agora, não querendo fugir à pergunta, é isso.
Independentemente da adesão, não fecho a porta a que o programa evolua e ganhe outras ferramentas de pré-produção. Aliás, um dos planos que consigo ver para um futuro próximo é precisamente o PØRTAL S. começar a ter essas ferramentas, passar a ser PØRTAL STUDIØ e os scripts serem apenas uma parte de algo maior. Neste momento, estou a desenvolver essas ferramentas de pré-produção ao lado do diretor de fotografia com quem costumo trabalhar, João Viana.
Mas isso ainda está numa fase muito inicial e em desenvolvimento, por isso neste momento nem sei bem o que dizer sobre aquilo em que essas ferramentas se vão tornar. É algo em que estamos a trabalhar e que gostava de desenvolver no futuro.
Mas há uma coisa que nunca mudará: a base do PØRTAL SCRIPT, que continuará a ser escrever e formatar guiões gratuitamente num browser, podendo aceder-lhes em qualquer lado, de forma segura e privada.
JN: Uma última palavra ou conselho, profissional, de escrita ou relativo ao aplicativo, que queiras deixar aos leitores?
JPM: Usem-no à vontade e, por favor, estejam em contacto. As portas estão abertas a feedback, mudanças e sugestões. Quero estar próximo de quem usa e perceber como melhorar.

Obrigado, José P. Miguel, e boa sorte para os teus projetos, incluindo o PØRTAL S, que volto a recomendar aos leitores.




