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Um funeral à chuva - entrevista com o guionista Luís Campos

Dia 3 de Junho estreia em 20 salas do País o filme “Um fune­ral à chuva”, escrito por Luís Cam­pos e rea­li­zado por Telmo Martins.

É um dos pri­mei­ros fil­mes a ser rea­li­zado em Por­tu­gal segundo um modelo inde­pen­dente, sem apoios do Estado, recor­rendo ape­nas a apoios de empre­sas pri­va­das e à boa von­tade de todos os envol­vi­dos, que aceir­ta­ram tra­ba­lhar em fun­ção de divi­den­dos futu­ros. Ape­sar disso con­se­guiou con­ven­cer os dis­tri­bui­do­res e exi­bi­do­res a estreá-​​lo em cerca de vinte salas em todo o país.

Apro­vei­tei a opor­tu­ni­dade para fazer uma pequena entre­vista com Luís Cam­pos, o autor do guião.

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O rea­li­za­dor Telmo Mar­tins (esquerda) e o gui­o­nista Luís Cam­pos, durante as filmagens

João Nunes

Fala-​​me um pouco do pro­jecto. Como sur­giu o “Um Fune­ral à chuva”?

Luís Cam­pos

A Lobby Pro­duc­ti­ons foi fun­dada há 3 anos, na Covi­lhã. Os 4 mem­bros fun­da­do­res foram ex-​​colegas uni­ver­si­tá­rios: Telmo Mar­tins, Orlan­dina Vei­ros, João Fei­tor e Luis Dias. Todos já tinham tra­ba­lhado enquanto equipa em diver­sos pro­jec­tos de curta-​​metragem, algu­mas pre­mi­a­das em festivais. Antes de fun­da­rem a Lobby haviam, jun­tos, pro­du­zido cur­tas como “Rupo­fo­bia”, “Uten­sí­lios do Amor”, “Cros­swalk”. Nes­sas cur­tas anexaram-​​se alu­nos do curso de cinema da Uni­ver­si­dade da Beira Inte­rior, entre eles, eu, e fomos for­mando uma espé­cie de equipa de trabalho.

João Nunes

E o Fune­ral, como surgiu?

Luís Cam­pos

Há cerca de 3 anos atrás, quando está­va­mos a rodar o “Uten­sí­lios” o Telmo e o Luis come­ça­ram a esbo­çar um argu­mento que abor­dava o reen­con­tro de ex-​​colegas uni­ver­si­tá­rios na oca­sião da gra­du­a­ção de um deles. De certa forma, esta­vam a trans­cre­ver para papel algu­mas das memó­rias deles enquanto estu­dan­tes. Foi no Uten­sí­lios, que teve um guião do Jorge Vaz Nande, e esse novo pro­jecto foi pas­sado ao Jorge. O Jorge come­çou a escre­ver o guião de um filme que era inti­tu­lado “Tempo Pre­sente — Memó­rias de Um Estu­dante”. Entre­tanto fundou-​​se a Lobby, fize­mos mais umas coi­sas jun­tos, eu ter­mi­nei o Mes­trado em 2008 e o pro­jecto da longa foi-​​se cimen­tando. No iní­cio de 2009 entrei num está­gio pelo Inov-​​Art em Bar­ce­lona a fazer repre­sen­ta­ção da Lobby entre diver­sas tare­fas rela­ci­o­na­das com con­sulta de mer­cado, ela­bo­ra­ção de estra­té­gias de desen­vol­vi­mento inter­na­ci­o­nal, etc. Entre­tanto o guião do Jorge havia sido sub­me­tido ao ICA (Ins­ti­tuto do Cinema e Audi­o­vi­sual), sem sucesso. Durante o meu está­gio foram-​​se con­se­guindo defi­nir impor­tan­tes par­ce­rias na Beira Inte­rior que faci­li­ta­riam uma pos­sí­vel roda­gem do filme. Por volta de Junho de 2009 con­cor­re­ram com o guião ao FICA(Fundo de Inves­ti­mento do Cinema e Audi­o­vi­sual) e o pro­jecto foi apro­vado mas o guião neces­si­ta­ria de melhorias.

João Nunes

Como é que entraste no projecto?

Luís Cam­pos

Como eu estava em Bar­ce­lona, na altura e tinha escrito recen­te­mente alguns pro­jec­tos para a Lobby, de séries tele­vi­si­vas e curtas-​​metragens, abordaram-​​me no sen­tido de “melho­rar” o guião do Jorge. Achei que tal não fazia sen­tido uma vez que eu até não era entu­si­asta pela estru­tura e desen­vol­vi­mento do guião exis­tente. Pro­pus ao Telmo res­cre­ver algo do zero base­ado na mesma pre­missa de reen­con­tro de ex-​​colegas, mas com estru­tura, per­so­na­gens e plots com­ple­ta­mente dife­ren­tes. Aí che­guei à ideia do fune­ral, adi­ci­o­nei per­so­na­gens e escrevi um guião de raiz. A ideia foi rejei­tada a pri­ori mas, após 3 dias e um pri­meiro esboço, lá os con­se­gui convencer.

João Nunes

Um pri­meiro esboço de quê? Do novo guião? Ou uma sinopse?

Luís Cam­pos

Sim. O guião. A 1ª ver­são foi feita em 3 dias!!

João Nunes

P***! Não posso pôr isso no site!

Luís Cam­pos

?(risos)

Eu sei! Mas é a ver­dade. Isto foi em Junho.

João Nunes

Con­ti­nua…

Luís Cam­pos

Depois limaram-​​se uns por­me­no­res, consultaram-​​se umas opi­niões e acrescentámos/​corrigimos algu­mas cenas. Gos­ta­ram tanto que deci­di­ram sub­me­ter esse novo guião ao FICA. No final de Junho rece­be­mos a notí­cia do FICA de que não tinha sido apro­vado. Tal notí­cia foi o “leit-​​motif” da ini­ci­a­tiva de pro­du­zir inde­pen­den­te­mente. A Lobby, can­sada de pro­cu­rar apoios, como tinha essa base de empre­sas que aju­da­ria a pos­si­bi­li­tar a pro­du­ção do filme em ter­mos de emprés­ti­mos de mate­rial, alo­ja­men­tos, refei­ções, etc., deci­diu orga­ni­zar as coi­sas e preparou-​​se para rodar o já “Um Fune­ral à Chuva” em Setem­bro na Covi­lhã. Contactaram-​​se acto­res tendo em vista a par­ti­ci­pa­ção pro bono à base de royal­ties futu­ros, depen­den­tes das recei­tas, juntou-​​se parte da equipa que já havia tra­ba­lhado em ante­ri­o­res pro­jec­tos, anexaram-​​se mais alguns alu­nos do curso de cinema da UBI e, em Setem­bro, está­va­mos nós a rodar.

João Nunes

Que ver­são do guião roda­ram? Quan­tas depois da primeira?

Luís Cam­pos

Acho que a 5ª ver­são, mas se hoje con­sul­ta­res a 1ª não é mons­tru­o­sa­mente dife­rente da 5ª. Tem dife­ren­ças estru­tu­rais, obvi­a­mente, a 1ª ver­são era mais “claus­tro­fó­bica”, centrava-​​se muito mais no jan­tar do reen­con­tro, que, no filme como está, ainda ocupa grande parte do filme. Seria, tal­vez, menos comer­cial. Eu tinha visto um filme recen­te­mente que me influ­en­ciou muito para a escrita dessa sequên­cia, “O Segredo de Um Cus­cuz”, todo o rea­lismo dos per­so­na­gens, era um pouco isso que pro­cu­rava. Ide­a­li­zei algo mais “indie”, nessa 1ª ver­são, mas depois foi mais adap­tado a uma estru­tura mais clas­si­cista, mais ao agrado do público, que com­pre­endo e aceito e apoio. Ape­sar de não exis­tir filme mais indie que este, tal con­ceito não se reflecte muito na lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fica do filme, ao con­trá­rio do que ide­a­li­zei inicialmente.

João Nunes

Agrada-​​me essa ideia. Indie na forma de pro­du­ção, mas pre­o­cu­pado em encon­trar uma audiência.

Luís Cam­pos

Con­ti­nu­ando — na roda­gem fui 1º assis­tente de rea­li­za­ção e se há con­se­lho que posso dar é: nunca sejam 1º assis­tente de rea­li­za­ção de um filme com guião vosso.

(risos)

Por­que há mui­tos pon­tos de dis­cór­dia e terão de moti­var uma equipa durante 1 semana ou 1 mês para aspec­tos do filme que até podem não con­cor­dar. Ou seja, se há cargo que pode não ter cor­rido muito bem na roda­gem do filme foi o de 1º assis­tente de realização.

João Nunes

Houve mui­tas alte­ra­ções ao guião durante a roda­gem? Cenas novas, alte­ra­ções de diá­lo­gos, improvisações?

Luís Cam­pos

Houve algu­mas. Uma das per­so­na­gens teve de ser re-​​criada em ter­mos de diá­lo­gos e o clima/​ambiente do filme inti­mista for­çou a que em algu­mas cenas se desse azo à liber­dade impro­vi­sa­ci­o­nal dos acto­res. Alguns comentários/​falas no filme con­se­guem ser hiper-​​realistas por­que saí­ram no momento. Há uma sequên­cia do filme perto do final, na capela em que cada um dos per­so­na­gens vai “pri­var” com o morto e alguns dos tex­tos dos per­so­na­gens foram cor­ri­gi­dos em fun­ção do que havia sido gra­vado até então. Outro há que deve­ria ter sido e não o foi e isso reflecte-​​se no filme mas não é grave. Foi uma per­so­na­gem que foi escrita em fun­ção de outro tipo de per­so­na­li­dade e, ao longo da roda­gem, foi sendo alterado.

João Nunes

Deve ser com­pli­cado estar nessa dupla fun­ção de 1º assis­tente e guionista.

Luís Cam­pos

Muito mesmo, não volto a fazê-​​lo, por­que ape­sar de eu e o Telmo ter­mos tido muita coisa em acordo há sem­pre algu­mas dis­cór­dias e, enquanto 1º assis­tente, tens de saber levar a opi­nião dele avante e moti­va­res uma equipa em fun­ção disso.

João Nunes

Mesmo que não acre­di­tes a 100%.

Luís Cam­pos

Yep. Tens que saber fazer os outros acre­di­tar e acre­dita que não é fácil.

João Nunes

Acre­dito, sim.

Luís Cam­pos

Muito menos quando as pes­soas estão de borla e alguns sacri­fí­cios estão cons­tan­te­mente a ser pos­tos em causa.

João Nunes

Falando nisso: como foi o teu acordo para este filme? Não em ter­mos de valo­res mas de modelo de remuneração.

Luís Cam­pos

Foi à base de royal­ties tam­bém; há uma per­cen­ta­gem envol­vida. Havia um acordo em que caso se ganhasse o FICA o meu hono­rá­rio seria pago a pri­ori. Mas como não foi esse o caso estou, como todos os outros, depen­den­tes das receitas.

Luís Cam­pos

Con­ti­nu­ando nos improvisos…

João Nunes

Sim…

Luís Cam­pos

…antes da roda­gem houve obvi­a­mente todo um tra­ba­lho de planificação/​decoupage ela­bo­rado pelo Telmo, em fun­ção do qual eu orga­ni­zei e estru­tu­rei a roda­gem. Mas quando não tens meios e tens uma cena pen­sada para 40 pla­nos aca­bas sem­pre por te ren­der ao tempo que tens e impro­vi­sar dia­ri­a­mente para que con­si­gas ter a cena. Deixa de haver espaço para capri­chos cri­a­ti­vos, o impor­tante é garan­ti­res a cena, per­de­res o mínimo pos­sí­vel do que ima­gi­naste. Neste filme aca­bou por não se per­der muito do que se ide­a­li­zou. Houve uma parte dessa cena da capela que se per­deu, a tran­si­ção para o fune­ral, e na sequên­cia final, do fune­ral, tam­bém houve algo que se per­deu mas, em fun­ção disso, aca­bou por se ganhar algo mágico. A sequên­cia do final envolve mui­tas core­o­gra­fias, figu­ran­tes, jogo de acto­res, efei­tos espe­ci­ais — chuva, vento, fumo, etc. — e um plano de grua. A cena estava pen­sada para cerca de 20 pla­nos aca­bou por se fazer quase toda em 1 plano-​​sequência. Tive­mos 2 dias para fil­mar o fune­ral, enquanto hou­vesse luz do sol, e no 1º dia aca­bá­mos por não fil­mar quase nada e o pouco que fil­má­mos nem se apro­vei­tou. O 2º dia foi de esgo­ta­men­tos, como é óbvio, e deci­di­mos par­tir para o plano deci­sivo em 1 take perto do final do dia. É um plano sequên­cia de cerca de 7 minu­tos em que ou cor­ria bem ou não havia filme.

João Nunes

O tudo ou nada.

Luís Cam­pos

Feliz­mente, conseguiu-​​se coor­de­nar tudo bem, seguir a intui­ção em alguns por­me­no­res e resul­tou muito muito bem, era impos­sí­vel cor­rer melhor. Eram as rou­pas dos acto­res que se molha­vam e não havia rou­pas suplen­tes, era a câmara que bas­tava ter um pingo de água na lente e anu­lava o plano, era o movi­mento de grua que tinha um ligeiro cho­que e perdia-​​se tudo, etc. Foram 7 minu­tos de ten­são, de grande coor­de­na­ção e, acima de tudo, de supe­rior pro­fis­si­o­na­lismo de todos os envol­vi­dos. Foi qual­quer coisa de mágico e acaba por tor­nar o final do filme igual­mente mágico, é o último plano do filme.

João Nunes

Um bom plano sequên­cia é sem­pre um tour de force.

Luís Cam­pos

Outras coi­sas houve. Por exem­plo, no iní­cio do filme há 2 per­so­na­gens, gays, que tra­ba­lham num clube de vídeo. Ini­ci­al­mente eram para tra­ba­lhar na sec­ção de cd’s de um arma­zém, e o diá­logo con­ti­nha uma crí­tica social à pira­ta­ria e ao “desuso” dos cd’s. Na vés­pera o esta­be­le­ci­mento comer­cial onde iría­mos fil­mar  e tive­mos de impor­vi­sar de ime­di­ato. Feliz­mente rodá­mos na Covi­lhã, cidade que todos conhe­cía­mos por viver lá alguns anos, e aca­bas por te movi­men­tar melhor num meio que conhe­ces. Con­se­gui­mos abor­dar o dono de um clube de vídeo — que à maior parte de nós muito aju­dou a con­tri­buir para o aumento da cul­tura cine­ma­to­grá­fica) — e convencê-​​lo a fil­mar lá. Foi estra­nho, nos­tál­gico, fil­mar­mos uma cena do nosso filme numa sala onde tan­tas vezes nos con­fron­tá­mos com aquela magia de esco­lher um filme. Todo esse texto teve de ser alte­rado, em fun­ção de um impre­visto da rodagem.

João Nunes

Tiveste isso em aten­ção na escrita? Pen­sar em sítios que conhe­cias e sabias poder vir a utilizar?

Luís Cam­pos

Alguns, sim: a sequên­cia toda no jar­dim, “vivi-​​a” muito. Vivi muito da minha expe­ri­ên­cia uni­ver­si­tá­ria nesse jar­dim. Uma sequên­cia num jan­tar que apa­rece num flash­back, aquilo aconteceu-​​me mesmo. O por­me­nor da unha do empre­gado, eu “vivi” aquilo. Conhe­cer alguns dos espa­ços, ine­vi­ta­vel­mente esse conhe­ci­mento “físico” influencia-​​te o modo como escreves.

João Nunes

Como é que des­cre­ve­rias este filme? O género, o tom?

Luís Cam­pos

Comé­dia dramática.

João Nunes

A famosa dra­medy

Luís Cam­pos

Sim, muito por aí.

João Nunes

É um ter­ri­tó­rio difí­cil. Assustou-​​te?

Luís Cam­pos

Nem por isso, por­que quando escre­ves num ter­ri­tó­rio que admi­ras há sem­pre uma moti­va­ção extra. Eu sou muito movido pela crença. Foi o que senti no guião do Jorge, não mexia comigo, não con­se­gui acre­di­tar nele, enquanto espec­ta­dor e, obvi­a­mente, enquanto gosto pes­soal. Por isso decidi criar algo de raiz, em que eu acre­di­tasse, e algo que mexesse comigo, enquanto espec­ta­dor. Estou satis­feito, por­que nesse registo de dra­medy acho que con­se­gui atin­gir a pro­fun­deza que o registo exige. Em deter­mi­na­dos aspec­tos, o drama dos per­so­na­gens está lá, seja numa frase como “afi­nal, sou só mais uma”, “sabes lá o que é res­pon­sa­bi­li­dade”, etc., que, ao espec­ta­dor, pode soar banal, muito por culpa de ser em por­tu­guês mas, se ana­li­sar­mos com aten­ção, tendo em vista o campo em que o filme opera, são fra­ses pro­fun­das, trans­mis­so­ras de dor, de angús­tia, de inca­pa­ci­dade. E uma vez que se abor­dam per­so­na­gens de 30 anos, que há 10 anos sonha­vam ser o cen­tro do uni­verso e viviam de uma forma livre, des­com­pro­me­tida, e hoje, 10 anos depois, são um reflexo da soci­e­dade e dos cos­tu­mes a que a soci­e­dade obriga. Mas não quero entrar muito em des­cri­ções “filo­só­fi­cas” — isso deixo para o espectador.

João Nunes

E o lado comé­dia, fun­ci­ona? Tem de haver equilíbrio.

Luís Cam­pos

Eu sinto que sim e na ante-​​estreia do São Jorge tive o pra­zer indes­cri­tí­vel de con­fir­mar que sim: ter 800 e tal pes­soas a aplau­dir e rir à gar­ga­lhada em inú­me­ras par­tes do filme é algo mais vali­oso do que ler qual­quer crí­tica posi­tiva ou nega­tiva sobre o filme. Senti ali, in loco, a magia do cinema que aju­dei a criar e isso é único. Foi muito bom, no São Jorge, vai ficar na memó­ria de todos nós.

João Nunes

Por falar em ante-​​estreia, como sur­giu a ideia de fazer uma para a selecção?

Luís Cam­pos

Uma das empre­sas que apoiou o filme é a IMB hotéis que apoiou com a cedên­cia de quar­tos para os acto­res, na altura da roda­gem e do espaço para fil­mar no hotel em Unhais da Serra — o H2otel — onde fil­má­mos grande parte do filme. Como a selec­ção aca­bou por ir fazer o está­gio à Covi­lhã e usu­fruir des­ses espa­ços foi fácil arran­jar um acordo entre a Lobby, IMB e Federação.

João Nunes

Acho isso fantástico.

Luís Cam­pos

Pos­si­bi­li­ta­ram isso e, de certa forma, apoi­a­ram a divul­ga­ção. Há um certo cari­nho em torno do filme por ter sido feito como foi;  é o melhor mar­ke­ting que pode­mos ter, este pon­tapé na crise que “uns putos do inte­rior” deci­di­ram dar. Há uns meses atrás nin­guém ima­gi­na­ria ser pos­sí­vel fazer um filme che­gar às salas de cine­mas sem meios num país como é Por­tu­gal e onde a tra­di­ção de pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica tem os pro­ble­mas que todos conhecemos

João Nunes

Eu cos­tumo dizer que esta­mos todos à pro­cura da 3ª via, entre o cinema de autor e o “ame­ri­cano”. Achas que pode ser esta?

Luís Cam­pos

Sem dúvida que acre­dito que será esta. Eu apelido-​​o de cinema de meio termo, é o que o cinema por­tu­guês pre­cisa. É o que tínha­mos nos anos 50/​60 e que se per­deu com a mudança de regime, infe­liz­mente. A liber­dade cri­a­tiva tornou-​​se algo ego­cên­trica, do ponto de vista artís­tico. O cinema por­tu­guês é pre­ten­si­oso, quer mérito, reco­nhe­ci­mento ou notas. Infe­liz­mente, não se pro­cu­ram sor­ri­sos, lágri­mas e todo o tipo de sen­sa­ções que o cinema tão sin­gu­lar­mente tem o poder de trans​mi​tir​.Eu cos­tumo dizer que sou fã do “Pathos”, gosto que os fil­mes mexam comigo e não me ima­gino a criar algo que não mexa com o espec­ta­dor. Claro que é muito com­plexo, do ponto de vista cri­a­tivo, e o risco que refe­res no dra­medy passa muito por aí. Cada um inter­preta como inter­preta. Eu fiz uma curta-​​metragem ante­rior ao “Um Fune­ral à Chuva”, inti­tu­lada “Azei­tona”. O filme inseria-​​se na home­na­gem ao Manoel de Oli­veira,  ao cen­te­ná­rio do Manoel de Oli­veira, e nós deci­di­mos fazer um filme influ­en­ci­ado por títu­los recen­tes como “Juno”, “Lit­tle Miss Sunshine”, entre outros.

João Nunes

Boas refe­rên­cias.

Luís Cam­pos

Mas na ava­li­a­ção aca­dé­mica, uma vez que era inse­rido no pro­jecto final de Mes­trado, houve opi­niões dis­tin­tas, no pai­nel ava­li­a­tivo. Houve com­pa­ra­ções a Flo­ri­bella e eu fiz ques­tão, na defesa do pro­jecto, de ilus­trar as ope­ra­ções semió­ti­cas que tive­mos, enquanto cri­a­ti­vos e auto­res do filme. Os defen­so­res do termo “flo­ri­bella” aca­ba­ram por ter que con­cor­dar por­que essa pro­fun­di­dade está lá se o espec­ta­dor qui­ser ir mais além. O Kubrick tem o mérito reco­nhe­cido por­que quem o ana­lisa sabe ir mais além, per­ce­ber as cono­ta­ções, explo­rar essa pro­fun­deza ima­gé­tica, tex­tual, ou esté­tica. Obvi­a­mente que não me estou a com­pa­rar ao Kubrick mas sim a ten­tar enal­te­cer a riqueza do cinema, da ambi­gui­dade cine­ma­to­grá­fica e, ao mesmo tempo, reco­nhe­cer a com­ple­xi­dade “inter­pre­ta­tiva” do cinema que é dife­rente aos olhos de cada um. Eu lembro-​​me, por exem­plo, do caso “The Big Lebowski”; há pou­cos fil­mes na his­tó­ria que me sai­bam fazer rir tanto mas conheço muita gente que não con­se­gue sequer esbo­çar sim­pa­tia pelo filme. O humor é dos ter­ri­tó­rios mais com­ple­xos no cinema.

João Nunes

Mais uma per­gunta: já há pla­nos para “Um casa­mento à chuva” ?

Luís Cam­pos

(risos)

Sequela não existirá.

João Nunes

E outros projectos?

Luís Cam­pos

Há muita von­tade em con­ti­nuar a fazer coi­sas, é o nosso objec­tivo comum. Eu tenho 3 pro­jec­tos em desen­vol­vi­mento, no momento. Existe um que acre­dito ser o cami­nho a seguir pela Lobby em busca da “con­so­li­da­ção” desse meio-​​termo no cinema naci­o­nal. É uma aven­tura fami­liar fan­tás­tica que opera num epi­só­dio espe­cí­fico da his­tó­ria por­tu­guesa. Mais não posso adi­an­tar, para já. Ape­nas posso dizer que está na linha da frente para um pos­sí­vel avanço. Isto, claro, caso con­si­ga­mos reu­nir os meios para o fazer. Esse filme seria impos­sí­vel de con­se­guir fazer com os meios de “Um Fune­ral à Chuva”. A única coisa que desejo é que este filme che­gue ao máximo de pes­soas pos­sí­vel, uma vez que o seu objec­tivo prin­ci­pal é comu­ni­car com as pes­soas, pas­sar a men­sa­gem pre­ten­dida. Com o sucesso dele, espero que come­ce­mos a ter cré­dito junto de quem tem o poder deci­só­rio no finan­ci­a­mento do cinema naci­o­nal. Con­se­gui­mos o feito de fazer che­gar um filme a 20 salas, sem dinheiro. Creio ter­mos demons­trado que mere­ce­mos uma opor­tu­ni­dade de fazer algo com mais e melho­res meios.

João Nunes

Que­res dizer mais alguma coisa?

Luís Cam­pos

Este pro­jecto foi pos­sí­vel por­que um grupo de jovens “ope­rá­rios” do cinema o con­se­gui­ram tor­nar pos­sí­vel, desde o sur­real esforço da equipa de pro­du­ção, enca­be­çada por Orlan­dina Vei­ros, João Fei­tor, Ana Almeida e Lília Vare­jão, ao bri­lhan­tismo da equipa de fotografia/​imagem, que con­tou com 2 espa­nhóis — Iago e Lucía — pro­fis­si­o­nais vindo pro bono, de pro­pó­sito para o filme, aos elec­tri­cis­tas, que pra­ti­ca­mente sem dor­mir durante 1 mês tive­ram um esforço heróico a carregar/​ montar/​ desmontar/​ trans­por­tar pro­jec­to­res. A coisa foi pos­sí­vel por­que um grupo de heróis acre­di­tou no pro­jecto, fize­ram dele uma rea­li­dade — no pri­meiro dia de roda­gem esti­ve­mos a fil­mar 26 horas inin­ter­rup­tas. Acima de tudo, o filme passa a men­sa­gem implí­cita de que perante o esforço, dedi­ca­ção e devo­ção do ser humano não há crise que prevaleça.

João Nunes

Boa men­sa­gem para ter­mi­nar. O País agra­dece e eu agradeço.

 

Um fune­ral à chuva” pode ser visto nes­tes cine­mas a par­tir de 3 de Junho:

  • Alva­lá­xia
  • Amo­rei­ras
  • Colombo
  • Vasco Da Gama
  • Dolce Vita Miraflores
  • Almada Forum
  • Oei­ras Parque
  • Dolce Vita Porto
  • MarShop­ping
  • Nor­teShop­ping
  • Par­que Nascente
  • Dolce Vita Douro
  • Aveiro Forum
  • Dolce Vita Coimbra
  • Viseu Forum
  • Braga Par­que
  • Guarda Viva­cine
  • Covi­lhã SerraShopping
  • Espaço Gui­ma­rães
  • Maia Viva­cine

Aqui fica tam­bém um pequeno vídeo com­pro­va­tivo do apoio da Selec­ção Naci­o­nal. Espe­re­mos que daqui a pouco, depois do jogo com os Cama­rões, este apoio ainda seja uma mais valia ;)

Atu­a­li­za­ção: o meu colega e amigo Jorge Vaz Nande, que a certa altura é men­ci­o­nado nesta entre­vista, publi­cou um pequeno artigo no seu blo­gue, escla­re­cendo a sua par­ti­ci­pa­ção no pro­jeto. Reco­mendo a leitura.

Alguns artigos afins de que talvez goste:

  1. Trai­ler de “Um fune­ral à chuva” →
  2. Cam­pos de Jordão
  3. Expi­a­ção — entre­vista com o gui­o­nista Chris­topher Hampton
  4. Entre­vista de João Nunes à revista Take

Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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19 Comentários

  1. berni ferreira
    Publicado 02/06/2010 às 5:16 | Link

    Muito, mas mesmo muito inte­res­sante… Nesta altura, não pode­ria ter pedido uma entre­vista melhor.

    E há uma refe­rên­cia que não é men­ci­o­nada, mas que tem muito que ver com este filme: “os ami­gos de alex” (“the big chill”), de lawrence kasdan.

    Tam­bém este filme pode­ria ter sido fil­mado quase sem dinheiro. O que importa mesmo são aque­las coi­si­nhas de que se vai falando neste blo­gue: per­so­na­gens, estó­ria, capa­ci­dade de enri­que­cer o mundo com um ponto de vista, ten­são dra­má­tica, ori­gi­na­li­dade, etc., etc., etc. O resto é von­tade e “não há crise que prevaleça”.

  2. Publicado 02/06/2010 às 16:54 | Link

    Assim que vi li sobre o filme, já há mui­tas sema­nas, pro­meti que o iria ver. Não faltarei.

    Exce­lente entre­vista. Um obri­gado pelo tra­ba­lho da equipa; quem sabe esta seja uma nova etapa para o cinema por­tu­guês (não podia estar mais de acordo quanto ao meio termo).

  3. JPCaetano
    Publicado 02/06/2010 às 19:02 | Link

    Obri­gado por esta entre­vista (devias fazer mais, espe­ci­al­mente sobre o pro­cesso de escrita).
    Já tinha ouvido falar deste filme e ouvir um pouco de quem escre­veu e esteve envol­vido é sem­pre inte­res­sante. Identifico-​​me muito com o que ele diz sobre o ‘pathos’ (quando é bem estru­tu­rado, é pode­roso) e o meio-​​termo no cinema por­tu­guês. Não tenham medo de fazer mais fil­mes assim. His­tó­rias com gru­pi­nhos de pes­soas que se jun­tam para fazer algo (tipo “Lit­tle Miss Sunshine”) são sem­pre intri­gan­tes por causa de como as per­so­na­gens vão inte­ra­gir umas com as outras. Se as per­so­na­gens me pare­ce­rem dife­ren­tes o sufi­ci­ente umas das outras, mas não forem este­reó­ti­pos, e tive­rem atri­bu­tos com que me iden­ti­fico, então isso levanta-​​me as ore­lhas logo. Este filme deu-​​me essa impres­são.
    É uma lufada de ar fresco ver criar intriga e inte­resse nas pes­soas sem mulhe­res nuas no trai­ler. Intri­gar com a his­tó­ria e as per­so­na­gens, é esse o cami­nho para este novo ramo no cinema por­tu­guês, na minha opi­nião.
    Devido à his­tó­ria e às con­di­ções em que o filme foi feito deu-​​me logo von­tade de ir ao cinema ver o filme para lhes dar um tipo de suporte indi­recto (espero que não seja o único a pen­sar isto).
    Espero que o filme seja bom o sufi­ci­ente para depois a pala­vra se espa­lhar. Se for mau, con­ti­nuo a aplau­dir o esforço. De qual­quer maneira espero pelos pró­xi­mos fil­mes deste tipo (género de filme, não estou a cha­mar o rapaz de “tipo” :P ).

  4. Publicado 02/06/2010 às 19:44 | Link
  5. Fernando Guerreiro
    Publicado 02/06/2010 às 23:20 | Link

    É bom ter o tes­te­mu­nho de alguém que con­se­guiu pas­sar do papel para a tela o seu guião.

    Acho extre­ma­mente cri­a­tiva a forma que arran­ja­ram para finan­ciar, e para pro­mo­ver, o filme. Aqui está um bom exem­plo de como se podem arran­jar alter­na­ti­vas aos subsídios.

    A dada altura o Luís Cam­pos diz: “muito por culpa de ser em por­tu­guês”, este tipo de expres­sões demons­tra que nem quem escreve em por­tu­guês gosta da lín­gua. Fico triste. Por que raio tem o por­tu­guês de ser infe­rior a outra lin­gua qualquer?

    Sem ver o filme, e ape­nas vendo o trai­ler e lendo a entre­vista, parece-​​me que o argu­mento está muito, mas mesmo muito, pare­cido ao Ami­gos de Alex. Espero con­se­guir ver o filme para ver se se con­firma esta ideia com que fiquei.

    Obri­gado pela entrevista.

  6. Publicado 03/06/2010 às 12:38 | Link

    Obri­gado a todos pelas pala­vras de apoio!

    JPCa­e­tano — Qual­quer pro­nun­ci­a­ção e mani­fes­ta­ção de inte­resse em torno do filme é, para nós, uma enorme demons­tra­ção de apoio. Espero que gos­tes do filme, quando o vires. Mesmo que não gos­tes, não é por isso que dei­xaste de con­tri­buir com o teu apoio ao filme. E, aos meus olhos, de uma forma directa — ao con­trá­rio do que dizes.

    Berni e Fer­nando — “The Big Chill” (Os Ami­gos de Alex), de Lawrence Kas­dan, é, sem dúvida, uma refe­rên­cia incon­tor­ná­vel para este filme. As seme­lhan­ças na pre­missa e, tal­vez, algum tipo de tom envolto ao filme a isso, ine­vi­ta­vel­mente, obri­gam. É, para mim que adoro o filme, uma influên­cia óbvia em tudo aquilo que eu escre­ver. Par­ti­mos do prin­cí­pio que, ao escre­ver­mos, ire­mos em busca de ambi­en­tes, situ­a­ções, emo­ções e sen­sa­ções que nos agra­dem, enquanto espec­ta­dor. É-o como são cen­te­nas de outros fil­mes. Com os quais vibrei, sorri, cho­rei (em pou­cos, mas é ver­dade), admi­rei. Rela­ti­va­mente à com­pa­ra­ção entre “The Big Chill” e “Um Fune­ral À Chuva”, creio que esse termo com­pa­ra­tivo dissimular-​​se-​​á na visu­a­li­za­ção. Ambos têm uma pre­missa seme­lhante. Mas ambos são fil­mes com­ple­ta­mente dis­tin­tos, com per­so­na­gens dis­tin­tas, plots dis­tin­tos e desen­vol­vi­mento dis­tinto. Creio que irão con­cor­dar comigo, após a visu­a­li­za­ção, ape­sar da legi­ti­mi­dade óbvia de os asso­ciar pela pre­missa. Creio tam­bém que efec­tuar tal com­pa­ra­ção é tão legí­timo como com­pa­rar­mos qual­quer filme que parta de um assalto a um banco, a um com­boio, ou de uma comé­dia român­tica. Como dizia o outro — nada é inven­tado, tudo transformado.

    Fer­nando — Quando eu digo “Muito por culpa de ser por­tu­guês”, eu não estou a des­va­lo­ri­zar a nossa lín­gua. Quem me conhece sabe o quanto defendo a lín­gua por­tu­guesa, a admiro e enal­teço. Sou, até, dema­si­ado “naci­o­na­lista” para ser sen­sato, em algu­mas situ­a­ções.… Eu digo isso é no sen­tido em que por, na tela, serem empre­gues em lín­gua por­tu­guesa, o espec­ta­dor por­tu­guês, por norma, não explo­rará a pro­fun­di­dade de deter­mi­nado termo. É banal, aos seus ouvi­dos. E, por vezes, por isso, com­pa­rá­vel ao mesmo tipo de texto encon­trado no for­mato nove­lís­tico. A pro­ble­má­tica de ser em por­tu­guês, perante o espec­ta­dor por­tu­guês, é essa. Esta­mos algo “for­ma­ta­dos” para — se for em inglês é cool, em por­tu­guês não é real, cre­dí­vel. O mesmo se passa com o caso dos “pala­vrões”. Um filme do Taran­tino é bru­tal e dizem-​​se cen­te­nas de vezes “Mother­fuc­ker”. Um trai­ler por­tu­guês diz “Fodido” e vem logo ao de cima o popu­lismo que nem sei se ao con­si­de­rar “con­ser­va­dor” não será um elogio…

    Obri­gado a todos pelo apoio!
    Espero que o filme vos “belis­que” (usando uma expres­são do Telmo Mar­tins). E que aqui dei­xem os comen­tá­rios acerca do mesmo!;)

  7. lucio amaral
    Publicado 06/06/2010 às 3:15 | Link

    dis­cordo bas­tante com a aná­lise que é feita sobre o cinema em geral neste artigo. a lín­gua por­tu­guesa fun­ci­ona tão bem como qual­quer outra e prova disso são os gran­des fil­mes que exis­tem e a tra­ba­lham. só que é pre­ciso trabalhá-​​la bem e isso já pode ser mais complicado.

    acho impor­tante que quem tem ideias e pro­jec­tos os leve a bom porto, só tenho pena de terem optado por faze­rem um filme para o público (e são vocês que o afir­mam) e esse é o grande mal da arte actual, algo que a mim não me inte­ressa e por isso não verei o filme.

    admiro a esté­tica cine­ma­to­grá­fica, não a publi­ci­tá­ria tipo Amélie.

    o cinema por­tu­guês passa por um mau estado mas não é este tipo de fil­mes que o fará estar melhor.

    para ter­mi­nar duas coi­sas: pri­meiro, quando dizes que que­res recu­pe­rar essa idade de ouro do cinema por­tu­guês (que situas nas déca­das 50/​60) falas da pior, mais fraca e onde o espec­ta­dor foi mais tido por parvo. a época mais alta do cinema por­tu­guês começa jus­ta­mente no final da dita­dura. segundo, um apon­ta­mento em rela­ção a taran­tino, um cine­asta (custa-​​me chamá-​​lo assim) que nada acres­cen­tou ao cinema, um medío­cre a fazer monte, que copia (mal) bons cineastas.

    espero não ter sido muito cáus­tico, só sincero.

    • João Nunes
      Publicado 06/06/2010 às 13:39 | Link

      Caro Lucio Ama­ral, tem todo o direito ater a sua opi­nião sin­cera, e até a ser cáus­tico, desde que se man­te­nha den­tro dos limi­tes do res­peito pelos outros– o que você faz. Este blo­gue tam­bém serve para que haja debate sobre este tipo de temas e ideias e por­tanto a sua con­tri­bui­ção será sem­pre bem vinda.
      É óbvio que não con­cordo com grande parte das suas opi­niões. Por exem­plo, não sei o que é uma “esté­tica cine­ma­to­grá­fica”. Só para falar em qua­tro gran­des fil­mes recen­tes — espero que con­corde comigo na selec­ção — Um Pro­feta, Gre­en­berg, Shut­ter IslandLíbano, que “esté­tica cine­ma­to­grá­fica” têm eles em comum?
      Em segundo lugar, embora tam­bém não entre em entu­si­as­mos exces­si­vos sobre a “época de ouro” do cinema por­tu­guês — acho que se resu­miu a três ou qua­tro fil­mes, O Páteo das Can­ti­gas, O Pai Tirano, A Can­ção de Lis­boa e pouco mais — dis­cordo pro­fun­da­mente que a época mais alta do da nossa cine­ma­to­gra­fia tenha come­çado depois do fim da dita­dura. Os fil­mes dessa época são os únicos res­pon­sá­veis para que cinema naci­o­nal tenha uma audi­ên­cia média anual de 3%, com­pa­rada com os 15, 20 ou mesmo 30% da mai­o­ria dos paí­ses euro­peus. É mani­fes­ta­mente pouco, e sinal de que alguma coisa está hor­ri­vel­mente mal no nosso cinema. E é a melhor maneira de garan­tir que, a longo prazo, sere­mos colo­ni­za­dos cine­ma­to­gra­fi­ca­mente por Hollywood.
      Final­mente, acho que dizer que Taran­tino é medío­cre, que nem cine­asta é e se limita a copiar mal, borda o sacri­lé­gio. Taran­tino é um mag­ní­fico argu­men­tista, um dos pou­cos que con­se­gue fazer cinema popu­lar que­brando ao mesmo tempo quase todas as regras que regem esse tipo de cinema. E é um grande esteta cine­ma­to­grá­fico, sem nunca cair na ten­ta­ção da esté­tica publi­ci­tá­ria que o Lucio cri­tica. Sin­ce­ra­mente, tenho difi­cul­dade em per­ce­ber alguém que gosta de cinema e não reco­nhece valor em Taran­tino. Para mim, é o mesmo que afir­mar gos­tar de cinema e não apre­ciar Scorcese.

  8. JPCaetano
    Publicado 06/06/2010 às 16:47 | Link

    Caro lucio, ao ler o seu comen­tá­rio, e comen­tá­rios desse género que leio nou­tros sítios, desperta-​​me sem­pre uma curi­o­si­dade sin­cera pelo pen­sa­mento que está por detrás.
    Não se pre­o­cupe que isto não é per­se­gui­ção nenhuma, é somente um pedido honesto de expan­são sobre o que disse.

    O senhor disse:
    “só tenho pena de terem optado por faze­rem um filme para o público (…) e esse é o grande mal da arte actual”.
    Por­que é que é “o grande mal da arte actual”? Pensa ser uma dis­tra­ção, isto de estar a olhar para o feed­back do público?
    Supo­nho que tenha em mente fil­mes como o “Second Life” e “O Crime do Padre Amaro” e “Cor­rup­ção”, no diz res­peito ao cinema naci­o­nal, mas… vê isso neste filme? Se sim, onde? Eu gos­tava que o senhor lite­ral­mente apon­tasse, para me dar uma ideia.

    Diz tam­bém que o cinema por­tu­guês passa por um mau bocado. Acho que muita gente con­corda. Eu quase que vejo este peri­odo como um peri­odo de “trial and error”, de “soul-​​searching” no que toca ao nosso cinema.
    Mas de qua­quer modo, com que género de fil­mes é que acha que o nosso cinema pode­ria sair do nevo­eiro, por assim dizer?… por­que o senhor não espe­ci­fica.
    Que carac­te­rís­ti­cas numa obra cine­ma­to­grá­fica é que apre­cia e tem a con­vic­ção que se se mani­fes­tasse nou­tros fil­mes, seria melhor?
    Vou assu­mir que o senhor irá suge­rir um ou dois fil­mes (ou carac­te­rís­ti­cas) que têm fama (quer se goste ou não disto, é um facto) de ali­e­nar a grande mai­o­ria das pes­soas.
    Por­que é que acha que ali­ena as pessoas?

    Como é que um cinema bri­lha sem público? Como é que cresce sem público?
    Não tenho dúvida que per­cebe esta estra­té­gia de que­rer che­gar ao público, não tenho dúvida de que per­cebe o raci­o­cíno. Então que direc­ção se não esta que é ape­li­dada de “meio-​​termo” na entre­vista?
    E pergunto-​​lhe por que é que vejo já algu­mas pes­soas (jovens) a nur­ti­rem um cari­nho por este filme, uma cone­xão sin­cera com o que viram no ecrã, que está a ir para além da liga­ção que eu cos­tumo ver na minha gera­ção com cinema naci­o­nal.
    Que estra­té­gia, usando o tipo de fil­mes que apre­cia, seria efi­caz em fazer cres­cer o público do cinema por­tu­guês, espe­ci­al­mente para a minha gera­ção (do 20)?
    Pergunto-​​lhe isto por­que “Um Fune­ral à Chuva” parece-​​me estar a mos­trar um cami­nho que cla­ra­mente con­se­gue fun­ci­o­nar com as pessoas.

  9. Publicado 06/06/2010 às 21:33 | Link

    Caro Lúcio Amaral,

    Embora não seja da minha com­pe­tên­cia mode­rar o pai­nel de comen­tá­rios, con­cordo (pri­meiro enquanto cida­dão livre e segundo enquanto “pro­ta­go­nista” deste artigo) com­ple­ta­mente com o seu direito à opi­nião pes­soal e à caus­ti­ci­dade. Fico, aliás, bas­tante feliz por expressá-​​la de forma tão sin­cera. Só lamento que, por se ter afir­mado que o filme pre­tende comu­ni­car, trans­mi­tir a infor­ma­ção pre­ten­dida com um público que se quer nume­roso, o tenha demo­vido a pri­ori de ter inte­resse em assis­tir o filme. Lanço-​​lhe o desa­fio de ir ver o filme e, após o fazer, vir aqui dei­xar a sua opi­nião. Cáus­tica, sin­cera e, obvi­a­mente (assim o espero), devi­da­mente res­pei­ta­dora e res­pei­tá­vel. Na minha maneira de ver as coi­sas é errado dizer ‘não gosto’ antes de se conhe­cer algo. Obvi­a­mente que é de seu direito dizer ‘não quero’. E, por isso, lhe lanço o desa­fio. Estou pre­pa­rado e inte­res­sado em qual­quer crí­tica, excepto naquela que é feita sem conhe­ci­mento de causa.
    99% do cinema que é feito há mais de 100 anos é feito em fun­ção de um público. Seja ele qual for. Mas a comu­ni­ca­ção pre­tende sem­pre ter um recep­tor. Des­car­tar o valor intrín­seco do cinema por­que tal acon­teça é, na minha maneira de ver as coi­sas, redutor.

    Não pre­tendo, de todo, entrar em dis­cus­sões de gos­tos e opi­niões pes­so­ais. Feliz­mente que todos somos dife­ren­tes e exis­tem coi­sas para todos os gos­tos. Que piada teria a vida se tal não acon­te­cesse? Que piada teria o cinema se assim não fosse?

    Pre­tendo, con­tudo, dei­xar aqui a des­cri­ção de um epi­só­dio que pode aju­dar a carac­te­ri­zar e jus­ti­fi­car a minha ambi­ção de cri­a­ção artís­tica de ‘ape­tên­cia popu­lar’:
    Certo dia, estando eu a ver um jogo de fute­bol num café — repleto de espec­ta­do­res com gos­tos, ambi­ções, fai­xas etá­rias, cul­tu­ras, conhe­ci­men­tos e ori­en­ta­ções com­ple­ta­mente dis­tin­tas — obser­vei algo que me incu­tiu (se é que o posso dizer desta forma) uma espé­cie de ‘mis­são’ enquanto pre­tenso cine­asta e autor. A deter­mi­nada altura, deu-​​se o inter­valo do jogo e o dono do café, como bom anfi­trião, deci­diu pegar no tele­co­mando e fazer um zap­ping gene­ra­lista. Parou na RTP Memó­ria, nas ima­gens da céle­bre e épica sequên­cia da festa ‘popu­lar’, do filme “Aldeia da Roupa Branca”, rea­li­zado por Chi­anca de Gar­cia em 1938. E tal não foi o meu espanto (e con­forto, ao mesmo tempo, por­que embora eu fosse estu­dante de cinema, demais pre­sen­tes não o eram, nem par­ti­cu­lar­mente entu­si­as­tas por cinema em geral), ao obser­var que, de forma auto­má­tica, todos rea­gi­ram às ima­gens que obser­va­vam. Ouviu-​​se um: “Ponha lá mais alto nisso”. E levantou-​​se o volume. A música, o caos na sequên­cia de ima­gens, o nosso Por­tu­gal de anti­ga­mente ali, imor­ta­li­zado, foram sufi­ci­en­te­mente ricos para colo­car toda aquela insus­peita e cari­cata pla­teia em eufo­ria. Eram sor­ri­sos, gar­ga­lha­das. Era aten­ção e inte­resse. Tais que todos esque­ce­mos que o inter­valo do jogo durava 10 minu­tos. E, quando final­mente vol­tá­mos ao jogo, já haviam decor­rido uns 15 minu­tos da segunda parte. Sentiu-​​se, ali, a magia do cinema. O seu poder de comu­ni­ca­ção. O seu charme. A sua capa­ci­dade de sedu­ção. O orgu­lho de uma época desa­pa­re­cida. De um tipo de cinema ‘nos­tál­gico’.
    Todos sabe­mos que a pala­vra “sau­dade” só existe no dici­o­ná­rio por­tu­guês e que a mesma não tem tra­du­ção lite­ral nas outras lín­guas. Todos sabe­mos a quan­ti­dade de vezes que essa defi­ni­ção de um estado de espí­rito espe­cí­fico tem sido recu­pe­rada e ilus­trada ao longo da nossa cul­tura. Seja enquanto temá­tica cine­ma­to­grá­fica, musi­cal, lite­rá­ria, na pin­tura e/​ou escul­tura. É tal­vez aquilo que se possa defi­nir como a maior carac­te­rís­tica do povo e da cul­tura por­tu­guesa, pela sua sin­gu­la­ri­dade.
    E é triste, na minha óptica, que esse sau­do­sismo enquanto apelo popu­lar, e no que à his­tó­ria do cinema por­tu­guês diz res­peito, só se observe (a um nível popu­lar, nume­roso) quando em con­fronto com essas imor­tais obras da “época de ouro” da comé­dia por­tu­guesa.
    Se ter/​atingir esse apelo é tomar o espec­ta­dor por­tu­guês por parvo, pois então que o seja­mos todos. Que, de uma forma estu­pi­da­mente parva, sor­ría­mos com o nosso cinema. Nos emo­ci­o­ne­mos com as nos­sas his­tó­rias. Que sin­ta­mos os nos­sos fil­mes. E, acima de tudo, que nos reve­ja­mos no grande ecrã.
    Por­que, nessa minha óptica, ‘tomar o espec­ta­dor por parvo’ observa-​​se quando se o con­fronta com algum pro­duto ou canal de comu­ni­ca­ção pre­vi­a­mente pen­sado para não obter qual­quer tipo de recep­ção. Desprezando-​​o em fun­ção de um pos­sí­vel egoísmo cri­a­tivo e colocando-​​o, dessa forma, num pata­mar dis­tinto de um suposto inte­lecto supe­rior. E não sei até que ponto esse tipo de menos­prezo não ‘toma o espec­ta­dor por parvo’, pela sua suposta infe­ri­o­ri­dade ou inca­pa­ci­dade inte­lec­tual.
    Uma coisa lhe garanto, caro Lúcio Ama­ral, enquanto pre­tenso cine­asta e autor: Eu nunca toma­rei qual­quer tipo de espec­ta­dor por parvo. Posso ser eu o parvo, por ambicionar/​perseguir um tipo de cinema de apelo popu­lar. E posso não ter eu um inte­lecto supe­ri­or­mente desen­vol­vido que me per­mita trabalhar/​operar o cinema com o recurso a todas as suas poten­ci­a­li­da­des artís­ti­cas. Mas, com o imenso res­peito e cari­nho que todo o público me merece, hei-​​de sem­pre dar o meu melhor con­tri­buto para que as minhas pos­sí­veis obras obte­nham esse tipo de sau­do­sismo, con­forto, orgu­lho popu­lar e que, acima de tudo, con­si­gam obter todo e qual­quer tipo de sensações/​emoções (nem que seja por alguns minu­tos) durante o inter­valo de um pos­sí­vel futuro jogo de fute­bol qualquer.

    Fico à espera do seu comen­tá­rio ao filme, caso aceite o meu desa­fio.;)
    Ainda que não o faça, agradeço-​​lhe desde já pela par­ti­ci­pa­ção e inci­ta­ção à dis­cus­são em torno do pano­rama actual do cinema por­tu­guês. Tenho pena que a ini­ci­a­tiva que envolve a pro­du­ção e exi­bi­ção de “Um Fune­ral à Chuva” não se trans­porte aos sis­te­mas de infor­ma­ção tra­di­ci­o­nais em Por­tu­gal, em abono dessa dis­cus­são. A pro­mo­ção a larga escala de uma aná­lise, refle­xão e debate acerca do estado actual do cinema por­tu­guês (e do que poderá sig­ni­fi­car a estreia de um filme com­ple­ta­mente inde­pen­dente nas salas naci­o­nais) cer­ta­mente só bene­fi­ci­a­ria o desen­vol­vi­mento do mesmo. E, como disse, tenho pena que tal não se observe nes­ses sis­te­mas de infor­ma­ção tra­di­ci­o­nal ditos de ser­viço público.

    • João Nunes
      Publicado 06/06/2010 às 23:01 | Link

      Uma pequena adenda, com um epi­só­dio que ilus­tra o reverso desta his­tó­ria que o Luis Cam­pos conta.
      Há uns anos atrás fui a uma sala de um shop­ping ver um filme do Manoel de Oli­veira. Quando pedi os bilhe­tes a menina do gui­chet perguntou-​​me, com ar muito solí­cito, “sabe que o filme é por­tu­guês, não sabe? É só para avi­sar”.
      Con­fesso que senti ver­go­nha e foi nessa altura que per­cebi cla­ra­mente que a situ­a­ção do cinema por­tu­guês não pode con­ti­nuar inal­te­rada. É impos­sí­vel man­ter eter­na­mente uma cine­ma­to­gra­fia que assume com orgu­lho a cli­va­gem com o público.
      É claro que depois vi o filme — Um Filme Falado, de 2003 — e entendi per­fei­ta­mente a razão do aviso da menina da bilhe­teira. É que não lhe devem ter fal­tado as reclamações.

  10. Joana Nunes
    Publicado 07/06/2010 às 0:15 | Link

    Não con­sigo resis­tir a dei­xar aqui uma nota (só uma, por­que não tenho tempo para mais):

    Para com­pre­en­der e cri­ti­car Taran­tino, ainda que se tenham visto os seus fil­mes, há que ler a bio­gra­fia dele, per­ce­ber o con­texto dele e (eu pelo menos acho indis­pen­sá­vel) ler sobre o que é que e quem foi influên­cia para ele.
    Ora, uma das suas gran­des influên­cias foi o grande Howard Hawks. Sendo eu uma fã de Hawks e de Taran­tino, não posso dei­xar de notar seme­lhan­ças entre as crí­ti­cas que eram fei­tas ao Hawks no seu tempo e aque­las que leio hoje em dia rela­ti­va­mente ao Taran­tino. Afi­nal, a His­tó­ria é mesmo cíclica!
    Hawks fazia o que pode ser cha­mado de “entre­te­ni­mento popu­lar” e con­se­guia (se qui­se­rem, “ape­sar disso”) ter como público as “eli­tes inte­lec­tu­ais” com os seus fil­mes. Para mim, era indu­bi­ta­vel­mente um génio, e não me sur­pre­en­deu des­co­brir, quando me come­cei a inte­res­sar por Taran­tino, que Hawks era um dos “heróis” dele.
    Que o Taran­tino assuma que usa cenas, por exem­plo, do Godard para se ins­pi­rar parece-​​me ser a mais bonita forma de home­na­gem cine­ma­to­grá­fica que ele lhe podia fazer.
    … …e fica tanto por dizer!

    Luís, como já te disse antes, fala­rei d’Um Fune­ral à Chuva depois de o ver. E gos­tei desta pequena entrevista.

    My best regards,
    JN

  11. lucio amaral
    Publicado 07/06/2010 às 10:55 | Link

    Devido à recep­ção que o meu comen­tá­rio teve senti que devia con­ti­nuar esta dis­cus­são e ten­tar res­pon­der aos vários intervenientes.

    Caro João Nunes, em pri­meiro lugar quero dar-​​lhe uma pala­vra de apreço por fomen­tar a dis­cus­são em torno do cinema que tanta falta faz.
    Quando falei em esté­tica cine­ma­to­grá­fica foi com o intuito de dis­tin­guir aque­les fil­mes em que tudo o que está neles é pen­sado e diri­gido, por opo­si­ção a outros em que o que vemos foi posto por que fica bem, daí ter tam­bém falado em esté­tica publi­ci­tá­ria. Nada melhor do que as pala­vras de Godard para ilus­trar esse pro­blema, terá ele dito que as boas ima­gens devem dar lugar às ima­gens jus­tas.
    E o que quer isto dizer? Basta pen­sar no que tan­tas vezes se ouve dizer de um filme quando não há muito a dizer sobre ele:“tinha boa foto­gra­fia”. Pois isso não basta para ser um bom filme, por tal dei o exem­plo de Amé­lie, um filme sobre o qual ouvi imensa gente dizer essa frase sem nunca se terem dado ao tra­ba­lho de ten­tar per­ce­ber para que serve, por exem­plo, a cor nesse filme. É que se fizer­mos uma aná­lise somente a esse ele­mento facil­mente veri­fi­ca­mos que não existe cor­re­la­ção nenhuma entre pla­nos, a cor está só e ape­nas para ambi­en­tar e cati­var o olhar de um modo fácil, em suma uti­liza o mesmo método que qual­quer agên­cia publi­ci­tá­ria. Um exem­plo para con­tra­por, que de cer­teza gosta, é o Good­fel­las, onde a cor e o seu uso é pen­sado de modo a garan­tir uni­dade expres­siva e dra­má­tica, por exem­plo o ver­me­lho.
    Quanto aos fil­mes que refere ape­nas vi Um Pro­feta. Pode­ria dizer-​​me o que têm esses fil­mes que ainda não tivesse sido feito ante­ri­or­mente? E por­que os refere como gran­des fil­mes, mas não me diga que é pelo argu­mento, por­que o argu­mento é ape­nas um ele­mento como qual­quer outro num filme. Dou-​​lhe um exem­plo, Hit­ch­cock terá bons argu­men­tos mas for­mal­mente os seus fil­mes são tão bons ou melho­res que os pró­prios argu­men­tos.
    Em rela­ção ao ponto mais alto do cinema por­tu­guês rea­firmo a minha opi­nião, é na fase final da dita­dura e daí por diante que encon­tra­mos os filme mais ori­gi­nais por­tu­gue­ses, a prin­cí­pio influ­en­ci­a­dos pela Nou­velle Vague, mas que deram ori­gem a um ver­da­deiro novo cinema por­tu­guês. Sur­gi­ram desde então cine­as­tas com fil­mes ou mesmo obras com­ple­tas exce­len­tes como Paulo Rocha, Fer­nando Lopes, Oli­veira, César Mon­teiro, Teresa Vila­verde, Edgar Pêra ou Pedro Costa.
    É ver­dade que pouca gente vai ao cinema ver os fil­mes des­tes auto­res mas quanta gente leu Fer­nando Pes­soa enquanto estava vivo?
    O Pedro Costa é visto pelo mundo inteiro, do Japão aos Esta­dos Uni­dos, exis­tem mais espec­ta­do­res a vê-​​lo do que a verem qual­quer pro­du­ção naci­o­nal que atinja cá den­tro cem mil ou duzen­tos mil espec­ta­do­res.
    Quando fala da pos­si­bi­li­dade de ser­mos colo­ni­za­dos por Hollywood na ver­dade já fomos, por­que segundo o para­digma actual, intro­du­zido por suces­si­vos gover­nos e agora mate­ri­a­li­zado no FICA, eles já nem pre­ci­sam de expor­tar fil­mes para cá pois a nossa pro­du­ção assemelha-​​se à cri­a­ção desse tipo de fil­mes; como está tão bem des­crito na Comé­dia de Deus: “Até que os ame­ri­ca­nos, com os seus sor­ve­tes à base de nata (…) inven­ta­ram o ice cream, actu­al­mente popu­la­ri­zado por toda a parte. É imenso o impé­rio do ice cream. Os ame­ri­ca­nos abri­ram fábri­cas um pouco por toda a parte.”

    Caro JPCa­e­tano, o pen­sa­mento que está por detrás do comen­tá­rio é sim­ples, é o meu. Per­gunta por­que digo que olhar o público é mau, pois bem é que se fizes­sem fil­mes olhando ape­nas o público ainda esta­ría­mos a fil­mar ope­rá­rios a sair da fábrica dos Lumière já que esse filme teve bas­tante acei­ta­ção na altura.
    Penso que não são ape­nas cer­tos fil­mes que ali­e­nam as pes­soas mas mui­tas vezes são as pró­prias pes­soas que por se habi­tu­a­rem sem­pre às mes­mas coi­sas aca­bam por afas­tar tudo o que é dife­rente. Não par­ti­lho a ideia de que alguém vai ao cinema para se dis­trair, isso é o mesmo que dizer que se lê para pas­sar o tempo, é uma ofensa não só para o autor mas para todos os inter­ve­ni­en­tes na cri­a­ção do filme.
    Quando fala de “meio-​​termo” para che­gar a algum lado faz-​​me lem­brar a ter­ceira via do Tony Blair. Ora eu não acre­dito que se tenha de medir a acei­ta­ção do público, pri­meiro faz-​​se o filme e logo este irá ter com quem se pre­dis­põe a recebê-​​lo. Cor­rendo o risco de me tor­nar repe­ti­tivo cito nova­mente Godard:“Os meus fil­mes são vis­tos por doze pes­soas por cidade, são doze pes­soas com quem posso falar, os fil­mes do Spi­el­berg são vis­tos por doze milhões por cidade, só um dita­dor con­se­gue falar com tanta gente.“
    Acho mais inte­res­sante ver­mos fil­mes dife­ren­tes e com isso cri­ar­mos dis­cus­sões, do que fazerem-​​se fil­mes para todos, o que aliás penso ser impossível.

    Caro Luis Cam­pos, penso que o meu comen­tá­rio não foi bem enten­dido e lamento por isso, con­tudo acer­tou quando disse que foi a pro­pa­ganda que me demo­veu a ver o filme, mas o que res­salvo do que eu disse em rela­ção ao seu filme é que não com­pre­endo por­que sendo vocês jovens estão tão pre­o­cu­pa­dos com a recep­ção que o filme terá e por­que é que isso influ­en­ciou o pro­cesso cri­a­tivo do filme, acho que se deve arris­car prin­ci­pal­mente nessa idade.
    Não con­cordo que o cinema tenha sido feito sem­pre em fun­ção do público, assim como não con­cordo que cinema seja comu­ni­ca­ção, para mim é, como qual­quer outra forma artís­tica, expres­são; e uma pes­soa expressa-​​se só com quem quer, não se vê obri­gada a comu­ni­car com pes­soas que não lhe dizem nada.
    Estou ple­na­mente de acordo con­sigo quando diz que devem exis­tir dife­ren­tes tipos de cinema para dife­ren­tes pes­soas, é isso que faz com que pos­sa­mos des­co­brir sem­pre novos cami­nhos e novas expe­ri­ên­cias, não sou de maneira nenhuma por um só tipo de cinema.
    Gos­tei bas­tante da sua des­cri­ção do epi­só­dio no café e claro que reco­nheço que existe esse sen­ti­mento nos­tál­gico por um pas­sado fixado nesse fan­tasma da memó­ria que é o filme, mas Luís o cinema novo por­tu­guês está cheio de raí­zes popu­la­res. Mas diga-​​me, já que é estu­dante de cinema, que ori­gi­na­li­dade têm esses fil­mes da época de ouro quando com­pa­ra­dos com as cine­ma­to­gra­fias que foram fei­tas até à altura?
    O meu pro­blema não é a emo­ção, o cinema tra­ba­lha a emo­ção. Quando disse que mui­tas vezes se toma o espec­ta­dor por parvo (e não me refe­ria ao seu filme já que não o vi) que­ria dizer isso de fil­mes que olham o espec­ta­dor como um entre­tém, como no caso que referi de Amé­lie, em que se põe cor e mais cor e vai-​​se a ver e não existe rela­ção nem sen­tido por detrás des­sas esco­lhas. É ador­nar o filme, enchê-​​lo de luz e ofus­car o espec­ta­dor e o seu cérebro.

    Espero ter escla­re­cido, senão todas, a maior parte das dúvi­das que aca­bei por levan­tar com o comen­tá­rio que fiz ante­ri­or­mente.
    Desejo uma con­ti­nu­a­ção de um bom tra­ba­lho a todos.

    • João Nunes
      Publicado 07/06/2010 às 11:54 | Link

      não com­pre­endo por que sendo vocês jovens estão tão pre­o­cu­pa­dos com a recep­ção que o filme terá”

      Há uma razão sim­ples para isso: é que, pro­du­zindo sem os sub­sí­dios do Estado, se o filme não tiver recep­ção os pro­du­to­res, auto­res, cine­as­tas, téc­ni­cos e ato­res não pagam as renda de casa e as con­tas do talho. Parece-​​me uma moti­va­ção compreensível.

  12. Nélia
    Publicado 07/06/2010 às 11:31 | Link

    Já dei­xei aqui e nou­tros sítios diver­sas vezes a minha opi­nião de fã incon­di­ci­o­nal de cinema como espec­ta­dora e como aspi­rante a autora em rela­ção ao pano­rama do cinema naci­o­nal. Eu con­si­dero que a bipo­la­ri­dade do cinema de autor e cinema para o público não é sau­dá­vel para nin­guém. Haver uma grande panó­plia entre as duas visões extre­mas é aquilo que acon­tece em todo o lado, em todos os paí­ses e cul­tu­ras: há o cinema pura­mente de autor, há o cinema pura­mente comer­cial e depois existe uma quan­ti­dade imensa de fil­mes (eu diria que a maior parte do que assis­ti­mos hoje) que está algu­res nesse espec­tro. E é aqui que eu sinto que esta­mos a falhar redon­da­mente. Esta par­ti­ção de visões opos­tas não é sequer natu­ral na arte. A arte tem influên­cias, tem cer­ta­mente con­tex­tos e tem cor­ren­tes. Mas tenta sem­pre esta­be­le­cer uma ponte entre o autor e alguém mais no mundo. Obras vira­das para o autor exclu­si­va­mente ou em que o autor se silen­cia para dar só aquilo que o público quer são uni­di­rec­ci­o­nais. Em minha humile opi­nião, não cuprem o ver­da­deiro objec­tivo da arte: conec­tar pes­soas. Conec­tar o autor e o espec­ta­dor, conec­tar espec­ta­do­res entre si que dis­cu­tem a obra, fazer evo­lui o autor e mesmo todo o movi­mento e toda a cor­rente, enfim, apro­xi­mar atra­vés da emo­ção um grupo de pes­soas tão dis­tan­tes, em tempo e em espaço.
    Creio que em Por­tu­gal se come­tem com frequên­cia mui­tos exces­sos para ambos os lados e muito rara­mente se tenta fazer do cinema uma ponte de emo­ções, uma par­ti­lha de uma his­tó­ria que deixe uma marca em quem a vê, que passe a fazer parte da vida das pes­soas, sem­pre com a assi­na­tura inequí­voca dos seus auto­res (auto­res, plu­ral, nesta que é uma arte cola­bo­ra­tiva). Acho que é este espec­tro imenso de meios ter­mos que está a fal­tar e espero que este filme (que ten­ci­ono ver esta semana) dê mais um passo para pre­en­cher esta lacuna.

  13. Publicado 10/06/2010 às 19:02 | Link

    Caro Lúcio Amaral,

    Rela­ti­va­mente à pro­ble­má­tica do risco que aponta, tendo em conta a nossa juven­tude, não existe melhor res­posta (ainda que não a prin­ci­pal — por­que é que estar pre­o­cu­pado em atin­gir um público nume­roso obriga a que o filme perca as suas vir­tu­des cri­a­ti­vas??) que a dada pelo João Nunes. Nesta pro­du­ção não tive­mos qual­quer tipo de apoios finan­cei­ros, houve um pequeno inves­ti­mento da pro­du­tora em causa e, obvi­a­mente, a mesma tem a pre­o­cu­pa­ção de recu­pe­rar esse inves­ti­mento — logo, interessa-​​lhe que tenha público tam­bém numa pequena óptica finan­ceira (ainda que não seja essa a sua prin­ci­pal ambi­ção). Qual a pro­ble­má­tica que existe em torno da ten­ta­tiva de criar uma obra que con­siga comu­ni­car e tra­ba­lhar as emo­ções de um número rela­ti­va­mente amplo de espec­ta­do­res? É que não con­sigo enten­der o ‘bana­lismo’ implí­cito à mesma… Cri­tico a pro­du­ção que é feita só em pers­pec­tiva de um retorno finan­ceiro. Cri­tico o “pro­duct pla­ce­ment” (quase de índole publi­ci­tá­ria, como aponta) para atrair espec­ta­do­res, inde­pen­den­te­mente do seu con­teúdo na narrativa/​emoção/​ideia/​mensagem que se pre­tende trans­mi­tir. Mas, sin­ce­ra­mente, não com­pre­endo o porquê de, ao que­rer criar algo para um público que se quer vasto, ter que estar direc­ta­mente asso­ci­ado ao ‘bana­lismo’ e ao vazio cri­a­tivo.
    Per­cebo (ou tento con­tex­tu­a­li­zar) a vir­tude que aponta nesse “arrojo” cri­a­tivo. Mas, de certa forma, con­deno o seu extre­mismo implí­cito quando o asso­ci­a­mos ao finan­ci­a­mento esta­tal para a pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica naci­o­nal. Con­de­na­ção essa que me remete direc­ta­mente para outra obser­va­ção que faz: “Não con­cordo que o cinema tenha sido feito sem­pre em fun­ção do público, assim como não con­cordo que cinema seja comu­ni­ca­ção, para mim é, como qual­quer outra forma artís­tica, expres­são; e uma pes­soa expressa-​​se só com quem quer, não se vê obri­gada a comu­ni­car com pes­soas que não lhe dizem nada.”. A pro­ble­má­tica que aponto em clas­si­fi­car a arte cine­ma­to­grá­fica numa forma redu­tora como é a da expres­são e, acima de tudo, o acto de se expres­sar só com quem quer (esta afir­ma­ção tem o seu quê de seme­lhan­ças com a famosa “job for the boys”) é algo que con­deno na pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica por­tu­guesa recente. Por se sus­ten­tar esse tipo de con­ceito artís­tico é que o público por­tu­guês (de uma forma nume­rosa, sus­ten­tá­vel) está de cos­tas vol­ta­das para o seu cinema. Por se finan­ciar mai­o­ri­ta­ri­a­mente este tipo de cinema é que o público por­tu­guês assume o pre­con­ceito envolto ao seu cinema. Será que a mai­o­ria do público por­tu­guês não se revê enquanto recep­tor dessa expres­são? Parece-​​me unâ­nime que não, a mai­o­ria do público por­tu­guês não se enqua­dra nesse pro­tó­tipo de recep­tor.
    Não quero com isto con­de­nar a pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica enquanto expres­são direc­ci­o­nada (o autor deve sem­pre fazê-​​lo em fun­ção de um seu público, seja ele cons­ti­tuído por quem for), mas rela­ti­vi­zar a sua pre­pon­de­rân­cia. O cinema é mais do que a ‘nou­velle vague’. O cinema é mais do que o film d’auteur. Negá-​​lo é, para mim, uma forma triste de menos­pre­zar o cinema (e as suas potencialidades).

    Con­cordo con­sigo quando diz que o cinema novo por­tu­guês está cheio de ape­los e ques­tões popu­la­res. Mas quanta da nossa popu­la­ção é que fica nostálgica/​saudosista perante um filme dessa época? Quan­tos conhe­cem (numa rela­ção pro­por­ci­o­nal à popu­la­ção por­tu­guesa), sequer, 5 títu­los de obras pro­du­zi­das então? Os clás­si­cos da época de ouro não ino­va­ram nada? Mas, mesmo que não tenham dado nada de novo à lin­gua­gem ou esté­tica cine­ma­to­grá­fica, só por isso per­dem valor? Só o que inova é que é bom e tem valor? Entristece-​​me esse radi­ca­lismo, em nome do cinema. Não des­prezo, con­tudo (como é óbvio), o valor da ori­gi­na­li­dade. Mas, para se ser ori­gi­nal, têm que se que­brar todas as con­ven­ções e cli­chés do género??

    O pano­rama actual do cinema por­tu­guês neces­sita mesmo de análise/​reflexão/​discussão. Volto a afirmá-​​lo, é com muita pena que não a vejo sustentada/​promovida nos sis­te­mas de infor­ma­ção tra­di­ci­o­nais..
    Obri­gado uma vez mais, João Nunes, pela per­ti­nên­cia. Pelo sus­tento de um equi­lí­brio raci­o­nal que per­mita desen­vol­ver a pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica portuguesa.

    Só mais uma obser­va­ção: não obs­tante o pre­con­ceito que assis­tiu perante “Um Filme Falado”, de Manoel de Oli­veira, nesse epi­só­dio que des­cre­veu, o filme foi con­si­de­rado pela New York Times (creio) como um dos melho­res fil­mes da década. Inde­pen­den­te­mente do seu valor, que o tem, por­que é que não se con­se­gue expres­sar com o público por­tu­guês (em geral)? Por­que é que, em oposto, tudo o que pre­tenda che­gar a um público mais vasto, menos homo­gé­neo, tem de ser con­de­nado à par­tida? E por­que é que, perante esse radi­ca­lismo pró-​​auteur, tudo o que pre­tenda insurgir-​​se em abono de um público nume­roso tem de mor­rer pela raiz?? Por­que é que o popu­lismo, enquanto forma de expres­são artís­tica, não tem direito a ombrear com outras inten­ções artís­ti­cas de carac­te­rís­ti­cas mais específicas?

  14. André Correia
    Publicado 12/06/2010 às 18:48 | Link

    Antes de mais, sou um jovem mili­tante do cinema por­tu­guês, e, sem­pre que posso, “arrasto” os meus ami­gos até às salas de cinema para verem o que se faz por cá, ou então orga­nizo umas ses­sões casei­ras com os vários DVD’s que vou com­prando. Na maior parte das vezes con­sigo demove-​​los da ideia de que tudo o que é filme por­tu­guês não presta (tam­bém não estou a dizer com isto que tudo o que se faz no cinema naci­o­nal é duma qua­li­dade admi­rá­vel). O meu pró­ximo alvo será “Um fune­ral à chuva”, que espero que con­ti­nue em car­taz por­que até agora foi-​​me com­ple­ta­mente impos­sí­vel deslocar-​​me ao cinema mais pró­ximo. Faço isto com os meus ami­gos por­que é impos­sí­vel cri­ti­car sem conhe­ci­mento. Quer dizer, até pos­sí­vel cri­ti­car, mas depois faz-​​se figura de urso. A mesma figura de urso fazem aque­les que acham e defen­dem em voz alta, na tele­vi­são (nos pro­gra­mas da espe­ci­a­li­dade), nos jor­nais e revis­tas de que tudo o que é feito em Por­tu­gal de “cinema de autor” é obri­ga­to­ri­a­mente bom e tudo o que se faz de “cinema comer­cial” é obri­ga­to­ri­a­mente mau, ou vice versa. Sou da mesma opi­nião que o APV (Antó­nio Pedro Vas­con­ce­los). Nos EUA, no tea­tro de Nova Ior­que temos a Bro­adway, a off-​​Broadway e a off-​​off-​​Broadway. Só existe a off-​​off-​​Broadway por­que existe a off-​​Broadway, que por sua vez só existe por­que existe a Bro­adway. Daqui pode­mos tra­çar um para­le­lismo com o cinema Por­tu­guês. Há, e mais do que isso, deve haver espaço para todos. Os gran­des “Barões” do cinema naci­o­nal e seus defen­so­res­mi­li­tan­tes e toda essa gente que defende o cinema de nicho, feito para o pró­prio umbigo , que assume cla­ra­mente o papel de que­rer, cada vez mais, o afas­ta­mento do público, ainda não com­pre­en­de­ram que para haver espaço para o cinema de autor e mais expe­ri­men­ta­lista tam­bém tem de haver espaço para o cinema mais comer­cial, que leve público às salas. Não pode­mos é con­ti­nuar com a ati­tude do género “teve muita audi­ên­cia, é mau” ou “está a pis­car o olho para o público ir ver, é mau”. O cinema é uma arte dema­si­ado cara para ser feita para meia dúzia de pes­soas, por­tanto não o pode­mos com­pa­rar com outras artes que, não sendo meno­res, são menos dispendiosas,e, por con­sequên­cias, não têm que ter as mes­mas pre­o­cu­pa­ções em che­gar ao público.

    Por fim…

    Caro Lúcio Amaral,

    Fica sem­pre bonito dizer “res­peito a sua opi­nião” mas, com todo o res­peito, eu não a res­peito e dis­cordo pro­fun­da­mente. Se disse:“só tenho pena de terem optado por faze­rem um filme para o público e esse é o grande mal da arte actual” então diga-​​me, por favor, se um filme não é feito para o público será feito para quem ou o quê? Acre­dito que as mos­qui­nhas que vagueiam pelas mais vari­a­das salas de cinema, em que se exi­bem fil­mes por­tu­gue­ses, quei­ram por com­pa­nhia algu­mas pes­soas que elas pos­sam cha­tear como é cos­tume desse tipo de bicha­rada, até por­que as mos­cas não pagam bilhete mas nós sim, e isso é que dá força para que, no futuro, se façam mais e melho­res fil­mes que o público queira ver. Para aca­bar, faça-​​me o favor de não com­pa­rar Paulo Rocha, Fer­nando Lopes, Oli­veira, César Mon­teiro, Teresa Vila­verde, Edgar Pêra ou Pedro Costa com Fer­nando Pes­soa. Sabe o que é o Ros­sio? E a Rua da Betesga, tam­bém sabe? Pois bem, não são exac­ta­mente a mesma coisa.

    Como eu já referi, o cinema é uma arte muito dis­pen­di­osa para estar­mos cá com esse tipo de pre­ten­sões. Como o Luís Campo disse, e bem, “O cinema por­tu­guês é pre­ten­si­oso, quer mérito, reco­nhe­ci­mento ou notas. Infe­liz­mente, não se pro­cu­ram sor­ri­sos, lágri­mas e todo o tipo de sen­sa­ções que o cinema tão sin­gu­lar­mente tem o poder de trans­mi­tir”. Subs­crevo na tota­li­dade esta frase. Que­rem fazer fil­mes lá para fora, para cor­re­rem os fes­ti­vais estran­gei­ros, leva­rem os lou­vo­res e depois anda­rem por cá de papo inchado por­que foram lá fora e ganha­ram uma men­ção hon­rosa no fes­ti­val não sei das quan­tas, mas não que­rem saber do Zé Povi­nho que paga os impos­tos que são con­ver­ti­dos nos sub­sí­dios que eles depois usam indevidamente.

    Isto tem que levar um grande volta.

    P.S. Desejo todo o sucesso para o filme UM FUNERAL À CHUVA, mais que não seja pela audá­cia, o tra­ba­lho, a dedi­ca­ção e, acima de tudo, a pai­xão de todos os envol­vi­dos neste pro­jecto. E venham mais! Abraços!

  15. JPCaetano
    Publicado 16/06/2010 às 2:08 | Link

    Escrevo isto já alguns dias depois de ter visto o filme por­tanto não me posso lem­brar de todo o deta­lhe. Mas o que se segue men­ci­ona cenas espe­cí­fi­cas, por­tanto, se lerem, não me culpem.

    Foi a pri­meira vez que fui ver um filme por­tu­guês ao cinema, acredite-​​se ou não.

    Achei que o filme estava bom para o tipo de his­tó­ria que é. É rela­xado e não tenta ser mais do que é.
    Tem os seus momen­tos que fun­ci­o­nam (prin­ci­pal­mente os silên­cios), outros que menos, outros que eu não usa­ria no filme, ou mudaria.

    Achei que alguns momen­tos fun­ci­o­na­ram bem, como quando os namo­ra­dos vão à casa de banho (soa porco mas para quem viu sabe do que estou a falar), ou quando a per­so­na­gem de Pedro Gór­gia mente sobre onde tra­ba­lha e vê-​​se a rea­ção do namo­rado per­so­na­gem do Pedro Diogo. Gos­tei como isso está estru­tu­rado. O público per­cebe que ele está a men­tir, não neces­sa­ri­a­mente pela rea­ção do namo­rado, mas por­que já os viu a tra­ba­lhar no clube de vídeo. Gosto quando uma his­tó­ria é capaz de fazer isto, de fazer os espec­ta­do­res per­ce­ber coi­sas quase sem ter que expli­car. Eu gosto quando as per­so­na­gens bri­lham assim.
    Outro exem­plo é quando a per­so­na­gem da San­dra San­tos começa a cho­rar quando per­cebe ao que a car­reira dela che­gou. São exem­plos em que as per­so­na­gens cho­ram mas não tem que ser obri­ga­to­ri­a­mente assim, tal como é mos­trado no exem­plo da mentira.

    Uma coisa que me estava sem­pre a pas­sar pela cabeça era manei­ras de explo­rar mais cada per­so­na­gem, que­ria ter estado com cada per­so­na­gem mais tempo antes de irem todos para o fune­ral, por exem­plo, dar-​​lhes um momento para bri­lhar num espaço que não o do fune­ral.
    Que­re­ria mos­trar ao público a per­so­na­li­dade e dinâ­mica de cada per­so­na­gem antes, para que o público ficasse com curi­o­si­dade de ver-​​los inte­ra­gir num fune­ral. As cenas mos­tra­das, para mim foram o mínimo, mínimo sufi­ci­ente. Mas acho que não o neces­sá­rio para as fazer sair e se mos­tra­rem como são.

    Duas coi­sas que eu não poria no filme são: o ranho no nariz da (eu penso que é ) a Síl­via Almeida . ó pobre rapa­riga! Acho que uma reac­ção assim só fun­ci­ona quando se está ou com uma dose estu­pi­fi­cante de seda­ti­vos ou quando se está visi­vel­mente enrai­ve­cido e todo a tre­mer e gri­tar com alguém. Acho que não se jus­ti­fi­cava. Pare­cia estar um bocado fora de sítio, ape­sar de se poder raci­o­na­li­zar aquilo sem pro­ble­mas. Mas isto sou eu.

    Esta outra coisa é que me ficou atra­ves­sada. Foram uns pla­nos que eu achei per­ver­sos da San­dra San­tos. Não quero saber se ela sabia e con­sen­tiu, ou não sabia (que seria ainda pior). Acho que foram os pla­nos de menos gosto no filme todo. Eu não poria aquilo no filme. Ter um plano das cue­cas da rapa­riga quando estão sen­ta­dos a fumar e a falar fora do res­tau­rante é com­ple­ta­mente des­ne­ces­sá­rio e para mim só tem moti­vos pouco humil­des em vista.
    Se que­rem ser dife­ren­tes duns fil­mes por­tu­gue­ses recen­tes e se que­rem dizer que o vosso filme não tem disto ou daquilo….então que não tenham real­mente. Nem sequer se che­guem perto. Podiam ter posto umas cal­ças na rapa­riga, que até faria sen­tido com a per­so­na­gem, e a oca­sião. Se não se muda o guarda roupa, então que se mudasse a pers­pec­tiva do plano.
    Enfim…pergunto a quem faz fil­mes…é pos­sí­vel ser-​​se por­tu­guês e fazer-​​se fil­mes sem estas coi­sas assim?

    O filme gira muito em torno de con­ver­sas, que quanto a mim não é mal nenhum, mas quis-​​me sen­tir mais no meio das con­ver­sas, que­ria estar sen­tado à mesa com eles, e não con­se­gui que fosse uma sen­sa­ção mais per­ma­nente devido prin­ci­pal­mente à len­ti­dão de alguns momen­tos de con­versa. As tran­si­ções entre per­so­na­gens, por exem­plo quando se riam à mesa, podiam ser fei­tas mais depressa, mos­trando as melho­res rea­ções numa sequên­cia mais fluida. Parceu-​​me que umas não con­se­gui­ram che­gar onde criam che­gar. Eu não gosto de dizer estas coi­sas por­que depois penso que pro­va­vel­mente não tive­ram tempo nenhum para gra­var as cenas como deve de ser (mesmo assim o tra­ba­lho na sua tota­li­dade não está mal de todo, meus ami­gos). Acho que uma maneira de cap­tu­rar momen­tos de riso ver­da­dei­ros, é con­tar pia­das e pegar só nas rea­ções, depois da mon­ta­gem e uns tru­que­zi­nho com o som, nin­guém nota. Mas o que é dito no filme tem que jus­ti­fi­car este ou aquele tipo de riso. Acho que a rea­ção ao “Como é que sou­beste que eras gay?” foi um pouco demais. Tinha a impres­são que as per­so­na­gens que se riam eram mais madu­ras do que mos­tra­ram nesse momento.
    Uma ideia: podia ter gerado uma rea­ção entre os dois irmãos (mais do que só um olhar e uma con­versa depois), tal­vez uma esta­lada no ombro ou ela man­dar um bocado de pão ou dar-​​lhe um xuto por debaixo da mesa e ele não mos­trar muita rea­ção. Ou tudo junto.
    Acho que teria sido melhor ter os dois gays a res­pon­der sem medo e per­gun­ta­rem por­que é que se riam. Real­mente a puxar pelas per­so­na­gens, para que elas se expli­cas­sem logo ali à mesa. Podiam aca­bar por falar em homo­se­xu­a­li­dade e um plano do Zé sem per­ce­ber como é que isto acon­tece num funeral.

    Chego ao fim des­tes fil­mes e quero sem­pre saber mais sobre as per­so­na­gens. Quero lem­brar mais do que só as aven­tu­ras sexu­ais das per­so­na­gens.
    Então o morto…nem se sabe do que mor­reu ou que tipo de pes­soa era além de “cala­di­nho”. Acho que mostrá-​​lo a ser uma boa pes­soa, por exem­plo, podia fun­ci­o­nar com as emo­ções do público, para sen­ti­rem que uma boa pes­soa tinha mor­rido e terem pena quando o vêm dei­tado no fim do filme. É pena, por­que eu tam­bém sou assim e que­ria ver se eu tinha algo mais em comum com a per­so­na­gem do que ser só uma pes­soa que não fala muito. Fica para a próxima.

    O ritmo do filme tam­bém podia ser um boca­di­nho mais ace­la­rado. Nesse par­ti­cu­lar tem um boca­di­nho ainda daquela velo­ci­dade que eu asso­cio aos fil­mes por­tu­gue­ses. A con­versa no com­boio pareceu-​​me um pouco mecâ­nica em ter­mos de tran­si­ção entre as duas per­so­na­gens. Por­que não sentá-​​los lado a lado e inter­rom­per de vez em quando com ima­gens de outros pas­sa­gei­ros a faze­rem coi­sas estra­nhas que já vimos pas­sa­gei­ros a fazer nas nos­sas pró­prias via­gens? Não creio que a repre­sen­ta­ção do Ale­xan­dre Silva e da San­dra San­tos foi o que tor­nasse a cena menos dinâ­mica. Na ver­dade quase que não tenho crí­ti­cas a dar à repre­sent­ções.
    Por exem­plo, as per­so­na­gens falam e recor­dam momen­tos que os fazem rir, à mesa e fora do res­tau­rante. Senti que a maneira como mos­tra­vam as pes­soas a rea­gir era um bocado demo­rosa. Nota-​​se na mon­ta­gem, “agora vamos mos­trar ele, agora ela, agora mos­tra isto, agora ele/​ela ri-​​se”. Em alguns momen­tos um plano geral das per­so­na­gens à mesa seria sufi­ci­ente.
    Fiquei tam­bém a pen­sar se não seria inte­res­sante vê-​​los a inte­ra­gir com comida na mesa, ou com grãos de açu­car ou com os paco­tes de açú­car ou a lim­par um dedo sujo de molho ou café à toa­lha da mesa. Senti uma falta des­sas coi­si­nhas peque­ni­nas que podem fazer a dife­rença. São coi­si­nhas assim que fazem o espec­ta­dor pen­sar “Eu tam­bém sou assim”.

    Outra coisa. A per­so­na­gem do Pedro Diogo, diz no prin­cí­pio que ape­sar de irem num carro ver­me­lho todo maluco as pes­soas vão achar piada. Gos­tava de ter visto uma rea­ção à volta do carro ver­me­lho. Tal­vez eles a che­gar, pas­sa­rem por tudo no filme e no fim nin­guém dizer nada, que a per­so­na­gem do Pedro Diogo pode­ria comen­tar no fim, todo desa­pon­tado.
    Ou então rea­gi­rem, sim, mas de dife­ren­tes manei­ras, uns acha­rem de mau gosto, como o Zé e tal­vez a per­so­na­gem da Síl­via (espero não estar a enganar-​​me nos nomes e nas per­so­na­gens), outros a sorrirem.

    O filme tinha uma pecu­li­a­ri­dade por todo o filme, as cabe­ças, mui­tas vezes, fica­vam cor­ta­das em cima. Não sei se foi des­cuido, de quem fil­mou ou do pro­jec­ci­o­nista, ou se foi inten­ci­o­nal. De qual­quer maneira foi estra­nho.
    O som, no Oei­ras PAr­que, quando eu fui ver, estava um pouco alto demais, mas isso quase que não é para aqui chamado.

    Mas ape­sar des­tas coi­sas menos boas que o filme tem, ganha quando per­ce­bes que o filme foi feito de forma inde­pen­dente do método tra­di­ci­o­nal em Por­tu­gal. Foi feito num mês. Não se pode falar deste filme sem men­ci­o­nar este facto.
    Quase que fui ver o filme só para os que fize­ram rece­be­rem uma men­sa­gem de que há pes­soas inte­res­sa­das no tipo de cinema que ten­ta­ram fazer e que os esfor­ços deles mere­cem sem­pre apoio, espe­ci­al­mente se as ideias e his­tó­rias são ori­gi­nais e inven­ti­vas. Têm uma página no Face­book e os pro­bres coi­ta­dos esforçam-​​se tanto para que se passe a pala­vra. Sem dúvida nenhuma os que fize­ram têm empre­en­do­rismo, von­tade e pai­xão. Faz-​​me pen­sar o que fariam com tempo sufi­ci­ente e mais dinheiro e com uma his­tó­ria mais abran­gente (parece que a mai­o­ria dos que já vi comen­tar o filme, são pes­soas da Covi­lhã). Com­pa­rado com muito filme por­tu­guês que tenho visto, é esti­mu­lante ver que pes­soas com esta deter­mi­na­ção exis­tem por aqui. Que se jun­tem mais.
    Que venha o pró­ximo, se pos­sí­vel. Não me impor­tava de ver estas per­so­na­gens outra vez. O morto já está morto, e agora?
    Quem sabe, se feito de maneira ori­gi­nal, podiam-​​se fazer uma série de fil­mes sobre esta gera­ção, e a mais nova.

    Para men­ci­o­nar a música e a foto­gra­fia. Estão ambas acima da média por­tu­guesa, espe­ci­al­mente na pers­pec­tiva das gera­ções mais novas. A foto­gra­fia como a deste filme é algo que gos­tava de ver em mais fil­mes por­tu­gue­ses. Muda logo de atmos­fera e torna a coisa mais cine­má­tica.
    Quanto à música, vou sem­pre asso­ciar as duas músi­cas do grupo “Fan­farlo” (“Luna” e “Comet”) no trai­ler a este filme.
    Ainda estou à espera de um filme por­tu­guês assim, para o público, que terá uma banda sonora orques­trada como deve de ser. Espero que esteja num futuro próximo.

    Um abraço a todos que par­ti­ci­pa­ram, desde dos acto­res aos que segu­ra­ram o micro­fo­nes. Não desis­tam de ten­tar coi­sas novas no nosso cinema.
    Se nunca tive­rem dinheiro para fazer fil­mes, arran­gem volun­tá­rios. Quem sabe, agora com a internet…

  16. Karina
    Publicado 14/09/2010 às 17:45 | Link

    Infe­liz­mente não vi sequer a publi­ci­dade de que iria estrear no cinema um filme sobre o que eu tam­bém vivi na Covi­lhã.
    Gos­ta­ria por isso saber onde e quando posso com­prar esse aben­ço­ado filme para poder revi­ver alguns dos momen­tos que por lá passei.

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