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O primeiro olhar de… Teresa Olea, Coordenadora de Intimidade

    Como referi num dos artigos iniciais do meu Curso de Guionismo, um guião representa diferentes coisas para diferentes pessoas. Nesta nova série de entrevistas, converso com profissionais de cinema e televisão de diversas especialidades acerca do seu primeiro olhar sobre os guiões com que trabalham.

    No final de 2025 fiz um workshop sobre “Coordenação de Intimidade”, um tema importante de escrita em que a minha ignorância era quase completa. Tive a sorte da sessão ser dirigida pela Teresa Olea, uma profissional fantástica, com grande experiência e competência numa função que, imagino, será tão misteriosa para muitos leitores como era até então para mim.

    A Teresa Olea é realizadora e coordenadora de intimidade. Nasceu em Granada e vive em Lisboa. Formou-se em Tradução e Interpretação, viveu em França e no Brasil, e estudou Cinema e Imagem em Movimento no Ar.Co. O seu trabalho passa pela videoarte, documentário e ficção, tendo sido distinguido em diferentes competições nacionais e internacionais. Desde 2019 tem trabalhado em produções na Grécia e em Portugal, sobretudo na área de realização. Em 2023 formou-se como Coordenadora de Intimidade com a IntimAct e, desde então, colaborou em vários projectos para plataformas como Netflix e Amazon Prime. Em 2024 assumiu a coordenação da IntimAct em Portugal, continuando a desenvolver o seu trabalho em projectos de ficção.

    O workshop foi tão útil e esclarecedor que convidei a Teresa para inaugurar uma nova série de entrevistas no site. Para minha satisfação, e espero que para sua também, ela aceitou.


    Para quem não conhece a função, como descreves o papel de um intimacy coordinator num set de cinema e televisão?
    O trabalho do intimacy coordinator em set tem várias dimensões. Por um lado, acompanhamos os atores na execução do trabalho desenvolvido em ensaios. Verificamos como se sentem naquele dia específico e certificamo-nos de que os acordos de consentimento previamente definidos se mantêm durante a filmagem. A um nível mais técnico, asseguramos que existem os recursos necessários para a cena (desde materiais de intimidade até condições de segurança adequadas), e acompanhamos o processo para garantir que o tom da cena seja coerente com a narrativa e com a proposta artística.

    Dito isto, há algo que acho sempre curioso nesta pergunta: quando tudo corre bem, o nosso trabalho torna-se quase invisível no set. Mas quando surgem imprevistos, sejam eles técnicos, emocionais ou humanos, a nossa presença torna-se fundamental para resolver situações de forma rápida, cuidadosa e profissional.

    Para que fique bem claro, o que é considerado uma cena íntima?

    Qualquer cena que envolva interação física de carácter íntimo entre dois ou mais intérpretes, seja de natureza afetiva ou sexual (carícias, beijos, sexo simulado…) ou não (um pai a dar banho ao filho, uma consulta ginecológica…). Portanto, temos aqui cenas de nudez, interacção íntima com o próprio corpo ou com outra pessoa, violência sexual e outras cenas que possam implicar uma exposição especial mesmo sem ser necessariamente físicas, como pode ser um diálogo com elevado teor sexual.

    Em que momento do processo de produção és normalmente chamada a intervir?

    Idealmente, somos chamados durante a pré-produção, no momento de formação da equipa. No entanto, ainda acontece sermos integrados apenas duas ou três semanas antes do início das filmagens, o que pode complicar bastante o processo. Quanto mais cedo entramos num projecto, mais tempo temos para compreender o conteúdo íntimo da obra e iniciar um diálogo aprofundado com a realização e com o elenco antes de passarmos aos ensaios.

    Em alguns casos, também colaboramos ainda na fase de escrita, ajudando a pensar determinadas situações ou implicações das cenas íntimas, sempre ao serviço da narrativa.

    Quais são as principais diferenças entre coreografar uma cena de intimidade e uma cena
    de ação física tradicional?

    Não conheço em profundidade o trabalho da coordenação de ação, mas diria que a grande diferença está no tipo de exposição envolvida. Nas cenas de intimidade existe uma exposição física diferente, e uma exposição emocional muito maior, o que pode gerar riscos não apenas a nível físico, mas também emocional e psicológico.

    Além disso, nas cenas íntimas entram em jogo dinâmicas de poder, entre personagens, entre intérpretes e até dentro do próprio set, que precisam de ser reconhecidas e geridas com muita atenção e este é um dos aspectos centrais do nosso trabalho.

    Que competências específicas um intimacy coordinator precisa de ter para desempenhar o
    trabalho com rigor e sensibilidade?

    Em primeiro lugar, uma formação específica e completa em coordenação de intimidade (no mínimo 90 horas). Trata-se de uma função que exige conhecimento técnico aprofundado sobre trabalho corporal, técnica interpretativa, comunicação clara, ética profissional e gestão de dinâmicas de grupo.

    Mas exige também escuta ativa, empatia e uma grande capacidade de adaptação, porque cada projecto, cada cena e cada elenco são diferentes.

    Quando recebes um guião, o que procuras primeiro nas cenas que envolvem intimidade?

    A primeira leitura é sempre global, para identificar onde existe intimidade. Muitas vezes somos contratados por uma ou duas cenas específicas, mas ao ler o guião com atenção surgem outras situações com diferentes níveis de intimidade que, mesmo não exigindo presença em set, podem se beneficiar de conversas mais claras.

    Depois disso, procuro compreender os personagens, quem são, o que os move e o que está realmente em jogo nessas cenas. A intimidade é sempre uma ferramenta narrativa, e o nosso trabalho passa por ajudar a construir essas cenas de forma contribuir na narrativa geral do filme e na história dos nossos personagens.

    Tens algum tipo de marcação ou códigos que uses para anotar essas cenas?

    Sim. Cada profissional acaba por desenvolver os seus próprios sistemas. No meu caso, utilizo um código de cores, por exemplo, verde para beijos simples; vermelho para cenas com nudez de exposição ou sexo simulado. Existem ainda outras marcações específicas para trabalho com menores ou cenas de violência sexual. Deste jeito posso agilizar a comunicação com a produção e com a direção, para estar a par de quais são as cenas mais complexas.

    Preferes indicações de intimidade mais detalhadas ou mais abertas no guião? Porquê?

    Gosto de trabalhar com ambos os tipos. Guiões mais abertos geram conversas mais longas com a realização, porque é preciso traduzir a visão artística em algo concreto e exequível. Esse trabalho ganha depois outra camada nos ensaios com os atores, onde a cena começa realmente a ganhar forma.

    Guiões mais detalhados facilitam os aspetos práticos; quanto mais detalhado mais presença terá a visão dos guionistas, e são eles quem vão poder decidir como os seus personagens agem em cada cena, mostrando pequenos detalhes sobre esses personagens que não podem mostrar fora da intimidade.

    De qualquer modo, em ambos os casos o processo é sempre colaborativo no final.

    Como colaboras com realizadores e guionistas quando o texto levanta dúvidas ou deixa espaço para interpretações que podem afetar os actores?

    Com conversas. Muitas conversas. O essencial é perceber claramente o que se quer contar na cena, como e porquê. A partir daí, podemos avaliar opções, compreender escolhas artísticas e ter margem para propor alternativas caso surjam limites, sejam eles técnicos ou relacionados com o conforto dos intérpretes.

    Há elementos de escrita que te ajudam particularmente a preparar a coreografia e a comunicação com o elenco?

    Quanto mais claras forem as ações descritas no guião, mais fácil será o trabalho nos ensaios. Isso permite também que os atores saibam desde cedo o que é esperado e quais poderão ser as linhas de consentimento a trabalhar.

    Que tipos de ambiguidades no guião costumam ser problemáticas e exigem clarificação antes de filmar?

    O nível de nudez é uma das ambiguidades mais frequentes e nem sempre está claramente definido. Outras questões recorrentes prendem-se com posições, duração da ação ou grau de contacto físico no caso das cenas sexuais, elementos que precisam de ser esclarecidos antecipadamente.

    Que recomendações dás a guionistas sobre como abordar cenas de intimidade sem comprometer a narrativa ou o conforto dos atores?

    Os guionistas devem sentir-se livres para escrever estas cenas com clareza e sem medo, expressando a sua visão.

    Mais tarde, quando o elenco estiver definido e forem conhecidos os limites individuais, pode ser necessário ajustar alguns elementos, mas sempre vamos trabalhar para preservar a intenção narrativa e o tom da cena.

    Acho importante também aprender a nomear as coisas sem tanto medo; é sempre melhor procurar a tua própria linguagem e vocabulário, do que deixar a cena incompleta por vergonha a usar palavras que se consideram tabu.

    Qual é o erro mais frequente que encontras na escrita destas cenas?

    Muitas vezes, existe pudor ou receio em escrever cenas íntimas. Em vez de refletirem a complexidade das nossas realidades, recorre-se a modelos pré-existentes e a clichés já muito gastos. Isso empobrece os guiões e afasta o espectador, porque não dialoga verdadeiramente com a sua experiência.

    Há alguma estrutura ou “boa prática” que gostarias que os guionistas adotassem de forma mais sistemática?

    Mais do que uma estrutura rígida, gostaria de ver uma maior consciência sobre a função narrativa da intimidade. Perguntar sempre porque esta cena existe e o que revela sobre os personagens.

    Como equilibrar a necessidade dramática de uma cena de intimidade com o respeito pelos limites dos intérpretes?

    Essa é, felizmente, uma das funções centrais da coordenação de intimidade. Ter este profissional na equipa significa contar com alguém que compreende profundamente o que se quer contar e, ao mesmo tempo, respeita e protege as necessidades e os limites de cada artista.

    Não existe uma fórmula única: cada projeto exige uma abordagem diferente, dependendo da complexidade técnica, emocional e das subjetividades envolvidas.

    De que forma os guionistas podem tornar a colaboração com um intimacy coordinator mais fluida e eficaz?

    Sendo claros com a própria visão da cena e traduzindo isso nas acções dos personagens. Estando abertos ao diálogo e à escuta. A coordenação de intimidade não vem para censurar a escrita, mas para ajudar a torná-la exequível, ética e segura dentro do contexto real de um set.

    Se pudesses deixar uma mensagem aos guionistas que estão agora a começar, qual seria?

    Escrevam sem medo. As cenas íntimas também. Escrevam sem pudor. É sempre mais interessante uma cena que seja honesta e fiel à vossa realidade, mesmo que vos possa faça sentir expostos, do que repetir modelos idealizados de intimidade que já não nos representam.

    Obrigado, Teresa. Boa sorte e muito sucesso nas tuas diversas atividades.


    Termino com a tradução de uma cena do guião do filme “Retrato de uma mulher em chamas“, que é bem representativa do domínio de intervenção de uma Coordenadora de Intimidade e foi, precisamente, um dos exercícios práticos do workshop.

    A tradução é minha, a partir da tradução inglesa do guião original de Céline Schiamma, feita por um grupo de fãs.

    EXT. CAMINHO COSTEIRO – FIM DE TARDE

    Marianne e Héloïse caminham ao longo de um trilho íngreme. Os seus rostos estão escondidos por panos que as protegem da maresia. Graças ao terreno irregular, as duas mulheres tocam-se, ajudam-se mutuamente, dão as mãos, seguram-se pela cintura.

    Procuram-se e encontram-se. Acabam numa enseada, resguardada. Uma praia íntima. Se os lenços que lhes cobrem os rostos revelam apenas os olhos, esses olhos dizem muito. São vibrantes. Sentimos a respiração ofegante através do movimento do tecido que se molda aos seus lábios a cada inspiração.

    Héloïse segura no lenço que lhe tapa o rosto e baixa-o, revelando a boca. Uma pausa.

    Marianne desliza o seu lenço para baixo, como que em resposta.

    Aproxima-se de Héloïse. Beija-a. O beijo é intenso. Quando Marianne se afasta, tomada pela emoção, apercebe-se de que Héloïse voltou a cobrir o rosto. A sua boca treme.

    Com um gesto delicado, Marianne levanta-lhe o rosto com a mão. Há tumulto e ansiedade nos olhos de Héloïse.

    De repente, Héloïse foge. E deixa-a ali.

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