Perguntas & Respostas: Como usar cartões para planear a sua estória

Estou trabalhando na minha história e já tenho logline, sinopse e até um tratamento do roteiro. Mas o que pega mesmo pra mim são os famigerados cartões, que eu imaginava que fossem ajudar mas me deixaram mais confuso.

Celso

Celso, deixe-me começar com um pedido de desculpas. É possível que a sua confusão tenha raízes no capítulo 19 do meu Curso de Guião, chamado Do Storyline ao Guião.

Nesse artigo, em que falo de algumas das etapas que precedem a escrita do guião (roteiro), como as loglines, sinopses e escaletas, explico também como usar cartões para planear uma estória.

Ora esses conceitos têm naturezas ligeiramente diferentes. Enquanto os primeiros são degraus para chegar ao guião (e nem sequer são obrigatórios), o último é apenas uma ferramenta que pode facilitar o trabalho de alguns guionistas.

“Pode” é a palavra-chave.

Da mesma forma que alguns autores tomam notas abundantes em cadernos ou guardanapos de papel, outros preferem gravar as suas reflexões em gravadores de bolso, e outros ainda se limitam a ir estruturando as ideias na cabeça, também há guionistas que não dispensam os tais “famigerados cartões” para organizar as suas estórias.

Mas usá-los não é de forma alguma essencial. Se acha os cartões confusos, não se sinta obrigado a isso.

Já planeei alguns guiões com cartões, mas noutros nem lhes passei por perto. Houve uma altura em que tinha um quadro portátil feito por mim, desdobrável, com quatro painéis, que enchia de PostIts e levava sempre comigo na mochila[1]. Hoje nem sei onde o dito quadro está.

Por isso, use apenas o que for útil, prático e confortável para si. Como o Bruce Lee dizia, numa frase que não me canso de citar, “Absorva o que é útil, elimine o que é inútil e adicione o que é especificamente seu.”.

O que é o método dos cartões

Aquilo que designo de “método dos cartões” não é mais do que usar cartões individuais de notas, como os que são vendidos em pacotes de 100 nas papelarias, para ajudar a planificar e desenvolver uma estória. PostIts coloridos também podem servir.

Um quadro em pleno uso, combinando cartões e PostIts

O objectivo geral deste método é fazer uma espécie de outline dinâmico em que cada evento importante da estória é escrito num cartão individual. Esses cartões podem depois ser espetados sequencialmente num quadro ou numa parede, ou espalhados numa mesa ou no chão, para nos dar uma visão geral da estória.

A grande vantagem deste método é que, além de permite visualizar a sequência da estória e ter uma ideia dos seus altos e baixos, facilita também a sua alteração. Os cartões podem ser alterados, mudados de posição ou eliminados, conforme vamos desenvolvendo o enredo e afinando a estrutura da nossa narrativa.

Como é muito fácil alterar cada cartão individualmente sem mexer nos restantes, podemos ir ajustando a estória aos poucos, até encontrarmos o fluxo ideal para os eventos narrados.

Scott Myers, no excelente site Go Into The Story, destaca três vantagens no uso dos cartões:

  • Brainstorming – são ideais para anotar novas ideias, cenas, soluções, visuais, que ainda não sabemos onde encaixar.
  • Ligações – permitem-nos entender a nossa estória de uma forma muito visual, imediata.
  • Enredo – são uma poderosa ferramenta para chegar ao formato ideal da nossa estória. É esta terceira vantagem que vou analizar com mais detalhe no resto deste artigo.

Como usar o método dos cartões

O falecido guru de escrita Blake Snider, autor do livro Save the Cat!, é um dos defensores mais acérrimos deste método de trabalho.

Como em tantas outras ideias nos seus livros, chega a ser dogmático na sua recomendação. Mas como até nos dogmas pode haver algumas verdades, vamos analisar o seu método de trabalho, que resume bem a forma comum de usar os cartões.

O quadro

Devemos começar por arranjar um quadro, ou base, para colocar os nossos cartões. Dependendo do tamanho dos cartões que escolhermos, essa superfície terá de ser maior ou menor.

Pode ser um quadro de cortiça clássico, uma mesa ou até uma parede. Convém é estar disponível durante o tempo em que estivermos a trabalhar, para não termos de guardar os cartões entre cada sessão.

Supondo que estamos a escrever um guião que segue uma estrutura clássica, esta superfície será dividida em quatro áreas, uma para cada uma das secções principais dessa estrutura: o 1º Ato, a primeira parte do 2º Ato, a segunda parte do 2º Ato e, finalmente, o 3º Ato.

Blake Snider sugere fazer essa divisão com fitas, mas isso dependerá do nosso quadro. Essa divisão pode até ser feita, apenas, através do espacejamento dos cartões.

Os cartões

Depois de ter o quadro (ou, como Blake Snider lhe chama, O Quadro), vamos começar a preenchê-lo com os cartões.

Blake realça muito o aspecto lúdico, tátil, quase de brincadeira, que esta atividade tem.

E a melhor parte é que, enquanto estamos ocupados a gastar tempo nesta atividade aparentemente ridícula, a nossa forma está a infiltrar-se no nosso subconsciente de uma forma diferente. Pensámos um grande diálogo? É escrevê-lo num cartão e espetá-lo no quadro, onde achamos que poderá entrar. Imaginámos uma sequência de perseguição. Venham daí as cartas e vamos ver. É uma zona de criação livre de pressão! Acabaram-se as páginas em branco. São apenas pequenos cartões. E quem é que não consegue preencher um mero cartãozito?

Blake Snider

Convém fazer aqui um pequeno alerta: esta forma de usar os cartões é tão divertida e entusiasmante que, se não tivermos cuidado, pode transformar-se numa forma de procrastinação, impedindo-nos de avançar para a escrita do guião.

Além das ideias soltas – o tal brainstorming de que falava acima – que se irão acumulando com o tempo, devemos escrever os cartões para os principais momentos do nosso guião.

Assim, o passo seguinte deve ser criar cartões para o inciting incident, o 1º ponto de viragem, o importante ponto médio, o 2º ponto de viragem e o clímax.

Já falei sobre todos estes momentos estruturais no Curso de Guião, por isso não me vou alongar aqui sobre eles. Se não está familiarizado com terminologia usada, recomendo a leitura integral do Curso.

Estes cinco cartões vão delimitar as grandes viragens da nossa estória. Blake Snider recomenda até que se comece pelo ponto médio, que tem um papel muito importante na sua metodologia.

Depois de ter estes limites definidos, passamos a definir os restantes eventos – situações, obstáculos, viragens e surpresas – que constituem o enredo , até todo o quadro estar ocupado. Assim, passo a passo, vamos vendo a nossa estória tomar forma no quadro.

No final, cada cartão deve referir uma coisa importante que vai acontecer na nossa estória; um evento que introduz algum tipo de transformação marcante na sequência narrativa.

No vídeo seguinte, uma excelente explicação do uso prático dos cartões, o guionista Dustin Lance Black sugere que “cada cartão deve ser uma ideia tão pura e singular quanto possível“.

O guionista Dustin Lance Black é fã dos cartões.

Dogmático como de costume, Blake Snider diz que o quadro completo deve ter quarenta cartões, e nem um a mais; John August, um guionista importante, refere quea maior parte dos filmes pode ser resumido em menos de cinquenta cartões“; no vídeo de Lance Dustin Black conseguimos ver que a sua mesa, no final do processo, contém mais de cem cartões.

Acho que essa diferença de números tem a ver com a interpretação particular de cada autor sobre o que cada cartão deve conter.

A minha experiência diz-me que se tiver 40 a 60 eventos importantes terei material para escrever uma longa-metragem, o que coincide com as opiniões de Blake Snider e John August. Dustin Lance Black, que usa mais cartões, possivelmente é mais específico e granular no seu planeamento.

Analisar o quadro

Dustin Shane Black explica que, depois de chegar ao seu conjunto de cartões final, passa semanas, ou até meses, a lê-lo e revê-los. Altera-os, ajusta as suas posições, afina o fluxo da estória, até conseguir ler todos os cartões de seguida sem se aborrecer. É assim que sabe que tem um filme nas mãos e está pronto para escrever o primeiro draft do seu guião.

Para quem esteja a escrever com base numa estrutura em três actos, tradicional, usar os cartões cartões desta forma ajuda a perceber possíveis desequilíbrios que possam estar a afetar a nossa estória.

Por exemplo, se até ao 1º ponto de viragem já contarmos mais de 30 cartões, mas entre o 1º e o 2º pontos de viragem tivermos apenas meia dúzia, é fácil concluir que temos um 1º acto longo demais e, pelo contrário, um 2º acto demasiado curto.

Há outros truques para tornar mais eficiente a análise dos guiões. John August, por exemplo, recomenda usar cores diferentes para as cenas de ação, o que lhe permite ver de relance o ritmo de um filme.

Outros guionistas preferem usar as cores para identificar as diversas tramas, principal e secundárias, conseguindo assim ver a frequência com que aparecem ou desaparecem da estória.

Há também quem use códigos nos cartões – cores, números, símbolos – para identificar personagens ou destacar momentos especiais ligados entre si – um setup e um payoff, por exemplo.

Esse tipo de marcas especiais pode servir também para classificar a intensidade dramática de cada cena. Dessa forma conseguimos visualizar o fluxo dramático da narrativa, e ajustá-lo às nossas necessidades.

Por exemplo, uma sequência de muitas cenas de forte intensidade dramática, sem descanso entre elas, pode tornar-se opressiva; pelo contrário, outra sequência prolongada de cenas de baixa intensidade dramática, talvez seja aborrecida.

Se detectarmos este problema com os cartões, podemos alterar a ordem de algumas destas cenas, conseguindo um fluxo narrativo mais equilibrado e satisfatório, com maior variedade de altos e baixos emocionais.

Quem esteja a escrever usando outros tipos de estruturas narrativas – enredos múltiplos, variações na sequência temporal, etc. – pode beneficiar muito com o uso dos cartões.

Atribuindo cores diferentes a tramas diferentes, ou aos diversos tempos da nossa estória, por exemplo, é fácil ter uma ideia do equilíbrio geral entre várias linhas narrativas. Podemos assim perceber se estamos a dar o peso certo a cada uma, ou se algumas estão desproporcionadas em relação a outras.

Com o tempo, cada guionista encontrará as formas mais práticas e úteis de preencher os seus cartões. Como quase tudo na vida, a prática será a melhor professora.

E os softwares, como se usam

Além dos cartões de papel, propriamente ditos, é possível usar programas de computador para aplicar o método dos cartões.

Quase todos os programas de escrita, como o Scrivener, o Final Draft ou o CeltX, oferecem funções de planificação do guião baseadas na ideia dos cartões.

De forma geral, a sua utilização é semelhante à dos cartões físicos. Podem ser preenchidos com texto, marcados com etiquetas próprias, alterados, agrupados e reordenados à nossa vontade. No curso de Scrivener escrevi um artigo quase inteiro sobre este processo, cuja leitura pode ser interessante.

Mas não é preciso usar estes programas específicos de escrita de guião, se não tivermos acesso a eles. Até programas de apresentações como o PowerPoint ou o Keynote, podem, com um pouco de trabalho, ser adaptados para este efeito.

Há, no entanto, diferenças substanciais entre a aplicação do método no mundo físico e no mundo digital.

A principal diferença tem a ver com as limitações próprias de um computador. O ecrã tem uma dimensão física limitada; não é o mesmo que um quadro de cortiça na parede ou uma mesa. Se essa questão não é problemática quando estamos a trabalhar nos cartões individuais, já tem consequências quando queremos ter uma visão geral do projeto.

Quando olhamos para 60 ou 100 cartões ao mesmo tempo num ecrã de um portátil, cada um é tão pequeno que não conseguimos ver detalhadamente o seu conteúdo. O uso de códigos de cores pode ajudar a minorar essa limitação, mas ela é real e deve ser tida em conta.

Softwares de escrita mais recentes, como o Causality ou o Teksto, tentam ultrapassar essas limitações propondo novos métodos de visualizar os cartões.

O Teksto, por exemplo, tem formas gráficas de mostrar a evolução de sentimentos, como amor/ódio ou lealdade/traição. O Causality, por outro lado, usa módulos mais pequenos e adota uma visão em linha de tempo, parecida com as dos programs de edição de vídeo.

Finalmente, há um fator que não deve ser menosprezado nesta comparação entre o físico e o digital.

Os cartões de papel têm uma componente de manipulação física, lúdica, de jogo e exploração de possibilidades, que nenhum software que eu conheça consegue simular na perfeição.

Como Blake Snider refere, podemos recolher todos os nossos cartões, prendê-los com um elástico e levá-los para o café, para os revermos, baralharmos e reorganizarmos enquanto tomamos a nossa bica.

Algumas dicas para usar os cartões

Jonh August, guionista americano cujo site é um dos recursos mais interessantes e completos disponíveis na net, já escreveu sobre o método dos cartões, sugerindo uma série de dicas para otimizar o seu uso.

Há algum tempo escrevi um artigo sobre isso, mas a bem da concisão vou reproduzir aqui novamente essa informação, acrescentando desta vez alguns comentários.

  1. Escreva pouco. O máximo de sete palavras por cartão. Meia dúzia de palavras é normalmente suficiente para descrever um evento importante em termos que o consigamos entender. Dustin Lance Black ultrapassa esta limitação colocando outros cartões, por baixo do cartão de topo, onde vai incluindo informação cada vez mais detalhada.
  2. Um cartão representa um passo da estória, seja ele uma cena ou uma sequência. Não é preciso um cartão para cada pequeno detalhe. Mais tarde, nos tratamentos e escaletas, poderemos desenvolver mais as descrições e dividir estes eventos em sub-eventos, se sentirmos necessidade. Nesta fase estamos apenas a sentir as grandes linhas gerais.
  3. Mantenhas as descrições mais genéricas, de forma a poder reordenar os cartões à vontade (‘Batalha no pântano‘ em vez de ‘Confronto final‘). Esta é uma dica muito útil. Por exemplo, se chamarmos a um cartão “Ponto Médio”, estamos a condená-lo a estar nessa posição definitivamente. Se o quisermos colocar noutra posição teremos de o riscar ou eliminar. A solução de John August é mais versátil.
  4. Horizontal (mesa ou balcão) é muitas vezes mais prático do que vertical (quadro de cortiça). Shane Lance Black também concorda com esta dica. A sua mesa de cozinha, enorme, coberta de cartões, não cessa de me causar inveja.
  5. Post-its são uma boa alternativa aos cartões. São, e já os usei muitas vezes. No entanto, se não forem da melhor qualidade, têm uma certa tendência a descolar-se e cair. É muito chato chegar de manhã ao escritório e descobrir um monte de papéis coloridos espalhados no chão, obrigando-nos a trabalho desnecessário.
  6. Use um código para cada personagem numa sequência. Útil para ver quem está a faltar. Já falei sobre isto no corpo do artigo, e é uma recomendação muito útil. Os softwares de escrita permitem fazer o mesmo usando etiquetas e outras formas de classificação.
  7. A maior parte dos filmes pode ser resumido em menos de cinquenta cartões. Como referi antes, depende do nível de detalhe. Se nos ativermos aos grandes momentos, como August sugere, este valor está próximo da realidade.
  8. Os cartões são baratos. Não hesite em retrabalhá-los. O essencial desta dica é entender que o método dos cartões é libertador. É tão fácil escrever novas ideias em novos cartões, como é eliminá-las se mais tarde não nos agradarem. O nome do jogo é exploração – de ideias, possibilidades, opções e caminhos.
  9. Use uma segunda cor para as sequências de acção. É bom para avaliar o ritmo. Já falei sobre isso acima.
  10. Escreva com letras grandes. Dá jeito quando quiser olhá-los à distância. É o que eu gosto no John August. As suas dicas são sempre muito práticas e de bom senso.

Conclusão

Depois de encontrada a sequência ideal de cartões, ou seja, o enredo certo para a nossa estória, podemos usar o nosso molho de cartões como base para escrever uma sinopse ou tratamento. Podemos também, se preferirmos, passar directamente para a escrita do guião.

Com o tempo, cada guionista desenvolverá o seu método e preferências próprias. É até natural que essas preferências mudem de projecto para projecto.

Se vai começar agora a escrever um guião, ou aquele em que está a trabalhar se está a revelar problemático, considere a possibilidade de usar cartões para o planificar. Não será solução para todos os guionistas mas, para alguns, pode ser precisamente a ferramenta necessária para encontrar o rumo certo.

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  1. Sim, eu sou esse nerd[]
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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.