É assim que eu escrevo: João Maia

O ano de 2019 foi bom para o cinema português. Apesar de ter havido menos estreias de longas-metragens nacionais do que em qualquer outro ano desde 2014 (apenas 24, segundo dados do ICA de 8/12/19), os espectadores acorreram às salas para ver dois grandes filmes portugueses: A Herdade e Variações.

É o argumentista e realizador deste último filme que vou entrevistar hoje. Conheço o João Maia há mais de 20 anos, quando nos cruzámos na publicidade, onde ele fez carreira como um dos mais talentosos realizadores do nosso mercado. Mas é o seu trabalho como argumentista do Variações que mais interessará aos leitores deste blogue.

Variações é uma biografia ficcionada do cantor e compositor António Ribeiro, que todos recordamos como António Variações. O fascínio deste personagem único contagiou o público português: 277.955 espectadores assistiram ao filme, segundo dados do ICA de 11 de Dezembro, tornando-o um dos maiores sucessos de bilheteira nacionais deste milénio.

“Escrever é extenuante”, diz o João Maia, a propósito da escrita do argumento de Variações. Vamos lá perceber porquê.

Entrevista

João Nunes: Olá João, obrigado por esta entrevista. Depois de te ouvir falar sobre o filme Variações no festival A Quatro Mãos soube imediatamente que tinha de partilhar a tua experiência com os leitores do blogue.

O processo de gestação do Variações, desde a ideia inicial à exibição, demorou à volta de década e meia. O que é que te fascinou tanto nesta estória que te deu a força necessária para aguentar todos os contratempos?

João Maia: A primeira coisa que me fascinou (ainda não sabia se havia uma estória que pudesse ser contada em cinema) foi tentar entender a viagem de vida do António Ribeiro. Quando comecei a ter mais elementos sobre a vida do António achei que havia matéria para fazer um filme que pudesse ser popular e que ao mesmo tempo pudesse surpreender o espectador.

Numa entrevista disseste que só recebeste o apoio do ICA à oitava vez que concorreste. Porque achas que não houve mais abertura e vontade de ver esta estória contada?

João Maia: Há coisas no ICA que o comum dos mortais não consegue entender. Eu concorri ao ICA este ano e há coisa de 3 meses (já o Variações tinha feito mais de 270 mil espectadores) veio o resultado. O meu curriculum foi desvalorizado em 0,5 pontos em relação a 2015. Nesta altura deixei de tentar entender os critérios que regem as apreciações do ICA.

Já confessaste que não te vês como guionista, e que escrever é um esforço (apesar disso não ser um exclusivo teu; acontece com todos os guionistas…). Porque é que insististe então em escrever tu mesmo o guião?

João Maia: Ao início por não ter alternativa. Era eu que estava a fazer a pesquisa e ia acumulando histórias da vida do António. Com o passar dos anos tive a ajuda de muitas pessoas (Catarina Portas, Maria João Monteiro, Inês Clemente, Paolo Marinou Blanco, Bernardo Camisão e Karen Sztajnberg) mas mantive sempre a minha ideia do filme que queria fazer. E fui mantendo o controlo sobre o guião e avançando sozinho.

Como foi o teu processo de escrita? Fizeste tratamentos, escaletas, biografias de personagens, etc. ou passaste de imediato ao guião?

João Maia: Estive muito tempo a encher caderninhos com notas de pesquisa. Depois fiz uma cronologia da vida do António e uma tentativa de descrever todos o personagens que teriam tido importância na sua vida. Passei depois meses com uma escaleta a trabalhar a estrutura. Fui eliminando alguns personagens. Quando senti que tinha uma estrutura parei a pesquisa e passei para um tratamento. Quando o tratamento tinha umas 50 páginas passei aos diálogos.

Como decidiste que já tinhas a informação suficiente e estava na altura de parar a pesquisa e começar a escrever?

João Maia: Intuição. Um dia achei que já sabia tudo o que precisava sobre o meu personagem e sobre a história que queria contar. Não falei com mais ninguém até estar nas vésperas da rodagem. Aí levei os actores a conhecer a Rosa Maria.

Qual foi a tua posição no velho dilema: respeitar os factos históricos versus maximizar o impacto dramático da estória?

João Maia: É um balanço arriscado. Mais uma vez intuição. Tratei tudo como se fosse ficção mas no meu íntimo sabia que ia contar a história do António. Todos esses anos que passei a pesquisar a vida do António deram-me muito à vontade para me conseguir movimentar na ficção sem ter tido de me questionar muito sobre se estava a ultrapassar a realidade. A vida do António foi realmente fascinante. Era a história dele que eu queria contar.

Noutra entrevista disseste que tiraste o guião das canções do António Variações. Podes elaborar um pouco sobre isso?

João Maia: Foram as letras das canções do António que fizeram que este filme fosse assim. Seria preciso quase fazer psicanálise para conseguir explicar porque escolhi as canções que fizeram o filme. Eu acredito na intuição e desde o princípio que eu estava muito seguro das canções que eram mais importantes.

Referiste ainda que te tinha agradado o lado circular da estória. Como a ideia da “circularidade” é um tema que me interessa muito, gostava que falasses um pouco sobre isso.

João Maia: Nunca desistir de fazer canções. Existe nele um constante remar contra as dificuldades de não saber música e não saber tocar nenhum instrumento. Outro aspecto circular é ele ir muitas vezes à aldeia. Ia à terra pelo menos uma vez por ano. Outro foi nunca perder o contacto com o Fernando Ataíde. Como se o seu destino estivesse traçado. Isso interessou-me muito como motivo dramático.

No total, quanto tempo levaste a escrever este guião? Eu li algures que tinha sido um ano de pesquisa e um de escrita; mas com que tipo de ritmo e envolvimento?

João Maia: Sim, 2 anos para um primeiro draft. Depois fiz mais 3 drafts. O 4º é basicamente o filme que fiz. Ficou pronto em 2008. Demorei 5 anos a chegar a esse 4º draft.

Em que momento deste a ler a alguém o que escreveste? Foi a amigos, colegas, familiares – ou logo ao produtor?

João Maia: Primeiro a amigos e colegas e depois a produtores.

Como lidaste com as notas e comentários desses leitores?

João Maia: Não me lembro.

Como foi a relação entre o João Maia guionista e o João Maia realizador? Deixaram de se falar em algum momento?

João Maia: Super pacífica.

Passando ao lado mais prático, onde é que costumas escrever? E quais são os teus horários e ritmos normais de escrita?

João Maia: Hoje escrevo de manhã. Nos primeiros drafts do Variações ainda escrevia à noite. No máximo escrevo 4, 5 horas. Escrever é extenuante.

Que apetrechos usas para escrever: papel e caneta? Computador? Software? Quais e porquê?

João Maia: Papel e caneta até já não dar mais. Depois da estrutura feita escrevo em Final Draft.

Já tens algum projeto novo de que possas falar? Se sim, estás também envolvido na escrita do guião?

João Maia: Estou a trabalhar numa adaptação do Nome de Guerra do Almada Negreiros com o Filipe Homem Fonseca.

Obrigado, João, e desejo-te a continuação do sucesso do Variações em outras plataformas, extensível a todos os projetos futuros. Incluindo o Nome de Guerra, que já despertou a minha curiosidade.

O filme Variações já está disponível em DVD.

Fotografias: Site da produtora David & Golias

É assim que eu escrevo: João Maia

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e publicitário que divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.