Perguntas & Respostas: escrever um flashback sonoro

Tenho uma dúvida sobre como escrever um flashback sonoro. Um personagem lembra-se de um diálogo que teve ao telefone, mas não vemos imagens do diálogo, somente escutamos a conversa.

Pietro

Pietro, já escrevi em tempos um artigo sobre a escrita dos flashbacks. Por acaso, é um dos artigos mais populares aqui no site. Recomendo a sua leitura para ter uma ideia geral de uma forma correta de escrever um flashback “normal”.

O seu caso, contudo, é um pouco diferente, e merece um esclarecimento adicional.

Segundo entendi, o seu personagem vai apenas ouvir/recordar as palavras de um diálogo anterior. Nada mudará, no aspecto visual, na situação em que ele se encontra.

Não havendo mudança de local nem de tempo na acção principal, não haverá uma mudança de cena. Dado que, na convenção mais aceite, é precisamente no Cabeçalho de uma nova cena que se indicam os flashbacks, isso cria-nos um problema: onde indicar então o flashback sonoro?

Como escrever um flashback sonoro?

A solução é mais simples do que parece.

Como dizia no artigo mencionado acima, “só devemos escrever aquilo que possa ser mostrado (visualmente) ou ouvido (auditivamente) no filme. Não adianta escrever pensamentos, emoções, esperanças, ou outras coisas que não tenham uma tradução visual ou sonora. Apenas acções, gestos, palavras, eventualmente expressões, que possam ser narradas com os recursos do cinema.

Neste caso, o recurso da linguagem cinematográfica que me parece mais adequado é a voz off, sobre a qual também já escrevi outro artigo muito popular.

No livro The Hollywood Standard, que normalmente uso como referência para as situações fora da caixa, o autor Christopher Riley refere especificamente que a voz off, indicada como (V.O.) junto do Personagem que fala, é a solução correta para “vozes com origem na memória, imaginação ou alucinação“.

No entanto, se quisermos tornar ainda mais evidente que o uso da voz off, nesta situação particular de escrita, é um flashback, podemos combinar as duas convenções (e ainda usar a descrição de Ação, por segurança adicional).

Não encontrei nenhum exemplo em guiões reais[1] por isso criei uma situação como exemplo.

EXT. RUA – NOITE

João caminha lentamente na praia, passeando o seu cão. Recorda as palavras trocadas com Ana ao telefone.

JOÃO (V.O. FLASHBACK)

Podíamos encontrar-nos, resolver tudo.

ANA (V.O. FLASHBACK)

Não insistas, João. Não faças isso a ti mesmo.

JOÃO (V.O. FLASHBACK)

Dez minutos? Tu escolhes onde.

ANA (V.O. FLASHBACK)

Acabou, João. A-ca-bou!

O cão de João pára para cheirar um caranguejo morto, despertando-o das suas memórias.

Conclusão

Como em todas as situações especiais, o importante é que a forma escolhida para descrever o que temos em mente:

  • Respeite, tanto quanto possível, as convenções usadas nas situações mais correntes;
  • Seja simples e económica;
  • Seja clara e inequívoca para quem lê.

A solução que aponto é uma possibilidade, mas se encontrar outra que respeite estes critérios e lhe agrade mais, esteja à-vontade para a usar.

Fotografia de Denise Jans no Unsplash

Notas de Rodapé

  1. Se alguém souber de um, por favor deixe a referência nos Comentários e eu acrescentarei ao artigo.[]
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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.