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Pørtal_S – O primeiro software português de escrita de guiões

    O Instagram pode ser um sorvedouro de tempo e atenção mas de vez em quando o seu algoritmo acerta em cheio. Nos últimos dias, começou a apresentar-me publicações de um novo software de escrita de guiões de cinema e televisão que me parece ter um grande potencial: o Pørtal S. Decidi explorá-lo um pouco e estou agradavelmente surpreendido.

    O Pørtal S. é uma criação de José. P. Miguel, um jovem guionista e realizador português, que o disponibiliza também na área Play do seu site pessoal.

    O aplicativo, que corre localmente numa página do navegador, apresenta-se como o primeiro software de guiões feito em Portugal. Só isso já seria motivo de interesse e curiosidade.

    Também é gratuito, o que é definitivamente um ponto a seu favor.

    Mas além disso tem várias características bem pensadas, inteligentes e práticas, que me deram imediatamente vontade de o testar num projeto real.

    Compatibilidade

    A primeira dessas características é que o aplicativo pode correr apenas no nosso computador, no navegador que usamos. Entramos na página do programa, carregamos no botão “Criar” e começamos a escrever.

    Neste caso, os nossos guiões, tantos quantos quisermos, ficam guardados na memória do próprio navegador, no nosso computador, o que torna tudo extremamente seguro e confiável. Temos apenas de ter consciência de que ao limpar os dados do navegador vamos também apagar os guiões assim armazenados. É por isso importante combinar este armazenamento local com uma estratégia regular de backups.

    O que torna essa estratégia muito fácil é uma outra característica absolutamente essencial do Pørtal S. O programa exporta e importa os guiões nos formatos mais universais: o .fdx, formato nativo do Final Draft, e o Fountain, um formato de texto simples que tem vindo a ganhar tração pela sua compatibilidade e garantia de futuro.

    Isto significa que basta-nos exportar regularmente os guiões num destes dois formatos, para o nosso computador, um disco externo ou a nuvem, para os termos seguros e editáveis com qualquer um dos principais aplicativos existentes no mercado.

    Um detalhe útil: o programa vai salvando automaticamente as nossas edições conforme vamos escrevendo. Mas se fizermos Comando+S (ou Control +S) para Salvar, ele exporta automaticamente uma cópia em formato Fountain, facilitando a manutenção de cópias de segurança.

    Além disso, obviamente, o Pørtal S. também exporta em PDF, opção que é atualmente o formato de partilha de guiões por defeito.

    Ainda não tive oportunidade de testar o Pørtal S. com projetos mais longos, mas importei dois guiões antigos, em formato Final Draft e Fountain, e não encontrei nenhuma dificuldade na sua conversão, leitura e edição. Tudo funcionou como era suposto, e com uma rapidez impressionante.

    O Pørtal S. também permite criar uma conta no servidor onde está alojado e guardar aí os nossos guiões. Essa conta externa permite-nos, essencialmente, aceder a duas novas opções: trabalhar no nosso guião a partir de qualquer outro dispositivo conectado, seja ele computador, tablet ou mesmo smartphone; e partilhar a nossa janela de trabalho com outro guionista, podendo escrever em simultâneo com esse co-autor.

    Os testes que fiz a estas duas funcionalidades foram positivos. As edições dos guiões eram sincronizadas sem erros e instantaneamente, e a escrita a duas mãos (criei duas contas distintas) também funcionou na perfeição. Neste último cenário, temos apenas que estar cientes que passa a haver uma versão só nossa do guião, e outra partilhada.

    Para criarmos a conta nem precisamos dar um email; basta registar um Nome de utilizador e uma Palavra-passe e ficamos habilitados para criar online. Fiz o teste e não tive qualquer dificuldade. A única recomendação que deixo é que, se já tivermos algum guião no nosso navegador, devemos exportá-lo primeiro como Fountain, para o poder importar de seguida na conta criada, pois a transferência não é automática.

    Funcionalidade

    O primeiro impacto positivo do Pørtal S. resulta da sua extrema simplicidade e minimalismo. Entramos na página do guião e podemos começar imediatamente a escrever, usando uma versão mais simplificada da síntaxe Fountain.

    O autor do software descreve o processo de escrita em 6 passos simples:

    Tu escreves. Ele formata. Seis coisas para experimentar:

    • Carrega numa linha e escreve. A página é tua.
    • Carrega no Tab. A linha muda de tipo — são sete, em roda.
    • Carrega no Enter. Sai-te a linha que costuma vir a seguir.
    • Escreve INT. A linha vira cabeçalho de cena.
    • Escreve um nome em MAIÚSCULAS. Vira personagem. Enter, e ela fala.
    • Carrega em Pré-visualizar. A página tal como sai impressa. O Exportar PDF está no MENU.

    O processo aqui descrito combina coisas originárias de dois mundos: a utilização intensiva das teclas TAB e ENTER do teclado para mudar entre os diversos tipos de elementos do guião (se não entende o que isto quer dizer, leia este artigo sobre o formato específico dos guiões) que tem origem em softwares como o Final Draft; e a possibilidade que a síntaxe Fountain oferece de reconhecer os elementos automaticamente pela forma como são escritos.

    Por exemplo, INT. ou EXT. no início de uma linha criam automaticamente Cabeçalhos; e palavras em maiúsculas como EDU ou STEF, isoladas numa linha, definem nomes de personagem num bloco de Diálogo.

    Para mim, que escrevo regularmente tanto no Final Draft como em programas que usam Fountain como base, esta opção representa um equilíbrio quase perfeito no fluxo de escrita.

    Mas além do funcionalismo minimalista da página de entrada (que pode ser ainda ampliado no modo Foco) o Pørtal S. oferece depois algumas funcionalidades secundárias mas que os guionistas esperam atualmente:

    • Um modo de cartões que permite ver e alterar a ordem das cenas no guião (a coluna de Estrutura também o permite) e acrescentar Notas, Links e Imagens;
    • Estatísticas e outras informações úteis sobre o guião;
    • Corretor ortográfico automático em Português e Inglês (que pode ser desativado).
    • Um modo Foco (todo o texto a cinza exceto a linha ativa) e deslocamento tipo máquina de escrever (a linha ativa fica sempre no meio da página).
    • E um curioso modo “Goblin” onde podemos deixar notas e apontamentos, gerais ou ligados a determinadas cenas, sem que estes interfiram nem sejam exportados com o texto principal.

    Detalhes

    O Pørtal S. não tem uma fartura de menus cheios de funcionalidades, muitas das quais não sabemos sequer para o que servem e nunca chegamos a utilizar. Oferece apenas as funções mínimas indispensáveis para escrever qualquer guião de cinema e televisão. Dos vários pilotos que costumo estudar nos meus workshops mais teóricos (Breaking Bad, Peaky Blinders, etc) não há nenhum que não pudesse ter sido escrito apenas com as capacidades disponíveis neste programa (e uma dose brutal de talento…).

    Mas tem também pequenos detalhes funcionais que o distinguem de outros programas mais estabelecidos.

    Por exemplo, no início das linhas aparece, em cinza claro, o tipo de elemento atribuído a essa linha por defeito. É um pormenor que facilita muito a fluidez da nossa escrita.

    Outro exemplo: a facilidade com que se ligam e desligam os números de cena e os “continuados“. Basta clicar num botão no menu lateral, e todo o guião muda instantaneamente.

    Há mais pequenos detalhes como este espalhados pelo interface e seguramente vai ser um gosto continuar a descobri-los.

    Problemas

    Como qualquer outro programa ainda na sua adolescência, o Pørtal S. não é completamente isento de problemas ou limitações, mas tem muito menos, e menos sérios, do que eu esperaria nestas circunstâncias.

    O único que detetei e que poderá, em certas circunstâncias, ser limitativo, é a forma como são criadas as Folhas de Rosto: há uma série de campos a preencher, o que é prático, mas não podemos acrescentar outros campos que sejam necessários.

    Para 90% dos guiões isto é mais do que suficiente e resulta numa Folha de Rosto perfeita e profissional.

    Mas se quisermos acrescentar outras linhas, como por exemplo um número de episódio ou o título e autor de uma obra adaptada, já não o conseguimos. Não é uma falha crítica, pois podemos sempre fazê-lo noutro programa, mas será um aspeto a melhorar.

    Outra lacuna: na coluna da Estrutura ou no modo Cartões podemos com facilidade mudar a ordem das cenas (mudanças que o Guião reflete de imediato) mas não podemos criar novas cenas. Isso limita um pouco o uso prático destas funções para o planeamento de uma estória através do método dos cartões. Acredito que isso poderá vir a ser introduzido numa versão futura.

    Também é aborrecido não poder selecionar e copiar vários parágrafos ao mesmo tempo, especialmente para quem faz essa operação com frequência.

    Além disso, há pequenos glitches temporários de interface, como cursores de inserção que surgem em várias linhas ao mesmo tempo, ou que ficam bloqueados e não nos deixam escrever de imediato. Nada disto dura muito tempo ou surge com frequência, e é apenas um pouco irritante quando aparece. O autor do programa oferece uma opção para denunciar com simplicidade estes pequenos bugs, por isso estou convencido que com o tempo e futuras atualizações eles terão tendência a desaparecer.

    Conclusão

    O Pørtal S. surpreendeu-me muito, e pela positiva. É um programa simples, de aprendizagem rápida, e com as funcionalidades necessárias e suficientes para escrever um guião a partir do zero. Nos testes que fiz até ao momento não encontrei nenhum problema ou limitação que me levantassem dúvidas ou receios.

    Fiquei de tal modo bem impressionado que vou utilizá-lo como aplicativo de introdução à escrita de guião no meu próximo workshop prático, Fazer Cenas. Penso que tem o equilíbrio ideal entre simplicidade e potência para não assustar os alunos num primeiro contato, sem os limitar na sua evolução e opções criativas.

    O workshop servirá também como um teste mais intensivo para as capacidades e limitações do programa, de que darei conta num próximo artigo.

    Já escrevi várias vezes sobre as opções de aplicativos disponíveis para quem quer escrever um guião de cinema ou televisão. Acredito que o Pørtal S., o primeiro programa de escrita de guião feito em Portugal, terá lugar cativo em qualquer próximo artigo sobre esse tema.

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