Perguntas & Respostas: o que fazer quando o guião está curto

Estou com um problema: consegui contar a minha estória bem antes de chegar às 100 páginas. Na verdade estou inventando algumas cenas para ver se chego perto de 100. Como posso solucionar isso sem ter de desistir deste roteiro?

Richardson

Olá Richardson,

Em primeiro lugar, deixe-me referir que o 100 não é um número mágico. Muitos guiões têm realmente à volta de 100 páginas mas, dependendo da estória, 85 ou 90 podem ser suficientes.

No entanto, se o seu guião está realmente curto, isso pode ser consequência de ter escolhido uma estória inadequada.

Nem todas as ideias têm consistência suficiente para ser transformadas numa obra cinematográfica. Talvez a sua premissa possa dar uma excelente curta-metragem ou até uma boa média (por exemplo, um telefilme), mas falta-lhe “sumo” para ser um longa metragem.

Já escrevi no Curso de Guião sobre o que devemos procurar numa ideia para cinema. Uma das condições é que ela aproveite bem as características desse meio. E, para isso, deve ter o potencial de conflito suficiente se estender por 90 a 120 páginas de um guião, correspondentes a mais ou menos hora e meia a duas horas de filme.

Costumo recomendar aos meus alunos de guionismo, quando estão a avaliar o potencial de uma premissa para um filme, que façam uma lista rápida com todos os conflitos que a sua ideia pode gerar. Se conseguirem, sem grande esforço, identificar uma dúzia ou mais de fontes de tensão dramática, estão no bom caminho. Se, pelo contrário, só conseguirem extrair três ou quatro, com dificuldade, talvez seja sensato repensarem a premissa inicial.

O que fazer

Mas vamos assumir que já escreveu bastante e, mais importante ainda, quer mesmo contar essa estória. O que fazer nessa situação?

Em primeiro lugar, sugiro que pense em termos de sequências e não de cenas individuais.

Se começar a escrever cenas apenas para “encher” isso vai notar-se. É recurso de novela, e das mázinhas, daquelas que os guionistas enchem com diálogos a metro para cumprir os objetivos da semana.

No cinema, pelo contrário, o objetivo deve ser sempre emagrecer o guião o mais possível.

Qualquer cena que esteja num guião deve ser capaz de lutar pela sua sobrevivência na selva cruel da rescrita. Se não fizer avançar a estória ou não revelar algo importante sobre os personagens[1] não tem lugar no guião.

Como escrevi num artigo anterior, uma cena deve:

  • Ser indispensável para a estória;
  • Causar uma transformação;
  • Forçar os personagens a fazer escolhas;
  • Determinar o curso dos eventos seguintes.

O que acontece normalmente, quando criamos novas cenas apenas para aumentar o guião, é que elas não cumprem estes requisitos. Mas se pensarmos em termos de sequências a solução fica mais fácil.

As três soluções que sugiro de seguida podem ser implementadas separadamente ou combinadas entre si. Tudo depende da sua estória e da dimensão (ou falta dela) do seu problema.

Inserir uma sequência extra

A solução mais simples e inteligente pode ser a de criar e encaixar toda uma nova sequência na sua estória. Um bloco de cenas mais ou menos autónomo, com um princípio, meio e fim, que contribui para a estória final.

Para o fazer, considere qual o objetivo final do seu protagonista e procure uma nova sequência de cenas que possa ser encaixada, com lógica, no percurso que ele precisa fazer até lá chegar.

Essa sequência extra deve:

  1. ter uma razão de ser própria;
  2. incluir os seus obstáculos e dificuldades específicos;
  3. contribuir para aumentar a tensão dramática do filme;
  4. e, obviamente, deve fazer a ponte entre duas etapas que já façam parte do seu guião.

Por exemplo, em Ocean’s 13, há uma sequência em que o gangue de Danny Ocean tem de tomar posse de uma super-escavadora que 1) querem usar para simular um terremoto e facilitar o assalto final; 2) enfrentam diversos obstáculos e dificuldades para o conseguir; 3) a possibilidade de falharem coloca em risco todo o plano; e 4) depois de conseguirem a máquina o plano continua em marcha.

Não estou a afirmar que essa sequência tenha sido introduzida apenas para aumentar o guião – com certeza não foi – mas, como se pode ver, se o tivesse sido teria cumprido os critérios indicados.

Uma solução como esta aumenta a dimensão do guião sem diluir o seu potencial dramático. Pelo contrário, se for bem escolhida, pode até contribuir com momentos inesquecíveis para o seu filme.

Incluir uma trama secundária

Outra possibilidade é desenvolver e incluir no seu guião uma trama secundária.

A maior parte dos guiões têm uma trama principal, a que identificamos mais facilmente como a nossa estória, mas desenvolvem, em paralelo, uma ou mais tramas secundárias. São as chamadas trama B, trama C, etc, por ordem de importância.

Geralmente uma delas – geralmente a B – é de raiz amorosa, mas a sua natureza é ditada pela própria estória central. É frequente que estas tramas secundárias sejam apresentadas no 1º ato ou no início do 2º, desenvolvidas ao longo do 2º ato, e concluídas antes do clímax da trama principal, mas isso pode variar de estória para estória.

Veja se há alguma trama secundária que possa desenvolver e acrescentar à sua estória como forma de a enriquecer e aumentar o guião. Naturalmente, esta nova trama deverá ter uma relação com a trama principal e, idealmente, apresentar-se até como o seu contraponto ou complemento temático.

Por exemplo, em Anna Karenina, temos a trama principal que narra o amor louco entre a protagonista e um jovem oficial, com todas as suas consequências no seu casamento e aceitação social. Além dela, há outras três tramas secundárias, que oferecem diferentes perspectivas sobre o mesmo tema, o amor e o casamento aos olhos da sociedade: a do irmão de Anna, que trai constantemente a mulher, que acaba por aceitar a sua infidelidade; a de um amigo do irmão, que se mantém fiel e dedicado a uma paixão distante, até conseguir conquistá-la; e a do irmão anarquista deste último, que ama e é amado por uma mulher excluída da sociedade.

Incorporar uma nova estória

Uma última possibilidade é criar e incorporar uma outra estória, completamente diferente, entrelaçando-a com a sua estória original, à la Pulp Fiction ou Babel.

A diferença entre esta solução e a anterior é o grau de autonomia das estórias.

As tramas secundárias normalmente estão intimamente relacionadas com os eventos da trama principal, e são por eles condicionadas. Já numa estrutura de estórias entrelaçadas a sua independência será sempre muito maior, podendo ir do parcial ao total.

Pulp Fiction, por exemplo, é uma combinação de três ou quatro estórias diferentes de Roger Avary e Quentin Tarantino, que este último combinou num guião. As estórias originais eram curtas demais para uma longa metragem, mas foi possível combiná-las numa obra única, em que alguns personagens aparecem em diversas situações.

Já em Babel as estórias são praticamente independentes. A ligação entre elas é estabelecida, muito tenuemente, por uma espingarda, mas é essencialmente temática: a solidão.

Também já escrevi sobre este tipo de filmes num dos artigos do Curso, sobre Estruturas Alternativas. Além de ser um modelo narrativo muito popular hoje em dia, pode ser uma excelente forma de alargar o âmbito da sua estória.

Conclusão

Quando o guião está curto, é muitas vezes no 2º ato que esse problema se faz sentir com mais evidência.

O 2º ato é, tradicionalmente, o mais difícil de escrever. É muito frequente um guionista saber exatamente como a sua estória começa e como vai acabar. O problema surge na altura de ligar essa duas partes, no 2º Ato, sem perder o interesse do espectador.

Talvez nenhuma das soluções que apresento seja ideal para o seu guião, mas são seguramente melhores opções do que as duas que indica na sua pergunta: inchá-lo artificialmente, ou abandoná-lo.

Quem sabe, se forem bem utilizadas, até possam servir para dar um novo alento à sua estória e elevá-la para outro patamar.

Nota final: este artigo é uma adaptação e desenvolvimento de uma resposta que dei a um leitor nos comentários a um outro artigo. Serve bem como exemplo do tipo de respostas que pode esperar no Mês das Perguntas.

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Notas de Rodapé

  1. Única exceção a esta regra: ser uma cena realmente fantástica, divertida, nunca antes vista – uma cena extraordinária, que não conseguimos deitar fora de forma alguma. Mesmo assim, se não cumprir pelo menos alguns dos outros requisitos, é provável que não sobreviva até à tela do cinema.[]
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Este Artigo Tem 2 Comentários

  1. José Cícero do Nascimento

    Adorei a apresentação. Eu encontro dificuldades no 2 ato e essas dicas vão me ajudar muito. Obrigado.

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.