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Curso #6: Encontrar a ideia (2)

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Adoro adap­tar roman­ces por­que é uma forma de comu­ni­car com outro escri­tor. De certa forma fica­mos liga­dos à mente de quem escre­veu o ori­gi­nal. E é um pra­zer des­mon­tar o livro e ver como ele foi feito. E depois reinventá-​​lo de uma forma com­ple­ta­mente dife­rente, fazendo outra forma de arte a par­tir da mesma estó­ria.” – Robin Swicord

No artigo ante­rior vimos como o nosso mundo inte­rior e o mundo ao nosso redor são fon­tes ines­go­tá­veis de ideias. Mas há pelo menos mais duas manei­ras dos gui­o­nis­tas arran­ja­rem ins­pi­ra­ção: a tra­di­ção e as adaptações.

A tradição

Uma ter­ceira fonte de ins­pi­ra­ção em que todos os gui­o­nis­tas mer­gu­lham de quando em quando é a tra­di­ção. Enquanto con­ta­do­res de estó­rias, nós somos her­dei­ros de uma longa linha­gem que come­çou com os nos­sos ante­pas­sa­dos que se sen­ta­vam à volta de uma fogueira e dis­far­ça­vam (ou exa­ge­ra­vam) os seus medos com nar­ra­ti­vas orais, e se pro­lon­gou com a des­co­berta da escrita, da imprensa, do cinema.

Mitos e lendas

Édipo. Sísifo. O Mino­tauro. A caixa de Pan­dora. Os mitos anti­gos, as len­das de todas as civi­li­za­ções que pre­ce­de­ram a nossa, os con­tos tra­di­ci­o­nais, as fábu­las, são fon­tes de ideias que pode­mos actu­a­li­zar para os nos­sos dias. O que é “Wall Street” se não a estó­ria de Ícaro adap­tada a um cená­rio contemporâneo?

Além disso, nin­guém nos impede de mis­tu­rar ideias e ins­pi­ra­ções. Muito mais do que inven­tar com­ple­ta­mente a par­tir do zero, o que hoje faze­mos quase sem­pre é lan­çar uma nova luz, um ponto de vista ori­gi­nal, sobre algo que já foi feito antes.

Wall Street ou o mito de Dédalo

Wall Street” é a revi­são do mito de Dédalo

Padrões narrativos

Alguns estu­di­o­sos che­ga­ram mesmo a con­si­de­rar haver um número limite de estó­rias que podem ser con­ta­das, de padrões nar­ra­ti­vos a que todas as estó­rias se resu­mi­riam. É o caso das 36 situ­a­ções dra­má­ti­cas” que o escri­tor fran­cês George Polti pen­sava ter iden­ti­fi­cado (que iam desde a “Súplica” à “Perda dos entes ama­dos”) ou dos “20 enre­dos” de Ronald Tobias (como “A Busca” e “A Decadência”).

Mais inte­res­sante, e bas­tante mais conhe­cida, é a estru­tura nar­ra­tiva que Chris Vogler adap­tou a par­tir dos estu­dos de Joseph Camp­bell, a que se chama nor­mal­mente “A via­gem do Herói”. Para mui­tos gui­o­nis­tas, todas as boas estó­rias podem, de uma ou de outra forma, ser ana­li­sa­das segundo esta estru­tura nar­ra­tiva. Ela irá ser estu­dada com mais deta­lhe num artigo futuro.

Arquétipos

Outra forma de explo­rar a tra­di­ção nar­ra­tiva que her­dá­mos é atra­vés dos per­so­na­gens arque­tí­pi­cos, ou seja, per­so­na­gens com carac­te­rís­ti­cas seme­lhan­tes que apa­re­cem de forma recor­rente em mui­tas estó­rias, len­das e fábulas.

Um exem­plo é o pro­ta­go­nista do já men­ci­o­nado “Wall Street”. Bud Fox, o per­so­na­gem inter­pre­tado por Char­lie Sheen, é um arqué­tipo que cor­res­ponde a todos os jovens ambi­ci­o­sos (como Ícaro) que são atraí­dos pelo sol (neste caso, o fabu­loso Gor­don Gekko de Michael Dou­glas) e aca­bam por que­rer voar mais alto do que as suas asas lhes permitem.

Inú­me­ras estó­rias  podem ser escri­tas à volta deste per­so­na­gem. Expe­ri­mente, por exem­plo, combiná-​​lo com um uni­verso com­ple­ta­mente dife­rente: “E se um jovem ciclista se dei­xasse ten­tar pelo sabor da vitó­ria e acei­tasse a pres­são do seu trei­na­dor para tomar este­rói­des?”. É uma estó­ria com­ple­ta­mente dife­rente, cri­ada a par­tir dos mes­mos ingre­di­en­tes comuns.

Com todas as limi­ta­ções que estas fon­tes de ins­pi­ra­ção têm, conhecê-​​las e revisitá-​​las quando pre­ci­sa­mos de ideias é uma forma garan­tida de esti­mu­lar a inspiração.

Os clássicos

Em milha­res de anos a Huma­ni­dade acu­mu­lou um patri­mó­nio riquís­simo de estó­rias, quer na tra­di­ção oral, quer escrita.

Os gran­des tex­tos reli­gi­o­sos, por exem­plo, estão cheios de epi­só­dios, situ­a­ções, dile­mas morais, con­fl­tos, que podem ser adap­ta­dos aos nos­sos dias e neces­si­da­des. Todos os gran­des temas da natu­reza humana, as nossa fra­que­zas, rea­li­za­ções, misé­rias, gran­de­zas, estão pre­sen­tes na Bíblia, tanto no Velho como no Novo Testamento.

Mas mui­tos outros roman­ces, tex­tos épi­cos, nar­ra­ti­vas, con­tos e poe­mas podem ser­vir como semen­tes para ideias. Quan­tos per­so­na­gens “qui­xo­tes­cos” já encon­trá­mos no cinema, mui­tas vezes até acom­pa­nha­dos pelos seus “san­chos” e “dulcinéias”?

Ler, ler muito, ler sempre

Um gui­o­nista atento encon­tra ins­pi­ra­ção nos clás­si­cos, nas len­das e tra­di­ções, no nosso imenso patri­mó­nio acu­mu­lado. Para isso, tem de o conhe­cer. Por isso é impres­cin­dí­vel ler, ler muito, e de fon­tes muito variadas.

Bio­gra­fias, livros cien­tí­fi­cos, tex­tos filo­só­fi­cos, manu­ais téc­ni­cos, com­pên­dios his­tó­ri­cos – de qual­quer lado pode vir a ideia de que esta­mos à pro­cura. Na bio­gra­fia de um chefe de cozi­nha pode­mos encon­trar a estó­ria de uma grande pai­xão; num livro espe­cu­la­tivo sobre a ori­gem do uni­verso, a ideia para um per­so­na­gem caris­má­tico. Nunca sabe­mos o que nos espera em cada livro que abri­mos, mas só o sabe­re­mos depois de o fazermos.

As cabe­ças dos gui­o­nis­tas, como as de todos os artis­tas, são máqui­nas mis­tu­ra­do­ras de infor­ma­ção, processando-​​a, moendo-​​a,  combinando-​​a, para gerar ideias novas a par­tir de padrões e temas pre­e­xis­ten­tes. Na rea­li­dade, eu acre­dito que há uma espé­cie de mag­ne­tismo incons­ci­ente que nos atrai nas altu­ras cer­tas para os livros e fon­tes de infor­ma­ção de que neces­si­ta­mos. Basta ape­nas estar­mos aten­tos e aber­tos à nossa intuição.

Adaptações

A adap­ta­ção de obras já exis­ten­tes é uma quarta fonte de ins­pi­ra­ção para os gui­o­nis­tas. Hoje em dia, uma boa parte dos guiões pro­du­zi­dos resul­tam pre­ci­sa­mente de adap­ta­ções de obras cri­a­das para outros meios. Esta é uma situ­a­ção que agrada aos pro­du­to­res, por duas razões: uma obra já exis­tente repre­senta uma incóg­nita menor, pois é mais fácil ante­ver­mos o que se pode espe­rar do guião que dela vai resul­tar. Além disso, se essas obras tive­ram sucesso na sua pri­meira forma, pode­mos ter mais espe­rança que a sua adap­ta­ção tam­bém tenha sucesso.

Obvi­a­mente, quando se trata de adap­ta­ções, o gui­o­nista tem de res­pei­tar duas coi­sas: em pri­meiro lugar, ter a cer­teza de que dis­põe dos direi­tos para pro­ce­der a essa adap­ta­ção; em segundo lugar, reco­nhe­cer sem­pre os direi­tos auto­rais do autor da obra ori­gi­nal, seja ele vivo ou não.

Dado que a aqui­si­ção dos direi­tos sobre uma obra pre­e­xis­tente importa geral­mente alguns cus­tos, os guiões adap­ta­dos são nor­mal­mente fei­tos por enco­menda de um pro­du­tor. Mas pode haver excep­ções. Por exem­plo,  se as obras esti­ve­rem no domí­nio público, ou se o gui­o­nista tiver uma rela­ção espe­cial com o autor. Ou, ainda, se o pró­prio gui­o­nista for o autor da obra original.

As adap­ta­ções colo­cam pro­ble­mas muito espe­cí­fi­cos, que serão abor­da­das em arti­gos pos­te­ri­o­res. Mas apro­veito a opor­tu­ni­dade para fazer um pequeno apa­nhado das prin­ci­pais fon­tes ori­gi­nais, e das difi­cul­da­des e opor­tu­ni­da­des que ofe­re­cem aos guionistas.

Contos e romances

Inú­me­ros fil­mes são adap­ta­dos de obras lite­rá­rias de maior ou menor sucesso. “A Selva”, por exem­plo, cujo guião eu escrevi com o gui­o­nista bra­si­leiro Izaías Almada, é adap­tado do romance homó­nimo de Fer­reira de Cas­tro. Um das van­ta­gens das adap­ta­ções lite­rá­rias é que os direi­tos dos roman­ces clás­si­cos já estão mui­tas vezes no domí­nio público.[1]. Temos assim ao alcance das nos­sas mãos um manan­cial de estó­rias mag­ní­fi­cas que nos podem ins­pi­rar para adap­ta­ções mais livres ou mais fiéis.

A grande difi­cul­dade numa adap­ta­ção lite­rá­ria tem a ver com as carac­te­rís­ti­cas pró­prias de cada meio. Os roman­ces mais ricos e inte­res­san­tes têm por vezes uma nar­ra­tiva não-​​linear, com sal­tos tem­po­rais e espa­ci­ais den­tro da mesma página e até do mesmo pará­grafo. Fre­quen­te­mente têm mais do que um pro­ta­go­nista, e enre­dos para­le­los de impor­tân­cia seme­lhante. Além disso, dão uma pre­sença impor­tan­tís­sima à vida inte­rior dos per­so­na­gens, aos seus pen­sa­men­tos, emo­ções, sen­sa­ções, a toda a sua subjectividade.

Ora tudo isto é muito difí­cil de tra­du­zir na lin­gua­gem do cinema, onde o espec­ta­dor só pode conhe­cer o que é pos­sí­vel filmar,ou seja as mani­fes­ta­ções visu­ais e audí­veis da estó­ria: as acções, reac­ções e pala­vras dos per­so­na­gens. Assim, um dos gran­des desa­fios de um gui­o­nista ao fazer uma adap­ta­ção é como mos­trar exter­na­mente todo esse uni­verso inte­rior dos personagens.

Acresce a tudo isto que mui­tos roman­ces têm uma dimen­são tal que a sua adap­ta­ção para um filme de dura­ção nor­mal (90120 minu­tos)  implica gran­des cor­tes em cenas, sec­ções e por vezes enre­dos secun­dá­rios com­ple­tos. É por isso que mui­tas vezes é mais fácil adap­tar para cinema um conto ou uma novela do que um romance – a estó­ria está nor­mal­mente mais focada num pro­ta­go­nista, o enredo é geral­mente mais sim­ples e sequen­cial, e o desa­fio de per­ce­ber os temas e pre­o­cu­pa­ções do autor é um pouco menor.

Teatro

O tea­tro tam­bém pode ser uma exce­lente fonte para adap­ta­ções, mas tem os seus pro­ble­mas pró­prios. Os dra­ma­tur­gos enfren­ta­ram desde sem­pre o pro­blema que referi acima – para mos­trar o uni­verso inte­rior dos seus per­so­na­gens têm de recor­rer ape­nas aos seus com­por­ta­men­tos e palavras.

A dife­rença é que as limi­ta­ções prá­ti­cas do tea­tro, em ter­mos de cená­rios, ampli­tude da estó­ria, número de acto­res, etc., leva nor­mal­mente a que os dra­ma­tur­gos dêm uma impor­tân­cia muito grande à pala­vra, aos diá­lo­gos e monó­lo­gos dos seus per­so­na­gens. É isso que faz, em grande parte, o sucesso de um bom texto tea­tral, e asse­gura o seu fascínio.

Ora o cinema é um meio emi­nen­te­mente visual; a pala­vra é ape­nas mais um dos ins­tru­men­tos que o gui­o­nista tem para con­tar e fazer avan­çar uma estó­ria. Para alguns auto­res mais radi­cais o cinema ver­da­deiro aca­bou com a che­gada dos fil­mes sono­ros. Até aí, e com a excep­ção das legen­das que col­ma­ta­vam as falhas de expo­si­ção, a nar­ra­tiva de um filme tinha de ser con­du­zida por meios exclu­si­va­mente visuais.

A che­gada do som per­mi­tiu que os diá­lo­gos entras­sem no cinema e gerou por vezes uma certa “pre­guiça” na busca de solu­ções nar­ra­ti­vas mais visu­ais (e mais cine­ma­to­grá­fi­cas). O grande desa­fio na adap­ta­ção para cinema de um texto tea­tral, para que não este­ja­mos ape­nas a fazer “tea­tro fil­mado”, é como acrescentar-​​lhe a dimen­são visual que este outro meio exige.

Banda desenhada

Há uma ten­dên­cia actual para adap­tar ban­das dese­nha­das e nove­las grá­fi­cas ao cinema, com solu­ções que vão desde o clas­si­cismo nar­ra­tivo de Homem Ara­nha” ao expe­ri­men­ta­lismo de  “Sin City”.

No meio deste fre­ne­sim de aqui­si­ção dos direi­tos de ban­das dese­nha­das para adap­ta­ção dão-​​se casos curi­o­sos como o do filme de ter­ror “30 days of night”. O seu autor come­çou por pen­sar na estó­ria como um filme mas quando não con­se­guir ven­der a ideia a nenhum pro­du­tor deci­diu transformá-​​la numa novela grá­fica. Esta teve um sucesso enorme e des­per­tou ime­di­a­ta­mente o inte­resse dos mes­mos estú­dios que antes não se tinham inte­res­sado pela estória.

Os dois meios B.D. e cinema pare­cem pois casar muito bem, mas a adap­ta­ção tem os seus desa­fios pró­prios. A liber­dade que  a nar­ra­tiva grá­fica tem de se esten­der no tempo e no espaço,  numa imen­si­dade de décors fan­tás­ti­cos, pode ser  um obs­tá­culo impor­tante. Além disso, mui­tas nove­las grá­fi­cas dão tam­bém grande peso à sub­jec­ti­vi­dade e uni­verso inte­rior dos per­so­na­gens. Tam­bém aqui se colo­cam os mes­mos pro­ble­mas que nas adap­ta­ções literárias.

Jogos de vídeo

Outra ten­dên­cia recente são as adap­ta­ções para cinema de vídeo games. Infe­liz­mente a maior parte delas não pas­sam disso mesmo – adap­ta­ções de jogos de vídeo, com nar­ra­ti­vas sim­plis­tas e per­so­na­gens line­a­res, tenu­e­mente dis­far­ça­das pela riqueza de ambi­en­tes, sequên­cias de acção e efei­tos especiais.

Musicais e músicas

Final­mente, não pode­mos esque­cer a adap­ta­ção de obras musi­cais como ópe­ras, peças de tea­tro musi­cal ou mesmo obras dis­co­grá­fi­cas. É o caso, por exem­plo, de “Hair”, “Chi­cago” ou “Molin Rouge”.

Há cerca de dois anos tra­ba­lhei com o rea­li­za­dor António-​​Pedro Vas­con­ce­los na adap­ta­ção para cinema do disco duplo “Min­gos & Os Samu­rais”, de Rui Veloso e Car­los Tê. Foi um dos guiões que mais gozo me deu escre­ver e tive muita pena quando foi aban­do­nado por ques­tões prá­ti­cas e con­tra­tu­ais. Mas ainda tenho espe­rança de o vir a ver de pé outra vez.

Conclusão

Falta de fon­tes de ins­pi­ra­ção não pode ser des­culpa para não se con­se­guir uma boa ideia cine­ma­to­grá­fica. Elas estão aí, à nossa dis­po­si­ção. Basta saber procurá-​​las e usá-​​las con­ve­ni­en­te­mente, imprimindo-​​lhes a nossa pers­pec­tiva e cunho pes­soal. É disso que pas­sa­re­mos a falar nos pró­xi­mos arti­gos deste Curso de Guião.

Notas de Rodapé

  1. Não era o caso de “A Selva”, cujos direi­tos tive­ram de ser nego­ci­a­dos pelo pro­du­tor[]
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