Curso #21: escrever o 2º ato – parte um

Na estrutura narrativa clássica todas as estórias têm um princípio, um meio e um fim. Esta é a base do que se convencionou chamar o modelo em três atos, de que temos falado abundantemente em artigos anteriores.

No artigo precedente analisámos com algum detalhe os passos e componentes essenciais para a escrita do primeiro ato. Vamos agora fazer o mesmo em relação à etapa seguinte; uma etapa com os seus desafios próprios, em que, mais tarde ou mais cedo, quase todos os guionistas encalham.

Por alguma razão um dos nomes pelos quais o segundo ato é conhecido é “complicação”[1]

O segundo ato carateriza-se, essencialmente, pelo aumento progressivo da tensão dramática, obtido através da escalada constante do conflito.

Como já vimos antes, drama é conflito, e em lado nenhum isso é mais verdade do que nesta fase. Decidido a alcançar um determinado objetivo, o protagonista enfrenta forças antagónicas, obstáculos e complicações cada vez mais sérias, intensificando as nossas dúvidas quanto à sua capacidade de sucesso.

O Mundo Especial

Estes obstáculos e complicações decorrem, muitas vezes, naquilo que se convencionou chamar o Mundo Especial, por oposição ao Mundo Normal onde geralmente conhecemos o protagonista no início da estória.

Esse Mundo Especial pode ser um território físico e geográfico diferente, como as estradas americanas de Little Miss Sunshine, a zona vinhateira de Sideways, ou a Middle Earth d’O Senhor dos Anéis, ou pode ser um território simbólico, emocional ou psicológico, como a entrada na equipa de investigação em O Silêncio dos Inocentes, a realidade de uma adolescente grávida em Juno, ou a decisão de prosseguir com o tratamento da gaguez n’O Discurso do Rei.

É muito comum que a entrada no Mundo Especial – o início da “viagem do herói”- seja marcada por uma espécie de portal, real ou simbólico. Nesses casos essa travessia define normalmente o 1º ponto de viragem da estória, marcando o início do segundo ato.

Por exemplo, em True Grit a protagonista tem de atravessar a cavalo um rio de águas caudalosas, quase sendo arrastada pela corrente; em Little Miss Sunshine a família embarca na carrinha que os vai conduzir durante todo o segundo ato; em Matrix Neo toma a pílula e acorda no mundo real; n’O Fugitivo o dr. Kimble mergulha nas águas da barragem, num “batismo” de que renasce para o segundo ato.

É também frequente que neste portal haja um guardião, um personagem que convida, alerta ou tenta impedir o protagonista.

Em True Grit é o barqueiro, um personagem secundário, que recebe instruções para impedir Mattie de atravessar o rio; Gerrard, o antagonista d’O Fugitivo, desempenha nessa cena a mesma função. Já em Matrix é Morpheus, o mentor de Neo, que tem o papel precisamente oposto – é ele que o convida a fazer a travessia.

Há um terceiro elemento que também se encontra muitas vezes neste tipo de cenas — um  objeto ou símbolo que funciona como chave para abrir o portal.

Em alguns casos é algo óbvio como a pílula que Neo toma, ou o disco gravado que Lionel entrega a Bertie, n’O Discurso do Rei. Mas pode ser mais subtil, como o cão que é entregue a Melvin Udall em Melhor é Impossível, obrigando-o a iniciar a sua viagem de regresso à humanidade.

Finalmente, esta travessia do portal é geralmente uma cena ou sequência de maior nível emocional –  mais grandiosa, com mais ação; mais espetacular, com mais conflito; de maior tensão psicológica, ou mais divertida, dependendo do género do filme.

Em Juno, por exemplo,  é a primeira reunião com o casal de pais adotivos, Mark e Vanessa (com a advogada destes a fazer de guardiã do portal); Já n’ A Ressaca é a cena em que reencontramos os protagonistas no quarto de hotel completamente abandalhado – e com um tigre à solta.

Mattie atravessando o portal

Complicações, tantas complicações…

No segundo ato o protagonista começa a tomar decisões de acordo com um plano, que podemos conhecer ou não. Mas conforme as coisas evoluem e se complicam, e há novas viragens e revelações, ele poderá precisar de rever, ampliar ou trocar de plano. Os obstáculos e as contrariedades, nomeadamente as causadas pelas forças antagónicas, que têm os seus plano próprios, começam a fazer-se sentir em toda a sua dimensão .

Recordo que o mecanismo de progressão dramática depende das escolhas do protagonista. Para cada escolha, e consequente ação, do herói há uma reação oposta das forças antagónicas.

Esta reação normalmente frustra as intenções do protagonista, obrigando-o a tomar novas decisões e empreender novas ações, numa cadeia de eventos que conduz a estória até ao seu desenlace. Este choque permanente entre o plano do protagonista e os planos dos antagonistas é a espinha dorsal do 2º ato.

A estória é tanto mais emocionante quanto mais acentuado seja o movimento centrípeto de aproximação entre o protagonista e os seus antagonistas. Isto é mais fácil de conseguir quando um e outros têm o mesmo objetivo; para um o alcançar o outro tem de falhar. Indiana Jones quer a arca  perdida, tal como os nazis; Jackie Brown quer o dinheiro de Ordell; Mark Zuckerberg quer o controle do Facebook, tal como os irmãos Winklevoss.

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Notas de Rodapé

  1. também o designamos por confrontação, desenvolvimento, antítese, ou simplesmente “o meio da estória”[]
Curso #21: escrever o 2º ato – parte um

Este Artigo Tem 8 Comentários

  1. ola bom dia, olha meu nome é Cristiano moro em lisboa ja a 10 anos e sou apaixonado no cinema, e sempre quis estudar cinema mas aqui encontrei um pouco de dificuldade financeira ja 1 ano e tal que não trabalho, e fico sem condiçoes pra isso, vou embora em maio deste ano e pretendo estudar cinema na minha cidade Goiania….quero, alias se tu puder me dar uma dica, quero fazer uma longa-metragem comédia romantica. ja tem alguma coisa em mente ja fiz minha plataforma que todo realizador faz..a agora é preciso uns acertos mais tecnicos.obrigado mano.

    1. João Nunes

      A dica que dou é que veja o maior número possível de comédias românticas, incluindo todos os clássicos do género, para tentar perceber o que funciona bem. E depois tente arranjar uma maneira nova de contar essa velha estória do “garoto conhece garota, garoto perde garota, garoto recupera garota” (ou vice-versa), abordando por um ângulo que nunca tenha sido explorado. O que, devo confessar, está cada vez mais difícil. Boa sorte em Goiania, e boas escritas.

  2. Infeto

    Caro João Nunes, sentei em frente a este PC do qual o escrevo por volta das 10h (da manhã) e agora às 19:23 (noite) acabei de ler todos os posts referente ao “curso de roteiros”. E tenho muito a lhe agradecer pela disponibilidade, compreensão, dedicação e compartilhamento de tanta informação dessa área. Realmente muito grato e que o tempo seja genoroso contigo e lhe conceda extras para finalizar este curso. Abraços!!! P.S: To fazendo uma lista de dúvidas. Risos!!

    1. João Nunes

      Obrigado. Estou a tentar publicar mais uns artigos em breve. O próximo já está quase terminado. Vamos ver…
      Quanto às dúvidas, venham elas. Cada pergunta interessante que me fazem poupa-me tempo a pensar em temas de novos artigos ;-)

  3. Munira

    Olá, João! Este seu blog é incrível. Não sou roteirista, apenas uma observadora da sétima arte, mas as informações que você passa fazem com que vejamos o cinema com olhos bem críticos. Sempre fiquei intrigada com aqueles filmes que deixam uma impressão estranha, de que terminaram apenas porque a verba acabou e tiveram que encerrar o projeto. Agora tenho muitos elementos com que entender o processo de construção dos filmes. Obrigada e um abraço!

    1. João Nunes

      Ainda bem que o blogue é útil também para os amantes de cinema, mesmo que não escrevam. Neste caso, boas sessões!

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João Nunes

João Nunes é um autor, guionista e storyteller que gosta de ajudar os outros a contar as suas próprias estórias. Divide o seu tempo entre Angola, Brasil e Portugal e já escreveu mais de 3500 páginas de guiões produzidos de curtas e longas metragens, telefilmes e séries de televisão.