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Curso #7: Dar forma à ideia

A questão dramática

Depois de encon­trar a ideia certa para o guião que que­re­mos escre­ver, chega a altura de come­çar a dar-​​lhe forma. Para efei­tos de sim­pli­fi­ca­ção, vamos dei­xar de lado, para já, as for­mas menos con­ven­ci­o­nais de nar­ra­tiva: as estó­rias com múl­ti­plas nar­ra­ti­vas para­le­las, frag­men­ta­das em epi­só­dios, con­ta­das de forma não linear, ou com quais­quer com­bi­na­ções des­tas possibilidades.

Há gran­des fil­mes, obras memo­rá­veis, escri­tas segundo esses mode­los (“Citi­zen Kane”, “Amar­cord”, “Amo­res Per­ros” ou “Crash”, por exem­plo) mas não é sobre eles que, agora, eu me quero debru­çar. Mais tarde, em arti­gos pró­prios, irei abor­dar essas for­mas alternativas.

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O modelo clás­sico não se aplica só a fil­mes de acção como os de Indi­ana Jones.

Vamos concentrar-​​nos, para já, nas estó­rias que com­põem noventa por cento da pro­du­ção de uma indús­tria cine­ma­to­grá­fica desen­vol­vida e está­vel, as nar­ra­ti­vas mais clás­si­cas e tra­di­ci­o­nais. Há mui­tos tipos de estó­rias que encai­xam nesta defi­ni­ção. Mas todas elas, quando são bem con­se­gui­das, têm um ele­mento comum: uma ques­tão dra­má­tica forte.

O que é, então, a ques­tão dra­má­tica? É uma per­gunta implí­cita que o nar­ra­dor coloca ao espec­ta­dor, uma dúvida ou inqui­e­ta­ção que é dei­xada no ar no iní­cio do filme e que deve ser res­pon­dida no fim. A par­tir do momento em que a ques­tão dra­má­tica é apre­sen­tada o nosso objec­tivo enquanto espec­ta­do­res é saber qual a res­posta que essa ques­tão dra­má­tica vai ter. É essa a chave que nos vai man­ter agar­ra­dos à estória.

Obvi­a­mente a ques­tão dra­má­tica varia de filme para filme e está inti­ma­mente rela­ci­o­nada com a estó­ria que que­re­mos con­tar. De certa forma pode­mos dizer que é a coluna ver­te­bral dessa estó­ria. Pode ser mais con­creta ou menos con­creta; pode ser rela­tiva a aspec­tos exter­nos ou inter­nos do per­so­na­gem; pode até mudar a meio do filme, e ser subs­ti­tuída por outra mais impor­tante ou sig­ni­fi­ca­tiva. Pode ter mui­tas for­mu­la­ções: será que o pro­ta­go­nista con­se­gue des­co­brir o tesouro, ou unir a famí­lia, ou recu­pe­rar a honra, ou con­quis­tar o par­ceiro, ou tan­tas, tan­tas outras? O impor­tante é que fique bem clara, e bem cedo.

A ques­tão dra­má­tica não é exclu­siva da escrita para cinema. Está pre­sente em quase todas as for­mas nar­ra­ti­vas dra­má­ti­cas line­a­res. Por outro lado, a exis­tên­cia de uma ques­tão dra­má­tica forte não chega para garan­tir um bom filme. Lembram-​​se do “Arma­ge­deon”? A ques­tão dra­má­tica colo­cada era forte — será que estes tipos con­se­guem sal­var o mundo do aste­róide gigante — mas não foi sufi­ci­ente para sal­var o filme. No entanto, difi­cil­mente um filme sobre­vi­verá à nossa apre­ci­a­ção sem uma ques­tão dra­má­tica forte.

Para que o filme nos satis­faça emo­ci­o­nal­mente não basta que a ques­tão dra­má­tica exista, seja forte e seja apre­sen­tada cedo. É essen­cial que seja res­pon­dida, e bem res­pon­dida, até ao momento em que as luzes da sala se acen­dem. Isso não quer dizer que a res­posta à ques­tão dra­má­tica tenha de ser posi­tiva; tem é de ser clara. O pro­ta­go­nista pode mor­rer sem encon­trar o tesouro, mas nós temos de saber que foi isso que acon­te­ceu para fazer­mos o nosso “luto” com ele.

Um bom filme é um filme em que a neces­si­dade de saber a res­posta à ques­tão dra­má­tica se sobre­põe à neces­si­dade de ir ao fri­go­rí­fico bus­car mais uma cerveja.

O modelo clássico

Como é que se con­se­gue encon­trar uma ques­tão dra­má­tica forte para as nossa estó­rias? Vamos come­çar por ver quais os ele­men­tos neces­sá­rios em qual­quer nar­ra­tiva deste tipo. Robert McKee, no seu livro “Story”, lista as carac­te­rís­ti­cas que defi­nem um deter­mi­nado tipo de estó­rias, a que ele chama o modelo clás­sico:

  • um único protagonista;
  • pro­ta­go­nista mais activo do que passivo;
  • con­fli­tos mais exter­nos do que internos;
  • tempo linear;
  • final fechado.

A defi­ni­ção que ele dá, embora um pouco com­pli­cada, resume bem o tipo de guiões que nós vamos estu­dar nos pró­xi­mos capí­tu­los deste curso.

O MODELO CLÁSSICO sig­ni­fica uma estó­ria cons­truída em redor de um pro­ta­go­nista activo que, numa rea­li­dade fic­ci­o­nal con­tí­nua, con­sis­tente e cau­sal, luta con­tra for­ças anta­gó­ni­cas essen­ci­al­mente exter­nas para alcan­çar um deter­mi­nado objec­tivo, até um final fechado mar­cado por uma trans­for­ma­ção abso­luta e irreversível.

Este modelo clás­sico, que se encon­tra em nar­ra­ti­vas, orais e escri­tas, de todas as épocas e cul­tu­ras, está tão gra­va­dos no nosso sub­cons­ci­ente que qual­quer estó­ria con­tada de acordo com os seus prin­cí­pios é por nós aceite de forma natu­ral e espontânea.

Uma definição mais simples

Vou avan­çar com uma outra defi­ni­ção, um pouco mais concisa:

Numa nar­ra­tiva clás­sica um pro­ta­go­nista activo e inte­res­sante tem um objec­tivo defi­nido e impor­tante mas encon­tra no seu cami­nho obs­tá­cu­los difí­ceis de ultrapassar.

Temos assim três ele­men­tos essenciais:

  • Um pro­ta­go­nista, ou seja, um per­so­na­gem cujas deci­sões, pro­va­ções, difi­cul­da­des, vitó­rias e der­ro­tas, vamos acom­pa­nhar do iní­cio ao fim da estó­ria. É nor­mal­mente uma pes­soa sin­gu­lar (Indi­ana Jones, Juno Mac­Guff, Andy Dufresne), mas em cer­tos casos pode ser um grupo (a famí­lia de “Lit­tle Miss Sunshine”, os sobre­vi­ven­tes do “Posei­don”). O pro­ta­go­nista deve ser inte­res­sante nas suas carac­te­rís­ti­cas e activo nos seus comportamentos.
  • O pro­ta­go­nista deve ter um objec­tivo defi­nido e impor­tante, que quer alcan­çar a qual­quer custo. Deve ser uma meta con­creta, com­pre­en­sí­vel, difí­cil mas ao alcance das capa­ci­da­des do pro­ta­go­nista. E devem ficar cla­ras quais as con­sequên­cias — gra­ves — que ocor­re­rão se ele não con­se­guir alcan­çar essa meta.
  • Final­mente, no cami­nho do pro­ta­go­nista devem perfilar-​​se e suceder-​​se obs­tá­cu­los que tor­nem difí­cil alcan­çar o seu objec­tivo. Esses obs­tá­cu­los assu­mem várias for­mas: for­ças anta­gó­ni­cas; difi­cul­da­des mate­ri­ais; limi­ta­ções do pro­ta­go­nista; dile­mas morais, etc. Podem ser exter­nos ou inter­nos, mas é impor­tante que se vão reve­lando pro­gres­si­va­mente mais com­pli­ca­dos e difí­ceis de ultrapassar.

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Andy Dufresne, um pro­ta­go­nista activo… mas só o sabe­mos no final do filme.

Em suma: quanto mais inte­res­sante for o nosso pro­ta­go­nista; quanto mais rele­vante for o seu objec­tivo; quanto mais sádi­cos for­mos na quan­ti­dade e peso dos obs­tá­cu­los que arran­jar­mos; mais forte será a ques­tão dra­má­tica do nosso filme e mais emo­ci­o­nal­mente satis­fa­tó­ria será a sua resposta.

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Acerca de João Nunes

João Nunes é um autor, guionista, publicitário e diretor português residente em Manaus, Brasil. Conta com mais de 3000 páginas de guiões produzidas sob a forma de longas metragens, telefilmes, e dezenas de episódios de séries de televisão.

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3 Comentários

  1. Helena Jacinto
    Publicado 24/10/2008 às 14:35 | Link

    Achei deli­ci­oso.
    Obri­gada. Sus­ten­tei assim uma peque­nina for­ma­ção para jovens de 12 anos enten­de­rem a estru­tura de “A Prenda de Natal do Hen­ri­que Sem­pres­pera” que irão apre­sen­tar às famí­lias. É impor­tante saber como e por­que se faz e não fazer só por­que sim.
    Mais uma vez, obrigada.

  2. Publicado 29/08/2009 às 3:37 | Link

    Pelo título do post eu achei que vc tra­ta­ria sobre pre­missa e idéia domi­nante :/​
    Fora isso eu gos­tei muito do con­teúdo, sua defi­ni­ção de Modelo Clás­sico é exce­lente e eu pre­tendo segui-​​la sem­pre que eu pre­ci­sar pas­sar adi­ante esse conhecimento.

    Bri­ga­dão tio Nunes! ;)

  3. Richardson Luz
    Publicado 21/07/2010 às 23:36 | Link

    Até então eu pen­sava numa his­tó­ria sem­pre do ponto de vista de fatos que vão ocor­rendo em sequên­cia e cul­mi­nam num final agra­dá­vel ou não. De agora em diante vou pen­sar mais no pro­ta­go­nista e sua rela­ção com a his­tó­ria. Obrigado.

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