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Curso #10: O enredo

 

Vimos ante­ri­or­mente que no cen­tro de uma boa his­tó­ria há sem­pre um pro­ta­go­nista com um objec­tivo claro e impor­tante, que encon­tra diver­sos obs­tá­cu­los para o alcan­çar. Uma dúvida fica assim a pai­rar, desde cedo: será que o pro­ta­go­nista vai alcan­çar o seu objec­tivo? É essa ques­tão dra­má­tica fun­da­men­tal que prende os espec­ta­do­res aos seus lugares.

Vimos tam­bém que essa ques­tão dra­má­tica, por muito atrac­tiva que seja, não é sufi­ci­ente. Um filme é uma suces­são de sur­pre­sas e con­fli­tos, que vão colo­cando novas ques­tões dra­má­ti­cas meno­res. Todas essas ques­tões se resu­mem, afi­nal, a uma só: o que vai acon­te­cer a seguir?

As ques­tões, sur­pre­sas e con­fli­tos que com­põem uma his­tó­ria, vão sendo apre­sen­ta­das atra­vés de diver­sos acon­te­ci­men­tos, enca­de­a­dos entre si. A sequên­cia des­ses acon­te­ci­men­tos é o enredo. Selec­ci­o­nar e orga­ni­zar esses  acon­te­ci­men­tos de uma forma eco­nó­mica e atrac­tiva é uma das prin­ci­pais tare­fas do guionista.

Cada acontecimento deve ser indispensável

Uma his­tó­ria de fic­ção não é uma sequên­cia amorfa de acon­te­ci­men­tos. O autor tem de fazer esco­lhas, esta­be­le­cer pri­o­ri­da­des e selec­ci­o­nar os acon­te­ci­men­tos, situ­a­ções e acções que fazem a his­tó­ria avan­çar — são os mar­cos, os degraus, os elos da corrente.

Jorge Luis Bor­ges refe­riu algu­res que pode­ría­mos escre­ver duas bio­gra­fias dife­ren­tes da mesma pes­soa selec­ci­o­nando momen­tos dife­ren­tes da sua vida. Hit­ch­cock, por sua vez, disse que o cinema é a vida sem as par­tes cha­tas. Igual­mente, defi­nir um enredo é essen­ci­al­mente uma ques­tão de esco­lher quais são as cenas neces­sá­rias e sufi­ci­en­tes para con­tar de forma satis­fa­tó­ria a nossa história.

Cada acontecimento implica uma transformação

O cri­té­rio que nor­mal­mente usa­mos para selec­ci­o­nar os acon­te­ci­men­tos que vão figu­rar no enredo é a influên­cia que eles têm no per­curso do nosso pro­ta­go­nista. Sem­pre que uma cena começa o pro­ta­go­nista encontra-​​se numa deter­mi­nada situ­a­ção. Os acon­te­ci­men­tos dessa cena (que podem ser ape­nas um, ou vários) vão alte­rar essa situ­a­ção ori­gi­nal, de uma forma posi­tiva ou nega­tiva. Cada acon­te­ci­mento implica uma trans­for­ma­ção. Se numa deter­mi­nada cena não se veri­fica qual­quer trans­for­ma­ção, posi­tiva ou nega­tiva, então é pro­vá­vel que essa cena esteja a mais no guião.

Por exem­plo,  no iní­cio da  cena o nosso pro­ta­go­nista está a dirigir-​​se ao seu objec­tivo. Encon­tra um abismo no cami­nho. Esse abismo — esse acon­te­ci­mento — é um obs­tá­culo, que afecta de forma nega­tiva o seu per­curso. Ele pro­cura uma alter­na­tiva e encon­tra uma ponte sus­pensa. Novo acon­te­ci­mento, mas desta vez afecta-​​o de forma posi­tiva — já pode atra­ves­sar. A ponte, con­tudo, é frá­gil e, a meio do cami­nho, quebra-​​se, deixando-​​o pen­du­rado, sus­penso sobre o vazio. Trans­for­ma­ção nega­tiva… e assim por diante.

Outro exem­plo: um per­so­na­gem dirige-​​se a casa do seu inte­resse amo­roso, para final­mente se decla­rar. Não encon­tra nin­guém em casa — uma trans­for­ma­ção nega­tiva, que lhe estraga os pla­nos. Mas um vizi­nho diz que viu a dona da casa sair com a raqueta de ténis — uma trans­for­ma­ção posi­tiva, por­que o pro­ta­go­nista já sabe a onde ir. O pro­ta­go­nista dirige-​​se ao campo de ténis, ani­mado. Mas quando lá chega vê a sua pai­xão nos bra­ços de um ins­tru­tor de ténis, que lhe explica um movi­mento com grande inti­mi­dade física. Trans­for­ma­ção nega­tiva… o que é que vai acon­te­cer a seguir?

Como vimos nes­tes dois exem­plos (por muito frou­xos que sejam) há por vezes  uma alter­nân­cia entre as trans­for­ma­ções posi­ti­vas e as nega­ti­vas. Outras vezes, adi­ci­o­na­mos difi­cul­da­des em cima de difi­cul­da­des ao nosso pro­ta­go­nista (pen­du­rado no vazio, é ata­cado por aves de rapina…), ou deci­di­mos dar-​​lhe duas ou três benes­ses de seguida (o ins­tru­tor de ténis é casado, a mulher apa­rece, e ele tem um ata­que car­díaco…). Seja como for, a lógica deve ser a mesma — se o acon­te­ci­mento tem um efeito, posi­tivo ou nega­tivo, no per­curso do pro­ta­go­nista, é um can­di­dato natu­ral a figu­rar no enredo.

Cada acontecimento força uma escolha

Outra das con­sequên­cias desta lógica implí­cita é que os acon­te­ci­men­tos que nós selec­ci­o­na­mos para o enredo, ao cau­sar trans­for­ma­ções posi­ti­vas ou nega­ti­vas na situ­a­ção dos per­so­na­gens, forçam-​​nos a fazer esco­lhas. Face ao abismo, o que faz o nosso pro­ta­go­nista? Tenta cons­truir uma ponte? Salta à vara? Pro­cura uma alter­na­tiva? Desiste? Face à casa vazia, pega-​​lhe fogo? Senta-​​se e fica à espera? Deixa um recado na porta? Pro­cura um vizi­nho para obter infor­ma­ções? Estas esco­lhas, as deci­sões que um per­so­na­gem toma, são uma das prin­ci­pais fer­ra­men­tas para defi­nir a sua personalidade.

Quanto mais dra­má­tico, mais radi­cal, for o acon­te­ci­mento, mais séria é a esco­lha e mais impor­tan­tes as suas con­sequên­cias para a his­tó­ria. O ideal é os per­so­na­gens não serem colo­ca­dos ape­nas perante esco­lhas, mas sim face a dile­mas. Como Meryl Streep, nesse sen­sa­ci­o­nal melo­drama que é “A Esco­lha de Sofia

Robert McKee, no livro fun­da­men­tal “Story”, dá um exem­plo bri­lhante: dois per­so­na­gens são con­fron­ta­dos com uma car­ri­nha esco­lar a arder. O que fazem? Fin­gem não ver? Páram e tele­fo­nam para os bom­bei­ros? Ten­tam sal­var os ocu­pan­tes?  Mas a situ­a­ção pode ser mais com­pli­cada — um des­ses per­so­na­gens é um imi­grante ile­gal, e o outro um neuro-​​cirurgião. Para o pri­meiro, ser envol­vido numa situ­a­ção des­tas pode sig­ni­fi­car ser des­co­berto e expulso do país; para o outro quei­mar as mãos pode impli­car o fim da car­reira. E agora, o que fazem? As suas esco­lhas, nesta situ­a­ção limite, vão revelar-​​nos quem eles são realmente.

Cada acontecimento determina os acontecimentos seguintes

Ao tomar uma deter­mi­nada deci­são face a um acon­te­ci­mento que afec­tou posi­tiva ou nega­ti­va­mente o seu per­curso, um per­so­na­gem toma um  rumo dife­rente do que toma­ria se fizesse outra esco­lha. Se o  per­so­na­gem de um dos nos­sos exem­plos resol­vesse dei­xar um recado na porta em vez de ir falar com um vizi­nho, a his­tó­ria segui­ria por outro rumo. Os acon­te­ci­men­tos seguin­tes teriam de ser neces­sa­ri­a­mente dife­ren­tes, com con­sequên­cias e impli­ca­ções dife­ren­tes. Cada acon­te­ci­mento implica, assim, uma bifur­ca­ção na his­tó­ria, com o pro­ta­go­nista a esco­lher qual o rumo (físico ou emo­ci­o­nal) que vai seguir.

Thelma & Louise” é um filme par­ti­cu­lar­mente bri­lhante neste aspecto. Cada cena é a con­sequên­cia natu­ral das cenas ante­ri­o­res, den­tro da lógica pró­pria des­tes per­so­na­gens e uni­verso, numa sequên­cia per­feita que con­duz ine­xo­ra­vel­mente até à con­clu­são do filme. Num filme com um enredo tão coeso e sólido como este é fácil per­ce­ber como, em cada momento, são as esco­lhas dos per­so­na­gens que defi­nem as cenas.

Sli­ding doors” é um filme de 1998, escrito e rea­li­zado por Peter Howitt, que ilus­tra este aspecto de forma lite­ral. No iní­cio do filme conhe­ce­mos Hel­len (Gwi­neth Pal­trow), uma exe­cu­tiva lon­drina com uma rela­ção pro­ble­má­tica com um escri­tor. Num deter­mi­nado momento ela é colo­cada perante uma situ­a­ção que, con­forme a sua esco­lha, pode ter duas con­sequên­cias dis­tin­tas: apa­nhar ou per­der o metro­po­li­tano. A par­tir daí acom­pa­nha­mos em para­lelo as duas his­tó­rias, com­ple­ta­mente dife­ren­tes, que resul­tam dessa bifur­ca­ção na sua vida. O curi­oso é que o final acaba por ser o mesmo em ambas as his­tó­rias, como se o seu des­tino esti­vesse pre­de­ter­mi­nado; mas as duas sequên­cias de acon­te­ci­men­tos — os dois enre­dos — são com­ple­ta­mente diferentes.

O enredo é, pois, a suces­são natu­ral e lógica dos acon­te­ci­men­tos neces­sá­rios e sufi­ci­en­tes para con­tar a nossa his­tó­ria,  selec­ci­o­na­dos por­que cau­sam trans­for­ma­ções posi­ti­vas e nega­ti­vas no per­curso dos per­so­na­gens e os obri­gam a fazer esco­lhas que defi­nem as suas personalidades.

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3 Comentários

  1. Richardson Luz
    Publicado 22/07/2010 às 10:40 | Link

    Li esta aula às 6h da manhã e vejo que posso me tor­nar um gui­o­nista muito melhor (se é que eu já era um deles) Foi a grande lição deste dia. Na ver­dade eu gosto de escre­ver his­tó­rias, de transformá-​​las em guião e depois, de pre­fe­rên­cia, filmá-​​las. Obri­gado, João.

  2. Hugo Gonçalves
    Publicado 31/10/2010 às 22:20 | Link

    João o meu guião tem bas­tante dia­logo, mas não cos­tumo dar mto enfase aos por­me­no­res dos luga­res, ou como as per­so­na­gens estão ves­ti­das, pre­firo dar essa liber­dade ao rea­li­za­dor, o que per­gunto é o seguinte, o guião fica assim mais pobre, ou menos profissional?

    Cum­pri­men­tos

    • João Nunes
      Publicado 01/11/2010 às 17:33 | Link

      Caro Hugo,
      a fron­teira entre des­cri­ção a mais e des­cri­ção a menos não é fácil de defi­nir. Varia de autor para autor, de guião para guião, de cena para cena até. Mas é muito impor­tante acer­tar na dose certa. Des­cri­ção de mais torna o guião chato e difí­cil de ler, e entra efec­ti­va­mente na esfera de tra­ba­lho de outros pro­fis­si­o­nais (não só o rea­li­za­dor como o direc­tor de arte, guarda-​​roupa, etc). Mas des­cri­ção a menos, por outro lado, pode tor­nar difí­cil visu­a­li­zar os ambi­en­tes, o uni­verso da nossa estó­ria, os per­so­na­gens.
      O melhor con­se­lho que lhe posso dar é que leia mui­tos guiões, o maior número pos­sí­vel. Eu estou sem­pre a ler guiões novos, de fil­mes pro­du­zi­dos e outros que ainda não o foram. A inter­net é uma fonte ines­go­tá­vel de guiões, prin­ci­pal­mente para quem saiba um pouco de inglês. Se não sou­ber, tam­bém se arran­jam guiões em por­tu­guês, de Por­tu­gal ou do Bra­sil, e em espa­nhol.
      Lendo guiões e vendo como outros auto­res vão resol­vendo essa ques­tão ajuda-​​nos a encon­trar a conta, peso e medida para as des­cri­ções nos nos­sos pró­prios guiões.

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