“Nunca devemos colocar uma arma carregada no palco se ela não vier a ser disparada. É errado fazer promessas que não tencionamos cumprir.” Tchekhov, em carta a Lazarev

Esta frase muito citada do escritor e dramaturgo russo Tchekhov aparece nas suas cartas em diferentes formas, mas sempre com a mesma mensagem implícita: toda a informação que transmitimos aos nossos espectadores cria expectativas que vão influenciar a forma como estes apreendem a estória.

É esta necessidade de interpretar e dar sentido a eventos isolados que nos permite usar uma das ferramentas mais importantes na escrita dramática: o semear e colher ou, como é mais frequentemente conhecido, setup e payoff.

O que é o Setup e Payoff

No início do filme Aliens vemos a protagonista, Ripley, a usar um exoesqueleto mecânico no seu trabalho. Mais tarde, voltamos a ver o engenho a ser usado na descarga de equipamentos na base espacial. Mas só no clímax do filme, quando ela usa o exoesqueleto como arma de combate contra a rainha alien (enquanto grita a memorável frase “Afasta-te dela, cabra!”), é que damos o devido valor às aparições iniciais do aparelho.

Estas três cenas são um exemplo perfeito da utilização dessa formidável ferramenta que é o setup e payoff: uma técnica dramática que consiste em introduzir na narrativa, de forma natural e discreta, determinados elementos que mais tarde se revelam de grande importância.

O que define um bom Setup e Payoff

Na sua forma mais simples, para que um determinado evento da narrativa seja um bom setup, precisamos de três fatores:

  1. Deve conter algum tipo de informação – uma frase, um objeto, uma acção, etc. – que dará impacto e significado adicional a um evento futuro na narrativa.
  2. Deve ser suficientemente marcante para que seja recordado quando esse evento futuro acontecer.
  3. Mas deve ser também suficientemente discreto para não ser imediatamente reconhecido como um setup, o que implica estar inserido de forma discreta e natural na cena em que é apresentado.

Da mesma forma, um bom payoff caracteriza-se também por três fatores:

  1. O seu significado só deve ser completamente entendido quando associado ao setup. Se for igualmente significativo sem essa associação, não é na realidade um payoff.
  2. Deve ser surpreendente mas, ao mesmo tempo, parecer lógico e até inevitável.
  3. Deve proporcionar uma recompensa emocional muito satisfatória ao público, no momento em que este estabelece a conexão setup=>payoff.

É também muito frequente que, além da apresentação inicial do setup, possa haver um momento de recall, ou recordação, antes do payoff. É o que acontece no exemplo acima citado do filme Aliens.

Como usar o Setup e Payoff

O segredo de um bom par setup/payoff está em encontrar o equilíbrio certo na apresentação dos setups, de forma a que sejam suficientemente memoráveis para ser recordados no momento do payoff, mas não tanto que se tornem óbvios.

A melhor forma de o conseguir é fazer com que o setup seja apresentado de uma forma natural e com um objetivo imediato e lógico. A cena em que ele é mostrado deve ser auto-justificativa, com uma boa razão para existir.

Por exemplo, em Os Condenados de Shawshank, o director da prisão devolve a Andy a sua Bíblia, lembrando-lhe que “a salvação está ali dentro”, o que está perfeitamente de acordo com a sua personalidade. No fim, quando Andy lhe deixa essa Bíblia, descobrimos que a usou para esconder o pequeno martelinho com que abriu o buraco na parede que, efetivamente, lhe deu “a salvação”.

Em Arma Mortífera 2, numa luta na garagem de Murtaugh, é usada uma pistola de pregos para eliminar um adversário. Esse payoff só é bem aceite porque, numa cena anterior na garagem, os dois polícias se assustaram quando um operário usou essa mesma pistola de pregos enquanto trabalha – um setup disfarçado numa cena de humor.

Muitas vezes, é vantajoso acrescentar mais um momento intermédio de recordação entre o setup e o payoff. É o caso do exemplo de Aliens, que apresentei mais acima. Este segundo setup deve ser feito ainda com mais cautela, sob o risco de tornar demasiado evidente a intenção.

A inserção discreta e natural dos setups normalmente consegue-se trabalhando de trás para diante, com um bom planeamento.

Se soubermos desde o início quais os payoffs que queremos criar, podemos encontrar com mais facilidade as melhores situações para colocar os respectivos setups durante o processo de escrita.

No entanto, se isto torna mais fácil saber onde incluir os setups, não os torna mais fáceis de escrever. Muitas coisas que passam despercebidas quando vistas na tela, podem ser demasiado óbvias quando escritas na página. E o ideal é conseguir escrevê-las de uma forma que surpreendam os leitores do guião, e não apenas os espectadores do filme.

Exemplos de setups e payoffs

Não há praticamente um bom guião que não use esta ferramenta de uma forma ou de outra. Depois de a entendermos bem, começamos a encontrar exemplos em todo o lado, e a apreciar melhor a engenhosidade dos guionistas.

Vejamos alguns exemplos além dos que já analisámos:

  • No início de Os Salteadores da Arca Perdida descobrimos que Indiana Jones tem pânico de cobras. Mais tarde, numa cena crucial, são precisamente as cobras – e muitas – que se colocam entre o herói e o seu objetivo no momento.
  • O Sexto Sentido tem um dos mais surpreendentes payoffs de que há memória, na revelação final de que Malcolm está morto e é um dos fantasma que Cole consegue ver. O génio do argumentista M. Night Shyamalan foi esconder não um, ou dois setups, mas uma meia dúzia deles ao longo de todo o filme.

  • Em Little Miss Sunshine sabemos desde o início que a jovem Olive está a ensaiar em segredo o seu número de dança, com a ajuda do avô. É-nos mostrado também que o avô é uma pessoa muito pouco convencional. No final esses dois setups culminam num divertido payoff com o inesperado número de cabaret de Olive.
  • No início de The Shinning o protagonista Jack ouve a estória do que aconteceu ao seu antecessor no cargo. No final é isso que lhe acontece também a ele.
  • A morte do tubarão no final de Jaws é outro grande payoff, pois a possibilidade das garrafas de ar explodirem é apresentada numa cena anterior, que mostra a falta de habilidade do xerife Brody a lidar com elas.

Termino com um exemplo prático de setup/payoff que qualquer guionista apreciará particularmente. Encontra-se em duas cenas do guião Adaptation de Charlie Kaufman e Donald Kaufman (supostamente adaptado do livro The Orchid Thief de Susan Orlean).

Neste guião (uma obra cheia de referências e jogos “meta”), o protagonista é o próprio Charlie Kaufman, interpretado por Nicholas Cage, um guionista cheio de ambição que não quer “vender a alma” a Hollywood mas tem de lidar com o irmão gémeo Donald, que não tem esses escrúpulos.

O setup em causa vem na página 6 do guião, numa cena em que Charlie apresenta a Valerie o seu ponto de vista para a adaptação do livro The Orchid Thief.

O respectivo payoff é nada mais nada menos do que o Clímax do filme.

Nota: as cenas não estão completas, e a tradução é da minha responsabilidade.

Setup

INT. RESTAURANTE DE NEGÓCIOS EM L.A. – MEIO DO DIA

(...)

Num único movimento, Kaufman limpa a testa e retira um livro intitulado The Orchid Thief da sua bolsa.

KAUFMAN

Em primeiro lugar, penso que é um grande livro.

VALERIE

O Laroche é um personagem engraçado, não é?

Kaufman acena afirmativamente, e vai passando páginas, retardando. Há uma foto sorridente da autora Susan Orlean no verso da contracapa.

KAUFMAN

E Orlean consegue tornar as orquídeas fascinantes. As suas reflexões sobre a Florida, o roubo de orquídeas. Índios. Grandes temas do New Yorker. Gostava de me manter fiel a isso, deixar o filme existir sem ser guiado artificialmente pelo enredo.

VALERIE

OK, muito bem, muito bem. Acho que não sei o que isso quer dizer exatamente.

KAUFMAN

Oh. Bem... Também não sei exatamente. Então... sabes, é...

VALERIE

Oh. OK. Muito bem. Então, hmmm, o que --

KAUFMAN

É só que, não gostaria de comprometer, tornando-o um produto de Hollywood. Um filme de assalto de orquídeas. Ou transformar as orquídeas em papoilas e fazer um filme sobre tráfico de droga. Percebes?

VALERIE

Oh, claro. Concordo. Absolutamente.

KAUFMAN

Ou enfiar sexo, ou corridas de carros, ou armas. Ou personagens que aprendem lições de vida profundas. Ou personagens que crescem ou personagens que se transformam ou personagens que aprendem a gostar uns dos outros ou personagens que ultrapassam obstáculos para vencer no final. Percebes? Essas merdas dos filmes.

(...)

Payoff

INT. CARRO – DE SEGUIDA

Kaufman e Donald aceleram ao longo da estrada do pântano.

KAUFMAN

Por amor de Deus, porque é que não fizeste nada quando estávamos no carro?

DONALD

As costas travaram. Não me consegui mexer.

A carrinha de Laroche aproxima-se e bate-lhes por trás.

KAUFMAN

Merda!

-- (mais adiante...) --

Kaufman coxeia através da água escura. Laroche e Orlean seguem os sons do seu chapinhar.

ORLEAN

A água parece tão brilhante. Como jóias de limão plásticas saltando em trampolins prateados! Não achas?

LAROCHE

Querida, por favor.

ORLEAN

Podemos foder agora, querido? Foder como limões?

-- (mais adiante ainda...) --

ORLEAN

Não te posso deixar ir, bucha. Não te posso deixar tornar isto público.

Kaufman continua a andar.

ORLEAN

Estás a ouvir-me? Seu gordo, careca, patético... Tu nem sabes escrever! Tu nem és... Não saias daqui!

(gritando, chorando)

Preciso de uma dose! É tudo tão feio!

Orlean grita de angústia. Kaufman continua a andar. Orlean, trémula, aponta a arma às suas costas. Dispara. Kaufman cai, levanta-se, continua a andar. Ela aponta de novo pelo meio das lágrimas. De repente, é derrubada por uma figura sangrenta e encharcada. Kaufman vira-se.

KAUFMAN

Donald!

Kaufman coxeia de volta. Donald e Orlean rebolam-se no chão.

DONALD

O meu irmão não é gordo. Não é careca. O meu irmão é um grande escritor! Estava a tentar fazer alguma coisa de importante!

A arma dispara. Orlean tomba sobre Donald. Kaufman chega até eles. Tanto Donald como Orlean estão mortos. Kaufman cai de joelhos.

E assim termina o filme… com um payoff cheio de perseguições de carros, sexo, armas e personagens que se reconciliam, exatamente o que o protagonista/autor tinha repudiado no setup.

Conclusão

Se quer levar o seu guião até ao próximo nível, o “setup e payoff” é uma das mais importantes e eficazes ferramentas que estão à sua disposição. Não deixe de a usar.

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