Como ultrapassar o bloqueio do escritor.

Se se interessa por escrita, é provável que já tenha ouvido falar no “bloqueio do escritor”. É uma das pragas que, aparentemente, atormentam a vida dos autores, em todas as épocas, géneros e estilos.

No entanto é preciso sublinhar que muitos escritores e guionistas não acreditam na sua existência. Por exemplo, Terry Pratchett afirma que “Não existe essa coisa do bloqueio do escritor. Isso foi inventado por pessoas na Califórnia que não sabem escrever.”

E o famoso Stephen King é ainda mais incisivo: “Os amadores sentam-se e esperam por inspiração. Os restantes de nós apenas se levantam e vão trabalhar.”

Charles Bukowski até dá um conselho prático: “Escrever acerca do bloqueio do escritor é melhor do que não escrever nada.”

Mas a realidade é que, chamemos-lhe o que lhe chamarmos, todos nós, num momento ou noutro, nos sentimos perdidos e impotentes face a uma página em branco. “Bloqueio do escritor” é um nome tão bom como qualquer outro para essa situação.

A diferença é que alguns escritores, de uma forma intencional ou inconsciente, desenvolvem estratégias para lidar com esse fenómeno universal. Conhecê-las deve fazer parte da nossa caixa de ferramentas.

O que é o bloqueio do escritor

O bloqueio do escritor é a situação em que um autor não consegue avançar com um processo de escrita em curso, ou começar a escrever alguma coisa nova.

Quem se lembra do filme Barton Fink, com o seu protagonista sentado miseravelmente em frente à máquina de escrever, incapaz de avançar no guião de um filme de luta livre que um produtor de Hollywood lhe encomendou, sabe do que falo.

O bloqueio do escritor pode ter sintomas moderados – por exemplo, dificuldade em escrever um diálogo – ou mais graves – incapacidade absoluta de escrever seja o que for.

Isto não deve ser confundido com a simples procrastinação. Esta pode ser um sintoma do bloqueio do escritor, ou até uma causa, se prolongada por muito tempo.

Mas a procrastinação pode também ser apenas uma forma natural de deixar o nosso inconsciente trabalhar e, nesse caso, revelar-se até como o remédio para o bloqueio.

As causas do bloqueio do escritor

Os psicólogos Jerome Singer e Michael V. Barrios desenvolveram um estudo nos anos 70 em que acompanharam um grupo de escritores “bloqueados” durante vários meses.

No decurso do estudo identificaram nos participantes quatro grupos de emoções dominantes: Ansiedade e Stress; Raiva e Irritação; Hostilidade e Desapontamento; e Apatia.

A Ansiedade e o Stress estavam geralmente associadas ao perfeccionismo, auto-crítica e medo de falhar.

A Raiva e Irritação pareciam estar ligadas à crítica externa e à aversão a ser comparados com outros escritores.

Já a Hostilidade e Desapontamento pareciam ter raiz no desejo, não correspondido, de receber atenção e admiração externas.

Por fim, a Apatia parecia nascer da falta de motivação e desinteresse, face à escrita em geral ou a um projeto em particular.

Em suma, todas estas emoções negativas retiravam aos escritores analisados o prazer que antes tinham sentido no ato de escrever e, como tal, impediam-nos de criar.

O bom senso diz-nos que isto está basicamente correcto. A dúvida e a auto-crítica, o medo das opiniões alheias, e a falta de motivação são, efectivamente, algumas das principais causas para um escritor se sentir incapaz de continuar a escrever.

Tipos de bloqueio do escritor

O bloqueio do escritor pode manifestar-se de muitas formas, mas destaco quatro que me parecem mais frequentes.

Falta de uma ideia

Às vezes a dificuldade está no arranque de um novo projecto, quando procuramos uma ideia que nos motive o suficiente para começar a escrever.

Nenhuma ideia nos parece digna do nosso empenho ou, depois de começarmos, rapidamente nos desilude.
Este problema é muito sentido por autores que vão escrever uma segunda obra, especialmente se a primeira teve algum sucesso.

Dificuldade em prosseguir

Por vezes começamos a escrever e tudo parece estar a ir bem. Mas, num determinado momento, esbarramos numa dificuldade que não conseguimos ultrapassar.
Pode ter a ver com a solução de determinada cena, o desenvolvimento de um personagem, ou encontrar a linguagem certa.

Dúvidas

Em certos momentos podemos desenvolver dúvidas paralisantes em relação ao que já escrevemos, que nos impedem de continuar.

Receamos ter tomado opções erradas em algum momento, e tememos estar a perder tempo se continuarmos a escrever.
Ficamos então presos numa espécie de buraco negro, sem coragem para avançar nem estímulo para voltar atrás.

Falta de ligação emocional

Pode também acontecer deixarmos de sentir ligação emocional à estória que estamos a contar. Nessa situação, é fácil questionar a necessidade, e até a razoabilidade, de continuar a escrever.

Pior ainda, pode nunca ter havido uma verdadeira ligação emocional, e termos começado a escrever por outros motivos.
Isto acontece, por vezes, em trabalhos de encomenda, tornando difícil manter o rumo depois de passado o entusiasmo inicial com o projeto.

Soluções para o bloqueio do escritor

Raymond Chandler, o famoso escritor americano, que também escreveu argumentos para Hollywood, dava um conselho simples: “Em caso de dúvida sobre como terminar um capítulo, faça entrar um homem com uma arma.”

Provavelmente era apenas uma piada, mas a verdade é que há formas práticas e reais de lidar com o bloqueio do escritor.

Foto de Toa Heftiba em Unsplash

Estratégias relacionadas com a escrita

Muitas vezes o bloqueio do escritor resolve-se voltando um passo atrás, à fase da pré-escrita. Um bom planeamento da nossa estória, com uma escaleta ou tratamento bem pensados, é uma ferramenta que nos ajuda a avançar sem perder o fio à meada.

Para quem não gosta de planear previamente uma estória (como os escritores Stephen King ou Neil Gaiman, por exemplo), isso pode ser substituído por um regresso ao protagonista. Pensar porque queremos contar a sua estória, o que nele nos fascina, o que tem de único e que ainda não descobrimos, pode ser o suficiente para pôr o mecanismo de novo em marcha.

Deitar fora o nosso perfeccionismo é outra forma de ultrapassar um bloqueio prolongado. As nossas estórias não são escritas em pedra, por isso não há que ter medo de errar.

É melhor escrever uma versão má ou básica de uma cena do que não escrever nada. Mais tarde teremos sempre tempo para voltar a ela e, com uma nova perspectiva, encontrar formas mais interessantes, originais e verdadeiras de a escrever.

Há também a possibilidade – especialmente para quem planeia antes a estória – de escrever as cenas ou capítulos fora de ordem. Se uma determinada situação nos está a travar, nada nos impede de escrever outra cena mais fácil ou que seja mais motivante no momento. Programas de escrita como o Scrivener ajudam muito nesse sentido.

Se mesmo assim, feito tudo isto, ainda for muito difícil escrever a nossa estória, a solução pode passar por escrever outra coisa qualquer. Por exemplo, podemos escrever pequenas peças relacionadas com o universo da nossa estória ou dos nossos personagens, mas que não se destinem a entrar directamente na obra.

Porque não entrevistar a família e os amigos do nosso protagonista, para descobrir novas formas de olhar para ele? Ou escrever a cena que nos atrapalha, mas vista pelos olhos de uma mosca, ou de um bebé, ou de um objeto?

Porque não escrever a versão mais estúpida, louca ou radical dessa cena? Porque não mudar-lhe o género, escrevendo uma comédia como terror, ou um drama como ficção científica?

Todos estes exercícios, aparentemente inúteis, têm como objectivo aquecer os músculos mentais da escrita, pondo-os novamente em movimento. Muitas vezes deslizamos daí, naturalmente, para a escrita real, sem quase nos apercebermos. E ainda há a possibilidade de, no meio dessas brincadeiras, encontrarmos alguma pérola inesperada, genuína e original, para acrescentar à nossa obra.

Finalmente, se nada disto funcionar, pode ser útil e proveitoso colocar o projeto de lado durante algum tempo e dedicarmo-nos a escrever outra coisa completamente diferente.

No universo das empresas tecnológicas fazem-se por vezes “sprints”, que são projectos curtos, estimulantes e intensivos, autónomos ou inseridos em projetos maiores.

Fazer um sprint de escrita pode ser uma boa forma de ultrapassar o bloqueio do escritor: basta colocar o nosso guião ou romance de lado, durante uma semana, e escrever um conto, uma curta-metragem (ou até a primeiro versão de outro guião).

O escritor inglês Graham Greene, por exemplo, conseguiu ultrapassar um longo período de bloqueio quando começou a manter um diário sobre os seus sonhos nocturnos.

Uma vez mais, o importante é fintar os mecanismos interiores que nos estão a bloquear a capacidade de escrever, distraindo-os com outras formas de escrita.

Foto de Anupam Mahapatra em Unsplash

Estratégias físicas

Muitas vezes a solução para um problema de bloqueio é ainda mais simples, e passa por actividades físicas.

Mudar de ambiente, indo escrever noutro local que não o habitual, pode ser o suficiente para desbloquear a nossa escrita. Às vezes basta até fazer uma pausa no trabalho e ir a um local público, observar outras pessoas, ouvir as suas vozes, ver a vida a acontecer.

Mudar a forma como escrevemos – passar a escrever à mão se normalmente usamos o computador, ou usar um programa de escrita diferente – também dá resultados em alguns casos.

O movimento físico também é uma forma de combater o bloqueio do escritor. É possível que isso se deva à sua capacidade de combater as emoções negativas que, segundo o estudo mencionado acima, parecem estar relacionadas com o bloqueio.

Fazer exercício num ginásio, correr ou caminhar, praticar atividades como o pilates, yoga ou tai chi, surgem como formas de afastar as preocupações do nosso palco principal, e dar tempo ao nosso inconsciente para trabalhar na solução dos problemas.

A meditação parece também ter efeitos muito positivos na criatividade, nomeadamente porque ajuda a entender e controlar muitas das referidas emoções. O argumentista e realizador David Lynch é um dos mais veementes defensores da meditação como ferramenta para explorar as águas mais profundas do nosso inconsciente e tirar de lá as ideias mais ricas e originais.

A água parece ter também um papel muito positivo no combate ao bloqueio criativo. Quem nunca teve uma ideia original ou um momento de inspiração durante o duche?

Tomar um banho, nadar algumas piscinas ou simplesmente dar um mergulho em água fria, como Tony Robins recomenda, pode ser o suficiente para nos desbloquear completamente.

Interromper a escrita para dedicar tempo a outra actividade criativa, como desenhar, pintar, cantar ou tocar um instrumento, ajuda muitas vezes a quebrar as barreiras da nossa imaginação. Às vezes basta até dançar um pouco, ou brincar com uma criança, para pôr a imaginação a trabalhar de novo.

Finalmente, como o escritor Neil Gaiman sugere, nada é mais estimulante para a criatividade do que o aborrecimento.

Ficarmos sem quaisquer estímulos externos, durante um tempo considerável,é um elixir mágico para a criatividade, porque leva a nossa mente a vaguear e sonhar. É por isso que tenho no meu telemóvel um ecrã com a frase “Be alone with your own thoughts” (“Fica só com os teus pensamentos”).

E se nada disto funcionar?

Se tiver tentado todas estas estratégias para ultrapassar o bloqueio de escritor, sem sucesso, é provavelmente sinal de que alguma coisa está profundamente errada, seja na sua vida, atitude ou no projeto que escolheu desenvolver.

Nesse caso, não é em artigos na internet que vai encontrar a solução para o problema. Provavelmente irá precisar de muita introspecção, honestidade e, quem sabe, até de ajuda externa.

Pode até chegar à conclusão de que a vida de escritor não é para si. Nesse caso, quanto mais cedo o descobrir, mais tempo terá para encontrar outra actividade ou escape para o seu impulso criativo.

Para terminar, deixo aqui uma tirinha de uma das minhas BDs favoritas: Calvin e Hobbes. Quem diria que o bloqueio de escritor poderia ser explicado tão facilmente?

Calvin & Hobbes por Bill Watterson

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