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Curso #3: O que é um guião (2)

Um exemplo prático

Como vimos antes, um guião repre­senta mui­tas coi­sas dife­ren­tes, para mui­tas pes­soas. Agora está na hora de ver­mos na prá­tica o que essas pes­soas vão encon­trar nas suas páginas.

Para isso, o melhor é dar um exem­plo de uma cena reti­rada de um guião real, que foi escrito, finan­ci­ado, pro­du­zido e mos­trado ao público. Fui bus­car esta cena à ver­são final do guião do filme “A Selva“[1], de 2003. Pode ver a for­ma­ta­ção ori­gi­nal bai­xando o guião A Selva (2975), em for­mato .pdf.

EXT. RUA DO ARMAZÉM – DIA

ALBERTOFIRMINO, no exte­rior do arma­zém, preparam-​​se para entrar na mata. Ajei­tam os ape­tre­chos às cos­tas. O guarda-​​livros e gerente da pro­pri­e­dade, GUERREIRO, sai do arma­zém. É um homem de 50 anos, magro e um pouco encur­vado, ves­tido com sobriedade.

Vem acom­pa­nhado por D. Yáyá, 35 anos, a sua mulher. É a mesma que Alberto viu na janela da casa grande e a sua beleza é real­mente admirável.

Alberto olha para D. Yáyá. A mulher tam­bém repara nele. Com o seu fato, gra­vata e sapa­tos de ver­niz, o por­tu­guês destaca-​​se no meio dos res­tan­tes trabalhadores.

 

FIRMINO

Tenha cui­dado, moço. Aqui todas as mulhe­res têm dono.

 

Alberto con­ti­nua a acom­pa­nhar a senhora com o olhar.

 

FIRMINO

Esse aí é o sr. Guer­reiro, o gerente aqui do serin­gal. A mulher é Dona Yáyá.

 

ALBERTO

E uma bela mulher, por sinal.

 

FIRMINO

É sim, mas não é para o nosso bico…

(come­çando a andar)

Vamos andando que a cami­nhada é longa.

 

Alberto, que tem um SACO DE SERAPILHEIRA às cos­tas, e a MALA DE COURO numa das mãos, encara a tri­lha à sua frente: um cami­nho cujo começo mal se per­cebe, ras­gando uma selva impo­nente, imensa, peri­gosa. Os dois homens ini­ciam a cami­nhada em direc­ção ao acampamento.

CORTA PARA:

Este exem­plo ilus­tra bem o que pode­mos encon­trar nas pági­nas de um guião. Em ter­mos da sua situ­a­ção na his­tó­ria, é uma cena que, de certa forma, marca o final do 1º acto do filme[2].

Para situ­ar­mos a cena no con­texto da his­tó­ria, basta saber que Alberto é um jovem monár­quico refu­gi­ado no Bra­sil depois da ins­tau­ra­ção da Repú­blica em Por­tu­gal. De Belém, onde vivia à conta de um tio, viaja até um serin­gal no meio da Ama­zó­nia. Aí des­co­bre à sua espera a labuta difí­cil e peri­gosa dos ope­rá­rios da bor­ra­cha – os serin­guei­ros. Antes de ini­ciar o tra­jecto na selva até ao acam­pa­mento onde vai tra­ba­lhar com o seu novo com­pa­nheiro Fir­mino Alberto cruza olha­res com D. Yáyá, uma linda mulher com quem mais tarde terá um caso amoroso.

Os componentes do guião

A cena esco­lhida para este exem­plo, que no guião tem o número 39, cons­ti­tui uma pequena uni­dade de acção dra­má­tica inde­pen­dente, no tempo e local em que decorre, das cenas ime­di­a­ta­mente ante­ri­o­res e pos­te­ri­o­res. Tal como as outras cenas, está orga­ni­zada segundo uma deter­mi­nada lógica e con­tém alguns ele­men­tos carac­te­rís­ti­cos da escrita de guiões, for­ma­ta­dos de uma maneira pró­pria[3].

O cabeçalho

Em pri­meiro lugar tem um cabe­ça­lho pró­prio, que indica tratar-​​se de uma cena de exte­rior – EXT. -, que decorre num deter­mi­nado local – RUA DO ARMAZÉM – e que se passa numa certa altura – DIA. Estas indi­ca­ções aju­dam o lei­tor da his­tó­ria a ir com­pre­en­dendo os seus suces­si­vos pas­sos e, sobre­tudo, são essen­ci­ais para quem vai orça­men­tar e pla­ni­fi­car a pro­du­ção do filme.

A descrição

Ao cabe­ça­lho segue-​​se sem­pre uma des­cri­ção da situ­a­ção e das acções dos per­so­na­gens envol­vi­dos na cena. Esta pode ocu­par um ou vários pará­gra­fos e deve ser o mais clara pos­sí­vel, mas tam­bém envol­vente e evo­ca­tiva: …um cami­nho cujo começo mal se per­cebe, ras­gando uma selva impo­nente, imensa, perigosa.

Estas des­cri­ções têm de limitar-​​se ao que é pos­sí­vel ver ou ouvir. Deve­mos evi­tar todas as intros­pec­ções que ten­tem expli­car o que vai na cabeça dos per­so­na­gens. Esse recurso à intros­pec­ção, que faz a riqueza da lite­ra­tura, só pode ser usado em cinema recor­rendo à V.O. ou a outros tru­ques do género. Essas téc­ni­cas por vezes fun­ci­o­nam, mas nor­mal­mente são ape­nas mule­tas para um guião coxo que não nos con­se­gue fazer enten­der os per­so­na­gens de outra forma.

Os personagens

Num guião os per­so­na­gens são defi­ni­dos pelo que fazem e dizem, não pelo que pen­sam, ima­gi­nam, sonham ou temem. Assim, como regra geral, deve­mos limitar-​​nos a des­cre­ver ape­nas aquilo que pode ser gra­vado e fil­mado. Quando um per­so­na­gem apa­rece pela pri­meira vez no guião, é impor­tante ser acom­pa­nhado de uma breve des­cri­ção das suas carac­te­rís­ti­cas: O guarda-​​livros e gerente da pro­pri­e­dade, GUERREIRO, sai do arma­zém. É um homem de 50 anos, magro e um pouco encur­vado, ves­tido com sobriedade.

Além disso, sem­pre que um per­so­na­gem é intro­du­zido pela pri­meira vez no guião, o seu nome deve tam­bém ser escrito em maiús­cu­las[4]: ALBERTOFIRMINO, no exte­rior do arma­zém… Final­mente, o nome do per­so­na­gem que fala apa­rece sem­pre des­ta­cado antes das suas falas, de forma a iden­ti­fi­car sem engano quem diz o quê.

Os diálogos

Além da des­cri­ção das acções e acon­te­ci­men­tos de uma cena, é fun­da­men­tal escre­ver os diá­lo­gos dos per­so­na­gens que nela inter­vêem. Como se pode ver no exem­plo, isso faz-​​se des­ta­cando o nome do per­so­na­gem num pará­grafo à parte, mais recu­ado e em maiús­cu­las, seguido por um bloco de texto com a sua fala. Os diá­lo­gos podem suceder-​​se, inter­ca­lando um per­so­na­gem com outro, ou podem ser inter­rom­pi­dos por novos pará­gra­fos de des­cri­ção da acção, quando assim se justifique.

Parênteses

A fala de um per­so­na­gem tam­bém pode ser ante­ce­dida por ou inter­ca­lada com comen­tá­rios entre parên­te­ses: por exem­plo, (come­çando a andar). Estes, con­tudo, devem ser usa­dos com mode­ra­ção, e só quando não haja outra maneira de pas­sar a mesma informação.

As transições

As tran­si­ções são ins­tru­ções escri­tas no fim da cena, onde se indica a forma de pas­sar para a cena seguinte. Por exem­plo, CORTA PARA:, DISSOLVE ou FADE OUT. Hoje em dia é nor­mal o gui­o­nista não se pre­o­cu­par com a indi­ca­ção das tran­si­ções, a não ser que queira suge­rir um deter­mi­nado efeito de mon­ta­gem. Mesmo nesse caso, a deci­são final sobre a tran­si­ção a usar será sem­pre da res­pon­sa­bi­li­dade do rea­li­za­dor e do edi­tor do filme. No caso con­creto desta cena, eu acres­cen­tei a tran­si­ção ape­nas para efei­tos do exem­plo, por­que no guião ori­gi­nal ela nem sequer está lá[5].

Outras indicações

Olhando para o exem­plo apre­sen­tado, pode­mos ver que algu­mas pala­vras apa­re­cem em maiús­cu­las: SACO DE SERAPILHEIRAMALA DE COURO. São indi­ca­ções des­ti­na­das a cha­mar a aten­ção do lei­tor (e dos téc­ni­cos da equipa de pro­du­ção) para algum ele­mento con­si­de­rado espe­ci­al­mente impor­tante. É o caso, por exem­plo, de ade­re­ços espe­ci­ais, como aqui, e tam­bém de sons, efei­tos espe­ci­ais, veí­cu­los de cena, etc. Uma vez mais, é um recurso para usar com mode­ra­ção – se tudo for impor­tante, tudo deixa de o ser.

Pode­mos tam­bém ver que nesta cena não há nenhuma indi­ca­ção téc­nica de rea­li­za­ção. Os gui­o­nis­tas prin­ci­pi­an­tes cos­tu­mam pecar por encher as suas des­cri­ções com tra­vel­lings, pano­râ­mi­cas, close ups e outros ter­mos téc­ni­cos. Mas hoje considera-​​se des­ne­ces­sá­rio dar indi­ca­ções con­cre­tas sobre movi­men­tos de câmara, efei­tos de len­tes, etc. Além des­sas opções serem da res­pon­sa­bi­li­dade do rea­li­za­dor e do direc­tor de foto­gra­fia, a sua inclu­são no guião torna-​​o mais com­pli­cado e abor­re­cido de ler. Con­tudo, há manei­ras do gui­o­nista influ­en­ciar a rea­li­za­ção do filme sem o dar a enten­der. Vamos vê-​​las em arti­gos futu­ros dedi­ca­dos à s téc­ni­cas de escrita.

Se qui­ser um modelo do word que lhe per­mite for­ma­tar cor­rec­ta­mente os seus guiões, pode usar um tem­plate que eu criei. Contacte-​​me aqui e terei todo o gosto em enviá-​​lo para si.  (Actu­a­li­za­ção: Terei todo o pra­zer em con­ti­nuar a enviar o modelo de guião que criei, mas sugiro que em vez disso expe­ri­men­tem o soft­ware CeltX. É gra­tuito, está dis­po­ní­vel para Mac, PC e Unix, tem mui­tas mais pos­si­bi­li­da­des e per­mite expor­tar para for­mato com­pa­tí­vel com o Word.)

Agora que já temos uma ideia um pouco mais con­creta do que é um guião/​argumento/​roteiro, pode­mos pas­sar a ana­li­sar o pro­cesso da sua cri­a­ção. E tudo começa com uma ideia, como pode­re­mos ver no pró­ximo artigo. Mas, antes disso, sugiro-​​lhe um pequeno exercício.

Exercício

Numa boa livra­ria, na inter­net ou atra­vés dos seus con­tac­tos na nossa pequena indús­tria do cinema, arranje o guião de um filme que tenha sido pro­du­zido. Leia-​​o tomando em aten­ção os aspec­tos acima des­cri­tos. Se con­se­guir arran­jar o DVD desse filme, ainda melhor. Tente iden­ti­fi­car as cenas do guião com as do filme, e ver as diferenças.

Notas de Rodapé

  1. A Selva” – guião de Izaías Almada e João Nunes, adap­tado da obra homó­nina de Fer­reira de Cas­tro. Pro­du­ção de Paulo Trancoso/​Costa do Cas­telo Fil­mes. Rea­li­za­ção de Leo­nel Vieira. Está edi­tado em DVD.[]
  2. mais à frente, num artigo sobre Estru­tura, vere­mos o que é esta coisa dos actos[]
  3. Para a for­ma­ta­ção dos exem­plos estou a usar CSS adap­tado do que é usado no exce­lente site do gui­o­nista ame­ri­cano John August.[]
  4. Há quem pre­fira capi­ta­li­zar os nomes ape­nas da pri­meira vez que apa­re­cem no guião, e quem o faça quando apa­re­cem em cada cena. Eu era adepto da segunda opção, mas nos guiões mais recen­tes mudei para a pri­meira.[]
  5. Há outra razão para evi­tar as tran­si­ções – rou­bam muito espaço. Num guião muito extenso, com mui­tas cenas (como era o caso deste) poupam-​​se algu­mas pági­nas se não se colo­ca­rem essas indi­ca­ções. O filme não fica mais curto, mas parece.[]